Universo da obra
Universo da obra
O sol se oculta: inflamado,
o horizonte fulgura,
e se estende na planura
leve estame dourado.
Sopra o vento sossegado,
e do circuito infinito
não chega à alma outro grito,
nem ao coração outro arrulho,
senão um monótono murmúrio,
que é a voz do infinito.
Santos Vega cruza o plaino,
alta a aba do sombreiro,
erguida pelo pampero
em seu impulso soberano.
Veste o poncho americano,
solto em ondas desde o colo,
e, faiscando em seu cabelo
e no bronze de sua fronte,
o cinzela o sol poente
com o derradeiro lampejo.
Onde vai? Vê-se distante
de um ombu a copa erguida,
como espiando a partida
da luz já agonizante.
Sob a sombra desmedida
daquela árvore benfeitora,
seu teto, que é um primor
de reluzente totora,
ergue-se o rancho onde mora
a prenda do payador.
Ela, sentada no tronco,
meditativa, o espera,
e na negra cabeleira
mergulha a mão rosada.
Vê-o vir: sua mirada,
mais que a tarde, está serena;
fecha os olhos, sem ter pena,
pois todo o seu encantamento
é que ele a desperte com um beijo
dado em sua fronte morena.
Mal chega, o lábio amado
toca a fronte estremecida,
e voa um sopro de vida
pelo arvoredo calado...
Um “ai!” apenas lançado,
como palmeira que murmura,
gira na atmosfera pura;
e ela, fingindo-lhe enfado,
ergue ao seu dono uns olhos
que são dois beijos da alma.
Fechou-se a noite. Um momento
ficou a Pampa em repouso,
quando um rasgueado harmonioso
encheu de notas o vento.
Logo, no doce instrumento,
vibrou uma endecha de amor,
e no ombro do cantador,
cheia de amante tristeza,
ela inclinou a cabeça
para escutá-lo melhor.
“Eu sou a nuvem distante”
(Vega em seu canto dizia)
“que, com a noite sombria,
foge ao chegar da manhã;
sou a luz que em tua janela
a lua filtra em feixes;
aquela que, quando menina,
no berço abriu teus olhos risonhos;
aquela que desenha teus sonhos
na lagoa deserta.
Eu sou a música vaga
que nos confins se escuta,
essa harmonia que luta
com o silêncio e se apaga;
o ar morno, que afaga
com seu incessante voar,
e faz a copa oscilar
do ombu, altiva e bizarra;
e a dolente guitarra
que te costuma fazer chorar!...”
Leve rumor de um gemido,
de uma carícia chorosa,
fendeu a sombra medrosa,
rangeu na árvore adormecida.
Depois, o rouco estampido
de cordas rotas se ouviu;
um torvelinho passou,
batendo o rancho vizinho,
e em todo o circuito do plaino
tudo em silêncio ficou.
Logo, inflamando o vazio,
levantou-se a alvorada,
com essa branca mirada
que faz cintilar o rocio;
e quando o sol sobre o rio
verteu sua luz primeira,
viu-se uma sombra ligeira
no ocidente se ocultar,
e o alto ombu a balançar
sobre uma antiga tapera.
Tradução brasileira de Santos Vega, poema narrativo gauchesco de Rafael Obligado sobre o payador mítico, o pampa argentino, a música popular e o duelo alegórico com Juan Sem Roupa. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.
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