Leia agora
Santos Vega

Universo da obra

Santos Vega

Capítulo 4 · Santos Vega

A morte do payador

4 de 4 ≈ 6 min de leitura

A morte do payador

Sob o ombu corpulento,
pelas rolas tão amado,
pois seu ninho hão lavrado
ali, ao abrigo do vento;
no vastíssimo assento
que a raiz em torno espalha,
onde, à sesta, não trabalha
a chama do sol que nos cega,
dormindo está Santos Vega,
de fama que nunca falha.

Nos ramos que estão vizinhos,
pendurou-se, silenciosa,
a guitarra melodiosa
dos argentinos cantinhos.
Ao passarem os camponeses,
diante de Vega se detêm;
em silêncio acordam bem
em guardá-lo adormecido,
e fazem sinal: sem ruído,
aos que estão e aos que vêm.

O mais velho se adianta
daquele grupo parado,
e toca Vega, inclinado,
mal movendo sequer a planta.
Uma morena, que encanta
por seu ar solto e travesso,
causa elétrico enlevo expresso,
pois, gentil, viva e bizarra,
se aproxima da guitarra
e nas cordas põe um beijo.

Turba então o consagrado
silêncio que a Vega cerca
um ginete que se acerca
em carreira, desatado;
treme o deserto, calcado
pelo casco voador,
e, embora o grupo, em temor,
pretendesse ainda contê-lo,
chega, salta, abre caminho
e sacode o payador.

Mal o rosto sombrio
daquele homem todos viram,
horrorizados sentiram
tremer-lhes a carne de frio.
Olhou em roda, bravio,
com gesto franco e galhardo,
e disse: “Entre os que aqui aguardo
não tenho amigo nenhum;
mas, por testemunha, enfim,
tanto faz Pedro ou João.”

Vega ergueu a fronte altiva
e o contemplou um instante,
mostrando em seu semblante
certo enfado que se esquiva.
“Por fim”, disse em voz fria
o recém-chegado, “estamos
juntos os dois, e encontramos
a ocasião que estes provocam
de saber como se chocam
as canções que nós cantamos.”

Assim dizendo, mostrou
uma guitarra nas mãos,
e entre as raízes salientes,
preludiando, se sentou.
Vega então lhe sorriu
e, ao voltar-se ao instrumento,
a morena, no momento,
já a guitarra lhe trazia,
com um gesto que dizia:
“Eu a beijei faz um momento.”

Juan Sem Roupa, assim chamado,
Juan Sem Roupa, o forasteiro,
começou por um ligeiro
doce acorde, encantado.
E, com timbre modulado,
abrandando os sons emitidos,
cantou tristezas nunca ouvidas,
cantou céus jamais escutados,
que levavam, derramados,
embriaguez aos sentidos.

Santos Vega ouviu suspenso
o cantor; e, toda inquieta,
sentiu sua alma de poeta
como um bater de asas imenso.
Logo, num prelúdio intenso,
feriu as cordas sonoras
e cantou sobre as auroras
e as tardes do chão pampeano,
endechas americanas
mais doces que aquelas horas.

Ao dar Vega fim ao canto,
já uma noite escura e triste
sobre a planície se estende
com as trevas de seu manto.
Juan Sem Roupa ergueu-se, entanto,
sob a árvore se alteou,
um verde ramo tocou,
e a multidão tremeu inteira,
pois, lançando luz vermelha,
aquele ramo se inflamou.

Chispearam seus olhares,
e, torcendo o talhe esbelto,
foi sentar-se, meio envolto
pelas rubras labaredas.
Oh, que vozes levantadas
foram então escutadas!
Quantos ecos despertaram
na misteriosa Pampa,
àquela música grandiosa
que os ventos longe levaram!

Era aquela a canção
que somente na alma vibra,
modulada em cada fibra
secreta do coração;
o orgulho, a ambição,
os mais íntimos anelos,
os desalentos e os voos
do espírito genial,
que vai em busca do ideal,
como o condor para os céus.

Era o brado poderoso
do progresso, entregue ao vento;
era o solene chamamento
para o combate mais glorioso.
Era, em meio ao repouso
da Pampa ontem adormecida,
a visão enobrecida
do trabalho antes sem honra;
a promessa do arado
que abre sulcos para a vida.

Como em mágico espejismo,
ao compasso do concerto,
mil cidades o deserto
levantava de si mesmo.
E, enquanto lá no abismo
uma idade se esboroa,
ao conjuro, na vasta zona,
derramava-se a Europa,
pois decerto Juan Sem Roupa
era a ciência em pessoa.

Vega ouviu, embevecido,
aquele hino prodigioso
e, inclinando o rosto formoso,
disse: “Sei que me venceste.”
Com o semblante umedecido
por nobres gotas de pranto,
voltou-se à jovem, seu encanto,
e nos olhos de sua amada
cravou uma longa mirada,
e entoou seu derradeiro canto:

“Adeus, luz da alma minha,
adeus, flor das minhas planuras,
manancial das doçuras
que meu espírito bebia;
adeus, minha única alegria,
doce afã do meu existir;
Santos Vega vai sumir
na imensidão dessas planuras...
Venceram-no! Chegou, irmãos,
o momento de morrer!”

Ainda suas lágrimas caíram
na guitarra, copiosas,
e as cordas, trêmulas, chorosas,
a cada gota gemeram;
mas súbito se alastraram
do galho ardente as chamas,
e, mudado entre as ramas
em serpente, Juan Sem Roupa
lançou do alto da copa
brilhante chuva de escamas.

Nem sequer cinzas no chão
de Santos Vega restaram,
e os anos dispersaram
as testemunhas do duelo;
mas um velho e nobre avô
assim o conto terminou:
“E, se cantando morreu
aquele que viveu cantando,
foi, dizia suspirando,
porque o diabo o venceu!”

Santos Vega

Sinopse

Tradução brasileira de Santos Vega, poema narrativo gauchesco de Rafael Obligado sobre o payador mítico, o pampa argentino, a música popular e o duelo alegórico com Juan Sem Roupa. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

Santos Vega

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Santos Vega

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Santos Vega Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 4 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Santos Vega

Todos os capítulos 4 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir