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Capítulo 1 · Arruar

Arruar - Parte I

Quem dirá hoje da perfeita expressão jubilosa dos gulosos olhos de mulher que se viam, através da móvel moldura do postigo de uma cadeirinha de arruar, fugindo à clausura do lar, a percorrer as ruas da cidade, na indisfarçável cobiça de saber das suas novidades? Cadeirinha de arruar tão bonita, tão maneira, tão fôfa, invejada pelas vizinhas que a espreitavam, fingindo desdém, pelas frestas do balcão. Assim valia a pena ir-se assistir ao sermão do Corpo Santo, ouvir a missa cantada no Poço, visitar a comadre de resguardo, andar mesmo à toa pelos pátios cheios das barraquinhas de uma novena de Nossa Senhora, quando não ouvir o oratório na Casa da ópera... Não se cansavam as pernas e dava-se tanto na vista! Cadeirinha de arruar, misto de recato e de ostentação. Um pouco de mistério e um muito de vaidade. E tão raras a princípio! Não era para quem queria e sim para quem podia. Distinguiam-se na cidade os seus donos, falava-se das transitadoras pela Boa Vista, por Santo Antônio, por Fora-de-Portas. As senhoras de relêvo social, moradoras dos sobrados de azulejos, por cima dos trapiches ou das lojas dos maridos, ou já nos sítios de casas apalacetadas dos arrabaldes, possuíam as suas, com ornatos de talha, com estofos de gorgorão, com portinholas desenhadas, conduzidas por escravos em parelhas de igual altura, negros bonitões e robustos, trajando librés de côres berrantes e bonés de oleado que o jornal anunciava como "novidade de Paris". Apareciam novos modelos: de cúpula dourada, com portinhas em alto-relêvo, grades, correias de marroquim, e o que se tornou um auge de bom gôsto: providas de vidros. Vidraças! Que luxo! Não se temia mais a poeira das varreduras nem os chuviscos imprevistos. Sobretudo, ia-se ali dentro, à vontade, vendo-se tudo, sem recear a indiscrição de uma mão afoita ousando atirar uma flor, ou um escritinho, se não

mesmo o furtar de um beijo... Cadeirinhas douradas, "de caixão", das mais suntuosas e pouco vistas, evocando as em que passeavam as fidalgas parisienses, de cabeleiras empoadas. Bom mesmo atravessar a cidade numa delas, protegida pelos vidros, apreciando o movimento, olhando as lojas, descendo na igreja ou na costureira. Cadeirinhas de arruar... Que de poemas inspirastes! Que de ansiedades e esperanças provocastes! Quantos homens ficaram horas, ao sol ou à chuva, esperando uma dessas balouçantes caixinhas de luxo, por se aninhar nela sinhàzinha que ia pedir a bênção à madrinha, escoltada pelo pai, a cavalo, de chapéu alto e rebenque em punho! Às vêzes as cadeirinhas tomavam estradas, viajavam. Caminho do Mondego, Estrada dos Apipucos, Caminho de Olinda. Ia-se passar a Festa ou pagar uma promessa na Sé. Na reclusão feminina dos tempos, a cadeirinha possibilitava uma rápida visão da rua, a surprêsa de um quadro maldoso, a acolhida de um olhar ousado, a observação estranha de um outro bairro. Cadeirinhas de arruar... Seu nome resumia uma finalidade ampla, saborosa, mundana. Arruar. E a rua constituía um pecado tão feio! Rua tinha saibo de cousa proibida e de má fama. Moleque de rua... Povo da rua... Mulher de rua... Bôlo de rua... Namôro de porta de rua... Mas arruar era tão gostoso! E a cadeirinha proporcionava êsse gôzo, com uma espécie de poder isolador, vendo-se tudo sem perigo de contágio. Vendo-se, ouvindo-se e sentindo-se. Camarim ambulante para se apreciarem as cenas constantes e variadas dessa peça social que as ruas oferecem a todo instante. Arruar! Ver apenas, não! Sentir a cidade. Evocar seu passado, partilhar do seu presente, sonhar com o seu futuro. Encontrar interêsse vivo numa fachada de azulejos, numas pedras de calçamento, num bico de telhado, num cocuruto de mirante, numa cara de transeunte, numa escadaria de igreja, numa jaqueira de muro, num interior de loja, num lampião de esquina... Arruar... Conhecer e recordar. Pisar e querer adivinhar os que já pisaram. Ser ao mesmo tempo a geração de agora e as gerações de outrora. Arruar... Passatempo e análise. Regalo dos olhos e entendimento dos espíritos. Arruar... Ver as ruas e penetrar-lhes a história. A história cronológica e a história social. A história pitoresca também. Não somente a trilha inicial, a origem do arruado, o imperativo do cordeador, as exigências das posturas, mas, igualmente, os costumes, o vozear, as expansões, os vícios, as festas, os maus dias, os amôres de seus habitantes... Arruar é abrir êsse livro de história, folhear-lhe vagarosa e saborosamente os capítulos, contemplar-lhe as ilustrações, comparar-lhe aspectos e episódios, compreender-lhe o sentido através das épocas e das gentes. Hoje, já não se sabe arruar direito. Anda-se, ou melhor, corre-se pelas ruas. Os meios de transporte não favorecem êsse prazer dos antigos. O automóvel e o ônibus passam rápidos, indiferentes, ignorantes. Não importa o percurso; interessa apenas o término. O rio, as árvores, o templo, a rua, a estrada, o sobrado, o tipo popular, a ponte, o nome local, que fiquem depressa para trás. Não se arrua mais. Chispa-se, voa-se... O bonde, que sempre consentia um vagar para êsse prazer, hoje com a superlotação é um sacrifício... Arruar é diferente do que fazemos hoje ao atravessar a cidade, no interêsse do trabalho ou na distração de um passeio, a caminho da escola, da igreja, do cinema, da loja, da festa, sem darmos um reparo menos superficial à sua fisionomia, sem sorver melhor o seu perfume, sem escutar meditadamente a sua música... Vamos por aqui, por ali, a êsmo, abstratos, guiados pelo hábito, sem atentar, como devêramos, no encanto dêste trecho, na claridade desta manhã, no colorido dêste ocaso,

na harmonia dêste movimento, no feitiço dêste pitoresco. Atravessamos as ruas apenas com o cuidado nos automóveis e olhamos as placas das esquinas sem outro propósito do que lhes ler os nomes. Somos, no cenário de nosso nascimento e de nossa vida costumeira, quase uns estranhos, à sua história, às suas tradições, à sua poesia. O passado é um baú velho atochado de papéis amarelos que se destroem num momento azado. Os velhos monumentos foram embora e poucos se lembram dêles. Mudam-se as expressões típicas da cidade, e ninguém quase protesta. Desdenhamos não somente o passado de nossa terra, mas o nosso próprio passado... E, no entanto, que lição e que entendimento proporciona o estudo e o conhecimento da nossa cidade! O seu rosto, o seu cheiro, as suas cores, os seus sons!... Há nela um sentido que transcende de mero núcleo civilizado para atingir as raias de um templo de nós mesmos. Em cada rua destas, em cada telhado daqueles, numa ponte, numa calçada, numa nave, num cais, num jardim, viveu também alguém que nos precedeu no mundo e que nos foi querido. Nossos avós, nossos pais, irmãos de nosso sangue, uma madrinha, uma ama-sêca, um amigo, já longe de nós, dormindo no cemitério, por ali andaram, por ali sorriram, por ali sofreram, por ali pensaram em nós... Por onde arruamos há os passos dêles, num arruar distante, indeléveis nas recordações dos que sabem recordar. Entremos, por exemplo, nesta igreja. É velhíssima e nada mudou no seu interior. Os altares, os santos, os candelabros, as tribunas, a pia batismal, tudo está como era. Até o piso, até as soleiras, até os degraus. Rezamos hoje; rezaram ontem êsses antepassados, essas criaturas muito amadas. Êsses mesmos nomes de templo – Penha... Carmo... São Pedro... Madre de Deus... São José de Ribamar... Santa Cruz... Nossa Senhora do Têrço... - estiveram nas suas bôcas e nas suas vozes. Quando aquela mesma bênção foi dada, há anos, há séculos, êles estavam aqui mesmo, de joelhos, recebendo-a, batendo nos peitos e curvando as cabeças. Essa procissão que sai tôdas as quaresmas, com suas velas acesas dentro de angélicas de papel, com suas duas imensas fileiras de devotos, com seu andor velado por um baldaquino roxo e a ponta da cruz de fora, aos dobres dos sinos das matrizes, essa procissão êles a viram também como nós a vemos, êles também se encheram de recolhimento e de preces, êles ouviram os mesmos sinos, carregaram os mesmos barandões, adoraram a mesma imagem. Ali está o nosso velho e sempre novo teatro. Talvez nenhum ambiente nos sugira recordações como o dessa casa de espetáculos tão típica de nossa cidade. Gerações e gerações passaram pelos seus camarotes e pela sua platéia. Na emoção da arte, na ânsia de comunicabilidade, nos encontros de amôres, na faceirice da vaidade. Se quiséssemos - ou melhor, se pudéssemos - realizar uma história dos indumentos, teríamos de reviver os aspectos dos saraus de várias épocas, enchendo aquêle teatro, pela imaginação, com os cavalheiros e as damas, os rapazes e as sinhàzinhas do seu tempo, ouvindo o auto pastoril, a ópera de Bellini, a tragédia de Dumas, o vaudeville de Feydeau, o drama de Pinheiro Chagas ou a revista de Artur Azevedo. Tôdas as modas por ali desfilaram. Da saia-balão à saia entravada. Para somente aludir às que se foram. Essas criaturas de outrora sentaram-se nas frisas e nas cadeiras, olharam o palco, choraram e riram-se, miraram-se aos espelhos do salão, apoiaram as mãos nas balaustradas, desceram as escadarias... Tôdas as paisagens e cenários de nossa cidade impregnaram-se dêsses olhares antigos. E como que procuramos adivinhar como é que êsses olhos viam, o que os lábios diziam, o que os pensamentos traduziam, o que as almas sentiam... Temos o capricho de querer viver a nossa cidade por nós e pelos nossos antepassados. Não vemos apenas o rosto da cidade, mas também seu espírito. Na beleza do rio espraiado e sinuoso, nos reflexos das luzes, nas sombras do casario, na solidão dos sobrados, nas angústias dos becos, na quietude das alvarengas, no pinturesco do Mercado, nos cotovelos das ruas tortas, no burburinho das docas, na alacridade dos sábados, nos arvoredos dos sítios, nos terraços das pontes, nos toques das igrejas, nos apitos dos trens, nos pregões dos vendedores, no vocabulário da gente... Tudo é nosso, tudo é expressivo, tudo é diferente das outras cidades. Cada cidade tem sua história, não apenas a política, mas, sobretudo, a peculiar aos seus costumes, aos seus regionalismos, aos seus modismos. E se aquela empolga, entusiasma, esta enternece e embala como um berço impelido por mãe carinhosa. História, ou histórias, semelhantes às contadas pelas velhas pretas de antigamente; histórias que ainda nos encantam quando vamos envelhecendo... Arruar é apreender o sentido dos vários trechos da cidade, penetrando-lhes a origem e saboreando o acêrto de batismo dos bairros, das freguesias, dos logradouros. Recife, Santo Antônio, Afogados, Boa Vista, Várzea, Espinheiro, Camboa do Carmo... Nomes históricos, lendários, geográficos, pitorescos, a evocar um episódio, um costume, um aspecto, uma ironia, por vêzes , Quando não uma figura também. Quem, sabendo um pouco do nosso passado colonial, ao ir à Casa Forte não se recorda logo daquela formosa e galante dama pernambucana, D. Ana Pais, que teve a habilidade de passar conjugalmente pelos braços de três homens, harmonizando ao calor de seus beijos portuguêses e holandeses? Quem não se identifica de pronto com as raízes populares de denominações claríssimas como Caminho Novo, Pôrto da Madeira, Ponte Velha, Ilha do Retiro, Agua Fria, Espinheiro, Fora-de-Portas? Meditemos nesses nomes, e cada um dêles será um pequeno capítulo do romance do Recife. Que dizer, por exemplo, de Mangabeira de Cima a contrastar com a Mangabeira de Baixo, ali na estrada do Arraial, que por si mesmo já constitui um cenário histórico? As duas árvores, no caminho há pouco rompido, eram duas balizas dos transeuntes. Mangabeira, a de baixo; Mangabeira, a do alto da ladeira. Orientavam os que iam ali, e quando o trem suburbano substituiu a diligência do Cláudio, deram nome às respectivas estações que nós ainda freqüentamos. Bem próxima, Tamarineira também teve fonte semelhante. Formoso exemplar vegetal, sem dúvida, de copa farta e sombreadora, no amplo sítio local. Ninguém deixava de descansar um pouco debaixo da tamarineira, quer fôsse para Cruz das Almas, quer se destinasse a Água Fria ou ao Monteiro. Mais tarde, compram o sítio para o novo asilo dos doidos. Festas da primeira pedra e da inauguração. Trazem da Misericórdia de Olinda os dementes. Mas o nome da árvore fica, e agora com um significado irônico - e de morada dos que não giram direito... Mangabeiras ou tamarineiras, elas sabiam convidar ao repouso da etapa e ainda davam o sabor dos frutos. Caíram aos golpes do machado, porém ficou a lembrança delas com as crismas a que deram lugar. Dos primitivos engenhos de açúcar há uma linda coleção de nomes no Recife: Apipucos, Madalena, Tôrre, Dois Irmãos. Do seu cenário de canaviais, de carros de bois, de moendas, de casas de purgar, êles se transformaram em povoados e hoje em arrabaldes. Dois Irmãos também foi Encanação devido aos mananciais de onde proveio a água para a cidade, melhoramento que muito deu que falar com seus chafarizes e torneiras. Quem nos dirá dêsse artista do ferro que de tão conhecido no mister e na simpatia batizou o trecho de sua tenda em Caldeireiro? Das virtudes e dos milagres da água numa volta do Capibaribe onde iam se encher as vasilhas e banhar os corpos nasceu o famoso Poço da Panela, que não se limitou ao fastígio das curas e da vida social, mas transcendeu para as glórias de uma das páginas mais belas e mais

Dois aspectos do rio Capibaribe, na Madalena, bairro aristocrático de então, quando os palacetes olhavam para o rio e por êle vogavam embarcações em transportes e passeios

humanas de nossa história, quando ali escondiam escravos para libertá-los. Casa Amarela. Clima benéfico, onde de comêço apenas se agrupavam mocambos entre veredas de ubaias e de pitangueiras. Um convalescente agradecido se fixa e levanta um prédio de tijolo e de telhas, que manda caiar de amarelo. Era a casa amarela indicadora, "Pegado à casa amarela", "dobrando a casa amarela", "confronte à casa amarela"... Povoação, teve também o seu trem. E a estação recebeu o nome popular. Nascido da gratidão do major ou do comendador que ficou bom do puxado ou da maleita. Ali o rio ainda não conhecera ponte. Havia canoas e uma balsa para a travessia. Era a "Passagem”. Mais conhecida assim por mais freqüentada. Ia-se para a Madalena, para a Ponte d'Uchoa, para Caxangá. Mais tarde abriu-se rua, ergueram-se palacetes de azulejos e de caramanchões, fizeram uma ponte, rodaram seges. Porém dizia-se: - "Estou morando na Passagem". Fonte semelhante tiveram o Pôrto da Madeira, o Atêrro dos Afogados, o Chora-Menino, a Estância, a Boa Viagem, a Encruzilhada de Belém, a Ponte d'Uchoa. Numa as canoas vão buscar a lenha, noutras o lançamento de uma estrada onde existiam mangues, o sacrifício de crianças pagãs numa revolução, a estacada defensiva do negro que repele o invasor, os navios que se vão e deixam num voto de bonançosa travessia uma igrejinha entre coqueiros, o cruzamento de caminhos em demanda de Beberibe e de Olinda, a pinguela de serventia num sítio particular... E são somente os arredores a nos oferecerem o embalo evocativo dêsses nomes tradicionais dos logradouros públicos? Não. No centro da cidade, quer nas artérias principais, quer nas de menor predicamento, há um mundo de reminiscências, de ensinamentos, de poesia. A começar pela nossa rua mais galante, mais nobre, a preferida: a Rua Nova. Um encanto de batismo. Transparente, preciso, sintético. Fácil, curto, expressivo. Rua Nova? Perfeitamente. O acesso recente, cômodo, útil. Pelo antigo, o rodeio era maior e sem dúvida a paisagem menos apreciável. Ao se rumar para Fora-de-Portas ou para o Atêrro da Boa Vista, por ali era outra cousa. E a trilha vira arruado. Casas de um lado, depois de outro, salteadas e unidas. Boticas no andar térreo, moradias nas que tinham sobrados. Embaixo vendiam-se panos, borzeguins, chapelinas, braceletes, meizinhas, bacalhau, manteiga fresca, queijo-do-reino. E até um dia, loja de tirar retratos ou de pentear cabelos. No alto, em varandas de pau surdiam de furto rostos de moças, quando não transitavam procissões de quaresma para encher de todo êsses balcões rendados. Rua Nova... Passam cadeirinhas de arruar, ônibus de terraços, carroças de açúcar, traquitanas, bondes... Rua Nova sempre. E a do Queimado com seu "fogo" espetacular, no tempo em que o povo se armava de gamelas, de baldes, de quartinhas para apagá-lo? E a da Cadeia Velha com seu sobrado de grades onde espiavam condenados às galés ou à fôrca? E a das Águas Verdes com seu pântano de inverno? Cais do Apolo, vaidoso de ter deixado de ser praia e com o seu teatro a atrair a alta sociedade para ouvir a Norma ou o Trovador. Rua do Cotovêlo, rica de ângulos e de mistérios. Rua da Aurora, primeira a receber as pompas do Sol. Ponte Velha, a recordar os tempos em que Nassau do seu palácio olhava as matas do continente ou Franz Post pintava nossas primeiras telas. E os doces cultos ao Rosário, à Conceição, ao Bom Jesus, à Santa Cruz, a Santa Rita, traduzidos em artérias e pátios onde existiam igrejas ou nichos para se rezarem novenas e terços. As guerras de antanho emprestavam feitos para a Rua das Trincheiras, para o Largo das Cinco Pontas, para a Rua de São Jorge, para a dos Guararapes. Ouvimos

cadências de marchas, entrechoques de piques, ribombos de peças, toques de chamarelas, ressôos de vitória e de reconquista . A nossa outra rua elegante de hoje, que se chama da Imperatriz, fôra por muitos anos do Atêrro da Boa Vista - vastos mangues que se encheram de lixo e de areia, transformando-se numa via pública a rivalizar depois com a sua vizinha de além-rio - a Rua Nova. E por que não falar também dos becos? Afigura-se-me que essas passagens estreitas nasceram de um imperativo de sociabilidade. Comunicações mais curtas e rápidas por necessidades de relações, de visitas, de comércio, de amôres. Ia-se mais depressa por ali, por entre casas. E a passagem como serventia pública persistiu na paisagem urbana. Sua fisionomia, seu préstimo, sua figura popular veio a dar-lhe o nome. Beco da Viração, do Serigado, da Luxúria, do Sarapatel, do Veras, do Calabouço, da Roda, do Quiabo, das Sete Casas... Cada denominação dessas ressalta uma origem. É uma tela, é um retrato. Tem côr, tem cheiro, tem malícia... As maxambombas, trifurcando-se a caminho de Dois Irmãos, do Arraial, da Várzea, com seus apitos e seus barulhos de vapor, batizaram o Largo do Entroncamento. Sumiram-se os trenzinhos suburbanos, demoliram a velha estação de três plataformas, porém o nome ficou nas bôcas de novas gerações. Quem "adivinha" agora os quadros vivos ali representados todos os dias ao rápido encontro dos trens cheios de passageiros habituais ou de "passadores de festas", na convivência diária dos mesmos vagões e por vêzes dos mesmos bancos? Comenta-se o fato político da Europa ou do país, lê-se A Província ou a Gazeta da Tarde, discutese a crise do açúcar, critica-se a prima-dona do Santa Isabel, planeja-se a dança do sábado, pensa-se na noite de Ano-Bom no Bonfim ou no Poço... Quem avalia o antigo bairro do Recife torturado de ruas estreitas e becos incríveis de tortuosidade; o Largo do Corpo Santo, o Beco das Sete Casas, a Rua da Cadeia, o Arco do Bom Jesus, a Doca do Arsenal, o Cais da Companhia Pernambucana... Tudo isto se sumiu na paisagem da cidade. Ninguém o reconstitui mais sem tê-la conhecido. E mesmo entre os que o conheceram, quantos de memória pouco nítida! Não há saudosismo em recordá-lo. Nem desejo de que a vida houvesse parado. Há, porém, uma modalidade de amor a tudo o que desapareceu, e que se não foi nosso contemporâneo, terá sido de nossos bisavós: cenário de sua infância, de seus amôres, de suas preocupações, de suas atividades, de seus sonhos e de suas saudades também... Daí nossa ânsia de saber-lhes particularizadamente dos costumes, dos trajos, dos hábitos sociais. Essa existência longínqua e apagada é bem verdade que se projeta somente numa quase realidade através das velhas crônicas, dos romances, dos relatos verbais de pessoas idosas, numa carta, mas, sobretudo, nas páginas amarelecidas dos jornais da época. Estas, sim, são de um flagrante que lembram os instantâneos de hoje. Porém é preciso saber interpretá-las, às vêzes. Um anúncio de loja trai uma cena, até uma conversa. Uma reclamação revela um costume. Quem não o sentirá, lendo aquela advertência a um novo morador de rua, que ali não se tolera mais deitarem-se águas servidas da varanda abaixo? E a venda de uma cadeirinha estofada, por qualquer preço, certamente por ter caído da moda? E o toucado riquíssimo chegado de Lisboa, por encomenda, muito próprio para noiva, e do qual “se declara que é talvez o primeiro aqui visto, principalmente pelas ricas plumas que tem"? Qual a moça que não sonharia possuí-lo para sua tarde de núpcias? E a casa da Rua da Matriz por 6$000 mensais, uma botija de cerveja por um tostão, trazendo-se o casco, um queijo-do-reino por 1$500, leite diàriamente por três vinténs a garrafa? Queixavam-se da carestia, sim, queixavam-se. E dos maus processos de educação. Meninos já grandes que antigamente dormiam nos colos das iaiás gordas, chupando os dedos - agora.... empinavam papagaios e tomavam genebra... Vejam só!... E que dizer das modas de antanho? Estou em que as mulheres especialmente se sentirão curiosas de conhecer os figurinos dessa época distante. Já havia, sim, publicações do gênero, doutrinando em galanteria, em feitios, em modelos. Não será difícil formular uns "retratos vivos" dessas elegantes de faces de papoila que se chamavam, por exemplo, coquetes e casquilhas, tinham mel nos lábios feiticeiros, vestiam lantejoulas, só faltavam cuspir à francesa, mostravam dengues e medeixes, dardejavam olhares sedutores, dançavam valsas de corrupio e usavam adereços de diamantes, anéis de crisólitas, broches de coral, atacas de ouro... Mas gastavam fazenda muita para se vestir, bojudas e recheadas que eram. Patos, anquinhas, babados, mangas-presuntos. A ponto de se aconselhar aos pais e maridos: Se vossa filha ou espôsa Já com seis varas de cassa Para um vestido bem passa. Por cumprir com o modernismo Dar-lhe mais é patetice.

