Universo da obra
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Sem elle a convicção da superioridade do tipo politico da Inglaterra não teria bastado. Quanto à sensação aristocratica da vida, de que tambem fallei, essa, no combate dos partidos, não teria resistido ao primeiro choque. O que entendo por espírito inglês neste caso é a norma tacita de conducta a que a Inglaterra toda parece obedecer, o centro de inspiração moral que governa todos os seus movimentos. Vi quase nada da Inglaterra, sinto dizel-o, mas vi pedaços que me impedem quase de querer ver o resto, excepto Oxford, cujo logar tenho vago em minha galeria interior, à espera do seu pequeno quadro. Vi, por exemplo, Cantuaria, e tenho no pensamento a calma, o silencio, a grandeza daquella imponente massa recolhida em se mesma. Vi, na semana de Cowes, Southampton e a ilha de Wight, pequena sombra da Inglaterra no mar, sombra colorida, movente e alegre. Fui em carruagem,--poderá haver um dia mais completo de romance?--de Stratford-on-Avon, atravessando Warwick, a Kenilworth. Passei dias à margem do Tamisa, entre Windsor e Henley, e creio que tive reminiscencias do paraiso terrestre. É realmente a vinheta mais perfeita que se podia imprimir à margem do capitulo II, v. 10 do Genesis: «Deste logar de delicias sahia um rio que regava o paraiso.» Em toda parte a impressão que tive da Inglaterra foi a mesma: ruinas cobertas de hera, antigas gravuras expostas em Pall Mall, montes de trigo nos campos ceifados, castellos recortados no meio de parques florestaes, velhas estalagens à beira da estrada, botes encostados ao arvoredo de Cliveden, grandes transatlanticos nas docas de Southampton, sempre a mesma impressão, o cunho inglês estampado em tudo. A sensação foi a mesma para mim da Inglaterra, vista de dentro, na segurança de seus recursos, e vista de fóra, inatacavel nos seus altos cliffs brancos, a cujos pés o mar se abre como uma trincheira.
É, porém, na sua feição política somente que considero neste momento o espírito inglês, e, ainda mais restrictamente, o modo por que elle se manifesta nos movimentos reformistas, a influencia que tem sobre os espiritos innovadores. Politicamente, o espírito inglês póde decompôr-se em espírito de tradição, em espírito de realidade, em espírito de ganho, em espírito de força e generosidade, em espírito de progresso e melhoramento, em espírito de ideal: supremacia anglo-saxonia e supremacia christã no mundo.
A veneração imprime na Inglaterra aos precedentes uma auctoridade quase sagrada, e tira a tudo que tem caráter histórico ou funcção nacional, a feição individual em que se fixa a vista de outros povos. A rainha Victoria é mais do que a augusta, cuja imagem cada familia venera no seu lararium interior; é a realeza Normanda, Plantagenet, Tudor. Como a Rainha, a Constituição. Esta não é mais do que uma procuração em causa propria, dada pela nação inglesa à Camara dos Communs, e mesmo, assim, um mandato de que nunca se viu o instrumento. Nenhum grande legista a redigiu, nenhum homem de Estado a ideou: formou-se espontaneamente, inconscientemente, como a lingua inglesa, a architectura perpendicular, os contos da nursery. A tradição, como base do temperamento nacional, produz no Inglês a faculdade de admirar a massa histórica de uma instituição, como o architecto admira a grandeza e o detalhe de uma cathedral gothica. Para o Inglês, se a liberdade é o grande attributo do homem, se elle a sente como o desenvolvimento da personalidade, a ordem é a verdadeira architectura social. Elle comprehende e penetra a grandeza do sistema que se perpetúa mais do que a das revoluções, ao contrario do latino, que póde viver e ser feliz em um solo politico oscillante, sujeito a terremotos continuos. D'ahi, para elle o amor da lei e a sympathia, interesse, carinho mesmo, pela auctoridade encarregada de executal-a; d'ahi, tambem, o prestigio do juiz, a popularidade das sentenças que aterrorisam o criminoso, ao contrario das facilidades que este encontra nos países onde decáe o instincto de conservação.
Se n'uma organização assim formada existe, ao lado dessa quase superstição do costume, o espírito de aperfeiçoamento e de progresso, o que resulta é que as reformas, as modificações serão governadas por algumas regras elementares. Uma destas será conservar do existente tudo o que não seja obstaculo invencivel ao melhoramento indispensavel; outra, que o melhoramento justifique,--e para justificar não basta só compensar,--o sacrificio da tradição, ou mesmo do preconceito que o embarga; outra regra é respeitar o inutil que tenha o cunho de uma época, só demolir o prejudicial; outra, substituir tanto quanto possivel provisoriamente, deixando ao tempo a incumbencia de experimentar o novo material ou a nova fórma, para consagral-o ou rejeital-o; uma ultima, esta rara e extrema, será reformar, no sentido originario da instituição, o mais antigo, procurando o traçado primitivo. Dessas regras resulta o dever de demolir com o mesmo amor e cuidado com que outras epochas edificaram. Nenhum explosivo é legitimo, porque a acção não póde ser de antemão conhecida; é preciso demolir a nivel e compasso, retirando pedra por pedra, como foram collocadas.
O que, porém, dirige o espírito de progresso é o espírito de realidade, espírito pratico, positivo, que se manifesta pela rejeição de tudo que é teorico, a priori, tentativo, logico, ou que pretenda à perfeição, à finalidade, à uniformidade, à symetria. A esse espírito corresponde, na ordem política, a idéa de crescimento: as instituições têm o seu habitat como as plantas, as suas latitudes e terreno proprios, condições especiaes de acclimação, obstaculos e perigos de transplantação. Não basta que a reforma seja indicada pela experiencia, baseada em uma forte verosimilhança; é preciso que tenha affinidade com as outras instituições. Esse espírito pratico, positivo, é a experiencia do utilitarismo, do espírito de crear e accumular riqueza, caracteristico da raça. O utilitarismo manifesta-se em que as reformas devem ter uma vantagem economica, pelo menos indirecta, e justificar-se por algarismos. Ao lado, porém, da corrente utilitaria, ha a corrente imaginatíva ou de ideal, moral, nacional, religiosa.
A varonilidade impõe ao reformador não fazer victimas emissarias, responsabilisando individuos ou instituições pelos erros communs da sociedade, não lavar as mãos como Pilatos das injustiças da multidão, não preferir o fraco para sobre elle descarregar o golpe, em uma palavra, o fair-play. O patriotismo manda não consentir que o espírito de partido supplante o de responsabilidade para com o país. O que, entretanto, na Inglaterra alimenta, renova e purifica o patriotismo, é outra especie de responsabilidade: a do homem para com Deus. Só quando o orgulho britannico e a consciencia christã estremecem juntos e se unem em uma mesma causa, é que o sentimento inglês desenvolve a sua energia maxima. A inspiração da vida publica na Inglaterra vem em grande parte da Biblia. A política e a religião sentem que terão sempre muito que fazer em commum, que uma e outra têm o mesmo objectivo pratico--elevar a condição moral do homem, e o effeito desse ultimo e, talvez principal elemento do espírito inglês, em relação ás reformas, é fazer o argumento moral prevalecer sobre o argumento utilitario.
Tomando-se o espírito inglês, como acabo de delinear, que é que elle inspirará na Inglaterra a repúblicanos de ideal, que se subordinem, entretanto, como individuos, à consciencia collectiva, ao instincto nacional? Ha uma pagina interessante em On Compromise, livro typico de casuistica intelectual inglesa, escrto por John Morley. Essa pagina é a melhor illustração do que eu disse antes sobre o repúblicanismo que póde existir por baixo do sentimento monarcico, até para dar-lhe vida e calor. Elle figura um Inglês convencido de que a monarcia, mesmo meramente decorativa, tende a engendrar habitos sociaes degradantes. O dever desse repúblicano será deixar a monarcia de lado e abster-se de todos os actos, em publico e em particular, que possam, mesmo remotamente, alimentar o espírito de servilismo. «Tal política não interfere, diz-nos Mr. Morley, com as vantagens que se diz ter a monarcia, e tem o effeito de tornar as suas suppostas desvantagens tão pouco prejudiciaes quanto possivel...»
