Universo da obra
Universo da obra
A impressão mundana, aristocratica, era para mim uma influencia política puramente negativa, como o tinha sido a impressão artistica da Italia ou a impressão literaria de Pariz. O effeito da sociedade, como o das artes e das lettras, não era outro sinão o de impedir o desenvolvimento do germen revolucionario que as leituras francezas dos vinte annos tinham deixado em meu espírito. Sem aquellas influencias, entregue a meus proprios impulsos, do mesmo modo que o meu liberalismo innato degenerou em radicalismo,--o qual foi em mim um puro phenomeno de estagnação em um espaço politico fechado,--o radicalismo teria degenerado em repúblicanismo.
Um distincto escrtor, que costumo encontrar na Revista Brasileira, o dr. Pedro Tavares, dessa ordem de repúblicanos a que chamarei prematuros, mais de uma vez me tem estranhado o que chama o desvio de minha evolução política.
Para elle o liberalismo desenvolve-se, completa-se, termina, naturalmente, pelo repúblicanismo. Terá elle, porém, certeza de que Mirabeau, se vivesse, havia de figurar na Convenção? A critica é egual à que se fizesse, por exemplo, a Lafayette, por não ter abraçado a República em França depois de ter ajudado a fundal-a na America. O facto é que no repúblicanismo, fallo do sincero, do verdadeiro, ha um ideal, mas ha também um resentimento das posições alheias, como no socialismo, no communismo, no anarchismo ha ideal, mas ha tambem inveja, e desta é que parte, quase sempre, o impulso revolucionario.
Sem as influencias negativas da imaginação, eu teria sido talvez levado até à república, como tantos que depois se arrependeram; aquellas influencias me contiveram somente porque me desviaram, ou me distrahiram da política. Eu era, porém, por natureza, um temperamento politico. Cedo ou tarde, a política tornaria a seduzir-me, e só uma influencia positiva, que creasse em mim uma segunda natureza e modificasse o meu temperamento em suas tendencias absolutas, radicaes, podia tornar-me monarcico de razão e de sentimento, como fiquei. Essa influencia foi o contagio do espírito inglês, o que pude apropriar-me delle.
A minha passagem pela Inglaterra deixou-me a convicção, que depois se confirmou nos Estados Unidos, de que só ha, inabalavel e permanente, um grande país livre no mundo. A Suissa é um país livre, mas é um pequeno país; os Estados Unidos são um grande país, mas ha nelle, sem fallar da sua justiça, da lei de Lynch, que lhe está no sangue, das abstenções em massa da melhor gente, do desconceito em que cahiu a política, uma população de sete milhões, toda a raça de côr, para a qual a egualdade civil, a protecção da lei, os direitos constitucionaes, são continuas e perigosas ciladas. A França é um grande país e um país livre, mas sem espírito de liberdade arraigado, sujeito sempre ás crises das revoluções e da gloria.
O que deixa tão funda impressão na Inglaterra é, antes de tudo, o governo da Camara dos Communs: a susceptibilidade daquelle apparelho, ainda perante as mais ligeiras oscillações do sentimento publico, a rapidez dos seus movimentos e a força, em repouso, de reserva, que elle concentra. Mais ainda, porém, do que a Camara dos Communs, é a auctoridade dos Juizes. Sómente na Inglaterra, póde-se dizer, ha juizes. Nos Estados Unidos a lei póde ser mais forte do que o poder; é isto que dá à Côrte Suprema de Washington o prestigio de primeiro tribunal do mundo, mas só ha um país no mundo em que o juiz é mais forte do que os poderosos: é a Inglaterra. O juiz sobreleva à familia real, à aristocracia, ao dinheiro, e, o que é mais do que tudo, aos partidos, à imprensa, à opinião; não tem o primeiro logar no Estado, mas tem-no na sociedade. O cocheiro e o groom sabem que são criados de servir, mas não receiam abusos nem violencia da parte de quem os emprega. Apezar dos seus seculos de nobreza, das suas residencias históricas, da sua riqueza e posição social, o marquez de Salisbury e o duque de Westminster estão certos de que diante do juiz são eguaes ao mais humilde de sua criadagem. Esta é, a meu ver, a maior impressão de liberdade que fica da Inglaterra. O sentimento de egualdade de direitos, ou de pessôa, na mais extrema desegualdade de fortuna e condição, é o fundo da dignidade anglo-saxonia.