E, também a respeito: Antigamente, a mulher, quanto mais pequena, melhor, porque levava menos fazenda nos vestidos; hoje, alta ou baixa, bojuda como uma pipa ou esguia como um espeto, gasta as mesmas varas de côvado porque o que sobeja no comprimento acomoda nas ancas, embora pareça campainha de cima de mesa. O hábito de sair de casa para compras, para consultas ao médico, para tratamento dos dentes, mesmo a passeio, seria restrito depois de haver sido por longos séculos proibido e pecaminoso. Mas o século XIX, já de início, se prometia revolucionário pelas terras do Brasil, mormente pelas de Pernambuco, até nas usanças e na guerra aos preconceitos. O arruar, como outros hábitos, ia ganhando alento. A ponto de um moralista se insurgir: Muita moça sai à rua Somente pra se mostrar E vai toda enfeitadinha Como se fôsse casar. Arruar. Na cadeirinha de vidraça, a princípio, e depois na sege, no ônibus, no bonde... Vejam que escândalo!... Na promiscuidade dêsses transportes coletivos. Também as ruas já iam oferecendo atrativos e comodidades: sapatinhos de duraque e cetim a 4$500, frasco de extrato de Paris por 1$500, chita da mesma procedência a 120 rs. o côvado, e o leque de madrepérola, todo de sêda, com figuras de cêra em relêvo, ou de longas plumas, a 15$000. "Um desperdício, minha gente!" Mas - o leque! Amenizava o calor, acompanhava graciosamente o ritmo das músicas, batia no ombro da amiga, e tapava o rosto pudicamente ao ouvir uma confissão, ao prodigalizar um sorriso... As lojas de Mesdames Rey, Milochaud, Théard, anunciavam tanta

coisa: blondes, capotinhos de retrós, Chapéus de palha de Itália, a fazenda da moda gros de Naples, as bareges de listras, os espartilhos, além de fazerem pregas a vintém a vara... E os artigos de compra discreta, quase em segrêdo: depilatório para os pêlos do rosto e do corpo, a água-de-vênus para apagar manchas, os pós para criar e empretecer os cabelos. Não esquecer o xale de toquim de 50$000, a que a modinha exaltava o préstimo: Meu papai, eu quero sêdas, Quero um xale de toquim... Os dentistas franceses ou inglêses abriam consultórios: inserir um dente, 10$; arrancá-lo, 2$; chumbar a ouro, 3$; dentadura completa, 30$. Preços de Mawson ou Gaignoux. Os cabeleireiros, outra tentação: O Jaime, o Gustave, o Desmarais, Mme. Potellier, o Odilon. "Quarto particular para cortar cabelos à moda". Penteavam à marrafa a uma pataca. Tabela de preços para domicílio no estabelecimento. Penteado de noiva, 5$000. Arruar... para tirar o retrato, sim senhor. A moda do retrato dera que falar. Não mais as demoradas poses para os "óleos" dos artistas estrangeiros de passagem ou de estada na cidade. Agora, os daguerreótipos. O Mavignier, o Decoux, o J. Pereira tiravam êsses retratos a 10$ em fumo e 20$ coloridos. Também miniaturas para caixa de rapé, broches, medalhas, alfinêtes de gravatas. Depois, os retratos em negativo, às dúzias, para distribuir com parentes, padrinhos, amizades e... "Lá vem mamãe! Abriam-se fotografias de luxo, de artistas premiados na "Exposição de Paris". Retratos a qualquer hora e com qualquer roupa. Não se entregavam senão os parecidos e não faziam as pessoas mais velhas. Ao contrário... E para tirá-los lá se ia a sinhá com seu vestido de sêda de quadros, com bico francês no talho e babado largo em roda da saia. A Madama cobrara-lhe de feitio 10$. Se fôra de merinó, 8$; de cambraia, 6$; e de chita, 4$. Para vestido de noiva (pobre não podia mais casar, meu Pai do Céu)... 15$000. Um poeta do tempo dizia, embora escrevendo em prosa, da sua perturbante impressão de um encontro de rua: Vi passar, dentro de um palanquim, uma moça que me feriu o coração. Era uma jovem côr de pelica branca, olhos azulados côr de céu em primavera, boquinha composta de duas pétalas de rosa. O vagar da cadeirinha dava tempo para tôdas essas minúcias, tôdas essas e mais algumas que o enamorado calou sem dúvida. O palanquim simboliza bem as baladas, os poemas de outrora, longos, rimados, líricos. Ao passo que o automóvel de hoje, chispando, mal permitindo distinguir o sexo de sua guiadora, tão confusa é a indumentária, será uma dessas poesias modernas em verso livre e de sentido super-realista. E que dizer dos outros atrativos? O Cosmorama, com vistas novas tôdas as semanas, inclusive as horríveis da guerra da Europa... Na Europa há sempre uma guerra. As sorveterias... O sorvete, outro capítulo verdadeiramente saboroso na história da cidade. De creme ou de frutas. O Café Rui tinha-o duplo. De comêço, um tostão. Depois - talvez a tal guerra do momento... - subida para dois tostões. Mesmo assim:

Das 10 às 9, fregueses, A sorveteria está pronta: Um sorvete a 2 tostões. Não há nada mais em conta. Numa das mesinhas, as famílias conversam: - Já soube da estréia da Companhia Lírica com a Favorita? - Preferia que fôsse com a Sonâmbula. Toco a partitura tôda. - Será a 2ª récita de assinatura. Não vai? - E então! Meu marido assinou um camarote de 2ª ordem. - Nós, também. Camarotes só de 2ª ordem; é mais caro, porém... - Os de 1ª são para êsse povo de pé rapado que não mora na Madalena... Mas dizem que a prima-dona é um rouxinol. Do mesmo modo comentava-se a festa do Poço, a corrida do prado, as temporadas de Festa nos arrabaldes ou em Olinda. Dali, da sorveteria, iam às lojas do Pavão ou do Zé Bigodinho, à Ville de Paris ou Paradis des Dames, comprar a carteirinha de 100 agulhas a 28:0 rs., as baleias a 1$ meia dúzia, o pente para alisar a 1$200 e, mais baixinho, o de "tirar piolhos", a uma pataca. Linha de carretel, 80 rs. As anquinhas estavam subindo com a moda: 2$500 as francesas. Também chamadas, por quem vinha da Europa no paquete de vapor: tournure. Adquiria-se na Livraria do Pátio do Colégio a revista de moças A Bonina, os Suspiros Poéticos de um Desterrado... Nas lojas de ourives as rosetas de ouro, os camafeus com cercadura de brilhantes, os diademas para os penteados... A rua era já um paraíso. O progresso cercava-a de comodidades - calçamento, luz, passeios de lajes, vitrinas e até músicas. Sim, ouviam-se pianos nas lojas que os vendiam, de cauda ou de coluna. Polcas, quadrilhas, valsas e até modinhas como a que dizia: Se eu brigar com meu amor Não se intrometa ninguém, Que, acabados os arrufos, Ou eu vou ou êle vem. Via-se, ouvia-se, sentia-se, amava-se. Os olhos, pelo menos, andavam livres das rótulas dos balcões ou dos postigos das janelas. Os janotas esperavam as gamenhas em plenas portas das lojas. E embora severamente acompanhadas - pudera não... - quem as privaria de dar ou receber um sorriso ou um sinal? Difícil falar, sim. Porém já o jornal consentia, em prolongamento dos olhares de rua, os quadrinhos com as confissões, as queixas, os avisos e até os "desabafos" : DESABAFO Enganei-me quando a vós me dirigi. Foi recebida e um recado fêz-me nutrir esperanças.

Julguei ser realidade mas eram aparências. O recado foi um estratagema. E o estratagema? Foi para ser [eu desfeiteado bruscamente. O fim meu era puro, confesso-o. A nossa união, talvez, se por acaso obtivesse vosso consentimento e de vossos pais. Foi um sonho - dissipou-se - procuro distrair-me - Contudo, desejo-lhe um futuro lisonjeiro. Arruar... Na escola os meninos soletram: d-a, dá; d-e, dé... Ou argumentam: 2 vêzes 3 - 6... 2 vêzes 6 - 12, noves fora - 3... Palestras, discussões, desaforos, vaias, pregões... E tipos de cada época ou de tôdas as épocas. Os maldizentes, os derrotistas, os desalentados... - "Um país perdido!"... - "Esta terra tem caveira de burro - não vai para diante...". As vendedoras de bolos ou de tapiocas sentam-se em plena via pública, os transeuntes param também ali e formam grupos em palestra demorada, e a todos mal interrompe uma carroça puxada por escravos sob o chicote do feitor... Vêem-se com fartura cabras, porcos, cavalos, à sôlta. Um raro ônibus a muar dobra uma esquina. As pontes são de madeira. As varandas são de pau e quase não há rótulas nas janelas. Mas, depois, a cidade evolveu: há pedras forrando o chão das ruas, há lampiões, são de ferro as pontes, passam bondes de burros, surgem berlindas e landaus, damas andam pelas calçadas, protegidas por sombrinhas, também varandas de metal, os bichos desaparecem, ficando apenas os cães, rareiam as negras de turbantes, e até a novidade da maxambomba, que leva tão depressa os passadores de festas a Apipucos ou Caxangá. Longe ia já o Apipucos de outrora... Aquêle arrabalde com um pátio ainda rústico cheio de mato e caminhos revessos. De um lado e outro, casinhas, assobradadas ou térreas, de alpendre à frente. Ao fundo, numa delas, uma tabuleta: "Hotel". Um ônibus, dos de seis cavalos, parte cheio para o Recife... Vai muita gente no andar superior, e pitorescamente de pernas para fora. Outro ônibus, vazio, faz hora. Sairá à tarde, porventura. Cavalheiros passeiam. A porta de uma das habitações uma família toma fresco. Duas damas em cadeiras de balanço, daquelas antigas, amplas e cômodas. O chefe da família também descansa, sem dúvida a fumar seu charuto. Perto, um moço conversa com uma sinhàzinha. Amôres? Noivos? Coqueiros, jaqueiras, um ar de quietude, de "passar festa", de distância. De "mato". Ainda se tinha muito o preconceito, se não o pavor, do mato. O mato era o subúrbio. Ia-se para o mato quando se procurava um arrabalde para morada ou vilegiatura. Outros detestavam sair da cidade. Perder o Carnaval, as procissões... não se via quem passava... E as conversas nas calçadas, e os mexericos de postigo a postigo? No mato, cada um metido no seu sítio como bichos... Grandes melhoramentos agitavam a cidade. "O Recife progride". Quem não o está vendo logo, ao encontrar-se com aquêle ônibus puxado a quatro cavalos, com a sua "imperial" cheia de gente, ao dobrar a esquina da Rua da Cadeia Nova com a do Crêspo? Os transeuntes miram-no com desvanecimento e talvez inveja. Ônibus para Apipucos, para o Monteiro, para Olinda. Que luxo! Canoas e palanquins vão ficar fora de moda... E o chafariz que golfa a água encanada, a água do Açude do Prata, ao invés da

que vinha em tonéis do Varadouro de Olinda? Progresso indescritível. Chafarizes por tôda parte, e alguns artísticos, como o "da Boneca", na pracinha da Boa Vista. Tão famoso que os anúncios das lojas locais precisavam: "Em frente da Boneca". Água da encanação, muito melhor do que a daquela cacimba de arrabalde que "se coava em três panos". Somente isto? Que nada! E os bondes? Lá estão êles, a princípio fechados, "baús", e depois abertos, pelo Pátio das Cinco Pontas, pela Rua do Imperador, pelas pontes, atraindo a atenção geral. O bonde de burros revolucionara a cidade. Agora, podia-se vir à Rua Nova sem incômodos, com dois tostões em níquel ou em cobre... Luz? Não mais azeite de peixe. Estampas ainda revelam êste sistema, com lampiões muito próximos uns dos outros, porque o brilho dos candeeiros fôra fraco. Mas outros impam com os de gás carbônico. Aquilo sim. Feérico. Lampiões de parede, elegantes, espalhando claridade de "encandear os olhos"... O Recife ia de vento em pôpa. Bem o afirmavam aquêles versinhos: Dir-te-ei primeiramente Que êste Recife d'agora Não é mais, nem já parece Qual o conheceste outrora. Novas casas, novas ruas Vão surgindo de repente E não podes calcular O quanto se aumenta a gente. Do Colégio a imunda praia A ser cais há pouco veio, Convertendo-se um monturo Num agradável passeio. No campo do antigo Erário Um teatro se levanta Que dizem ser coisa boa Segundo o risco ou a planta. Ainda há melhoramentos maiores. As pontes de ferro a substituírem as dos banquinhos da Boa Vista antiga e a das lojinhas de panos e quinquilharias "do Recife". Os jardins de gradil e figuras de louça. O Teatro Santa Isabel novinho em fôlha, dispensando a velhusca Casa da ópera crismada de "Capoeira". Acham pouco? E os cupês e berlindas puxados a cavalos de raça ? Aos punhados. As ruas vão ser calçadas. Ficarão esplêndidas e poder-se-á dançar nelas. Vão tirar das ruas os seixos E pôr tijolos em pé. Dêsse modo me parece Todos iguais vão ficar, Que pelo meio das ruas Poder-se-à quadrilhar.

1858. Que é isto? Um apito! É o trem do Cabo. Inaugurado há dias. Uma maravilha. 90 minutos do Recife até lá. E que passeio de paisagem, de frescura, de rapidez! - "Você já foi?" - "Não? Vá domingo. O hotel é excelente. Mas tome um número antes, senão fica sem comer. Não chega para quem quer". As gravuras mostram o trem: dentro da cidade, na estação do Cabo, a caminho de Escada... Trem! O segundo no Brasil inteiro. A vasilha do lixo à porta, farejada pelos cães vadios, demonstra que já existe uma carroça coletora dêsses restos de varreduras e de cozinha. Não é preciso mais enterrá-los no fundo do quintal ou mandar o escravo atirá-los à maré. No entanto, o descontente maldiz a inovação: não se suporta a catinga dêsses depósitos de cisco; êles emporcalham as calças dos transeuntes; atraem os cachorros vadios. Enfim, protestos surgiam contra a limpeza pública, preferindo-se talvez a "porcaria privada". Não há duvida que o mundo, neste ponto pouco mudou... Fala-se que os "tigres" irão igualmente desaparecer da paisagem urbanística. Os negros que carregam nas barricas mal cheirosas os dejetos humanos deixarão de transitar à noite pelas ruas. Há quem se contrate para um serviço de esgotos. As sujidades dos domicílios, escoar-se-ão pelos canos. Será a época dos "cambrones". "Esses inglêses" não têm mais o que inventar! O "vapor" de terra, o gás encanado, e agora o esgôto. Um pessimista, porém, resmunga: - "Vão se fiando. Os inglêses tomam conta da terra por baixo, e acabam tomando-a por cima como os holandeses". E por falar em vapor... Que dizer das barcas de vapor a visitarem o pôrto do Recife, onde somente apareciam dantes os navios a vela? Lá estão êsses vapôres do mar no Capibaribe, com suas chaminés esguias, suas rodas, seus mastros embandeirados. Rebocadores puxam alvarengas de açúcar. Tudo as gravuras refletem. Nas varandas do sobrado de azulejos os tipos das sinhàzinhas meio ariscas, talvez à espera do namorado, que vem no bonde ou no trem. Certa mocinha bonitinha, Engraçadinha, Que faz croché à janela... Nas horas do trem partir, Esperando até que passe O querido namorado Rebicado, Espartilhado... Os negros escravos a puxar carroças ou carregar fardos. O inglês de cachimbo e paletó de xadrez. O capitalista que conversa na praça. O casal que passa de braço dado. A família que se despede na Lingüeta. O pedinte de esmolas para os santos, com sua opa e chapéu-de-sol. Meninos a empinar papagaios. Homens de negócios de redingotes e calças brancas a acertar transações nas esquinas. Peixeiros de calão ao ombro. Grupos que esperam a maxambomba na Ponte d'Uchoa. A sensacional maxambomba de Apipucos que meteu num chinelo o ônibus a cavalos. Não se falava noutra cousa: Trepei na bomba,

Comprei pitomba, Atirei caroço Na maxambomba... Até as tabuletas dessas estampas revelam alguma causa curiosa e típica do tempo. Aquela "Casa de Banhos" do Pátio do Carmo. Anunciava-se pelos jornais: Este grande estabelecimento situado no centro da cidade, provido pela Companhia de Beberibe, com água do Prata, dispõe de 18 quartos, 10 destinados para homens, 4 para senhoras, 2 para banhos de chuvisco e medicinais e 2 para douches. E adiante enumeravam-se os males que êsses banhos medicinais curavam: inflamações crônicas de quaisquer das vísceras, as inflamações das articulações, as erupções cutâneas, o beribéri, a paralisia, as digestões lentas, reumatismo articular ou muscular, ingurgitamento do baço, do fígado, das glândulas linfáticas, esfalfamento nervoso, flôres-brancas, histerismo, impotência, insônia, palpitações nervosas, etc.". Banhos medicinais! Douches! Que diferença daquele outro anúncio de anos atrás em que se oferecia a venda uma esplêndida gamela de amarelo muito própria para quem gostava de um bom banho. Qual gamela, qual nada! O Recife tinha agora água de torneira a escorrer fácil e prestadia para os banheiros. E quem não a quisesse que se botasse à Barca de Banhos, ancorada no Capibaribe, com vários quartos para se mudar de roupa, "sem que de um se visse quem se despia no outro", acentuava o anúncio. E tinha-se mais café com leite, bolinhos, chá com torradas, e aos domingos sorvetes. Barca de Banhos... Quantos banhos de Igreja serviram de prolongamento aos do rio! A cidade enfeitava-se. A Câmara Municipal cuidava até de arborização. Avisava já estar feita a cordeação de diversos logradouros, e nêles os moradores eram convidados a, dentro de 40 dias, plantar árvores. Podemos até conhecer as espécies dessas plantas: aroeira, gameleira branca ou vermelha, espinho-de-judeu, trapiá, visgueiro, caneleira e mangueira. As posturas da época cogitavam de medidas reveladoras do adiantamento urbano. Basta comprovar-se êsse zêlo municipal com êste artigo que cuidava do silêncio público: São proibidas as casas vulgarmente conhecidas por casas de batuques: os infratores, chefes dos divertimentos ou donos dos prédios, serão multados em 30$000 e no dôbro nas reincidências. 30$000. Multa dura, reparem. Uma rica chapelina para senhora, último gôsto de Paris, custava 10$000... Comparem. Progresso... Até na língua. Os francesismos invadiam a cidade. Mudavam-se os nomes das coisas para torná-las mais finas. E ironizava o poeta purista: O tremó hoje é console, Tête-a-téte é canapé, Étagères as prateleiras, Dança à noite é soirée.

