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S. Bernardo

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S. Bernardo

Capítulo 22 · S. Bernardo

Capítulo XXII

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D. Glória gostava de conversar com seu Ribeiro. Eram conversas intermináveis, em dois tons: ele falava alto e olhava de frente, ela cochichava e olhava para os lados. Quando me via, calava-se. Compreendo perfeitamente essas mudanças. Fui trabalhador alugado e sei que de ordinário a gente miúda emprega as horas de folga depreciando os que são mais graúdos. Ora, as horas de folga de d. Glória eram quase todas. Dormia, almoçava, jantava, ceava, lia romances à sombra das laranjeiras e atenazava Maria das Dores, que endoidecia com a colaboração dela. Queixava-se de tudo: dos ratos, dos sapos, das cobras, da escuridão. Afetava na minha presença uma atitude de vítima. Não se cansava de gabar a cidade, fora de propósito. Passava parte dos dias no escritório. Seu Ribeiro tratava-a por excelentíssima senhora (Madalena era apenas excelentíssima). Julguei perceber, por certas palavras, gestos e silêncios, que ela ia ali deplorar a sorte da sobrinha. Estava sempre ao pé da carteira, amolando. Madalena batia no teclado da máquina. Seu Ribeiro escrevia com lentidão trêmula, às vezes se aperreava procurando a régua, a borracha, o frasco de cola, que se ausentavam, porque d. Glória tinha o mau costume de mexer nos objetos e não os pôr nunca onde os encontrava. Eu me danava com essa desordem, fechava a cara, dava ordens secas rapidamente e saía para não estourar. Enfim desabafei. Num dia quatro o balancete do mês passado não estava pronto. — Por que foi esse atraso, seu Ribeiro? Doença? O velho esfregou as suíças, angustiado: — Não senhor. É que há uma diferença nas somas. Desde ontem procuro fazer a conferência, mas não posso. — Por quê, seu Ribeiro? E ele calado. — Está bem. Ponha um cartaz ali na porta proibindo a entrada às pessoas que não tiverem negócio. Aqui trabalha-se. Um cartaz com letras bem grandes. Todas as pessoas, ouviu? Sem exceção.

— Isso é comigo? disse d. Glória esticando-se. — Prepare logo o cartaz, seu Ribeiro. — Perguntei se era comigo, tornou d. Glória diminuindo um pouco. — Ora, minha senhora, é com toda a gente. Se eu digo que não há exceção, não há exceção. — Vim falar com minha sobrinha, balbuciou d. Glória reduzindo-se ao seu volume ordinário. — Sua sobrinha, enquanto estiver nesta sala, não recebe visitas, é um empregado como os outros. — Eu não sabia. Pensei que não interrompesse. — Pensou mal. Ninguém pode escrever, calcular e conversar ao mesmo tempo. D. Glória saiu descrevendo um ângulo reto: esgueirou-se da carteira até a parede e, beirando-a, alcançou a porta, que se abriu e fechou silenciosamente. Sentei-me e comecei a confrontar o diário com o razão. Seu Ribeiro aproximou-se para auxiliar-me. — Obrigado. Seu Ribeiro aprontou, com o canivete e a régua, um quadrado de papelão. Madalena levantou-se, cobriu a máquina, trouxe-me as cartas, esperou que eu terminasse a leitura delas e retirou-se. Assinei as cartas e meti-as nos envelopes. — Que é que d. Glória vem fuxicar aqui, seu Ribeiro? — Nada de importância, respondeu o guarda-livros. A senhora d. Glória é um coração de ouro e versa diferentes temas com proficiência, mas eu, para ser franco, não a tenho escutado com a devida atenção. Achei ridículo interrogar aquele homem grave sobre os mexericos de d. Glória. — Excelente senhora, afirmava seu Ribeiro pautando a lápis o quadrado de papelão. — Mais ou menos. Levantei-me: — Cuidado com os intrusos. — Perfeitamente, respondeu seu Ribeiro. No salão encontrei Madalena caída no sofá, acabrunhada. Enxugou os olhos à pressa: — Por que foi aquela brutalidade?

Madalena estava prenhe, e eu pegava nela como em louça fina. Ultimamente dizia-me coisas desagradáveis, que eu fingia não compreender. Via a barriga crescer-lhe. Uma compensação. Sentei-me e, para não desgostá-la: — Foi realmente brutalidade. Brutalidade necessária, mas enfim brutalidade. É uma peste recorrer a isso. — E para que recorre? chasqueou Madalena. — Já você começa. Esses modos não, tenha paciência. Detesto picuinhas. Comigo é trás zás, nó cego. Subterfúgios não. — Quem é que está com subterfúgios? Foi uma brutalidade. — Necessária. — Desnecessária. Vê-se bem que você não gosta de minha tia. — Eu? Nem gosto nem desgosto. Pensei que ela quisesse alguma ocupação. A propósito, é bom você deixar a máquina. Aquilo é ruim para a barriga. Não se sente mal? — Não. — Em todo o caso uns meses antes e uns meses depois do parto tem férias. — Obrigada. — Como ia dizendo, julguei que sua tia quisesse trabalhar. Até uma vez dei a ela uns conselhos, no trem. Espinhou-se. Vive aí com as mãos abanando, lendo bobagens. Não lhe quero mal por isso. Agora o que não acho direito é empatar o serviço dos outros. — Escute, Paulo, soluçou Madalena. Está enganado. Não tem razão, garanto que não tem razão. Minha tia é uma criatura digna. — Efetivamente, ela tem uma espécie de dignidade, às vezes, mas a dignidade nela dura pouco. Madalena prosseguiu: — Não conheço ninguém que trabalhe mais que d. Glória. — Ora essa! bradei com um espanto que me levantou do sofá. — Vai sair? Pensando bem, creio que não foi o espanto que me levantou. Provavelmente foi o costume que eu tinha de me dirigir ao campo todos os dias pela manhã. É verdade que o meu espírito estava completamente afastado da lavoura, mas d. Glória e Madalena já me haviam retardado quase uma hora, e o movimento que fiz correspondia a uma necessidade

