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Capítulo 2 · Três Capitais

Rio de Janeiro: Domingo de Ramos

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Ás 5 horas da manhã de 12 de Abril de 1908, o velho e rapido transatlantico Magellan, da Messageries Maritimes, passou por entre as fortalezas da Lage e de Santa Cruz, e deixando atrás de si a de Villegaignon, fundeou defronte das ilhas Fiscal e das Cobras, N’este momento já o astro-rei emergia do Oriente, a realçar e aureolar a maravilhosa e incomparavel belleza natural da bahia de Guanabara, e do immenso e formosissimo scenario que a abraça em deslumbramentos de apotheose.

A amplidão da bahia, semeada de muitas e grandes ilhas, circumdada de duas cidades e de ridentes povoações, a alvejarem por entre verdejantes e floridos maciços; as serras e montanhas, opulentamente vestidas, até aos vértices, e que encantadoramente fecham a orla do horizonte; todo esse empolgante conjuncto, que constitue o mais bello e arrebatador panorama do nosso globo, patenteava-se alli, á nossa vista deslumbrada.

Ao mesmo tempo, o nosso pensamento, enlevado nas sublimidades do supremo encanto e da belleza maxima, divinizava-se aos esplendores eternos.

Approximavam-se as visitas officiaes e, após ellas, immensos botes e pequenos vapores conduzindo parentes e pessôas amigas dos passageiros.

Em um d’elles lobrigamos gente querida, havia muito tempo ausente, e com ella desembarcamos, radiantes de contentamento e anciosos de revêr e percorrer de novo a terra idolatrada, hoje transformada e onde se passaram os melhores annos da nossa mocidade. Era ainda cêdo para almoço. Que fazer?

—Dar um passeio, de bonde, até á Gavea, alvitrou alguem.

Unanimamente approvada a ideia e... a caminho.

Estavamos em Botafogo, o bairro da aristocracia, do luxo, da elegancia, da formosura e do supremo gosto.

O bonde electrico começou a deslisar e os nossos olhos não sabiam o que mais admirar, se os primôres irradiantes da paisagem, se as curiosidades que nos cercavam, quasi originaes para nós, empolgantes e interessantissimas.

O vehiculo parou defronte da matriz de S. João Baptista, e foi invadido por numeroso grupo de crianças e senhoras, que empunhavam floridos ramalhetes, de varios tamanhos, vélas de cêra enfeitadas a papeis de côres e cannas servindo de hastes a ramos de flôres.

—O que é isto? inquirimos.

—Domingo de Ramos, foi a resposta.

Continuamos a observar as devotas. Nada póde haver de mais bizarro e extravagante.

A variedade de colorido cançaria a paciencia ao mais habil classificador de nuances.

Desde o negro retinto e do preto suavisado pelo cruzamento do sangue, até ao vermelho aloirado das filhas de Albion e da Germania, tudo alli se via em mistura de encantos, a contrastar cora as côres berrantes dos vestuarios e com os deslumbramentos da paisagem, ridente de primôres e abrasada de sol.

A manhã brilhava na suavidade e frescura do arvoredo, no dorso azulado das montanhas, ao longe acariciadas e envoltas por nuvens que hauriam-lhes as humidas e fecundantes exuberancias.

E o electrico continuava sempre a correr entre a apotheose da natureza e os vividos quadros realçados pelas cariocas que empunhavam os ramos commemorativos da entrada triumphal de Christo na cidade deicida.

O bonde parára á porta de outra egreja. Era a matriz da Gavea. Grande e garrula renovação, de passageiras.

Como as primeiras, as nossas novas companheiras de passeio eram igual e altamente interessantes nas côres do rosto, do vestuario, dos floridos tropheus e, principalmente, n’essa linguagem cantante e dulcissima, que é um encanto para quem vae acostumado ao forte e classico portuguez de Portugal. O tempo aquecêra, porém. A atmosphera tornára-se pesada e humida. As devotas, acclimadas, dessoravam a essencia das suas côres naturaes, emquanto que o nosso possante e adiposo tecido desfazia-se em liquidas camarinhas e ardentes exhalações.

Attingiramos o ponto extremo da linha dos electricos da Botanical Garden, depois de, por largo espaço, havermos seguido parallelamente a essa maravilha das curiosidades fluminenses que se chama Jardim Botanico.

Restava-nos retroceder.

As nossas garridas companheiras tinham ficado pelo caminho e desapparecido por entre frondosos e bellos jardins, que abraçavam lindissimas chacaras. Outras passageiras as substituiram; porém o interesse de observal-as tinha, pouco a pouco, cedido o logar a um appetite devorador e á morbida prostração causada pelo vazio do estomago e pela ardencia rigorosa e dissolvente da canicula.

Em todo o caso, a primeira impressão fôra de ineffavel agrado e de saudosissimas recordações. Elle ahi estava, bem patente ao nosso olhar investigador, esse Rio de Janeiro exuberante de seducções e de primôres, em profundo renovamento esthetico, mas sempre soberbo e magnificente nos inesgotaveis thesouros da sua pujantissima natureza, que eternamente o sublimarão á hierarchia da mais bella cidade da Terra.

E como dirigissemos um ultimo olhar de despedida e de admiração á paisagem circundante, vimos o dorso imponente e alteroso do Corcovado, ligeiramente occulto pelas proprias emanações, liquidificadas em diaphana e alvissima nuvem. O Chapéu de Sol, a refulgente auréola do seu vértice, velado pelas opulencias do ether, trocava segredos com os mysterios do infinito, talvez haurindo dos arcânos da immensidade nova e deslumbrante apotheose, com que divinizar o já inextinguivel diadema de soes, que realça os naturaes esplendores da capital brasileira aos deslumbramentos divinos.

Três Capitais

Sinopse

Leia gratuitamente Três Capitais, de José Augusto Corrêa, obra em domínio público sobre Rio de Janeiro, Montevideu e Buenos-Aires no início do século XX. Esta edição conservadora do Literunico preserva a grafia histórica, organiza os capítulos por cidade e tema e prepara a obra para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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