Chamam soutache a trancinha, A sêda fraca joulard, Chamam passamaneries Ao mais pequeno alamar. Tudo tem mudado os nomes De certo tempo pra cá, Até os pais de família São: a mamã e o papá. Era assim nossa cidade de antigamente. Com o mesmo sabor peculiar de hoje. Formosa e amena. Sem suplícios de canícula e sem arrepios de frio intenso. Banhada de janeiro a dezembro pela viração que suaviza e delicia; que bole com os espanadores dos coqueiros e riça as águas do Capibaribe. Com as mangas que cheiram maduras e coloridas, e com a luminosidade do sol a esmaltar folhagens, areias e casario. Com um céu limpo e azul durante o dia e pintadinho de estrêlas pela noite a dentro. Cidade que começa ao norte com uma exclamação de gabo: OLINDA, e acaba ao sul com um voto cordial muito de sua gente: BOA VIAGEM. Arruar... As páginas dêste livro não pretendem ser mais do que um arruar de outrora. Vagaroso, prudente, tímido, modesto, mas de olhos vivos, de ouças penetrantes e de uma curiosidade indisfarçável. Ver-se-á, ouvir-se-á também. O que fazem e o que dizem. A caminho pelas ruas e pelas estradas, rompendo um beco ou atravessando um pátio, cenas e ditérios se oferecerão. A crítica ao govêrno e o mexerico da vizinhança; uma que sai da bôca dos compadres que conversam à boquinha da noite nos bancos do Passeio Público, outra que se permuta entre as amigas de varanda a varanda, paredes-meias: - Fique sabendo... é uma verdade... a procissão dos Passos êste ano não passa pela ponte do Recife porque senão com o pêso do povo ela vem abaixo... - É isto mesmo! Faz-se jardim catita, mas não se consertam as pontes... Agora, as vozes são femininas: - Nem lhe conto, D. Sinhá Nola!... Ela se meteu a brincar no entrudo... - Quem mesmo? D. Umbelina? - E então!... Com aquela cara de santa de andor!... Brincou como uma desadorada com lima-de-cheiro, papel picado, e até com goma... Pensou que não se soubesse... Mas na quarta-feira de cinzas... - Que foi? Acabe com essas risadas e diga logo... - Meus Deus perdoai-me!... Só castigo!... Trouxeram o xale dela ao marido... Com os folguedos, ela perdera no meio da rua... o seu xale de ramagens amarelas... - Eu sei!... Não nos chegam aos ouvidos apenas êstes reparos políticos nem estas maldades domésticas. Há ali adiante um grupo. Na esquina da Rua do Crêspo. Dois senhores austeros de fisionomia, de porte e de indumento. Palestram com policiada moderação de gestos, mas há nas sobrancelhas franzidas de um dêles e no friso irreprimível da testa do outro indícios de espanto, de escândalo porventura: - Sim, meu nobre amigo Desembargador, vi há pouco o Conselheiro a aparar a barba naquele cabeleireiro da Rua Nova... - O que abriu casa no andar térreo pegado à igreja? É crível? - Exatamente. Vi com êstes olhos que a terra há de comer. O Conselheiro, duas vêzes Presidente da Província, tratando de suas suíças numa loja que fica às vistas de tôda a rua !... - Não eu, que só corto meu cabelo em sobrado. - E eu também, que não me permito desfrutes... * Arruar... A expressão é antiquada e em desuso. O vício, entretanto, será prazer de tôdas as épocas. Como é gostoso fazê-lo na cidade de hoje! Mas quanto é saboroso também arruar pelo Recife de outrora, do "povo" da capelinha de São Telmo, com suas jangadas de pesca e seus trapiches de recolher, do burgo que viu as romarias da entrada do século XX, com salvas da fortaleza do Brum à meia-noite... Amando-o e compreendendo-o. Adivinhando-o. Sentindo-o. Vivendo em cada uma de suas centúrias de idade. Sabendo de sua história cronológica e política, e conhecendo-lhe não menos as histórias populares e pitorescas que não têm a chancela dos institutos, pôsto se embalsamem com a peculiaridade e a verossimilhança da nossa paisagem e da nossa gente.

Palhoças e jangadas. Trapiches e veleiros. Era o "Povo". Naquela língua de "terra estéril e arenosa", defronte da faixa de pedra, nada mais. E quem poderia supor viesse a oferecer-se fisionomia de melhor aprêço diante do esplendor da vila fundada meia légua ao norte pelo muito nobre fidalgo Duarte Coelho e tão ufana de louçanias no seu adiantamento, na sua riqueza e na sua vida faustosa? Apenas o "Povo". O rio vinha contornando o istmo, juntava-se ao que descia suas águas pelos mangues do sul, e, reunidos, investiam o oceano na bôca chamada pelos selvagens de "paranambuco"... De assalto, quase sempre, as vagas golpeavam a murada dos arrecifes, cresciam num tapume de espumas, tombavam de supetão molhando as pedras plantadas por Deus para darem abrigo e nome a uma cidade cujo destino andava ainda distante de se prometer. Por enquanto, Pôrto dos Navios, para uns. Povo dos Arrecifes, para outros. E não menos, para alguns, impantes de orgulho olindense: Ribeira-Marinha dos Arrecifes, aonde se ia ver se o açúcar já embarcara ou se o pano da Costa ou de luxo já aportara. Viagem incômoda de canoa, Beberibe abaixo e acima, com o Sol ardente por cima, ao tardo impelir da vara em mãos do negro cativo, e de lambujem os maruins em noites de lua se a gente se demorava mais um pouco às voltas com os trapicheiros ou os capitães de bordo. Que havia para entreter no "POVO"? Ao longo da praia intumesciam-se rolos de espias cheirando a maresia, dormitavam correntes de sujeição das quilhas nas marés de ventania, guardavam-se remos de galés e de esquifes, croques de fisgar portalós,

velas de fragatas e naus em costura, tonéis vazios de aguadas, bolinas e bóias, todo um mundo de apetrechos da marujada por ali a se derramar num quotidiano de azáfamas e de folgas. No estaleiro batiam cavernames ou rebites, na faina intensa de preparar um bergantim encomendado para acolher no seu bojo, a ser acolchoado, como o de uma cadeirinha de arruar, o Visitador do Santo Oficio, que já se fazia mostrar pela cidade do Salvador a inquirir dos cristãos-novos que furtivamente praticavam judiarias, como varrer as casas nas sextas-feiras, mudar as torcidas das candeias, deixá-las acesas a noite inteira, e nos sábados se darem a regalias de sueto, quando não comiam aves afogadas, pescados sem escamas, choravam os parentes mortos, atrás das portas, e raspavam os santos-óleos dos meninos batizados... De quando em quando apontava no longe do mar uma vela encardida de tanto romariar pelos oceanos, e, de rumo para o ancoradouro, em breve ali cuspia ferro, de bandeira içada. Não tardava o afã de descer pelos turcos as pipas de vinho, os gigos de cebolas, os barris de azeite, os fardos de gangas, enquanto nos telheiros dos trapiches esperavam as caixas dos açúcares a vez de ocupar praça nos porões, a caminho do Tejo, de onde se distribuiriam pelos ávidos mercados do Mediterrâneo, do Báltico, da Flandres, do Danúbio... Açúcares de Pernambuco tomando o canto do pau-de-tinta, que sempre se ia, também, mas ia menos. Ribeira-Marinha dos Arrecifes. Qual a senhora branca ou a sinhàzinha rica, moradora da soberba Olinda dos sobrados da Rua dos Nobres, das igrejas bonitas dos sermões e das missas solenes, dos leitos de veludos franjados de ouro, das mesas de pratarias e porcelanas, dos trajes de sêda e de damascos carmesins, dos cavalos ajaezados de prata e dos palanquins de pintura nas portinholas - qual delas faria caso dêsse distante povoado mal entrevisto, remoto e mofino, de uma varanda do planalto onde o donatário assentara sua tôrre quadrada? Quando muito lhe conheciam o humilde préstimo de ancoragem aos barcos vindos da Europa e trazendo as tafularias de Lisboa. Raros os que, sem premência de traficância, já houvessem visto de perto êsse "Povo", pôsto houvessem por lá surgido as guritas de vigilância, a ermida da oração, o torreão do mestre da equipagem, o paiol da pólvora, o castelo da bateria de defesa, a casa de sotéia do armador, as palhoças dos marujos do pôrto e dos pescadores de jangada... As ondas atrevidas borrifavam dia a dia mais costados de navios de proa em direitura ao ancoradouro, fugindo aos baixios da barra, deixando os alvoroços do Lamarão arisco para "abafar os panos" e mergulhar a âncora na água tranqüila do rio. Os açúcares davam para todos e ainda sobravam nos armazéns. Tanta abastança que cresciam também as peças de longos pescoços negros golfando dos baluartes dos Castelos do Mar ou de São Jorge, mirando os horizontes, querendo surpreender os capitéis das naus de pirataria ou de conquista. A singularidade topográfica do pôrto não fugiria ao reparo dos visitantes que gostavam de escrever. O reverendo Baers, participante da investida de Waendenburch, deixaria estas impressões, tão cheias de nitidez como as de Olinda, por êle também traçadas em 1630: Recife é um arrecife que também significa na língua dos Portuguêses e é o nome do lugar; ao sul de Olinda estende-se um banco de areia, geralmente largo de 36 a 40 passos e assaz alto contra o qual bate o mar; seguindo-se uma hora grande ou mais de caminho, pelo banco de areia, acha-se uma aldeia; a um tiro de peça desta aldeia para o lado de Olinda está sôbre o mesmo banco um castelo ou forte de cujo sítio e conquista já falamos. Em frente dêste castelo para o lado do sul que é o lado do mar está também um banco igual estendendo-se de Olinda para o sul, também uma hora de caminho ou mais, porém, nem tão alto nem tão baixo como o outro; no dorso dêste banco bem defronte do castelo do forte há um outro castelo que é uma tôrre octogonal: entre os dois castelos onde a água tem a largura de um tiro de canhão entram os navios e fundeiam em um bom cais com pouca fundura entre os dois bancos e carregam e descarregam na aldeia situada no extremo de um dos bancos onde achavam-se muitos armazéns. Aqui temos uma das páginas mais primitivas de flagrante do Recife do século XVII. Baers fala-nos ainda do rio que nasce dos montes onde se assenta Olinda e se junta a outro que vem das vizinhanças, cercando ambos a aldeia e desembocando no mar entre os dois castelos. Nesse rio "navega-se em chalupas, pequenas barcas ou botes, e saveiros, para Olinda, onde há um cais no qual carrega-se e descarrega-se e assim são transportadas tôdas as fazendas e mercadorias de e para Olinda". Já se dava então a essa aldeia o nome de Recife e, numa profecia tôda holandesa, porque de povo afeito ao contacto das águas, assegura o reverendo: O Recife é naturalmente forte e capaz de ser ainda mais fortificado, porém é Olinda de natureza fraca. O padre Fernão Cardim, nosso visitante em 1583, de tal modo se deixou enfeitiçar pela beleza e opulência de Olinda, em trechos de gabos conhecidos, que não teve olhos para destacar o Recife, por onde transitava vindo de bordo e ao navio regressando. Em compensação Gabriel Soares de Sousa, no seu famoso Tratado Descritivo do Brasil em 1587, dá-nos sempre um quadro do que êle chama de "pôrto de Olinda": Se entra pela bôca de um arrecife de pedra ao sudoeste e depois norte-sul, e, entrando para dentro ao longo do arrecife, fica o Rio Morto pelo qual entram até acima navios de cem tonéis até duzentos, tomam meia carga em cima e acabam de carregar onde chamam o Poço defronte da bôca do arrecife onde convém que os navios estejam bem amarrados, porque trabalham aqui muito por andar neste pôrto sempre o mar de levadio; por esta bôca entra o salgado pela terra a dentro uma légua, ao pé da vila; e defronte do surgidouro dos navios faz êste rio outra volta deixando no meio uma ponta de areia onde está uma ermida do Corpo-Santo. Neste lugar vivem alguns pescadores e oficiais da ribeira, e estão alguns armazéns em que os mercadores agasalham os açúcares e outras mercadorias. O retrato é fiel. Reflete inteiramente o Recife que Lancaster e Venner saquearam por essa época e o que os flamengos encontraram na terceira década da centúria subseqüente. Os assaltos aos fortes do Mar e de São Jorge, êste defendido com denôdo pelo capitão Antônio Lima e aquêle capitulando sem combate por julgá-lo inútil Manuel Pacheco, abriram as portas do "Povo dos Arrecifes" às hostes de Waendenburch já triunfantes em Olinda. E assim, com os percalços da guerra, iria paradoxalmente principiar a fortuna do Recife. O progresso urbanístico, sem dúvida, não teria corrido todo por conta dos holandeses em cinco anos de agoniada ocupação para se oferecer a povoação com um aspecto tão afiançador de desenvolvimento na estampa do livro de Laet. Há mesmo, como documentação dessa anterioridade de importância, alusões, no inventário dos

prédios deixados pelos holandeses, a edifícios de construção portuguêsa no bairro do pôrto. Por outro lado, no entanto, não haveria justiça em ressaltar a prosperidade do Recife após o incêndio de Olinda, e, notadamente, o período de Nassau, que não somente cuidaria da Cidade Maurícia, plantada na antiga Ilha os Navios, mas igualmente estenderia os seus cuidados à península onde se achava o ancoradouro e todos os serviços com êle relacionados. Teria sido dêsses tempos o esbôço de um desenho do velho burgo que todos nós conhecemos no comêço dêste século, na angústia de seus arruados esquivos a larguras, com seus becos arrepiados, com seus trapiches sôbre água, com os seus arcos, com seus sobrados de mirantes. Ali se localizara o Supremo Conselho dos conquistadores, em um palácio. Erguera-se a cadeia. Ostentava-se a Matriz. Enfileiraram-se de pedra e cal armazéns de recolher com guindastes. Rasgaram-se docas de repouso, de consertos e de manobras de embarcações. Traçaram-se mesmo as comunicações improvisadas porventura pela necessidade do trânsito e que viriam a ser a rêde dos arruamentos definitivos e batizados. O futuro bairro de São Frei Pedro Gonçalves sucedeu à Povoação dos Arrecifes. Pátio do Corpo Santo, ruas dos Judeus, da Cadeia, Largo do Pelourinho, Beco dos Tanoeiros, Praia do Trapiche Novo, que viria a ser o Cais da Lingüeta, com as gameleiras e os banquinhos em redor dos seus troncos; Arco do Bom Jesus, areal de Forade-Portas, por onde se passava debaixo das baterias alertas do Brum e do Buraco. Perto do Arco do Bom Jesus ficava o fortim do Quebra-Pratos, alcunha provinda dos estragos na louça da vizinhança quando as velhas peças salvavam. Em 1850, por exigências do tráfego, disseram, o Arco foi abaixo. O próprio Bispo, consultado, opinara: o Arco não convinha mais. Retiraram, em procissão solene, as imagens. O Bom Jesus das Portas, Santo, Antônio e Nossa Senhora do Rosário, em charolas, aos ombros das autoridades, o Presidente Marquês do Paraná inclusive, foram levados à Madre de Deus para altares de improvisação e teto de empréstimo. A Irmandade recebera seus 3:200$000 e achou bom o negócio. História, tradição, pitoresco, importam pouco. A população gostou da procissão fora da Quaresma, e do desfile, em guarda de honra, do 2º Batalhão de Fuzileiros. Alegria geral, sobretudo dos urbanistas da época. Contudo, dias depois, ao arrebentar um cano d'água no subsolo, em ponto onde existira o Arco, falou-se em fonte milagrosa, castigo do céu, e houve quem fôsse molhar a testa e rezar por ter assistido à festança do bota-abaixo. De Maurício de Nassau o bairro de Santo Antônio foi criação. Com o predicamento de cidade. Ao chegar a Pernambuco, apesar de ter de início gabado a terra como das mais belas do mundo, não se deu bem com a morada no antigo burgo dos Arrecifes. Achou os mangues e riachos que envolviam a ilha dos Navios ou de Antônio Vaz propicias a um novo núcleo de habitações. Um quê de Holanda. Planície, águas, futuros canais, intensos aterros. Luterano, achegou-se ao mosteiro dos franciscanos com seu templo. Pieter Post teve o trabalho de desenhar talvez as primeiras plantas brasileiras. Criou-se uma cidade moderna, de feitio a fugir dos moldes lusitanos. Ruas mais amplas, parques, palácios bebidos em influências renascentistas... Pieter traçava, enquanto Franz Post pintava, as paisagens oferecidas pelos rios, pelas ruínas, pelos engenhos... Não se precisava mais recorrer às canoas e balsas: Nassau mandara lançar as pontes de contacto entre a península e a ilha, e entre esta e o continente, a Boa Vista admirada na verdura de seus sítios, de suas estâncias, de seus caminhos, dos torreões de sua morada de verão. Porque das varandas do outro palácio, o Friburgo, seria

o mar, seriam as praias, seriam as colinas de Olinda, quando não fôssem para o sul as curvas litorâneas até o ímpeto do promontório de Santo Agostinho, com aquelas elevações chamadas pelos índios de "Guararapes"... Que formoso panorama o da capital do seu Brasil holandês! Consolava-o mirá-la dos problemas agudos de administração, das combinações de guerras, dos choques de ambição e intolerância da sua gente com os nativos, das injustiças e mesquinharias dos XIX com as manhas de Artichofsky a soprá-las. E se descia as escadarias do palácio, mergulhava nas alamêdas dos seus maravilhosos parques, por baixo das copas das mangabeiras e cajueiros, ouvindo os cantos de galos-de-campina e de sabiás-da-mata, divertindo-se com os sagüís e os tamanduás, apanhando aqui um cajá e ali um araçá, admirando a fúria da onça enjaulada, comparando o colorido das flôres, indo por fim sentar-se a um banco onde não raro vinha palestrar com o Conde-Governador o subtil Frei Manuel dos óculos. Paraíso do mundo... E quantos sonhos na cabeça de Nassau! Diria dêles na Assembléia que tencionava reunir em breve, falando aos escabinos de tôdas as freguesias, flamengos e portuguêses. Nem lhe faltava a blague do boi do Melchior - o conhecido animal de pêlo amarelo, tão manso que entrava nas casas - a voar, na tarde da inauguração da primeira ponte. Sim, o boi iria voar. Quem duvidasse fôsse ver, pagando o pedágio... Encheram-se praias. O rio também se povoou de barcos. Se a ponte grande já era uma maravilha, que diria um boi voar?! E o boi do Melchior voou, mas "de mentira", cheio de palha, puxado por um cordão. - Êsse Conde !... O Conde, antecipando-se, sabia fazer seu reclamo e sua defesa. A ponte quase ficou paga. A cidade crescia e aformoseava-se. O próprio Frei Manuel do Salvador vira Nassau de medida nas mãos cuidando de endireitar as ruas para que nelas todos levantassem casas. Aos domingos a música militar tocava nos jardins para o povo ouvir. As procissões vieram de novo às ruas e as igrejas abriram-se para resmungos dos judeus e queixas dos luteranos. E nas festas de regozijo pela libertação de Portugal do domínio espanhol, a cidade estêve uma semana em rebuliço com os torneios no Terreiro dos Coqueiros. Cenas deslumbrantes de tratos, de destreza, de cortesias que só se haviam visto parecidas na Olinda de antes da guerra dos flamengos. No terreno aplainado ergueram-se os palanques e "teatros de madeira" para se assentar a gente que viesse ver as festas, enquanto as janelas das casas fronteiras eram disputadas. Mancebos de belo porte e de perícia em equitação foram convidados a tomar parte no prélio das argolinhas. Formaram-se assim duas quadrilhas: a dos holandeses, alemães, franceses e inglêses, comandada pelo Príncipe; e a dos portuguêses, capitaneada por Pedro Marinho Falcão. Damas povoavam palanques e batéis. Soavam trombetas e os cavaleiros rompiam em animais ricamente ajaezados: Os portuguêses como todos iam à gineta corriam tão fechados nas selas, e tão compostos, e airosos, que levavam após si os olhos de todos, e principalmente os olhos das damas; porém nenhumas se poderiam gabar que Português algum de Pernambuco se afeiçoasse a mulher das partes do Norte; não digo eu para casar com elas, mas nem ainda para tratar amôres, ou para alguma desenvoltura, como por o contrário, o fizeram quase vinte mulheres que se casaram com os Holandeses, ou por melhor dizer, amancebaram...

O Palácio das Tôrres, construído na época de Nassau Mercado de escravos no tempo do Conde de Nassau

O Palácio da Boa Vista, levantado por Nassau, e uma das pontes lançadas no seu tempo, ligando a Cidade Maurícia (bairro de Sto. Antônio) ao continente. O Torreão do palácio da Boa Vista que ainda hoje existe no Convento do Carmo.

As funções prosseguiram. Dispararam a artilharia, trocaram-se brindes, distribuíram-se prêmios, houve jogos de canas e laranjadas, com tal entusiasmo que senhoras estrangeiras tiraram dos dedos os anéis para ofertá-los ao cavaleiros. Vilhena diria mais tarde: Chamei maravilhoso ao Recife porque verdadeiramente o é por ser uma muralha de rocha viva tirada como à linha que nascendo de muito fundo sobrepuja a superfície do mar quebrando o impulso das altas e furiosas ondas que sempre o estão combatendo como em uma costa brava e que em poucos anos comerão a terra toda em que está fundada a povoação do Recife. O prognóstico de Vilhena felizmente ainda não se consumou, e ao que parece não terá muita probabilidade de objetivação, malgrado as profecias não há muito agitadas entre os crédulos a propósito de chuvas copiosas e de cheias tão velhas quanto a cidade. Mas Vilhena, afora seu vêzo de hierofante, tem pedacinhos saborosos sôbre o Recife. Fala, por exemplo, da ponte que "os holandeses deixaram imperfeita e os portuguêses acabaram". Era a ponte situada no local da atual Maurício de Nassau : Por um e outro lado está povoada de pequenas barracas que por bons preços se alugam para lojas de venda de fazendas e capela que ignoro se a benefício da Real Fazenda, se das rendas da Câmara; há no fim da ponte uma guarda reforçada para evitar tumultos e roubos. Amaral, em Escavações, pintaria melhor essas lojinhas: Com o fim de dotar o govêrno dos recursos necessários para a construção das pontes, mandara Henrique Luís erigir pequenos compartimentos, os quais, no máximo, podiam ter quatro metros de fundo, parte firmada na ponte e outra sôbre a água; esta, porém, era sustentada. por enxaméis de madeira que se ajustavam à ponte. E de fato: apenas concluídos os referidos estabelecimentos não faltaram alugadores, chegando êles a atingir à soma de 800$ anuais, bem alta na verdade para o tempo. Nesses estabelecimentos tudo se mercava, desde as gangas e louça da China, jóias, panos da fábrica, e Chapéus de Braga, até miçangas e quinquilharias etc.; por isso não é exato que nêles somente se vendessem quinquilharias e ferragens, como diz um cronista. Perfeitos magasins, nêles se encontrava do bom ou do mau, em grande escala; e o que é mais de notar por serem estabelecimentos que, como já dissemos, não tinham mais que 4 metros de fundo, e que eram como que vitrinas fixas, porém de muito mau gôsto. Em alta escala era o comércio que ali se fazia que, semanalmente, se renovava o seu sortimento. Alude então Vilhena ao segundo bairro da cidade, que tinha bons edifícios, como o Convento dos Carmelitas Descalços, o dos Capuchos de Santo Antônio, os Barbonos italianos, o hospital da Casa dos Expostos, o ex-colégio dos Jesuítas (agora Palácio dos Governadores). Da Boa Vista, para onde se saía de Santo Antônio por uma extensa e larga ponte dêsse nome, na qual há grande movimento de cavalos e mantimentos, diz: "Há pouco tempo Boa Vista era arrabalde, hoje é bairro". Gaba os sítios e vivendas onde há melões e melancias. Ali os bispos têm um sítio de recreio na Soledade. Há ruas compridas e amplas, nobres propriedades e asseados templos onde existiram casas de campo ou retiros. Nem mesmo os arrabaldes banhados pelo rio escaparam à observação de Vilhena: no verão os moradores buscavam êsses aprazíveis recantos, gostando de banhar-se no Capibaribe ou nêle passeando em barcos, quando não deitados à sombra dos arvoredos. E por fim sentencia: Em nenhuma das capitais de nossas colônias da América se acha hoje mais recato e modéstia nas senhoras do que em Pernambuco. A propósito dessa antiga e pinturesca ponte bordada de lojas já Loreto Couto falava: Entre Recife e Santo Antônio há uma majestosa e soberba ponte que sôbre si sustenta 60 casas de pedra e cal e nelas 60 lojas de mercadores, de longitude de 300 passos com arcos de maravilhosa arquitetura nas duas entradas dela. Tôda esta pomposa máquina está assentada sôbre dois espaçosos e fortes cais de cantaria. E é Loreto Couto que afirma, ainda, possuir o Recife 1.082 casas de 2 e 3 sobrados, feitas no estilo moderno e onde moram homens de negócio com grande comércio, trato, fausto e luzimento. Com o retorno de Nassau aos Países Baixos, iria o Recife testemunhar as aperturas e perturbações dos tempos de insegurança, de injustiças e de lutas. À administração liberal do Conde seguir-se-iam os vexames, as restrições, os despotismos do Conselho Supremo. Todos os revides encontravam pretextos. O povo suportava, retraía-se, esperava... Porque, à sombra das inclemências, conspirava-se, tramava-se a epopéia da Insurreição. Angústias econômicas e anseios nativistas conubiavam-se para a reação, e já João Fernandes Vieira não era mais o palaciano de dantes nem o hábil tirador de argolinhas dos torneios do Campo dos Coqueiros, para se metamorfosear num dissimulado revolucionário, de par com Antônio Cavalcanti, Francisco Berenguer, Amador Araújo e outros. Vidal de Negreiros passara pelo Recife com a capa de ir ver o pai na Paraíba. Cochichava-se muita coisa nas boticas. Os terços de Henrique Dias e de Camarão tinham rompido as fronteiras. E não tardara que se soubesse da batalha das Tabocas e da tomada do engenho de D. Ana Pais, a mulherzinha que gostara tanto dos flamengos a ponto de tomar logo dois para maridos. Ah! tempos duros! Teriam, porém, de acabar. Em cêrco dos patriotas a vida estava-se tornando amarga dentro dos muros da cidade. Tudo pela hora da morte, e... não havia quase o que comer. Farinha-de-pau por 16 tostões o alqueire, laranja a vintém e água salobra a 5 tostões o porte. O General Van Schkoppe, com sua presunção germânica, chegara de novo para acabar com a valentia dos insurretos, levantar o assédio e recuperar as praças perdidas. Até se contava, baixinho, dêle, uma boa. Ao desembarcar teve sêde e pediu água. A de bordo ficara intragável com a travessia demorada. Trouxeram-lhe água num copo de cristal, provou-a e fêz careta: - Diabo! Agua salobra! Explicaram-lhe então que as cacimbas boas tinham ficado da banda do inimigo. Ali todos se contentavam com aquela... O General bufou, mas garantiu: - Eu vou dar água saborosa a vocês ! Preparou a sortida pelos Guararapes e foi aquêle destrôço. Até Van Schkoppe teve

de usar muletas. No ano seguinte, Van Brinck repete a façanha e os patriotas por sua vez dobram a vitória. E o remédio foi mesmo a capitulação de 27 de janeiro de 1654. Os recifenses vieram para a rua a ver o esplêndido espetáculo de Francisco Barreto ocupando a cidade, recebendo solenemente as chaves na Campina do Taborda, à sombra dos canhões do forte das Cinco Pontas. E ainda foi, a cavalo, cortêsmente, acompanhar o general vencido até sua morada. Dia como nenhum outro houvera antes. As igrejas escancararam as portas, o povo encheu-as, os padres entoaram cânticos de júbilo e graças. Os hereges iriam embarcar para sempre. Dali a pouco, de flamengo nem o cheiro... Uma nova época encetava-se no Recife. Os capitães-generais suceder-se-iam no govêrno da capitania, a qual transitaria para a Coroa, pôsto não a houvesse defendido como merecera e até cuidasse de aliená-la com as manobras do Embaixador Coutinho e o "papel forte" do Padre Vieira. Logo de inicio, o Xumbergas, êsse violento e desonesto governador que o próprio povo prendeu, atraindo-o burlescamente a um acompanhamento de Nosso Pai. Em meio do trajeto, dão ordem de prisão ao Capitão-General, que ia pegando na vara do pálio, e embarcam-no para Lisboa, de onde o transferem para a Costa d'Africa. Enquanto a musa popular cantava: A peste já se acabou. Alvíssaras, oh! gente boa! O Xumbergas embarcou. Ei-lo! Vai para Lisboa. O Recife crescera. Da península à ilha e desta ao continente eram três florescentes. O comércio abrangera todos. No da Boa Vista uma larga faixa de mangues posta em enxuto tomara o nome de Atêrro e por ali se alinhara casario de uma bonita rua de moradas e de boticas. Vão-se desenhando as artérias onde as casas se grudam, aproximando balcões e postigos para as palestras de vizinhos e comadres, enquanto à noite, na fresca da viração habitual, as cadeiras também se atraem para os comentários, os entendimentos, os namoros... Por vêzes, segundo contam cronistas, estendiam-se esteiras sôbre as quais se comiam as ceias de caranguejo com pirão de môlho de pimenta, as frigideiras de aratus, e as comezainas de milho verde quando era tempo... Convivência de intimidade, até nos trajos, porque se viam mulheres de cabeções, mal cobertos os seios pelos xales de franjas, e homens de chambre e barretes de dormir. Missas, novenas, lava-pés, sermões, terços, nas igrejas de Santa Cruz, de São Gonçalo, da Soledade, na Matriz tôda feita de pedra de lioz vinda de Portugal... Sociabilidade boa-vistana, como a de Fora-de-Portas e a de São José, em cantorias de mês mariano, em "partidas" de aniversário, em noites de Santo Antônio ou São João com fogueiras às portas, balõezinhos, traques, sortes, adivinhações da clara de ôvo ou da faca na bananeira. Os períodos governamentais de Henrique Luís Pereira e D. Tomás José de Melo seriam de realizações. Reconstruiu-se a velha ponte, transferindo-se as lojinhas para uma praça onde sob arcadas em colunas haviam levantado dezenas de pequenas casas de comércio: a futura Praça da Independência. Ali se vendiam todos os artigos, num mercado sortido e variado. Numa sêca terrível que afligiu a cidade, mandaramse retalhar por preços convidativos partidas de farinha adquirida pelo Govêrno, em combate aos aproveitadores do flagelo (Como é velho o mundo!) Ao chegar essa farinha, anunciava-se ao povo com girândolas e por isso todos acudiam a comprar "farinha de foguete". Coisa semelhante aos tecidos populares de hoje... Praça da Polé, com sua cacimba no meio, onde os negros vinham encher os baldes e os potes. Faz-se o atêrro para os Afogados, obra de vulto. Plantam-se gameleiras nas ruas. Calçam-se algumas delas. Constrói-se um asilo para os leprosos. Aparece um trapiche novo com guindaste para as descargas do pôrto. Põem banquinhos na ponte da Boa Vista, onde as cenas são mais interessantes do que as do teatro público, como diria O Carapuceiro já no século XIX. Porque, nesse tempo, os banquinhos convidavam, à noite, para os cavacos, grupos de todos os matizes e línguas de todos os tamanhos: "A mó dos rabequistas, a mó dos tesouras, a mó dos gamenhos, a mó dos políticos". De tudo ali se fala, tudo se critica: Conversas sôbre o melhor alfaiate, as calças bem ligadas, os penteados de Paris: a cabeça atrás tosquiada e na frente uma gadelha de leão. Cabelos anelados como os novos prédios urbanos - com 3 e 4 compartimentos e um mirante. Insurgiam-se contra o "não se usar mais colête", e numa verdadeira profecia acrescentava-se indignado: - "Breve mangas de camisa". As moças usavam as jaquetinhas com folhos e os homens as sobre casacas franjadas em roda da cintura. O chapéu alto passava por uma crise, pois ao avistarem-no gritavam irônicamente: - "Olha o baú!" As mulheres à-toa exibiam-se na ponte cheirando a massapê e água de lavanda. Andavam "ao fanico". A ponte era fértil de malícias. E de pecados. A verdade é que o Recife já podia se ufanar dêsses progressos sociais porque, brincando, brincando, completara seus três séculos de existência e já fizera sua revolução para lhe darem o título de vila, muito merecido, sim senhor. Olinda, depois dos flamengos, nunca mais voltara ao fastígio de antes. Os homens práticos da Holanda haviam ensinado como era robusta tolice encarapitar-se uma povoação em montes quando poderia se estabelecer à beira-mar com um ancoradouro que a própria natureza riscara. Agora, tarde! Podiam os olindenses torcer o nariz, mangar, dizer nomes feios, chamar-lhes de "mascates", podiam... Não valia a pena. A gente do Recife é que tinha o dinheiro, enquanto os senhores de engenho de Olinda viviam de "glórias", de títulos, de saudades da grandeza perdida. Falavam em nativismo: da banda do Recife também havia filhos da terra que não queriam ser reinóis nem mazombos. Legítimos mestiços, "pés-no-chão". Os anos iriam provar. E assim o Recife foi vila também. O século XIX amanheceu cheio de novidades. Soubera-se antes dele, por pilotos e mestres de equipagens vindos nas barcas do Reino, de histórias tenebrosas da França. Cabeças de reis e de fidalgos cortadas como se cortam as das galinhas e capotes. Homens pregando liberdade e afirmando serem iguais todos os viventes. Que rei por vontade de Deus era bobagem, invenção para viver à tripa fôrra à custa dos pobres. E que o povo tinha que governar também, impondo as leis aos soberanos... Constitucionalismo... Histórias vagas, mal sabidas. Um ou outro doutor vindo de Coimbra explicava melhor. Mas as novidades borbulhavam. Um capitão de artilharia, nessa diabólica França, passara a imperador e tomara para si quase tôda a Europa. De parentes seus fizera reis como se fôssem de congadas. E tanto ameaçara o Príncipe Regente de Portugal que êle com tôda a côrte, fidalguias, gente assim, trazendo trastes e papeladas, mudara-se para o Brasil. Os recifenses andavam de olhos no mar à espera de barcas com mais desadoros de notícias... Se até um rei viera parar na Baía! E agora, com os portos abertos ao comércio do mundo, já a França serenada, entravam com as modas, as costureiras, as francesias de Paris através de livros e jornais. Soubera-se direitinho de tudo que se espalhava pelo universo. Os países da América não queriam mais ser colônias. O Padre João Ribeiro, do Seminário de Olinda, formara uma biblioteca, e quem quisesse ir lá ver essas obras afoitas... Que rei mais, que nada! República... É em 1816 que desembarca no Recife, sôfrego de negócios, um francês, Tollenare, e por entre as páginas de um seu diário podemos viver um pouco na cidade daquela época. Num domingo, 17 de novembro, êle, de bordo, nos pinta êste quadro hoje ainda familiar a nossos olhos: O mar estava coberto de jangadas ou pequenas balsas do país, nas quais os negros pescadores se aventuram com uma audácia assombrosa. As jangadas se compõem de três pedaços de madeira de 12 a 15 pés de comprimento, e 8 a 9 polegadas de largo, apenas esquadriados e ligados por travessas; uma delas é munida de um buraco no qual se implanta o mastro que suporta uma vela triangular de algodão; na outra há um pequeno banco de dois pés de altura sôbre o qual se acocora o pilôto, a fim de colocar-se um pouco ao abrigo das vagas que a todo instante alagam a embarcação. Tollenare prossegue nas suas deliciosas descrições, e mal desembarca tem o que contar do que vê. Na Lingüeta vê negociantes trajados à européia, conversando; repara nos sobrados de três e quatro andares do bairro da península, nas ruas geralmente estreitas, nas lojas sortidas de mercadorias da índia e da Inglaterra, e sobretudo ferem-lhe as vistas os negros. Mulheres dessa côr a vender bugigangas e guloseimas pelas ruas, e grupos de negros de tôdas as idades e todos os sexos, vestidos de uma simples tanga, acham-se expostos à venda diante dos armazéns. Êsses desgraçados estão acocorados no chão e mastigam com indiferença pedaços de cana que lhes dão os compatriotas cativos que encontram aqui. Estende-se na apreciação do mercado de escravos e não deixa de acentuar certos encantos voluptuosos das raparigas de "gargantas de Hebe e seios túmidos". Para a ilha de Santo Antônio atravessa-se uma ponte arruinada e entra-se em uma praça quadrada onde se construía um mercado coberto para substituir as lojinhas da ponte: queijos flamengos, bacalhau, biscoitos, e também ourives trabalhando em jóias maciças. As casas são na maioria térreas e não têm ainda vidraças, ornadas de caixilhos gradeados de madeira com charneiras para abrir e fechar. Era por êles que as mulheres de então espiavam a rua e a furto estendiam o braço para entregar uma flor ou receber uma missiva. Por fim, o francês parra à Boa Vista e ali tem impressão mais folgada: "é mais alegre e mais moderno". Ruas e calçadas largas, casas bonitas de gente rica, e entre elas atinge-se o campo, onde há vivendas de recreio. Ali descobre a "libré da preguiça", mas vê também a almofada de fazer renda. Aqui, uma outra tela sugestiva: A ponte que conduz de Santo Antônio à Boa Vista serve de passeio durante as belas noites dêste clima; é guarnecida de bancos; o panorama que dali se descortina é encantador; ao Norte vê-se a cidade e os pitorescos. oiteiros de Olinda; ao Sul o rio Capibaribe, o atêrro dos Afogados e também o Oceano. Canoas indígenas, escavadas num só tronco de árvore, conduzidas por negros nus e munidos de compridas varas, cruzam-se em todos os sentidos sôbre as águas mansas do rio; no horizonte as ligeiras jangadas, com as suas velas triangulares, são o joguete das ondas agitadas.

Nesse Recife do comêço do século XIX não havia quase onde um visitante se hospedar. Daí o hábito de hospedar particularmente as pessoas amigas. "Aliás os costumes da terra não consideram decente morar-se em hospedaria." Havia apenas duas ou três seges de dois lugares, e as senhoras andavam muito em cadeirinhas ou palanquins , O teatro só se abria aos domingos, e isto mesmo sem regularidade. Raramente se viam senhoras nas ruas, mas com freqüência "camélias" de tôdas as côres. "Existem intrigas com mulheres casadas, porém expõem a facadas." Tollenare assiste, no Recife, a tôdas as peripécias da revolução de 1817. As "francesias" tinham fermentado nas almas dos pernambucanos, que sonhavam com a independência e a república, a ponto de no dia 6 de março o movimento irromper. Era o mata-mata-marinheiro, o fecha-fecha, o corre-corre nas ruas. Tiros. A artilharia de Antônio Henrique toma a ponte. O Governador, de quem se dizia irônicamente que era Caetano no nome, Pinto no tamanho, Monte na altura e Negro nas ações, capitula na fortaleza do Brum, e forma-se a junta governativa, com Domingos José Martins, Capitão Domingos Teotônio Jorge, Dr. José Luis de Mendonça, Padre João Ribeiro, e Manuel Correia de Araujo, agricultor. Não se fala noutra cousa. Há entusiasmos e há receios. O rei D. João VI ali no Rio seria capaz de muita severidade para dominar os revoltosos. O francês dá seu testemunho, aliás eivado de parcialidades, com um vêzo europeu de não crer muito em nossa capacidade para autonomia política. Demais, por ciúmes de negócios, hostil a Domingos José Martins... Pecúnia... Mas a revolução, nada obstante o júbilo, os ensaios de organização, o idealismo dos cabeças, as festas pomposas da bênção das bandeiras no Campo do Erário, é jugulada pelas tropas de Cogominho Lacerda e pela armada de Rodrigo Lôbo. Dias de ansiedades, de temores, de lutas e desânimos. Depois, as sentenças e os enforcamentos no mesmo Campo do Erário que meses antes se enfeitara de galhardetes e folhagens, ouvindo hinos, salvas e vivas , A tudo Tollenare presenciou, e ao embarcar na Lingüeta, de regresso à França, viu ainda a cabeça do Padre João Ribeiro espetada num pau, para escarmento dos futuros rebeldes. De nada terá servido, porque em 1821 os pernambucanos de novo se levantam contra o governador Luís do Rêgo Barreto e pelas armas lhe impõem renúncia e embarque para Lisboa. Luís do Rêgo, sem embargo de atos administrativos elogiáveis, e de realizações como a nova estrada para Olinda pelo atêrro da Tacaruna, tanto se desmandara contra os suspeitos de conivência com a revolução de 17, que provocara a reação nativista. Todavia, o general lusitano apreciara a seu jeito os prazeres de nossa terra, mormente nos suculentos almoços bem regados de vinho no palacete do capitalista Bento José da Costa, ex-sogro de Domingos José Martins, ali na Ponte d'Uchoa. Maria Teodora já se esquecera do marido e das lindas núpcias em pleno apogeu revolucionário. Les morts vont vite, diria Tollenare. Nesses dias agitados de combates contra Luís do Rêgo visita o Recife a inteligente e perspicaz espôsa do comandante da fragata inglêsa Dóris - Mary Graham. Essa inglêsa, no seu turismo do tempo, deu-nos também boas páginas de suas observações do Recife. Percorreu ruas com o comércio fechado por causa dos barulhos, visitou a família do governador, tendo tido excelente impressão da maneira por que fôra recebida; conversou em francês e tomou refrescos de frutas da terra; andou nos arrabaldes, que a encantaram pela variedade vegetal e pelas aves canoras ou de bela plumagem; visitou templos e observou, com agrado, as casas da Boa Vista com seus jardins e pomares. Acha a cidade agradável e limpa, com temperatura magnífica.

