Universo da obra
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DEMONSTRAÇÃO POSITIVA
III. — Que a expedição se dirigiu para oeste propositadamente.
Esta hipótese subdivide-se em três:
1.ª Proposito motivado por vantagem da navegação;
2.ª Proposito de procurar terra ao ocidente da África;
3.ª Proposito de procurar passagem para a Índia pelo caminho do ocidente.
A 1.ª hipótese encontra fundamento nos factos e razões seguintes:
o) Já Vasco da Gama tinha dado o primeiro exemplo de fazer prôa ao mar a grande distancia da terra, cortando a linha a oeste do meridiano das Ilhas de Cabo Verde, seguindo a meio do Atlântico sul até virar na volta do Cabo da Boa Esperança. [16]
p) Pedro Álvares Cabral levava instrucções nauticas, feitas por Vasco da Gama, para se afastar para oeste das Ilhas de Cabo Verde, tomar a bordada do SW e seguir assim até à latitude do Cabo da Boa Esperança. [17]
q) Pretendia-se com as instrucções nauticas, referidas na alinea anterior, evitar não só as calmas e trovoadas da costa de África, como tambem fugir das tempestades do Cabo da Boa Esperança (cabo tormentoso) fazendo a viagem muito pelo largo. [18]
r) Os conhecimentos determinantes destas instrucções, em relação aos ventos, calmas e correntes marítimas do Atlântico, tinham sido adquiridos durante as viagens anteriores feitas pelos navegadores portugueses, entre os quaes se tornaram mais notaveis: Diogo Cam, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama e todos os pilotos que foram na primeira viagem à Índia. [19]
A 2.ª hipótese tambem hoje se demonstra sem deixar duvida alguma, porque:
s) Já em 1498, havia el-rei D. Manuel encarregado Duarte Pacheco, cavalleiro da sua casa, notavel pelo valor pessoal, de ir procurar terra ao ocidente da África. [20]
t) Refere Duarte Pacheco que era esta a terra da quarta parte desconhecida do mundo que el-rei D. Manuel mandou descobrir. [21]
u) Diz Pero Vaz Caminha, na sua carta, que a frota seguiu o caminho que el-rei mandou que seguisse. [22]
v) Levava Pedro Álvares Cabral na expedição um navio destinado a voltar para traz, dando conta do resultado da exploração ao ocidente, que era a nau dos mantimentos. [23]
x) Fazendo-se os geraes de SE. na estação considerada, muito para E. depois de passar a linha para o sul, e justificando-se o desvio para oeste unicamente por vantagem da navegação, tinha a frota aproveitado aquela circumstancia favoravel do alargamento do vento, para barlaventear na direcção do Cabo da Boa Esperança; o que não fez, porquanto arribou para o ocidente em direcção opposta áquella que deveria seguir pretendendo simplesmente montar o Cabo da Boa Esperança. [24]
y) Além das instrucções conhecidas dadas a Pedro Álvares Cabral, nenhuma prova há de que ele não levasse tambem instrucções verbaes e confidenciaes; é mesmo evidente que deviam existir para tão delicada empreza, e, portanto estar entre estas incluida a de procurar terra ao ocidente na sua travessia tão amarada do continente Áfricano.
z) A unica objecção até hoje apresentada contra a existencia de instrucções verbaes ou confidenciaes para procurar terra a oeste, é a de que em relação a este descobrimento, nada explica o segredo que de elas se fez anteriormente, nem a falta de referencia posterior; mas esta razão contradictoria carece de fundamento, encontrando pelo contrario completa explicação na reserva que deveria haver nas explorações marítimas, desde que outras nações procuravam combater pela concorrencia a notavel expansão de Portugal sobre o globo.
A 3.ª hipótese fica evidentemente prejudicada em face dos fundamentos que justificam a hipótese anterior.
* * * * *
Portanto em vista dos factos e razões apresentadas no decurso desta memoria, julgamos ter demonstrado com autenticidade e fundamento: que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil porque levava instrucções de se desviar para oeste, não só por vantagem da navegação, como tambem para na sua passagem explorar os mares ocidentaes, onde havia toda a probabilidade de existir terra.
Lisboa 7 de maio de 1892.
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