Excepto essa idéa da justiça, que se foi formando e crescendo em mim, à medida que lia no Times a secção dos tribunaes, curso pratico de liberdade que a nenhum outro se compara, posso dizer que não fiz na Inglaterra sinão verificar por mim mesmo a precisão, a penetração, a agudeza de espírito de Bagehot. O seu pequeno livro, cotejado com o que eu via, ouvia e sabia, explicava-se, tornava-se claro, sensivel, palpitante no que antes era obscuro, indifferente; fazia-me comprehender o mechanismo de que elle formulára a teoria: passava a ser para mim, em direito constitucional, um verdadeiro evangelho. Uma coisa era ter assimilado aquellas idéas logo ao sahir da Academia e outra ver funccionar o proprio sistema, receber a impressão viva do que apenas eu apprendêra ou decorára.
Essa dupla influencia do governo inglês e da liberdade inglesa era, por sua natureza, monarcica. Não podia deixar de inclinar-me interiormente à monarcia a idéa de que o governo mais livre do mundo era um governo monarcico. Ainda assim um estrangeiro intelligente não seria no seu país inabalavelmente monarcista somente porque o governo chegou na Inglaterra a um gráu maior de perfeição do que nos Estados Unidos, que tomaram a fórma repúblicana. Desde que não tinhamos no Brasil os elementos históricos que a liberdade inglesa suppõe, a não querer eu commetter o maior erro que se póde commetter em política,--o de copiar de sociedades differentes instituições que cresceram,--eu não podia repellir a república no Brasil somente por admirar a monarcia inglesa de preferencia à Constituição Americana. Era preciso alguma coisa mais, no que respeita à fórma de governo, para eu não me deixar arrastar.
A transformação, ou, melhor, a modificação de ideal politico que soffri na Inglaterra era, todavia, a preliminar, o preparo para a impenetrabilidade que offereci depois à aspiração repúblicana. Até então, a fórma repúblicana me parecêra superior à monarcica pelo lado da dignidade humana. Foi na Inglaterra que senti que nunca a nossa raça attingiu ao mesmo ponto de altivez moral que em uma monarcia. Com o privilegio dynastico, que tambem o meu radicalismo rejeitava, eu agora o via bem, não se fazia no seculo XIX sinão aproveitar a tradição nacional mais antiga e mais gloriosa para neutralisar a primeira posição do Estado. A concepção monarcica ficava sendo esta: a do governo em que o posto mais elevado da hierarchia fica fóra de competição. Era uma concepção simples como a da balança, como a do eixo. Nenhum direito se transformou tanto no decurso deste seculo no Occidente como o direito real, que de divino passou a ser puramente histórico, de activo passou a ser passivo. O rei da Inglaterra, se quizer influir na política com as suas idéas proprias e a sua iniciativa, tem primeiro que abdicar e,--se a hypothese é admissivel,--fazer-se eleger à Camara dos Communs ou tomar a direcção da casa dos Lords. Entre o Czar e a rainha Victoria a differença de auctoridade é infinitamente maior do que entre a rainha Victoria e o Presidente dos Estados Unidos. O governo pessoal é possivel na Casa Branca; é impossivel em Windsor Castle.
O chamado privilegio é assim um cargo honorifico, uma tradição nacional, uma conveniencia publica, quase uma fórmula algebrica de equilibrio de forças, de conservação de energia, de moto continuo. É tão absurdo resentir-se alguem em sua dignidade da existencia desse ponto fixo no sistema politico, como seria o resentir-se da existencia do eixo da terra ou da estrella polar. A muitos é impossivel deixar de ver no occupante do throno o homem ou a mulher, o accidente, a pessôa, para ver a funcção, a existencia tradicional, a lei do movimento politico. Desses póde-se dizer que são deficientes em imaginação symbolica; mas, desapparecendo o symbolismo, podemos estar certos de que desapparecerá tambem o ideal na religião, na poesia, na arte, na sociedade, no Estado.