Surpreende-se de andar ao sol e ser acariciada pela brisa. Atravessa as pontes: que bonito o rio! Na estrada para o "sertão" vê matutos de chapéu e gibão de couro. E chega até aos quartéis-generais do govêrno e dos revoltosos, em Beberibe, passando entre tropas, sentinelas avançadas e canhões assestados. Uma esplêndida vilegiatura... E Mary Graham, quando deixa Pernambuco, faz ainda um conceito cuja exatidão não se tardaria a positivar : Deixamos Pernambuco na firme persuasão de que pelo menos esta parte do Brasil jamais se submeterá pacificamente a Portugal. O Recife entrara num firme caminho de progresso. E rápido, porque Koster, visitante inglês que nos legou um livro maravilhoso de seu quotidiano no Brasil, anota a diferença de aspectos e costumes num período curto decorrido entre sua primeira e sua segunda vinda à nossa cidade. Êle já fizera uma descrição interessante ao ter um contacto inicial com o Recife, particularizando os cenários de seus bairros, e agora escrevia: Notei uma modificação considerável no aspecto do Recife e de seus habitantes, embora minha ausência fôsse de curta duração. Várias casas tinham sido reparadas, e as rótulas, sombrias e pesadas, foram substituídas pelas janelas com vidros e balcões de ferro. Algumas famílias haviam chegado de Lisboa e três outras da Inglaterra. As senhoras das primeiras davam o exemplo indo às missas a pé, em plena luz solar, e as damas inglêsas adquiriram o hábito de passear tôdas as tardes, por distração. No capítulo da indumentária acrescentava Koster, tão nosso amigo que ficou conhecido por "Costa": As fazendas de cetim e sêda, tornadas de uso normal para roupa nas festas e dias-santos, foram logo vencidas pelas musselinas brancas e de côr, e pelos tecidos de algodão. Os homens que antigamente compareciam todos vestidos de prêto, com fivelas de ouro e tricórnio, não faziam grande questão de substituí-los pelas calças de nanquim, meias-botas e chapéus redondos. As cadeirinhas tornavam -se mais elegantes e leves. Construía-se bastante e os fabricantes de tijolos enriqueciam com a procura do artigo de cerâmica. A igreja do Corpo Santo, remodelada, ficara pronta. Os arrabaldes entravam a ser tidos em aprêço. Já Tollenare se ocupara pinturescamente do de Poço da Panela, onde vira moças banhando-se no rio e até se afoitando a mostrar, fora do aconchego dos banheiros de palha, curvas encantadoras dos corpos... O "passar a Festa fora" tornava-se um regalo, e não tardaria que se estabelecesse o tráfego dos ônibus a cavalos para Ponte d'Uchoa, Monteiro, Apipucos e Caxangá. O "mato" era a frescura no verão, as fruteiras peladas, os chalés de azulejos, os solares de sótãos e terraços de pedra de lioz, os caramanchões perto dos muros para ver quem passa, as figuras de louça do Pôrto, a vida regalada da mesa farta, do leito macio e das palestras convidativas. Sem falar na dança, nos jogos de vispora ou gamão, nas músicas e nos cantos ao piano. As famílias dos comerciantes, afeitas à moradia nos sobrados, por cima das lojas, embora com o prazer dos mirantes e dos torreões, gostaram do verão nos arrabaldes. Os mirantes preponderam em muitos dos prédios dos antigos bairros do Recife: eram as sotéias, de excelente vista para o mar e para os campos. Ponto de reunião, à noite, para palestras e sonecas. Jardins de inverno... Noites estreladas ou de luar. As vizinhas mais intimas subiam até lá. Chá com sequilhos e tortinhas, licor de genipapo, garapas de maracujás... E a paisagem do alto. Tudo chão, tudo visível, tudo amplo. A planura interrompida de quando em quando pelo enxerimento potâmico. As pontes acolchetando os bairros. Massas verdejantes de cajueiros, de mangueiras, de coqueirais. Distantes colinas. Os próprios mangues alimentavam motivos de encanto nas subidas das marés em largos espelhos d'água. E mais praias, jangadas, velhos fortes, matas, debaixo de um céu sem um fiapo de nuvem. Mirantes... refúgio das sinhàzinhas, das mocinhas esquivas e amorosas, que de lá contemplavam, na esquina, embaixo, o gamenho tímido, de flor ao peito e olhos gulosos... Os arrabaldes tinham criado outros quadros. Cada um a gabar o seu, predileto: Caxangá não era nem o poético Apipucos, nem o aristocrático Jaboatão, nem o suntuoso Poço, nem a gentil Olinda, nem a européia Passagem, nem a orgulhosa Ponte de Uchoa, mas é o humilde Caxangá onde as famílias parecem ser uma só família. Êsse trecho pinta a psicologia dos arrabaldes do século passado. Vários dêles possuíam hotéis - hotéis, sim senhor. E hotéis que se anunciavam nos jornais com elogios aos cômodos, ao banho de rio, à comida, aos bilhares, ao transporte. E que dizer dos que tiveram teatros e clubes de danças - ou, melhor, "partidas"? Prestigiavam-nos também as novenas e festas dos padroeiros. Algumas, como as do Poço, do Monteiro, do Monte, tinham fama que chegou até os nossos dias. As coletas para essas festividades, precedidas de cortejos encantadores levando a bandeira a hastear, interessavam a todos. Havia a espórtula gorda do senhor de engenho ou do comerciante em grosso, e as modestas dos moradores mais simples: Professôra do Monteiro........................... 2$000 D. Amalinha pianista ….......................... 1$000 Franceses da casa de Sr. Gaspar................. 5$000 Criada do Lagrange …............................... $500 Marocas em casa de Cazuza …................... 2$000 Mestre de meninos ….............................. 1$000 E assim por diante, saborosamente. Pouco a pouco os arrabaldes passavam a ter habitantes fixos. Botaram luz a gás. Melhoraram os caminhos. Apareceram cabriolés e berlindas. Veio o trenzinho suburbano. Cresciam os núcleos intermediários entre os subúrbios populosos. Perdera-se o preconceito contra o "mato", contra "um fim de mundo". Nasceram as residências nos extensos sítios, com' a casa envôlta pelas árvores, a cacimba de água gostosa, o copiar aberto à viração, o viveiro farto de peixes, a cocheira para os cavalos de montar e os de puxar a sege. Entre vários outros visitantes do Recife, no século XIX, uns de morada provisória e outros em mero trânsito, como o francês Biard, houve um reverendo protestante, Daniel Kidder, que aqui demorou e fêz sua propaganda religiosa distribuindo bíblias e

folhetos luteranos, segundo confessou, até ao ingênuo sacristão da igreja-matriz de São José, que percorrera. Kidder hospedou-se em um sobrado, parece, da Lingüeta ou arredores. Descreve-o em todos os seus andares, e faz o elogio do panorama descortinado das altas janelas. Tinha o prédio 6 pavimentos. O primeiro ou térreo era armazém, e à noite ocupavam-no empregados do sexo masculino. O segundo, escritório; no terceiro e quarto havia salas de visita e quartos de dormir; no quinto, sala de jantar, e no sexto a cozinha. Havia, nota o Padre, vantagens em ser a cozinha tão em cima, para dar vazão à fumaça; mas, por outro lado, que custo para chegarem até ali as provisões, o combustível, a água... Temia até que os baldes tombassem da cabeça dos pretos ao subirem as escadas. Kidder, como todos os visitantes, admira o recife que desenha o ancoradouro, e descreve-o com pormenores. Depois de mostrar seu encanto pelo aspecto externo de Olinda, que, mais tarde, acharia certamente vazia e monástica, Kidder esboça uns quadros da cidade, pelos bairros. O do Recife, a que chama de São Pedro, conserva prédios antigos com seus balcões de madeira trançada ou gelosias. A principal rua é a da Cruz, antiga dos Judeus, e hoje Bom Jesus. Kidder confunde-a, no trecho que ganha a ponte, com a da Cadeia. "Santo Antônio é a parte mais bela da cidade." Ali existe o Palácio do -Govêrno, e o Arsenal de Guerra, a cuja frente fizeram um novo cais - o Passeio Público, aliás. Tinha bancos pintados de verde para comodidade do público. Fala Kidder na praça aberta para mercado, a nossa Independência, e reputa espaçosas e elegantes as ruas que para ela confluem. A Boa Vista esmalta-se de casas de campos, e Kidder alude a vivendas à beira do rio com estátuas de louça. Contaram-lhe que, sendo uma dessas casas de moradia de um ricaço cuja fortuna se fizera à custa de escravos, um gaiato certa noite lhe pintara de prêto todos os calungas do sítio... Sai a passeio Kidder pelos arrabaldes. Quem não se deixa fascinar pelas suas belezas naturais? Mondego, Soledade, Manguinho, Ponte d'Uchoa, até Beberibe. Viu a Várzea. Atravessou o rio em canoa. Percorreu igrejas e fêz sua critica ao catolicismo, puxando a brasa para sua sardinha. Mas não pôde ocultar sua emoção certa noite, de volta de uma excursão ao campo. O pastor assistira na véspera a uma novena em honra da Senhora Sant' Ana, e não gostara. No entanto, no outro dia... É melhor deixá-lo confessar: Interessou-me muito mais o espetáculo que presenciei na noite seguinte, quando, ao voltar de um passeio a cavalo nos arrabaldes, dei com uma multidão reunida em frente à capela do convento do Carmo. Nada menos de cento e vinte pessoas estavam ajoelhadas ou de pé, no adro lajeado, cantando uma novena diante da imagem da Virgem, que os contemplava do alto de um nicho na fachada da capela. As mulheres estavam postadas em redor dum grupo central de rapazes que faziam de côro. Não havia luzes além da lua brilhante, que dava um encanto peculiar à cena, ao passo que as vozes estridentes dos devotos subiam no ar tranqüilo da noite. Louvemos êsse sacerdote luterano, perdoemos-lhe a perfídia das bíblias metidas nas mãos do sacristão de São José, que lhe mostrara tão solícito e confiante na sua fé todo o templo, por êsse quadro magnifico de uma das cenas mais comuns no Recife de antanho: o têrço cantado defronte dos nichos que tanto povoavam as ruas da cidade. . Estava-se então em 1838. O Recife não diferiria do da planta de 1844 publicada na obra Memórias Históricas da Província de Pernambuco em 1844, e na qual se pode ver bem o perímetro da urbs nessa época. O traçado seria o mesmo que no século

XVII foram impondo ao povo dos Arrecifes e que Nassau esboçaria para sua Mauricéia - o bairro de Santo Antônio. Não havia senão as pontes do Recife e da Boa Vista. - Do Largo do Hospício para Santo Amara indicava-se na planta um Bairro Novo, e o Atêrro de Afogados iria ser "de grande futuro". O arruado no bairro da Boa Vista, ao que se revela no desenho, não ia além do Pátio de Santa Cruz, havendo apenas em seguimento dêste um caminho que ia ter à chamada Trempe, onde se unia com a Rua do Cotovêlo, dando motivo à denominação tão familiar nas bôcas de nossos avós. A Trempe corresponde a uma zona atualmente no encontro da Rua do Sebo com a Visconde de Goiana. Outro caminho no bairro era o que, iniciando-se na Rua do Pires, seguia pelo Corredor do Bispo e atingia o Palácio Episcopal. De permeio a essas duas vias sem edificações de monta ficavam os terrenos baldios, os imensos sítios, e para diante o "mato". Indicam-se na planta o Teatro Novo, sem dúvida em construção, pois só se inaugurou em 1850, e o Teatro Velho, a Casa da ópera ou Capoeira, defronte do convento de São Francisco. Os outros nomes emotivos e sonoros de nossos templos lá se acham, e faz bem repeti-los para que a lembrança da sua idade os torne - aos que nos restam! - mais dignos do carinho dos contemporâneos e dos pósteros: Matriz do Corpo Santo, Convento da Madre de Deus, Arco do Bom Jesus, Conceição da Ponte, Nossa Senhora do Pilar, Conceição dos Militares, Rosário, Livramento, São Pedro, Nossa Senhora da Penha,dos Martírios, do Têrço, Santa Rita, São José, São Gonçalo, Santa Cruz, Glória, Recolhimento da Conceição, Jerusalém... Que formosa ladainha de piedade, de orações, de culto dos nossos antepassados e de nós mesmos! O prestígio e o perfume do Passado. Recife de 1844. Cem anos. Cenários e figuras que as velhas estampas nos ressuscitam. Velhas estampas com seus casarões de abalcoados, suas negras vendedoras pelo meio das ruas, seus grupos de homens de cartolas conversando, suas famílias saindo das igrejas e cortejando-se, seus comerciantes acorrendo ao correio em busca de cartas da Côrte ou do Reino, suas damas de sombrinhas tomando a diligência ou despedindo-se de parentes no cais do Trapiche, seus escravos carregando fardos ou empurrando carroças, seus aguadeiros de baldes à cabeça, suas noites de luar nos banquinhos da ponte... O centro da cidade ia numa animação de melhoramentos. O Teatro Novo substituindo o "Capoeira". Na "imunda praia do Colégio", o Passeio Público. Que atração! Diziam que as mulheres casadas maldiziam êsse logradouro porque os maridos reentravam tarde nos lares a pretexto de terem ficado em conversa no Passeio Público. Paraíso das "camélias" de sandálias de cetim e xales de toquim.. As ruas iam-se transformando: calçamento, lampiões, calçadas. O cordeador já oferecia ensejo para se arborizarem certos trechos urbanos como o Largo do Colégio, a Ribeira, o Pátio da Santa Cruz, o Atêrro dos Afogados, as ruas do Sol, da Aurora, da Cadeia... Os moradores eram convidados a plantar aroeiras, gameleiras brancas e vermelhas, espinhode-judeu, trapiá, visgueiro, caneleira ou mangueira... De um exame comparativo das gravuras do tempo pode-se deduzir quanto o Recife mudara. Entre uma Rua do Crêspo, da gravura de Shlapitz, com o ônibus, e a de Carls, com o bonde de burros, há um mundo de realizações municipais e privadas. Na arquitetura, na via pública, nos transportes, no movimento, nos tipos, nos trajas. A Municipalidade estabelecera em 1849 : Locais para enterrar animais mortos: areal do Brum por um e outro lado; areal das Cinco Pontas ao correr do matadouro. Locais para açougues: Ruas da Guia e Fora-de-Portas a partir da primeira travessa

à direita até o Pilar - Pátio do Paraíso, inclusive becos que dão saída na Rua de São Francisco - Casinhas da. Ribeira do Mercado, e Açougue Público. Para Matadouro: o existente e os Coelhos. Para capim e lenha: Velho Pôrto das Canoas, Praça de Santo Amaro, outrora Mundo Novo. Para hortaliças e frutas: Rua da Cruz, Largo do Paraíso, Ribeira e dentro da Ribeira da Boa Vista. Para soltar foguetes e bombas: Santo Amaro e Ilha de Ana Bezerra. Os despejos também não se efetuavam mais ao capricho dos escravos ao esvaziar os "tigres". Havia pontos determinados. Não mais em qualquer canto, como, por exemplo, perto da estação inicial da maxambomba. As águas servidas, por sua vez, se lançadas de sobrados teriam de obedecer a um aviso prévio e repetido: "Água vai!" Isso, a princípio. Agora, nem assim. As lojas retiravam as "feiosas empanadas". Os almocreves não entrariam na cidade montados nos animais nem tampouco de camisa por fora das calças, (Não existia ainda o têrmo americano: slep.) Reclamava-se contra os abusos de pedintes de esmolas para os santos - de opas azuis, vermelhas ou verdes, com bandejas onde se exibiam imagens cercadas de dinheiro e até de ovos... As varandas de pau dos prédios iam sendo substituídas pelas de ferro, e tiravam as tapagens de madeira entre as varandas das casas, o que provocava protestos dos que gostavam de chegar a elas de chambre ou de cabeções, longe das vistas indiscretas dos vizinhos de parede-meia. Pegavam-se nas ruas porcos, galinhas, patos e cabras (bichos). Posturas severas: os moradores eram obrigados a varrer as frentes dos prédios e limpar as fachadas dos mesmos em tardes de procissão. Depois a ordem passou a ser diária: das 6 da manhã às 9, e à tarde varredura e irrigação, sob pena de multa. Proibidos carretos pelas calçadas, carros sem luzes, galopes a cavalo, buscapés e ronqueiras, venda de aguardente a escravos, trânsito dêsses cativos depois de 9 da noite sem "bilhete dos senhores", tráfego de veículos nas quintas e sextas-feiras maiores, permanência de pretas quitandeiras em certos pontos da cidade, como por exemplo na calçada da Matriz da Boa Vista, onde faziam derriços com os negros... As cantorias dos pretos carregando fretes também estavam sendo condenadas, por monótonas e prejudiciais à saúde - duplo esfôrço sem necessidade. Nem sempre as medidas achavam cumprimento fácil. O fiscal da freguesia de Santo Antônio queixava-se à Câmara Municipal de não lhe ter sido possível "desavesar as pretas quitandeiras da Rua do Rosário largo". Os carros de bois insistiam em passar pelas ruas do centro, e havia quem defendesse êsse costume revelador de atraso, porque o açúcar não tinha outro meio de vir dos engenhos para o cais de embarque. "O govêrno só fazia prometer trem, e nada". Êsses carros ainda rodavam pela Rua da Imperatriz quando já se viam bondes, pois um dêles colidiu, certa manhã, na aludida artéria, com um pesado carro puxado por três juntas de bois. Também se viu um cavalo de matuto, assustado, disparar Rua Nova a fora puxando um palanquim cujos varais com a rédea se embaraçaram. Medidas de estética exigiam largura nas ruas e travessas novas: estas 40 palmos, aquelas 60. Abriam-se novas comunicações. A da Esperança, na Boa Vista, que hoje é o Caminho Novo, ou Conde da Boa Vista. A dos Quartéis foi alargada, desaparecendo o prédio que lhe dera nome, famoso pela estocada de Leão Coroado no Brigadeiro Barbosa, em 1817. O Campo do Erário, depois das Princesas, embelezou-se com o Teatro Santa Isabel, o Palácio do Govêrno e o jardim. O Bêco do Tambiá, pertinho da praça já crismada de Maciel Pinheiro, foi alargado, e nasceu a Rua da Intendência, hoje Manuel Borba. Ajardinam-se a Praça do Colégio, a Maciel Pinheiro, outrora do Moscoso e Conde d'Eu; inauguram-se pontes de ferro para substituir as velhas e arruinadas de madeira, da Boa Vista e do Recife. No intervalo das obras constroem-se passadiços provisórios, a pedido dos comerciantes das ruas Nova, da Imperatriz, do Crêspo. Em 1866 outra ponte na cidade: a de Santa Isabel, e mais tarde a Buarque de Macedo. E um francês, Nicolau Gadault, pelo meado do século passado, loteava terrenos de sítios onde nasceria o bairro da Capunga em que "como por magia, ofereciam-se aos olhos do observador arruados com população crescida." Em 1850 o Cemitério Público de Santo Amaro. Não se fariam mais enterros em igrejas. Repulsa, queixas, escrúpulos. Incidentes, até cadáveres retirados clandestinamente das catacumbas. Foi preciso agir pela fôrça. A guarda cívica interveio. Depois, como sempre, veio o costume, e as irmandades construíram sepulturas no cemitério para seus irmãos. Benzera-se a capela do Redentor. E como na época só se enterrassem no sagrado os católicos, fizeram ao lado outro cemitério, onde se enterravam de preferência os suicidas: era o dos Enforcados. No govêrno do Barão da Boa Vista uma febre de melhoramentos: água encanada, teatro, calçamento mais extenso, cais, caminhos modernos. A população aumentava. Em 1840. o bairro do Recife tinha 1.858 fogos, com 1.893 habitantes; Santo Antônio, 3.545 fogos, com 4.300 habitantes; Boa Vista, 3.107 fogos, com 3.173 habitantes; e Afogados, 1.943 fogos, com 2.061 habitantes. Em sítios, como na rua do Sebo, anunciavam-se terrenos para a construção de casas em rua a ser aberta. Aterravamse alagados nos fundos do Convento do Carmo e defronte do Hospício dos Frades de Jerusalém. Também se oferecia um terreno de 70 palmos de frente e perto de 100 de fundo por detrás das casas da Rua Nova, da banda do norte, e onde se acha um estaleiro de canoas". Na Soledade: Aluga-se ao lado da igreja um pequeno sítio com árvores frutíferas e cercado de alto muro, com sofrível casa de vivenda, capaz de arranjar duas famílias, portão de lado e duas cacimbas de boa água com tanque. Também a Rua Imperial, "que está com disposição de ser uma das melhores da cidade", dispunha de chãos novos com fundos suficientes para quintais. E comprava-se uma morada de casa térrea em Santo Antônio ou na Boa Vista por 800$ a 1.000$000, metade em patacões e o resto em ouro. Por volta de 1867 concedera-se isenção integral de décimas urbanas ou qualquer outro imposto provincial à Companhia Edificadora de Francisco Maria Duprat, por 40 anos, para construir casas de morada. Havia um projeto de abertura de ruas e travessas na Campina da Casa Forte. O cordeador recebeu pela planta 7$680. Os moradores do Recife já se tornavam zeladores da boa fisionomia da cidade. Queixavam-se freqüentemente. O Beco do Caju, por exemplo, era um monturo de lixo. (Quem espera os ônibus na Sulacap, hoje, mal sabe disto!) Em frente da Ponte de Santa Isabel havia matas de jurubebais que serviam para "prática de torpes atos", bem no caminho do trem de Apipucos. Debaixo das gameleiras da Praça do Comércio jazia um prêto velho, leproso, magro, quase nu, abandonado pelo dono por imprestável. Na Rua Direita um realejo atormentava os vizinhos. Num cortiço da Rua do

