Universo da obra
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DEMONSTRAÇÃO NEGATIVA
I. — Que os navios da expedição foram arrastados para oeste pela ação forçada e insuperavel do meio em que navegavam.
Esta hipótese desdobra-se em duas outras:
1.ª Que os navios da expedição foram impellidos para oeste pelas correntes athmosfericas;
2.ª Que os navios da expedição foram arrastados para oeste pelas correntes marítimas.
A 1.ª hipótese é inadmissivel pelos factos e razões seguintes:
a) Não consta da descrição minuciosa desta viagem, feita por Pero Vaz Caminha, que ia a bordo, que depois de passadas as Ilhas de Cabo Verde sobreviesse tempestade; facto notavel que não ficaria de certo omittido na carta deste escriptor se tivesse determinado tão inesperado acontecimento. [1]
b) Refere Pero de Magalhães de Gandavo, na sua Historia da Provincia de Santa Cruz, que passadas as Ilhas de Cabo Verde, foi o vento prospero até avistarem a costa daquela provincia. [2]
c) Independentemente das informaçôes authenticas daquela epocha, sabe-se que as tempestades da costa do Brasil, na estação do ano considerada, sopram do noroeste e do sudoeste, afastando portanto da costa para o largo em sentido contrario ao que seguiu a expedição. [3]
d) Para o desvio ser causado por temporal e este atirar os navios para o lado da costa, deveria a tempestade provir dos quadrantes de fóra, pelo menos comprehendida entre os rumos de NE e SE, durar alguns dias e apartar os navios; circumstancias estas que não se verificam naquella zona, nem aconteceram à expedição, visto que a frota aportou unida e completa até à costa. [4]
e) Não se conhece documento nem fundamento, que mencione, ou justifique, ter-se dado uma tempestade, que desviasse a expedição para oeste; mas existem duas cartas de bordo, nas quaes não se refere ter havido temporal; assim como se sabe que as condições meteorologicas daquela região, durante a monção do SW, são contrarias à cofirmação de tal caso de força maior; circumstancias e razões estas, todas decisivas, para pôrem de parte e não auctorizarem esta hipótese. [5]
A 2.ª hipótese menos se pode tambem admittir, em vista dos fundamentos seguintes:
f) Das observações astronomicas feitas em terra pelo bacharel mestre Johan, fisico e cirurgião de el-rei, não resultam differenças nas situações calculadas a bordo durante a viagem e estas feitas à chegada, o que deveria succeder se houvesse corrente atendivel, e não deixaria de ser mencionado na carta que ele dirigiu a el-rei, por isso que nela se ocupa das differenças que há entre as derrotas estimadas pelos diversos pilotos da expedição, comparadas com a derrota por ele calculada. [6]
g) O grande circuito marítimo do oceano Atlântico Sul, caminha de leste para oeste ao longo do equador; inflecte para a sudoeste na altura da Ilha de Fernando de Noronha; desvia-se successivamente para o sul de Pernambuco em deante; dirigindo-se depois gradualmente para sueste e leste até ao Cabo da Boa Esperança; e corre além disto muito ao largo da costa oriental da América do sul; circumstancias estas que bem demonstram a nenhuma influencia que este circuito pode ter sobre a atterragem dos navios. __[7]
h) A corrente da costa do Brasil, que se destaca deste grande circuito, corre para SSW parallelamente à terra e a curta distancia dela, com pequena velocidade, não tendo ação sobre os navios senão na zona costeira, na qual a existencia da terra já está assignalada muito por fóra. [8]
i) Os navios da frota, que eram veleiros e de panno latino, podiam facilmente ganhar caminho para barlavento, vencendo qualquer destas correntes, mesmo que elas fossem contrarias, quanto mais sendo fracas e derivando à feição, para o largo ou parallelamente à costa, se o destino da derrota, com vento prospero, vizasse unicamente a montar o Cabo da Boa Esperança para seguir para a Índia. [9]
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