que se tornou clara quando me pus em pé. — Vamos? Madalena acompanhou-me e em caminho falou desta forma: — Você, pelo que me disse, principiou a vida muito pobre. — Sei lá como principiei! Quando dei por mim, era guia de cego. Depois vendi as cocadas da velha Margarida. Já lhe contei. — Já. Lutou muito. Mas acredite que d. Glória tem desenvolvido mais atividade que você. — Estou esperando. Que fez ela? — Tomou conta de mim, sustentou-me e educou-me. — Só? — Acha pouco? É porque você não sabe o esforço que isso custou. Maior que o seu para obter S. Bernardo. E o que é certo é que d. Glória não me troca por S. Bernardo. Vaidade. Professorinhas de primeiras letras a escola normal fabricava às dúzias. Uma propriedade como S. Bernardo era diferente. — Não há comparação. — Morávamos em casa de jogador de espada, disse Madalena. Havia duas cadeiras. Se chegava visita, d. Glória sentava-se num caixão de querosene. A saleta de jantar era o meu gabinete de estudo. A mesa tinha uma perna quebrada e encostava-se à parede. Trabalhei ali muitos anos. À noite baixava a luz do candeeiro, por economia. D. Glória ia para a cozinha resmungar, chorar, lastimar-se. O hábito que ela tem de cochichar e caminhar nas pontas dos pés vem desse tempo. Dormíamos as duas numa cama estreita. Se eu adoecia, d. Glória passava a noite sentada; quando não aguentava o sono, deitava-se no chão. Madalena calou-se. Impressionado com aquela pobreza, exclamei: — Diabo! Vocês comeram uma cachorra insossa. Quem não adoecia era d. Glória, continuou Madalena. Eu saía para a escola e ela punha o xale, ia cavar a vida. Tinha muitas profissões. Conhecia padres — e fazia flores, punha em ordem alfabética os assentamentos de batizados, enfeitava altares. Conhecia desembargadores — e copiava os acórdãos do tribunal. À noite vendia bilhetes no Floriano. E como o padeiro nosso vizinho era analfabeto, escriturava as contas dele num caderno de balcão. Está claro que, dedicando-se a tantas ocupações miúdas, era mal paga.

— Deve compreender... murmurei vagamente, olhando os dorsos vermelhos das novilhas mergulhadas no capim-gordura. Madalena interrompeu-me: — E nos exames ainda tinha tempo de cabalar os examinadores, Deus e o mundo para eu não ser reprovada. D. Glória é incansável. O que ela não pode é dedicar-se a um trabalho continuado: consome-se em trabalhos incompletos. É por isso a inquietação em que vive. Aqui não há os bilhetes do cinema, os acórdãos do tribunal, os assentamentos de batizados, o caderno de contas do padeiro. D. Glória vê máquinas e homens que funcionam como as máquinas. Entretanto, d. Glória procura ser útil: vai à igreja, põe flores nos altares e limpa os vidros das imagens na sacristia; tenta cozinhar e não se entende com Maria das Dores; oferece-se para ajudar seu Ribeiro; já experimentou escrever em máquina. Um caminhão rodou em direção à serraria; vinham da mata pancadas secas de machado; carros de bois chiavam para os lados de Bom-Sucesso. — Como tenho dito, não concordo com esse esbanjamento de energia. A gente deve habituar-se a fazer uma coisa só. — D. Glória nada ganharia se se aperfeiçoasse em vender bilhetes no cinema ou escrever os batizados: a paga seria sempre insignificante. — Por que não se empregou em ofício mais rendoso? — Difícil. Demais é necessário haver quem venda os bilhetes e copie os acórdãos. Calei-me — e não senti nenhuma simpatia à pobre da d. Glória. Continuei a julgá-la uma velha bisbilhoteira e de mãos lastimáveis, que deitavam a perder o que pegavam. Aquelas ocupações espalhadas aborreciam-me. Levantei os ombros. E, para não descontentar Madalena: — Pode ser que você tenha razão. Eu discordo. Mas enfim cada qual tem lá o seu modo de matar pulgas.

S. Bernardo

Sinopse

Leia gratuitamente S. Bernardo, de Graciliano Ramos, romance fundamental do modernismo brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir da transcrição pública do Wikisource/Galeria e cotejada com os fac-símiles BBM/USP de 1934 e 1947, organizada em 36 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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