Desse espírito inglês eu disse que tive apenas um toque. Na questão da abolição, entretanto, não me desviei delle. A abolição era uma reforma que o espírito inglês anteporia a todas as outras por toda ordem de sentimento. Se a abolição se fez entre nós sem indemnisação, a responsabilidade não cabe aos abolicionistas, mas ao partido da resistencia. O meu projecto primitivo, em 1880, era a abolição para 1890 com indemnisação. Se em qualquer tempo um ministro da corôa chegasse ás Camaras e dissesse: «A escravidão não póde mais ser tolerada no Brasil, o nosso gráu de civilisação repelle-a, e eu venho pedir que decreteis a liberdade immediata dos escravos existentes, votando os precisos recursos para a respectiva desapropriação», poderia haver abolicionista que quizesse prolongar a escravidão? Nenhum da nós assumiria a odiosa responsabilidade. Esse homem, porém, não surgiu d'entre os estadistas do Imperio; todos pensavam, ou que a abolição arruinaria a lavoura e o credito do país, ou que o Brasil não era rico bastante para pagar a libertação moral do seu territorio. Podia haver abolicionistas contrarios à indemnisação; de facto, os houve; mas podiam elles, acaso, votar nunca contra uma lei de abolição immediata? A responsabilidade foi assim dos partidos, que se comprometteram perante a lavoura a resistir ao movimento, e que teriam, do seu ponto de vista, feito melhor sacando sobre o futuro e desapropriando os escravos, quando o principio da não-indemnisação ainda não tinha triumphado no projecto Dantas e na segunda lei de 28 de setembro. Essa intuição só a teve o meu querido amigo José Caetano de Andrade Pinto no Conselho de Estado; não lhe deram, porém, valor. Com relação à lei de 13 de maio devo dizer que em 1888 era tarde para se pleitear a equidade da desapropriação diante de um movimento triumphante, quando já a maior parte dos escravos tinham sido liberalmente alforriados pelos senhores e o resto da escravatura estava em fuga, depois, sobretudo, de estar por lei consagrado o principio de que a escravidão era uma propriedade anomala, a que o legislador marcava sem onus para o Estado o prazo de duração que queria.
Em relação à monarcia do Brazil aquelle toque do espírito inglês bastou para traçar-me uma linha de que eu não poderia afastar-me, mesmo querendo. Era um ponto de honra intelectual, um caso de consciencia patriotico definitivamente resolvido em meu espírito, aos vinte e tres annos. Supprimir a monarcia que tinhamos, ficou claro para mim desde então, era uma política a que eu não poderia nunca associar-me; eu poderia tanto banir, deportar o Imperador, como atirar ao mar uma creança ou deitar fogo à Santa Casa. Quebrar o laço, talvez providencial, que ligava a historia do Brasil à monarcia, era-me moralmente tão impossivel, como me seria no caso de Calabar entregar Pernambuco por minhas proprias mãos ao estrangeiro. Faltar-me-iam forças para uma intervenção dessas no destino do meu país. Seria attrahir sobre mim um golpe de paralysia, ferir-me eu mesmo de morte moral. Minha coragem recuava diante da linha mysteriosa do Inconsciente Nacional. O Brasil tinha tomado a fórma monarcica, eu não a alteraria.
O que vi dos Estados Unidos não fez sinão calcar mais profundamente a impressão monarcica que eu levava da Inglaterra. Foi uma segunda chave, de segurança, que fechou em meu pensamento a porta que nunca mais se devia abrir. O espírito politico americano, com certas modalidades que não quero amesquinhar, mas que me parecem secundarias, é uma variedade do espírito inglês, o qual merece antes ser chamado espírito anglo-saxonio, porque é um espírito commum de raça, de grande familia humana, superior a fórmas e accidentes de instituições.
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