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S. Bernardo

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S. Bernardo

Capítulo 10 · S. Bernardo

Capítulo X

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Aqui nos dias santos surgem viagens, doenças e outros pretextos para o trabalhador gazear. O domingo é perdido, o sabbado também se perde, por causa da feira, a semana tem apenas cinco dias, que a Igreja ainda reduz. O resultado é a paga encolher e essa cambada viver com a barriga tinindo.

Num feriado de mentira, não tendo podido encontrar gente para tirar baronezas do açude e brocar um pedaço de capoeira, distrahi-me ouvindo Padilha e Casimiro Lopes conversarem a respeito de onças.

Não se entendem. Padilha, homem da mata e franzino, fala muito e admira as acções violentas; Casimiro Lopes é coxo e tem um vocabulario mesquinho. Julga o mestre-escola uma criatura superior, porque usa livros, mas para manifestar esta opinião arregala os olhos e dá um pequeno assobio. Gagueja. No sertão passava horas calado, e quando estava satisfeito, aboiava. Quanto a palavras, meia duzia dellas. Ultimamente, ou vindo pessoas da cidade, tinha decorado alguns termos, que empregava fóra de proposito e deturpados. Naquelle dia, por mais que forcejasse, só conseguia dizer que as onças são bichos brabos e arteiros.

— Pintada. Dentão grande, pézão grande, cada unha! Medonha!

Padilha exigia que o outro repetisse a descripção e ia intercalando nella, por conta propria, caracteres novos. Casimiro Lopes divergia; mas, confiado na sciencia de Padilha, capitulava — e ao cabo de minutos a onça estava um animal como nunca se viu.

— Oh Casimiro, você vai levar um papel ao vigario.

E escrevi a padre Silvestre agradecendo o interesse que elle tinha tomado pela viagem difficil de Margarida. Chegara dias antes e estava alojada numa casinha cercada de bananeiras.

Entreguei a carta a Casimiro Lopes, tomei o chapeo e fui fazer a minha segunda visita á preta. Desci a ladeira. Ao atravessar o paredão do açude, amedrontei uma nuvem de marrecas e jaçanãs. Com as ultimas chuvas a represa augmentara muito, os bancos de baroneza estavam com vontade de entupir o sangradouro. A levada que ia ter ao descaroçador e á serraria transbordava. Fechada a serraria, fechado o descaroçador. Dia perdido. Encontrei Margarida sentada numa esteira, riscando os tijolos com carvões.

— Mãe Margarida, como vai a senhora?

Tentou endireitar o espinhaço emperrado e, antes de lançar-me os olhos brancos, reconheceu-me pela voz.

— Aqui gemendo e chorando, meu filho, cheia de peccados.

Peccados! Antigamente era uma santa. E agora, miudinha, encolhidinha, com pouco movimento e pouco pensamento, que peccados poderia ter? Como estava com a vista curta, falou sem levantar a cabeça, repetindo os conselhos que me dava quando eu era menino. Uma fraqueza apertou-me o coração, approximei-me, sentei-me na esteira, junto della.

— Mãe Margarida, procurei a senhora muito tempo. Nunca me esqueci. Foi uma felicidade encontral-a. E carecendo de alguma coisa, é dizer. Mande buscar o que for necessario, mãe Margarida, não se acanhe.

Olhou com espanto as cadeiras, a mesinha, a lampada electrica, os moveis do quarto proximo.

— Para que tanto luxo? Guarde os seus troços, que podem servir. Em cama não me deito. E quem dá o que tem a pedir vem.

— Não faz mal, mãe Margarida. Esteja socegada, durma socegada. Faltando lenha para o fogo, avise. Não deixe o fogo apagar-se, que as noites estão frias.

— É o que eu preciso, o fogo. O fogo e um pote.

Continuou a riscar figuras no chão. Curvada, um rosario de contas brancas e azues apparecia pelo cabeção aberto e batia-lhe nas pellancas dos peitos.

— Queria também um tacho. O outro furtaram.

Lembrei-me do tacho velho que era o centro da pequenina casa onde viviamos. Mexi-me em redor delle varios annos, lavei-o, tirei-lhe com areia e cinza as manchas de azinhavre — e delle recebi sustento. Margarida utilizou-o durante quasi toda a vida. Ou foi elle que a utilizou. Agora, decrepita, não podia ser doceira, e aquelle traste se tornava inteiramente desnecessario.

— Está bem, mãe Margarida, terá um tacho igual ao outro.

S. Bernardo

Sinopse

Leia gratuitamente S. Bernardo, de Graciliano Ramos, romance fundamental do modernismo brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir da transcrição pública do Wikisource/Galeria e cotejada com os fac-símiles BBM/USP de 1934 e 1947, organizada em 36 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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