Sossêgo, no escuro, prisioneiros paraguaios "divertiam-se" com mulheres e inválidos da pátria, em regabofes e patifarias. E mais: o bairro do Recife muito sujo. Na Boa Vista ruas intransitáveis com as chuvas; precisavam os moradores de pernas de pau. Uma lagoa onde se ouve "sapo-cururu na beira do rio", bem no Largo do Chafariz. E o areal da Rua do Hospício onde será construído o "decantado Passeio Público"? Versos reforçavam as criticas: Mamoeiros, embaúbas, Cafés baratos, trapiás, São ornamentos das ruas Tiririca e araçás. Cabras, bodes, porcos grandes, Bacorinhos e timbus Cruzam as ruas de dia, Sem-vergonhas, quase nus. Qualquer súcio novo ou velho À luz do Sol ou da Lua No cais chamado de Apolo Vai lavar a pele sua. Não clamo porque se lave Todo e qualquer maganão; Mas é que essa brava gente Banha-se em trajo de Adão. No tempo do Conde da Boa Vista as casas foram numeradas. Do norte para o sul e de leste para oeste em números pares e ímpares. Seriam numeradas mesmo as que não pagassem décimas. Deveriam acrescentar-se letras aos números dos prédios levantados de permeio. Placas com os algarismos brancos sôbre fundo prêto. Também adotado o modêlo para as placas dos nomes das ruas. Começariam a desaparecer aquelas indicações expressivas de então: Rua do Nincho, Beco que vai para a igreja, Rua que vai dar na ponte, Travessa por detrás da cadeia, Rua do sobrado amarelo de azulejos, Largo do Capim, Caminho da Trempe, Estrada das Ubaias, Passagem da Madalena, Rua do Sebo, Rua do Peixoto, Campina do Chora-Menino, Beco do Sarapatel, do Cirigado ou da Luxúria, Atêrro da Boa Vista - uns que morreram nas bôcas de hoje, outros que permaneceram a ponto de a Municipalidade sàbiamente oficializá-los. Em 1870, vencida a Guerra do Paraguai, houve uma febre de mudança dos nomes das ruas, como no comêço da República, em homenagem a heróis da luta e políticos em evidência. Felizmente, entre nós, essas crismas cessaram e as ruas voltaram a seus apelidos antigos, verdadeiras certidões de batismo e suas próprias histórias, dentro da história da cidade. Alcançaram-se assim os derradeiros lustros do século XIX, que tão alvoroçado nascera. As festas da Abolição enfeitaram a cidade por mais de uma semana. A Lei Áurea iria tirar ao Recife muitos aspectos peculiares à escravatura. Os pretos tornavamse, petulantemente, "tão bom quanto tão bom". Humanamente, opinavam os simpáticos ao término do regime servil, discordando dos escravocratas, tão poucos! Cuidava-se agora da república. Só mesmo a república daria ao Recife o que êle precisava para maior progresso. Luz a gás, bonde de burros, não bastavam. Na América do Norte havia coisas superiores. Demais, o século estava velho e bambo. O outro, prestes a chegar, iria ser o das maravilhas. Mesmo assim, o trono ruiu no que agonizava. E quando, a 1 de janeiro de 1901, o século XX rompeu, entre romarias, salvas, orações e festas populares, muita gente resmungava contra a república. Não fôra "a dos seus sonhos". O Recife continuava a ter seus ares provincianos. Vida quieta, burgo em que todos se conheciam, em que se falava do "tipo estranho" a viajar num bonde ou a passar pela Rua do Crêspo, conversas nas calçadas, compras em trajos mais à-vontade de noite... O comércio varejista fechava às 9 horas, com o sino da Matriz. Hora em que os rapazes também corriam para casa com mêdo do carão paterno. Repúblicas de estudantes nos últimos pisos dos sobrados das ruas centrais, com discursos, vaias, gracejos, madrigais... E serenatas em noites de lua, pelos arrabaldes ou pelo rio, em botes. Rapazes de jaquetão, colarinho alto, calças tabica. Moças de saias de baixo engomadas, pés escondidos, blusas de golas altas, espartilhos afinando cinta e escondendo seios... Recife patriarcal de 1900. Almôço às 9, jantar às 4, ceia às 8 ou 9, para dormir-se depois. Diversões por épocas: Ano Bom - cartões, abraços, festa do Bonfim em Olinda; Carnaval - papel picado, bisnagas, cordões de mascarados, clubes de alegorias, filhós; Quaresma - jejum, procissões (ah! uma rua de procissão!), ofício da Paixão, aleluia, jantar de páscoa com peru gordo, presunto, vinho moscatel, queijo-do-reino; depois, São João, com as adivinhações e as sortes - "Como será meu noivo?" - e, com o verão, a Festa no "mato" ou na praia. De permeio, eventualmente, o Santa Isabel com o drama, a opereta, os mágicos, a ópera. A fisionomia urbana não se alterava quase. "Enquanto o rosismo não cair... " Mas... Em 1904, a 7 de abril, assume o govêrno de Pernambuco o Desembargador Sigismundo Gonçalves. Fôra êle o derradeiro presidente da Província, na Monarquia. Quando, a 15 de novembro de 1889, se proclamou a República e chegaram ao Recife as noticias, a princípio confusas e suspeitas, depois oficiais e definitivas, o Presidente oficiara ao Comandante das Armas entregando-lhe o cargo e as funções. Voltava a dirigir, não mais a Província, porém o Estado, o Desembargador Sigismundo. Posse solene e festiva. Como de praxe, no recinto da Assembléia, moviam-se os fraques elegantes ou achamboados dos eternos freqüentadores das rodas palacianas, uns com os favores já assegurados, outros com suas eternas candidaturas a êsses bafejos. Esperanças, apegos ou receios, Máxime quando se boatejava, embora sem fundamento, que o novo governador iria romper com a política e o partido que o elegera; ou fôsse, na expressão popular, "com o Rosa". Expectativas de abaladoras novidades, Até os arraiais da oposição sorriam. Quem sabe o que viria de bom nessa mudança de timoneiro? Se êle acenasse com uma nova era... Muito se falava pelas calçadas da Rua do Imperador e pelas redações dos jornais contrários ao rosismo. E, coincidência ou acaso, o próprio Conselheiro Rosa e Silva, não familiar ao Recife, estava nesse momento presente à vida da cidade e recebera dias antes pomposas manifestações de acolhida e solidariedade. O Dr. Gonçalves Ferreira, que deixara o govêrno, também merecera espetaculares provas de aprêço. Era êsse o cenário e o ambiente de 1904. Sigismundo Gonçalves assume a governança de Pernambuco e instala-se no palácio da Praça da República. Primeiras nomeações: chefe de polícia, Dr. Manuel dos Santos Moreira; prefeito do Recife, o Comendador Eduardo Martins de Barros... Aí, as críticas explodiram logo: - "Viram o homem?" E brotavam as ironias: prefeito da capital um comerciante, sem título científico, um mero comendador de Portugal... Começa bem... E os que já sabiam irrealizável o sonho da cadeira de deputado ou do emprêgo público exclamavam: - "Eu nunca me enganei." A oposição, por sua vez, também descrente do rompimento, ironizava. Martins de Barros, porém, ia trabalhar. No Conselho Municipal, os Conselheiros Silva Fragoso e Miguel Macedo haviam apresentado um projeto nestes têrmos : Art. 1º - Serão demolidos por utilidade pública os prédios municipais situados na praça da Independência logo que expirem os prazos constantes de arrendamentos feitos pelos atuais locatários dos mesmos prédios. Art. 2º - O Prefeito mandará embelezar e aformosear a dita praça. Art. 3.° - Para ocorrer às despesas com o embelezamento e demolição fica o prefeito autorizado a abrir os necessários créditos. Êsse projeto era de janeiro de 1904, mas, sem dúvida, inspirado pelas idéias que o novo govêrno trazia. Mesmo porque o Conselheiro Fragoso era figura da intimidade palaciana e, por isto, bastante visado pelas folhas oposicionistas com os costumados remoques e sátiras dos jornalistas contrários ao partido dominante. E prova-o o fato de em maio já haver outro projeto municipal autorizando a Prefeitura a contrair um empréstimo de 500:000$000 em apólices de 1:000$000 e 100$000, a juros, respectivamente, de 8% e 2%, amortizáveis em prestações semestrais de 25 contos de réis. Essa operação financeira destinar-se-ia aos seguintes trabalhos de remodelação da cidade: Alargamento da Rua do Cabugá, lado impar. Abertura da Rua de Santo Amaro, demolindo-se o sobrado nº 48 da Rua Nova e o de nº 40 do Beco do Caju. Alargamento da Rua 7 de Setembro, demolindo-se o sobrado nº 42 da Rua da Imperatriz e as meiáguas ns. 1 a 5 do Beco dos Ferreiros. Alargamento da Rua do Hospício, demolindo-se os sobrados 86 e 88 da Rua da Imperatriz e o de nº 2 da mesma Rua do Hospício e mais duas pequenas meiáguas do Beco do Camarão. É de se avaliar o espanto dos recifenses ante essas iniciativas. A princípio, julgouse não se tratar senão de "obras no papel". A cidade, que desde o Conde da Boa Vista não assistia a melhoramentos de vulto, perdera a crença nêles. Aquilo era "pomada do Sigismundo". E o pobre Martins de Barros, nem se ligava importância a êle. Só mesmo aquêle tipo compridão, com um farto bigode de pontas, metido num sutambaque prêto, seria capaz de realizar trabalhos de tal porte! Botar abaixo um lado inteiro da Rua do Cabugá, com uma porção de sobradões e lojas importantes em baixo, com o Anel de Ouro, o Couceiro, a venda do Cristóvão... Estavam doidos varridos!... Nem o dinheiro dava, nem se emprestava nada à Municipalidade, sempre em apuros, nem se conseguia a mudança de estabelecimentos comerciais daquela ordem, há tantos anos ali localizados. Era lá crível comprarem-se pulseiras e diademas, ou presuntos e queijos-do-reino, sem ser na Rua do Cabugá! ... E as lojinhas da Praça da, Independência, com tantas casas de bilhetes de loterias, de sapatos!... E o

A Rua da Cadeia, no antigo bairro do Recife. Ao fundo o Arco da Conceição, demolido em 1914. Local da Avenida Marquês de Olinda de Hoje

café La Puerta del Sol, com suas mesinhas na calçada e o pianista a distrair tanto os fregueses a tocar A Louca e o Sonho de Virgem! Qual! As picaretas começaram a agir e os edifícios a vir abaixo. Com pouco a pracinha estava limpa, a Rua do Cabugá talhada de um lado, a do Hospício ressaltando a fachada da Matriz, e das meiáguas do Beco dos Ferreiros somente os escombros. Os descrentes calavam-se. Os entusiastas regozijavam-se. Todo o mundo ficava pasmado da ousadia dos empreendimentos. Contudo, ainda restavam os que não acreditavam nas construções da Rua do Cabugá , Botar no chão é fácil, mas levantar prédios novos... Com a crise do açúcar, com a carestia da vida, com os desgostos dos munícipes... O lado ímpar da artéria ficou pronto. De um mero beco passou a rua de verdade, rivalizando com a Nova, sua vizinha. Comerciantes antigos e modernos instalaram-se nas lojas com outro aspecto. O lado oposto, invejoso, também sofreu transformações. E os transeuntes já não precisavam andar pelas calçadas a um de fundo, como outrora. Martins de Barros não descansava. O velho Cais do Colégio, o remoto "Passeio Público" de nossos avós, precisava igualmente uma reforma. O encanto do rio e dos cais feria o espírito cheio de bom gôsto do prefeito de 1904. Era mister endireitar, ao menos, êsse trecho próximo da Faculdade de Direito, da Igreja do Espírito Santo, do Quartel-General, do Jardim 1817, e ponto de desembarque para viajantes ilustres, como já o fôra para Pedro II. Calçou, botou muralha, colocou banquinhos, plantou árvores. E nasceu a Avenida Beira-Rio, que tem hoje, merecidíssimamente, o nome de Martins de Barros. Antes, porém, dessa homenagem... O Prefeito quisera acabar com as vasilhas de lixo expostas abertamente pelas calçadas das ruas. Caixões, latas velhas, barricas, tudo sem proteção, à disposição dos cães vadios, da ventania, dos moleques. Urgia dar um jeito àquilo. O Conselho Municipal vota uma lei determinando que o lixo dos domicílios somente poderia ser pôsto nas calçadas, à espera das carroças, em vasilhas com tampa. Explodiram as queixas: Despotismo, violência! Gastar dinheiro em latas catitas para o cisco! Um escândalo! Insinuara-se até que o Prefeito era sócio de uma loja de artigos de fôlha-de-flandres... E os novos depósitos de lixo foram crismados de "comendadores" em honra ao prefeito que vinha remodelando o Recife... Que - justiça histórica - principiara a remodelá-lo, após uma longa estagnação de melhoramentos, a qual permitia a carrocinha de bois, as noites de lua com lampiões apagados, e calçamento revêsso da época do Barão do Livramento, os bondes de burros... A lembrança ainda viva das remodelações de 1905 não aquietou os temores, as descrenças nem as maledicências em face de mudanças urbanísticas mais profundas no bairro do Recife, quando das obras do pôrto. Ia-se proporcionar à cidade um vestíbulo moderno, com as docas, e não seria estético nem conveniente à circulação permanecerem as vias estreitas, antiquadas e difíceis de burgo primitivo. Projetarase logo talhar entre êsse casario vetusto uma ampla avenida no trajeto da Rua da Cadeia, ou Marquês de Olinda, de então, em demanda da Ponte do Recife, vulgarmente chamada assim, embora fôsse "7 de Setembro" seu nome oficial. Outros técnicos, à frente o engenheiro Eduardo de Morais, batiam-se por duas novas artérias ao invés de uma somente: a segunda partiria também de uma praça situada mais ou menos onde fôra a Lingüeta e procuraria galgar a Ponte Buarque de Macedo . Venceu essa idéia, desaparecendo uma terceira idéia de uma avenida circular. Ruas e becos adjacentes do bairro iriam também abaixo, oferecendo-se vias mais largas de intercomunicações. De todos êsses projetos, tornados decisões, dois atentados às nossas tradições cometeram-se quase sem protesto dos contemporâneos, nem sequer do Bispado, que os aceitou: a demolição da trissecular igreja do Corpo Santo, onde existira a primitiva ermida de São Telmo dos pescadores do século XVI, e os Arcos da Conceição e Santo Antônio, que guardavam os encontros da Ponte 7 de Setembro. Demolição inútil, espetacular, lamentabilíssima, porque, quanto aos Arcos, perdíamos uma caraterística arquitetônica de nossa cidade e monumentos de sentido histórico e religioso, coisa perfeitamente evitável sem nenhuma quebra da beleza nem do tráfego do Recife atual. Mas a mania de botar os Arcos abaixo vinha de longe... Em 1850 fôra ao chão o do Bom Jesus. E pelas últimas décadas do século passado agitara-se na imprensa a derrubada dos restantes até em versinhos : A pública conveniência Lembra a Sua Excelência: Uma obra meritória. Bem podia o Sr. Dória Nos fazer. Dos Arcos da Conceição Santo Antônio a demolição Promover. Concluídos os processos de desapropriação, começara a demolição do velho bairro. Transferências de negócios, de residências, de grandes escritórios, de bancos. Sobradões de quatro e cinco andares fechando-se com tristezas, incômodos e recordações de antiqüíssimos ocupantes. Casas térreas dos becos também silenciando. Trapiches desmanchados. Gameleiras postas de raízes ao sol. Martelos batendo dia e noite; carroças rodando no escoamento do material demolido; engenheiros tomando medidas e espiando pelos teodolitos; bondes com percursos desviados; alterada a vida e o caminho de todos; ondas de poeira e não raro tijolos ou telhas atingindo transeuntes. Pouco a pouco desaparecia aos olhos não um bairro, mas um cenário de milhares de criaturas no seu presente e no seu passado. Comerciantes gordos de contos de réis, marinheiros de várias gradações, peregrinas do amor caro das pensões da Lingüeta, famílias modestas das habitações baratas em últimos andares de sobrados, quitandas e vendolas, quiosques e barracas, "raparigas" de fáceis leitos e pequenas pagas, arraigados moradores da freguesia por devotos do Senhor dos Passos ou da Conceição do Arco, tudo, tudo se deslocava enquanto as picaretas golpeavam e os tetos se abatiam. Os esqueletos dos prédios meio derrubados equilibravam-se, e devassavam-se interiores impudicamente: paredes com restos de pintura a óleo, outras de simples caiação, salas de visitas, alcovas, corredores, banheiros, cozinhas, mirantes, sotéias... E quantas histórias nesses interiores através de quatro centúrias!... Paixões, cobiças, amores, pecados, vagidos de nascituros e suspiros de moribundos, noites nupciais, lágrimas de separação, sustos de revoltas, conspirações de liberdade, escondimento de escravos, júbilo de festas públicas é intimas... E o Corpo Santo também se desmanchava. A cantaria da fachada, os sinos das tôrres, os retábulos do teto, a talha dos altares, o mármore do piso, as pias, as molduras das tribunas, as portas almofadadas, deitavam-se pelos terrenos vagos da vizinhança. Ao pé da ponte, que também viria a ser substituída em sua estrutura de ferro pelo concreto armado, o Arco da Conceição igualmente ia pouco a pouco privando-se de suas pedras e de sua fisionomia própria. A capelinha ao alto já não falava

aos fiéis. O bairro do Recife, aquela "outra banda" dos velhos habitantes de Santo Antônio e da Boa Vista, iria ser outro: as gerações mais novas, de fracas impressões de retentiva, dali a tempos não saberia mais como aquilo fôra. Sòmente os mais idosos, antes de irem "estudar a geologia dos campos-santos", falariam ainda dêsse burgo onde o Recife nascera, tão enviesado de ruas e ruelas, com seu Pátio do Corpo Santo, com seu Cais da Lingüeta, com seu Beco Largo, com seu Forte do Matos, com tantos outros recantos cujos nomes por si eram uma cartilha do abc da cidade... Tudo no chão. Nunca se vira uma loucura assim. E não faltava quem não acreditasse no ressurgir das atividades por êsses terrenos imensos, cobertos alguns de telhas, caibros, postigos, tijolos, pinhas, traves, soalhos, que os jornais anunciavam que se vendiam barato... Qual! . " Por longos anos, seria um deserto, uma tristeza, umas ruínas. Somente para destruir o que estava feito e incomodar os moradores... "Pretexto para comilanças" - resmungavam com acidez. Bom para criar porcos e galinhas, ironizavam outros. Os flamengos não fizeram tanto... - opinava um amigo da História. Os mais devotos, passando perto dos destroços da Matriz, benziam-se, oravam baixinho, como a entrever na imaginação a saída da procissão do Encêrro, a missa cantada dos dias santos, o ofício de trevas da quarta-feira maior. Descrença do progresso. Nem mesmo o brotar dos novos edifícios do London Bank, da Associação Comercial, da Equitativa, fazia-os acreditar nas avenidas. Ficaria naqueles!... Onde arranjar dinheiro para construir o resto? Contudo, havia os que tinham fé. Os que sonhavam com um Recife parecido com o Rio de Janeiro do Prefeito Passos. Por que não? Os terrenos não chegariam para os que quisessem. As avenidas mostrar-se-iam breve onde, como contavam, há centenas de anos viviam jangadeiros e marujos. * * * No traçado de seus logradouros públicos, que já se caraterizara, a bem dizer, desde os primitivos caminhos do "Povo dos Arrecifes", ampliados na época holandesa e estendidos à Mauricéia no tempo de Maurício de Nassau, o Recife modelara a sua fisionomia própria e inconfundível. Porque ela não se parece com nenhuma outra, nem mesmo com a Veneza a que Gonçalves Dias a comparara, abrindo o hábito de comparações semelhantes. Mas Joaquim Nabuco, em página imortal, já dissera: Melhor, porém, do que em Veneza, os canais do Recife são rios, a cidade sai da água doce e não da maresia das lagunas, e seu horizonte é amplo e descobertas as suas pontes; são compridas como. terraços suspensos sôbre a água, e o oceano vem se quebrar diante dêle em um lençol de espumas por sôbre o extenso recife que o guarda como uma trincheira, genuflexo, imenso, onde o eterno aluidor de terras se ajoelhará ainda por séculos diante da graça frágil dos coqueiros. O Recife tinha o seu facies, êsse rosto de beleza que todos nós, embora insensibilizados pelo quotidiano dos percursos ou o imediatismo dos interêsses, de quando em quando focalizamos com atenção e enlêvo, como a paisagem emoldurante de nosso berço e de nossa vida. E, então, como que experimentamos uma sensação que foge