A monarcia constitucional ficava sendo para mim a mais elevada das fórmas de governo: a ausencia de unidade, de permanencia, de continuidade no governo, que é a superioridade para muitos da fórma repúblicana, convertia-se em signal de inferioridade. Esse ideal repúblicano, de um Estado em que todos pudessem competir desde o collegio para a primeira dignidade, passava a ser a meus olhos uma utopia sem attractivo, o paraiso dos ambiciosos, especie de hospicio em que só se conhecesse a loucura das grandezas. Não era este, de certo, o termo da evolução humana, pelo qual rezamos todos os dias, quando repetimos o adveniat regnum tuum. Desistir da idéa monarcica não é tão facil como parece. Mesmo o sistema planetario é monarcico, diz Schopenhauer. O Universo é a monarcia por excellencia. Em vez de Cosmos, Humboldt podia ter dado ao seu livro o titulo De monarcia. A idéa central do Infinito, isto é, Deus, não podia deixar de ser em toda a esphera da intelligencia e da actividade humana o verdadeiro ideal. Até hoje a força, transformada em direito e em tradição, terá sido a genese do ideal monarcico; um dia elle sahirá da sciencia, da intelligencia, da virtude, da santidade. O ideal humano, todo elle, toda a esthetica religiosa, social, artistica, podemos ficar certos, está inteiro na linha: «E creou Deus o homem à sua imagem.»
Eu encontrava repúblicanismo na Inglaterra em espiritos de primeira ordem; havia repúblicanismo, mais ou menos consciente, em Spencer, em Mill, em Bagehot, em Bright, em Morley, em George Eliot, em G. Henry Lewes, mas era repúblicanismo sine die, conservado no sentimento monarcico, para impedil-o de corromper-se. A Inglaterra não seria a nação livre que é se não houvesse no seu caráter uma fibra que impede a veneração dynastica de degenerar em superstição, a «loyalty» de tornar-se servilismo... No coração inglês a fidelidade à Camara dos Communs precede a fidelidade à Realeza, e dessa regra não faz excepção a propria dynastia, que sente como a nação. Esse fundo de repúblicanismo, latente, esquecido até, mas que a menor provocação faria resuscitar o mesmo que sob os Stuarts, longe de ser incompativel com o monarcismo, é que o tem conservado, restringindo, reduzindo o poder real à funcção que é hoje, puramente moderadora e, só raras vezes, provisoriamente arbitral. Esse repúblicanismo não impedirá,--pelo contrario,--os que o têm em reserva, de inclinar-se diante da rainha e defender a integridade da sua prerogativa esvaecente.
Como eu disse, porém, não me bastaria mesmo essa profunda modificação de ideal politico para impedir-me de acompanhar o movimento repúblicano entre nós, dadas certas contingencias. Eu podia ser monarcista de ideal e julgar a república, em um momento dado, o melhor governo praticavel, como se póde ser repúblicano de ideal,--e muitos o são na propria Inglaterra,--e fazer da monarcia o seu noli me tangere. Além disso, eu podia deixar arrastar-me por uma corrente de enthusiasmo, por uma solidariedade de partido, por amizades politicas, ou, mesmo, por algum interesse que soubesse disfarçar-se e insinuar-se-me no espírito,--sob a fórma de um sacrificio à causa publica. As idéas para espiritos que vêm os lados oppostos das coisas, o que tudo tem de bom e de mau, são pobres, frageis, antemuraes. É preciso, para sustentar a fé política, mais do que a lucidez da intelligencia; a não haver um sentimento que interesse o coração, ou uma especie de ponto de honra que se imponha ao caráter, é indispensavel um espírito uniforme de conducta, uma regra certa de direcção. No meu caso particular, o que me poupou da illusão repúblicana foi um toque apenas do espírito inglês.
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