à banalidade de um mero conhecimento para se expressar penetrante e emotiva em uma particularíssima afinidade com os seus recantos menos ostensivos. Tôda a rêde de seus arruamentos está palpitante nos nossos olhos, pôsto não os possamos abranger numa visão de conjunto, senão do alto. Pouco importa nos situemos na Praça da Independência, estuante de transeuntes, ameaçadora de caminhões e limusines, barulhante de bondes e de pregões, ou no Pátio de São José de Ribamar, com sua quietude, seu templo dos pescadores, sua gente cujas cabeças curiosas golfam dos postigos das casas térreas de feição primitiva. Assim como há os pátios e as ruas para se nos tornarem indefiníveis no que nos comunicam e nos confiam, há, igualmente, os becos, misteriosos, sombrios, maldosos, e os cais com a sua poesia intraduzível e incontável. Já nas estampas de antanho se vêem os casais e os passeantes isolados perambulando pelos cais, por entre as pretas do mungunzá ou das tapiocas, olhando as águas do rio em que se balançam os brigues de velas recruzadas, as canoas empurradas a vara, as jangadas na pesca, os botes de excursões fluviais onde os pares parecem se prometer a novos beijos e amôres... Não se precisa lembrar que na fisionomia do Recife o rio predomina, porque êle está a se nos proporcionar a cada volta de percurso: numa rua que o contorna, noutra que a êle vai ter, numa janela ou sotéia que o sobrepuja; numa ponte que o galga ou numa amurada que o contém. Essa poesia do rio reflete-se notadamente nos seus cais, sejam os de recreio e de elegância, como os da Aurora e da Rua do Sol, sejam os de trabalho, ainda com um aroma do passado, como o do Apolo, com seus fundos de armazéns de açúcar, seus negros suados e suas alvarengas prenhes de sacos ou vazias balançando-se nas águas crêspas. Os cais do Recife revestem-se, a seu modo peculiar, de um encanto e de uma sedução experimentados, ao que se vê das velhas gravuras, desde as mais distantes gerações que os palmilharam. Os pintores da época exteriorizaram, mais talvez do que o teriam pretendido, êsse enlêvo dos transeuntes, amiudando-lhes os passos, paralisando-os mesmo, num à-vontade de marcha ou de pouso, com os olhos voltados para a fluência do rio. Uns se encostam ao muro de amparo; outros indicam um motivo de curiosidade; outros e mais outros procuram e conseguem no cenário o que lhes enfeitice a atenção. Porque havia, na época, uma movimentação fluvial maior que a de nossos dias em uma cidade tão provida de diversos meios de transporte, escassos então. As viagens para os subúrbios, as mudanças de trastes, os passeios das autoridades, o transporte dos tijolos e da lenha, o embarque na barca de vapor, tudo se efetuava no bergantim a muitos remos, no escaler de um só remador, na canoa a vara ou a velas. E nem faltava às vizinhanças das novas pontes, tão admiradas por sua vez, a visita dos brigues, sumacas e iates, cula vida dos conveses prodigalizava aos observadores dos cais cenas de coloridos estranhos. Tão estimado nas suas graças e nos seus préstimos o rio, que os belos solares da Madalena, da Ponte d'Uchoa, do Monteiro, quando não voltavam fachadas principais para as águas do Capibaribe, debruçavam nêle escadarias vistosas, muros de caramanchões floridos com bancos de azulejos, dispondo de turcos que fàcilmente desciam pequenas embarcações predispostas ao confôrto de tapetes de veludo para as excursões e as serenatas... As águas ilustrando, nas estampas como na realidade, a vida do Recife, transitando pelo centro da cidade ou pelos arrabaldes onde o rio se constituía em um dos motivos essenciais de atração pelo seu banho e até pelo seu préstimo purificador nas noites de tradições do Batista:

Oh! meu São João! Eu já me lavei As minhas mazelas No rio deixei. A expressão "maré" tão familiar às bôcas de nossos antepassados e não raro ainda hoje no vocabulário de nossa gente, afiança a importância das águasno currículo recifense. "Maré me leva, maré me traz", "estar de maré", "espia-maré" são locuções muito ao sabor de nossos avós. Eu adoro uma Iaiá Que quando está de maré Me chama muito em segrêdo Para me dar cafuné. Ou aquela outra quadrinha aproveitada nos contos infantis: Caranguejo não é peixe Caranguejo peixe é Caranguejo só é peixe Na enchente da maré. Dêsse namôro com o rio pincelaram-se as nossas formosas e típicas ruas da Aurora e do Sol de denominações definidoras, e as que preferiram guardar seus títulos afirmativos de cais: o do Capibaribe, do Forte do Matos, do Colégio, do Apelo, da Lingüeta... A Rua da Aurora aristocratizar-se-ia com as moradas de sobrados, e de brasões dos viscondes e das baronesas, com portões para a saída das carruagens, tetos estucados, lustres de cristal, salões à moda de Paris, e dentro dêles também quadrilhas, madrigais e indumentos parisienses, ditados pelo Conde da Boa Vista e pelo poeta Maciel Monteiro... Rua da Aurora, o mais belo balcão da cidade, beirando as águas, com seu cais primitivo de pilastras conjugadas por correntes de ferro, sem dúvida numa evocação popular das naus criadoras do país. Cais da Regeneração, ou do Abacaxi, pelos montes do fruto, debaixo das gameleiras, expostos à mercancia de uns e ao paladar de outros. Cais da Lingüeta, que os velhos não esquecem, pórtico do Recife de há 40 anos, cheio de flagrantes marítimos, vapôres ancorados ao longe, "golas" e "mulheres-damas" de flor espetada no cabelo, vitórias e berlindas em chegada da Europa, "açucareiros" acertando negócios da safra, ou tomando grogues no Schichlander, o mar arisco levantando espumas sôbre os arrecifes, a cutucar o rio, que não fazia caso e se mantinha, quieto e agasalhador das quilhas de agora como das de antanho. Outros cais e outras praias, às quais chamamos mais docemente de "beiras de rio", se alongam pelos arrabaldes ornadas de tufos vegetais de sítios ou de vivendas nobres e humildes. São as margens do Poço, onde os escravos escondidos por José Mariano se refugiavam em barcaças de capim para alcançar o Ceará liberto, e os romeiros de Nossa Senhora da Saúde desciam nas noites das novenas; são as margens do Caxangá, com os banhos famosos nos tempos das alegres pensões; margens do

Apipucos, onde o "passadio de festa" se revestia de tanto agrado e tanto gabo que merecera uma das pinturas mais saborosas de Schappriz, num quadro que vale por uma história dessas vilegiaturas de verão, tanto mais deliciosas quanto mais remotas. As transformações urbanísticas, por profundas que se tornem, não mudam êsse facies da cidade. No Recife, o rio se imporá eternamente à permanência de uma característica urbana. A menos que o aterrem... Êle orientará a lembrança ou a pesquisa numa observação topográfica. Temos prova disto na leitura do Inventário dos prédios edificados ou reparados pelos holandeses na cidade do Recife até 1654. Nesse distante Recife de 1654, através dessas páginas sem propósitos pinturescos, nós vemos a nossa cidade de hoje. Fácil a eleição de dois trechos ilustrativos. Êste, por exemplo: 14 e 15 - Da mesma banda do rio, com fronteira para a Rua dos Judeus, estão duas moradas de casas de dois sobrados cada uma, que ambas têm suas lojas, e se servem pela mesma escada, fabricadas de novo pelo Judeu Abraão de Azevedo. Em uma delas está aquartelado o capitão Francisco de Lisboa, do Têrço do Mestre-de- Campo João Fernandes Vieira, ao qual Capitão foram alugadas em preço de vinte e cinco mil réis por ano pagos em dinheiro de contado e a quartéis, e começa a correr dito aluguel desde ditos vinte sete de maio de seiscentos e cinqüenta e quatro. Essa Rua dos Judeus, onde, no mesmo Inventário, há várias outras casas com traseiras para o mar, é a Rua do Bom Jesus de hoje, com os mesmos sobrados em colocação idêntica. O Inventário está referto de prédios situados em ruas que fàcilmente os mais velhos verificaram terem sido a Rua da Cadeia, o Pátio do Corpo Santo, e outros trechos do bairro do Recife que tanto conhecemos por volta de 1900. Umas casas de dois sobrados com lojas no terreiro da Igreja, fronteiras à porta principal, feitas pelos Flamengos... Se atravessarmos a ponte construída por Nassau, estaremos logo na "porta de Santo Antônio", onde está a porta de Serventia que vem dos Afogados, na qual assiste um Capitão de Infantaria, com as portas fabricadas pelos Flamengos, de tijolo e pedra, e se cerca da banda do rio e do mar como trincheiras e fica por baixo de dita ponte um dique. Quem não reconhece o Arco de Santo Antônio, que após a restauração passou de porta de Serventia a monumento religioso? Dessa "porta" parte uma "rua direita" muito aludida no Inventário, seguida de uma praça, também identificáveis com a atual Rua 1ºde Março, Praça da Independência, e depois o corredor das ruas do Cabugá e Nova até ao rio. Aliás, êsse traçado é bem reconhecível numa velha planta da época holandesa. Nela, igualmente, se podem reconhecer vários outros trechos do "Povo" e de "Mauriciópolis", como sejam a Rua do Imperador de hoje, o Pátio de Palácio, o do Corpo Santo, a Rua da Cadeia, etc. E há curiosidades como a primitiva ponte ligando Santo Antônio à Boa Vista, a qual partindo do palácio dêste último nome e demandando a "Ponte Velha" de agora, não era reta; perto de seu encontro no continente fazia um ângulo. Não se obliteram os traços marcantes da fisionomia de uma cidade. Quem há mais

O Arco de Sto. Antônio demolido em 1917 e o bonde de burros desaparecido em 1914. A Rua Nova no comêço do século XX

Rua do Bom Jesus – outrora dos Judeus e da Cruz – com a tôrre do arsenal da Marinha e o chafariz de “água de encanação”. Ao fundo desta rua ficava o Arco do Bom Jesus – demolido em 1850. Rua 1º de Março, outrora do Crêspo. Ao fundo a praça da Independência, com as lojinhas, e a Rua do Cabugá, ainda estreita. Aparece uma das tôrres da Matriz de Sto. Antônio.

de século viveu e no presente ressuscitasse não se perturbaria com as transformações de sua cidade a ponto de nela deixar de encontrar com abundância motivos de recordações e de saudades. Ademais, existe em cada cidade, para os que a amam e muito sabem senti-la, uma impregnação tôda peculiar, como um aroma pessoal, que os anos não destroem. No Recife êsse particularismo se evola num sino, num pormenor de procissão, num desvão de bairro, numa volta do rio, num perfume de tabuleiro, numa galhofa do povo, numa toada de Carnaval, numa alamêda de sítio, num sabor de oiticoró ou de abacaxi... Tôdas essas coisas haverá em diferentes terras, mas no Recife elas se harmonizam com a paisagem no nosso entendimento. A ânsia por um Recife que se defina integralmente pelo conceito de Pedro II - "Pernambuco é um céu aberto", - ao desembarcar no Cais do Colégio em 1359, é velha. Tôdas as gerações insatisfeitas têm assim suspirado. A 7 de fevereiro de 1858 um jornalista que escrevia no Diário de Pernambuco um rodapé sob o título "A Carteira" dêste modo se expressava: Ninguém contesta que a capital de Pernambuco, debaixo do ponto de vista da natureza, seja uma das mais belas cidades conhecidas. Os estrangeiros que por aqui passam confessam esta verdade, mas lamentam até certo ponto que essa beleza natural tenha sido tão pouco desenvolvida pela arte e pela ciência. Sentada em uma magnífica planície, que para o lado do Ocidente permite-lhe estender-se numa vasta proporção; dividida em três partes por dois rios que, juntando-se em um ponto, vão depois de curto trajeto unir as suas águas com as do oceano; a cidade do Recife está destinada a vir a ser a estrêla mais brilhante da constelação brasileira. Em seguida, porém, o cronista lamenta a falta de melhoramentos, "cuja realização julgamos útil e necessária para esta cidade". Principalmente um parque, um "jardim público para recreio geral". Com tabuleiros de flôres, aviários, um museu, bancos, banda de música duas ou três vêzes por semana das 5 às 7 nas noites de escuro e até às 9 nas de luar. Lugar para "refrescos e petiscos". O parque deve ser alumiado a gás, sendo proibido nêle fumar. Entre as plantas - cafeeiros, algodoeiros, canas do Brasil, e outros "paus de frutas". Havia sítios apropriados, a escolher: na Soledade, entre o Corredor do Bispo, a Rua do Pires e a do Sebo; no Mondego, entre esta rua, a da Trempe e a do Sebo; outro entre Soledade e o caminho para Ponte d'Uchoa. Agora vamos ver outra idéia que... ainda hoje, um século transcorrido, de vez em quando se agita. O do transporte regular pelo Capibaribe. Os carros estavam caríssimos e a condução escassa e ruim. Daí o projeto de uma companhia de navegação fluvial a vapor. Uma embarcação espaçosa, rasa, com tôldo para os dias de sol ou de chuva, com trapiches para partida e escalas. Sairia do Pôrto das Canoas, no bairro do Recife, e tocaria na Boa Vista, nos Coelhos, na Capunga, e no lado oposto, na Tôrre, na Ponte d'Uchoa, em Santana, Poço da Panela, Monteiro e Apipucos. Quanto o jornalista de "A Carteira" estaria em voga nos dias que correm, em que o transporte é mais do que uma dificuldade, um "bilhete de merecimentos para o céu"! Outros alvitres acudiam à pena dêsse comentador do Recife de há cem anos, sempre com a avidez de fazer da nossa cidade a "estrêla da constelação brasileira". Havia pessimistas que explodiam: - "Esta terra nunca passará de uma aldeia." Outros, sem azedume, prognosticavam confiantes :

- "Isto aqui há de progredir! Dêem-nos um pôrto moderno e deixaremos de ser aldeia grande." Ambos os grupos afinavam num idêntico anelo: o de um Recife cada vez melhor. E, nesse anseio sempre crescente, não estariam senão repetindo o desejo de um daqueles remotos pescadores do século XVI que, sentado numa jangada, teria dito a um marujo de vigia a um rôlo de espias: - Quem me dera já ver êstes trapiches virando uma povoação! * * * E se vila o "Povo" fôra pela graça régia de D. João V em 19 de novembro de 1709, a despeito das ciumadas dos olindenses, editais mandavam pôr luminárias em sinal de júbilo público por haver sido o Recife elevado à categoria de cidade pela Carta Imperial de 5 de dezembro de 1823. Tigelinhas de côres, foguetes, repiques, filarmônicas, gente nas ruas. Mas ainda não seria tudo. Se a sede do govêrno era aqui, se aqui morava o Governador e as outras autoridades, se o Bispo tinha seu palácio na Soledade, onde vivia mais que no alto da Sé, por que não capital o Recife? O Tribunal da Relação criado em 1821 fôra no Recife instalado. E então? O Senado da Câmara de Olinda protestara. Pedira a Pedro I o Tribunal para seus muros, depois de apelar em vão para Luis do Rêgo e a Junta do Govêrno Provisório. O Presidente Mayrinck Falcão anda aborrecido com as queixas dos olindenses. Iria lá o govêrno de Pernambuco meter-se mais naquele velho e esquecido burgo de que os versinhos satíricos afirmavam ser refúgio único de Beatas e baratas? Teria graça essa volta ao passado. Não êle que se fôsse viver em um claustro ao invés de gozar a existência numa cidade alegre e moderna. Que esperança! Chama o secretário e manda baixar uma portaria: O Recife seria provisoriamente a Capital de Pernambuco. Olinda não passava de uma "capital de mentira". Estava-se a 29 de dezembro de 1825. Olinda pega fogo e, como não pode mais recorrer às armas, recorre ao Imperador. Pedro I anda escabriado com os pernambucanos. Meter a mão em combuca outra vez... E a tal da Confederação do Equador? Custara-lhe até o remorso de mandar matar o pobre do Frei Caneca. O melhor era, como se diz hoje, "desapertar"... Fê-lo hàbilmente : o Conselho Geral da Província que decidisse o barulho das duas Câmaras. E o Conselho Geral da Província resolve a 15 de fevereiro de 1827: a Capital é onde se expedem os negócios. Portanto, o Recife passa a ser de uma vez para sempre a Capital. Os moradores do "Povo" não haviam querido tanto.

Um tiro de peça no silêncio provinciano da cidade. Ninguém se assustava. Ao contrário: corria um frêmito de satisfação e de curiosidade. Nem eram mais as conquistadoras urcas holandesas, nem as escunas repressoras de surtos revolucionários. O tiro fôra do forte Quebra-Pratos. O vetusto baluarte próximo do Arco do Bom Jesus das Portas, que ao atirar fazia estremecer tôda a louça da vizinhança, não sendo raro terrinas e xícaras se estilhaçarem. Mas por quê êsse disparo? Salva de aniversário dos soberanos ou gloriosa data pátria? Não. Apenas a aproximação do "paquête" da Europa ou da Côrte. Já estava à vista: vêrgas embandeiradas, velame aberto... A baleeira do prático lá se ia ao encontro do barco anunciado. Trá-lo-ia dali a pouco ao abrigo dos arrecifes, se é que não se desse a um luxo de tonelagem bastante para arriar o ferro no Lamarão, longe do farol da barra. Navio da Europa ou da Côrte: passageiros, carga, cartas. Cada um que buscasse seu interêsse. No Trapiche Novo, na Alfândega ou no Correio, que ainda não tinha carteiros. Viagens de 60, 90 dias ou mais para a Inglaterra ou Portugal, e de 20 para o Rio de Janeiro. O pôrto tinha sempre uma bela fisionomia. Veleiros muitos, de vários mastros e tipos, largas vêrgas, altas gáveas, rijos cordames. Nem parecia mais o ancoradouro de quase quatro séculos atrás, quando na praia jangadas e armazéns velavam pela pesca das cavalas e siobas ou pelas carradas de caixas de açúcar ou pipas de vinho. O "povo dos arrecifes", apenas. Ao longo da muralha de pedra que Deus estendera diante da península para separar o rio do mar, mordiam as âncoras a vasa do fundo

das águas cativando os brigues, as naus, as sumacas, as caravelas e as galeotas. De vez em quando, um dêles, de porões cheios, escancarava as velas e rompia oceano fora, decidido a vencer os meses de travessia com as asperezas de tormentas ou imobilidades de calmarias Fôra assim por três centúrias. Piratas de arremêsso haviam dobrado a pedra da tartaruga e saqueado. Armada flamenga, de centenas de vasos, com rugidos de peças, tinha conseguido calar as baterias do Castelo do Mar e de São Jorge, ancorado, permanecendo, dominando. Chegara, porém, o dia de se irem embora, murchas de belicosidade, vazias de mercancias, quebradas na grimpa de superioridade. Veleiros sempre. Mais alentados, já, de tamanho, de carreira, de confôrto. Esbeltos, alígeros, de castelos esculpidos e de arrogantes capitéis Traziam do reino as provisões de bôca, os panos de fábrica, os chapéus de Braga, as quinquilharias, as canastras de cebolas, as pipas do Moscatel ou de azeite. O reino entrava no vocabulário popular a todo instante: farinha-do-reino, queijo-do-reino, pimenta-do-reino... Coisas que vinham nas barcas de entesados velames, ligeiras umas, forradas de cobre outras, seguras tantas, como já as gabavam anúncios de jornais. E nelas de retôrno embarcavam açúcar, algodão, couros, pau-brasil, para que êste também falasse do país pelas terras estranhas. Os "negreiros", também conhecidos como "tumbeiros", tornavam-se freqüentes no ancoradouro. Apontavam no horizonte, e os mercadores das peças negras farejavam lucros. A negraria desembarcava, magra, trôpega, espantada, nua, rumo ao telheiros de abrigo, perto das praias. Mulheres de filhos aos peitos, homens de olhar feroz, de rosto humilhado, jovens de corpos provocadores da lubricidade dos brancos. Navios negreiros. A comêço ostensivos, arrogantes, legalizados. Depois, porém, da lei da proibição do tráfico, clandestinos, disfarçados. Daqueles que se tornavam suspeitos nas visitas dos cruzeiros de alto-mar se tivessem a bordo escoteiras com grades abertas, repartimentos, cobertas corridas ou separação em maior número do que do costume - tábuas aparelhadas para segunda coberta; gargalheiras, algemas, anjinhos, cadeias, maior quantidade d'água que a costumada, muitas pipas, selhas, bandejas para ranchos, caldeira de menor dimensão que a usual, excesso de feijão, carne, arroz, peixes salgados, mandioca, milho... Navio assim, ia para o tribunal de prêsas, sem jeito. Paisagem do pôrto que fôra pia batismal da cidade: Arrecifes... Recifes... Os "paquêtes" já realizavam viagens regulares no litoral. Nos dias 1 e 15 de cada mês saía um da Côrte, com escalas na Baía e em Jaraguá, vindo ao Recife. Custavam as passagens, compradas: na Administração dos Correios, 24$000 do Rio à Baía, 30$000 a Alagoas, 34$000 ao Recife, dêste pôrto ao Ceará 11$000, ao Piauí 24$000" ao Maranhão 30$000, ao Pará 34$000. Não achem barato, porque a comedoria era à parte: mais 24$000 até Bahia, 30$000 até Alagoas e 36$000 até Pernambuco. Na volta do Norte, cobrava-se o dôbro. Criados e escravos pagavam 1/3 da passagem. Crianças de 2 a 7 anos, 1/4. Menores de 2 anos: grátis. Recomendava-se-lhes tomar sempre rumo conhecido, com a maior fôrça de velas, salvo inimigo ou temporal. Ainda não se cuidava de black-out; sem dúvida porque os faróis de azeite de carrapato não o requeriam, na sua minguada intensidade de luz. A 8 de fevereiro de 1839 o pôrto assistiu a uma extraordinária novidade. Vira pela primeira vez uma barca de vapor, a São Salvador, entrada da Baía, por Maceió, 20

horas da última cidade, comandante José Venceslau Gonçalves. A imprensa não se mexeu para dar do fato uma notícia. Apenas o registro comum na seção marítima. Todavia, no dia seguinte a agência anunciava: A barca de vapor "São Salvador", com fôrça de 100 cavalos, sairá para a Bahia no dia 10 de fevereiro, domingo, às 4 horas da tarde. Quem nela pretender carregar ou ir de passagem, para o que tem excelentes cômodos, dirija-se ao escritório de Rosas & Braga. Os comentários na cidade não apoiariam o silêncio do jornal. Êste andava muito preocupado com os editoriais políticos, as correspondências da Europa e os mexericos das solicitadas, quando não com os avisos de fuga das escravas ladinas e bonitas... No cais do Trapiche sobretudo, a primeira viagem da barca de vapor despertara interêsse e entusiasmo. Uma realidade maravilhosa a de ir-se do Recife à Côrte em oito dias tão somente, sem estorvos de vento contrário. Capitalistas moradores nos sobradões de mirantes das ruas da Cadeia ou de Fora-de-Portas planejavam viagens de negócios ou de recreio nas próximas travessias da "barca de vapor". E tudo a chegar mais depressa. Até as fôlhas com as novidades da Regência Araújo Lima e da questão da Maioridade. Em abril do mesmo ano vem do Rio outra barca de rodas: a São Sebastião, de 149 toneladas, do comando de M. Glover. E não tardou a varar o Capibaribe a barca Baiana, também em tráfego. No fim de outubro aparece, procedente de Liverpool, onde se construíra, com 35 dias de viagem, a barca de vapor Pernambucana. Já de 230 toneladas - um gigante dos mares! - trazida pelo capitão Francisco Coob e tendo como passageiros em trânsito: John Rey, John Esquit, Archebado Fino, Robert Grade, Constantino Machado Coelho, Carlos e Jorge Neli. O movimento do pôrto registrava pelo menos quinzenalmente a entrada de uma embarcação daquele tipo. Mais a Piauiense, a Todos os Santos, a Paraense. O notável surto de progresso de iniciativa da Regência estava dando frutos. A ponto de O Carapuceiro glosar a moda dos vapôres: A grande voga dos vapôres. Tudo a vapor. Leis que se fazem, publicam e desaparecem. Repartições que se criam, mudam-se, trocam de nomes, desaparecem. Patentes e títulos que surgem e também se somem. Virtudes de vapor: enquanto há comezainas, boa mesa, carrinho, fausto... Dinheiro de vapor: é pior que tudo. Logo que por desgraça nossa se levantou consideràvelmente o valor nominal da nossa moeda, mormente de cobre, os especuladores da moeda falsa surgiram e em tôda parte apareceu o xenxém, que bem podia se chamar de "dinheiro de vapor"... O Diário de Pernambuco, com tôda sua sobriedade, abrira uma seção "Notícias do Vapor". No correr do ano de 1841 falava-se em paquetes de vapor ao invés de "barcas". Também, os preços de passagens subiram: a Companhia Brasileira de Paquetes de Vapor cobrava para Maceió 25$000, para Bahia 45$000, e para o Rio 160$000 em 1ª classe, Inclusive comida. Note-se, porém, esta Singularidade: as passagens para o Rio custavam 160$000 de março a setembro, e apenas 120$000 de outubro a fevereiro.

Ia o ancoradouro exigindo maiores cuidados. Em 1849 cai ao rio, do estaleiro do Arsenal de Marinha, uma barca de escavação com 74 metros de comprimento pelo convés, 71 de quilha limpa, 20 de bôca, tôda de madeira sicupira . Após o ato do lançamento da barca houve sarau na residência do Capitão do Pôrto, Capitão-de-Mar-e- Guerra Rodrigo Teodoro de Freitas. Essa autoridade fôra o autor de uma ordem pela qual ficava proibida a entrada ou saída de embarcações pela barreta, que seria trancada com correntes de ferro, desde o pôr-do-sol até ao nascer do dia. Foi a 2 de fevereiro de 1852, dia da Festa do Poço, que o primeiro paquête a vapor de uma carreira regular entre a Europa e o Brasil escalou pelo Recife. O Teviot, da Real Companhia de Paquêtes Inglêses a Vapor. Saíra de Southampton a 9 de janeiro. Na véspera, lanche a bordo e brindes. Devido ao fog atrasa-se bastante e somente a 15 alcança Lisboa. Admira-se no Recife a rapidez da travessia e a pontualidade da chegada. Vem sob o comando do Capitão Richard Rivett e traz para Pernambuco três passageiros, dois britânicos e um alemão. Seguir-se-iam o Tay e o Severn. As passagens nesses vapôres custavam para o Rio 50 patacões e para a Bahia 25. A Real Companhia de Paquetes Inglêses a Vapor iniciara as comunicações rápidas com o Velho Mundo. A livraria do Cardoso Aires anunciava a venda de papel de carta com obreias para se escrever no "vapor inglês". Outras companhias em breve imitariam aquela: a Companhia de Liverpool-Sul Americana de Navegação Geral a Vapor, por exemplo. Dispunha dos paquêtes Baiana, Brasileira, Lusitânia, de 1.700 toneladas o primeiro e de 1.100 os dois últimos, já prontos. Construíam-se ainda o Imperador e a Imperatriz, de 1.800 toneladas cada um. A Companhia de Navegação Luso-Brasileira, por sua vez, enviava ao Brasil seus paquêtes D. Maria II e D. Pedro II, que aceitavam cargas, passageiros e cartas, com os portes seguintes: cartas para Portugal e escalas, 400 rs. por oitava, jornais, grátis; para outros países da Europa, 800 rs. a oitava para as cartas, e jornais, 60 rs. cada um. A Messageries, francesa, não fugiria à competição das emprêsas marítimas. O seu Gironde teria a preferência de uma das viagens da nossa família imperial à Europa. Chamou-se a princípio "Messageries Impériales" e tinha como um dos seus paquêtes o Extremadure, que freqüentou bastante nosso pôrto por volta de 1866. Depois passou a denominar-se "Messageries Maritimes" e com êsse nome serviu ao Brasil até antes da Grande Guerra com transatlânticos de alta tonelagem, como foram o Brésil, o Chili, o Portugal, o Amazone, o Équateur, o Atlantique. Francesa também a Chargeures Réunis, com os vapôres da série Ville de Paris, Ville de Bahia e outros. Dessa Chargeurs Réunis foi também o Santa Fé, tornado popular na vida recifense por um acidente. Sofrera aqui um princípio de incêndio, e tôda a mercadoria, avariada pelo fogo ou pela água, veio a ser vendida no comércio com abatimento. - "É do Santa Fé" - dizia-se de uma pechincha. A expressão pegou, e muito depois do sinistro ainda se anunciavam mercadorias do Santa Fé, baratinhas... Já apareciam competições entre os vapôres. O "alígero Tocantins", da Brasileira, vencera a velha barca São Salvador, numa viagem do Pará ao Recife, fazendo o percurso em 7 dias e horas. Desdenhava-se a velha barca, a 15 anos de distância do seu triunfo, pioneira que fôra da navegação a vapor em nosso litoral. Nessa época o Cruzeiro do Sul, de 1.100 toneladas, vinha em 5 dias e horas da Guanabara ao Capibaribe. Episódios curiosos ilustravam a crônica do pôrto. As visitas dos navios confederados Alabama e Florida, por exemplo. Ia acesa a Guerra da Secessão. Êsses "corsários" pintavam o sete pelos oceanos; o Alabama gabava-se de haver incendiado 47

embarcações adversárias. Náufragos foram deixados em Fernando de Noronha. O Mamanguape, da nossa Companhia Pernambucana, saíra até o alto-mar para perseguir tais "corsários", desrespeitadores de nossas águas neutrais. Pedacinhos que se parecem com os tempos de hoje. Fundara-se em 1854 a Companhia Pernambucana de Navegação. Seu primeiro vapor foi o Marquês de Olinda, "o mais lindo vapor nacional", conforme anota Mário Mendonça, num excelente trabalho a respeito daquela emprêsa; êsse navio naufragou em Goiana, logo depois de encetada sua vida marítima. Outros navios vieram: o Persinunga, que naufragou espetacularmente à entrada da barra do Recife, ameaçando interceptá-la. Jaguaribe, Mamanguape, Iguaraçu pertenceram à sua primitiva frota, vindo depois O Una, São Francisco, Jaboatão, Beberibe, Rio Formoso, os quais, depois de prestarem ótimo serviço aos nossos produtos e ao nosso comércio, se acabaram melancòlicamente nos começos dêste século, pelos recantos do ancoradouro, e por fim na praia de Rio Doce, onde os jogaram como num cemitério... Os navios da Companhia Pernambucana tiveram até sua voga de turismo. Sim, turismo de 1868... Excursões à cachoeira de Paulo Afonso, por exemplo. Inscrições para 50 turistas a 350$000 cada um; incluindo transporte, alimentação e cavalgaduras. Outra viagem dêsse tipo foi aquela realizada até Rio Formoso pelo paquête manguape. Saltariam os turistas no pôrto da Calheta, a 100 passos da povoação de Nazaré do Cabo, onde se efetuava a festa de Bom Jesus dos Passos, do Convento do Carmo. 3 horas de passeio por 3$. O vapor Camaragibe, aproveitado nessas excursões, era cognominado "o belo cisne dos mares". Também a ilha de Itamaracá mereceu uma visita aprazível num domingo de outrora. Um dos barcos da Pernambucana, o Pirapama, chocou-se defronte de Goiana, em 1887, com o Bahia, da Brasileira. Sinistro de conseqüências tremendas, porque o Bahia se submergiu e morreram dezenas de passageiros. Entre muitos festivos dias viu o pôrto, durante a guerra do Paraguai, vapôres chegando do Sul, embandeirados já de longe, num anúncio de boas novas. Traziam pormenores de vitórias: Riachuelo, Tuiuti, Itororó, Lomas Valentinas, Humaitá, Assunção. Repiques, salvas, foguetes, músicas, luminárias. E quando voltaram os batalhões, após a vitória de Aquidabã? Notável data a da chegada dos Imperadores, em sua primeira visita a Pernambuco, a 22 de novembro de 1859. O pôrto vestiu-se das galas das bandeiras. Os cais cheios de gente. E na baleeira que o traz à terra, Pedro II exclama: - Pernambuco é um céu aberto! Em outras ocasiões os monarcas transitam pelo Recife e desembarcam. Eram momentos de movimentação, de júbilo, de curiosidade. Não menos quando os príncipes também por aqui andaram. Há uma gravura de Schappriz que evoca bem a passagem do Conde e da Condêssa d'Eu no ano de 1865. Digna de ser vista e observada: nos tipos, nos indumentos, nas atitudes, nos barcos engalanados e no paquête, o Douro, da Mala Real, no pôrto externo. A Companhia Brasileira de Paquêtes a Vapor, origem do Lóide Brasileiro, ia prosperando. Em 1871 renova a frota com três paquêtes julgados luxuosos de mais para a navegação costeira: Pará, Ceará e Bahia. E em 1875 viriam unidades melhores: o Espírito Santo e Pernambuco, gêmeos, com 2 hélices, 258 pés de comprimento, marcha de 12 milhas, 1.746 toneladas, comportando 100 passageiros de 1ª classe, 400 de 3ª. Ambos viajaram por mais de 30 anos, sendo que por volta de 1900 ainda eram iluminados a querosene. Navios de fundo chato e na velhice vagarosíssimos. Em

1885 viria o Manaus, paquête esplêndido no seu tempo, resistente e veloz, a ponto de ter cruzado nossas águas até pouco antes de 1940. Um "vovô" sadio, ágil e prestimoso. Deu surras em outras mais novos. Seguiram-se-lhe, já com a bandeira do Lóide Brasileiro, o Brasil, o Maranhão, o Alagoas, o São Salvador, o Olinda. Mais modernos, mais confortáveis, mais decorados. A cada um dêles, à primeira visita, teceram os jornais os melhores elogios, ressaltando-se sobretudo terem piano a bordo, luz elétrica, salão para senhoras, água encanada... Foram os preferidos do Lóide antes de 1904, quando novamente a frota se remoça. Vieram os segundos Bahia, Ceará, Pará "malas-reais mirins", e ainda o Acre, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, que iniciaram linhas para os Estados Unidos. Eram, realmente, na época, barcos magníficos. O Ceará ainda hoje navega com o nome de Comandante Riper, o Acre é Rodrigues Alves, e o Pará conserva o primitivo batismo. Menos felizes, os outros três sucumbiram: o São Paulo afunda na Guanabara e não o tiram mais; o Minas Gerais, crismado de Prudente de Morais, encalha e perde-se no Estreito de Magalhães, a caminho do Chile; e o Rio de Janeiro, com o nome de Afonso Pena, a êsse caberia a sorte de merecer um torpedo dos ultracivilizados submarinos ítalo-teutos. Com o Grande Conflito de 1914-1918, o Lóide incorporaria dezenas de grandes vapores confiscados à Alemanha. Uns ainda viajam; outros foram tendo o seu fim na paz e na guerra. A Mala Real Inglêsa, ex-Real Companhia de Paquêtes a Vapor" depois do Teviot, do Neva, do Douro, do Elbe, do Tagus, mandou-nos de 1891 a 1893, cinco paquêtes novinhos em fôlha, de grande porte, de belas figuras - três mastros e duas chaminés - que se chamaram Thames, Magdalena, Clyde, Nile e Danube. 18 milhas. 7.000 toneladas. Primores por dentro. Foram durante uns 25 anos a coqueluche dos viajantes da Europa. E muito se viajava para lá nesses tempos de calma, de bons negócios e de vida barata - pela França, por Portugal, pela Espanha... Todos preferiam os "inglêses", gabando-lhes a segurança, pontualidade, rapidez, bom passadio . Não podiam vencê-los os da Messageries Maritimes, da Hamburg Sudamerikanische, da La Veloce, mesmo os da Pacífico com seus nomes em O - Oropesa, Orellana, Orcana, Orita, Oravia... Tempos do Lamarão. O pavoroso ancoradouro externo, pleno mar, distância caprichosamente longa, mercê da vontade dos comandantes, vagas empoladas, pulos arriscadíssimos de escada para os escaleres, dias de ventania de agôsto... Tudo se suportava, contanto que se embarcasse no Magdalena ou no Danube. £ 20 para Lisboa. 200$000 para o Rio. Todavia êsses paquetes iam envelhecendo, e a Mala Real primava por manter a supremacia. Um a um vêm o Aragon, o Amazon, o Araguaia, o Avon, o Arlanza. Ah, que "palácios flutuantes"! Decorações, cabinas modernas, camas ao invés de beliches, salões de música, de jogos, de refeições, primores de gôsto, conveses amplos, orquestras, telégrafo sem fio... Aquilo, sim! Qual Clyde, qual nada! "Inglês era inglês." Os submarinos da outra guerra torpedearam quase todos. Em 1912, a Costeira, acompanhando o progresso das construções navais, substitui seus minúsculos Itaqui, Itaperuna, pelos Itajubá, Itapura, Itajiba, Itatinga e outros da série. Ainda pequenos mas convidativos, velozes, limpos, simpáticos. E não ficou nisto. Mais uns anos e apresenta os Itas maiores: os conhecidos Itaimbé, Itapé, ltanajé, ltaité, Itapagé, itaquicé. 6.000(} toneladas. 16 milhas. Flechas de ouro da costa, competindo em breve com os quatro Aras, famosos igualmente na velocidade. O pôrto já não era o mesmo. Por tão longos anos o seu balcão e o seu vestíbulo haviam sido a "Lingüeta". Que era a Lingüeta? A antiga praia e depois cais do Trapiche. Calçaram-na, plantaram-lhe umas gameleiras, puseram-lhe em roda uns banqui-

O cais da Lingüeta, cheio de curiosos diante de uma esquadra brasileira que visitou o Recife em 1905. O antigo ancoradouro interno do Recife. Ao lado do farol da barra o Forte do Picão que com o nome de Castelo do Mar defendeu a povoação contra a armada holandesa em 1630.

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Sinopse

Leia gratuitamente Arruar: história pitoresca do Recife antigo, de Mário Sette, obra brasileira em domínio público. Edição digital preparada a partir da fonte oficial de Mário Sette, com leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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