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Cartas de Inglaterra

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Capítulo 8 · Cartas de Inglaterra

Lord Beaconsfield

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I

Recomeçando hoje estas CARTAS DE INGLATERRA--que eu não podia escrever de Lisboa, onde estive alguns meses gozando os ócios de Tityro, sub tegmine fagi, á sombra de essa faia constitucional que se chama o Gremio--devo memorar, ainda que tarde, a morte de Benjamin Disraeli, Lord Beaconsfield, ocorrida no dia 19 de maio, pela madrugada, em Londres, na sua casa de Curzon Street. A doença de Lord Beaconsfield, uma complicação de gota, asma e bronchite, arrastou-se cruel e longa; o mal porém foi debelado e Lord Beaconsfield sucumbiu realmente á fraqueza, á fadiga dos setenta e sete anos e uma existência tão episódica, tão cheia, tão emotiva, que ela ficará como o seu melhor romance, bem superior em estilo e interesse a Tancredo ou a Endymion.

Desde o primeiro dia, Lord Beaconsfield perdeu logo a esperança de se restabelecer; mas passou a encarar a morte como encarara sempre as suas derrotas politicas: com uma coragem desdenhosa e fria e um ar de fácil superioridade. Durante a doença, aos acessos agudos da dor, respondia ele com esses sarcasmos mordentes e rebrilhantes, que tinham sido sempre a sua desforra querida perante um adversário mais forte.

No dia 18, á noite, cahiu pouco a pouco em uma somnolencia comatosa, e assim permaneceu até ao romper da manhã; momentos antes de morrer, agitou-se, ergueu-se, ainda dilatou o peito, lançou os braços ao ar--como costumava fazer nos grandes debates da camara; depois recahiu sobre o travesseiro, estendeu as mãos a Lord Rowton e Lord Barrigton, seus secretários, e murmurou debilmente: Estou vencido!--E ficou como adormecido para sempre. E, considerando que, em esse momento, toda a Inglaterra, o mundo inteiro, esperavam anciosamente noticias de aquele quarto de Curzon Street, onde expirava o homem que sessenta anos antes era um pobre escrevente de cartório--póde-se dizer que em esta carreira tão feliz a morte mesma foi feliz.

O seu próprio funeral teria agradado á sua imaginação--a certos lados delicados da sua imaginação de artista. O testamento que deixou não permitiu que se celebrassem funerais públicos na Abbadia de Westminster--disposição estranhável em um homem que mais que tudo amou a pompa e os grandiosos cerimoniais; mas não teve também o lúgubre scenario da morte, os crepes, as plumas negras, as tochas, os fumos, as caveiras bordadas--tudo isso que deveria ser tão antipático ao seu luminoso espirito. Foi sepultado no seu querido Castelo de Hughenden, no meio das árvores do seu parque, por uma fresca manhã de maio, na capela toda ornada de flôres como para uma alegria nupcial; o caminho que lá levava ia por entre jasmineiros e rosais; em vez do dobre dos sinos de Westminster teve o gorgeiar das suas aves; e o caixão, seguido pelos príncipes de Inglaterra, por todos os embaixadores, pela aristocracia que ela governara--desaparecia sob corôas, ramos e molhos de primroses, que a rainha Vitória mandara, com estas palavras escritas pela sua mão: «As flôres que ele amava.»

Depois, ao outro dia, em todas as catedrais da Inglaterra, em cada capela rustica, o clero fez do púlpito o elogio de Lord Beaconsfield; nas universidades, nos institutos, nas academias, os professores comemoraram aquela carreira soberba; pelas platafórmas dos meetings, nas assembléas comerciais, em qualquer parte onde se juntam homens, alguma voz se ergueu a honrar os seus serviços e o seu gênio; Lord Granville, na camara dos lords, na camara dos comuns Gladstone, fizeram, em sessão solene, o seu panegirico publico; e durante dias, toda a imprensa inglesa, a imprensa de todo o mundo civilisado (excepto a de Portugal, infelizmente) vieram cheias do seu nome, da comemoração dos seus livros, da sua pitoresca historia.

E assim Lord Beaconsfield desapareceu--como fora o desejo de toda a sua vida--em um rumor de apoteose.

E todavia nada parece mais injustificado que uma tal apoteose. Lord Beaconsfield, por fim, foi um homem de estado que fez romances. Ora os seus romances, como obras de arte, já começam a aparecer, a esta geração de sciencia e de analise, tão falsos, tão fictícios como as novelas lirico-religiosas do visconde de Arlincourt; e como homem de estado o nome de Lord Beaconsfield não fica decerto ligado a nenhum grande progresso na sociedade inglesa. Criar o titulo de Imperatriz das Indias para a rainha de Inglaterra, roubar Chypre, restaurar certas prerogativas da corôa, tramar o fiasco do Afghanistan, não constituem de certos títulos para a sua glorificação como reformador social: por outro lado, escrever Tancredo ou Endymion, não basta para marcar em uma literatura, que teve contemporaneamente Dickens, Tackeray e Georges Eliot.

Como sucede, depois de isto, que a Inglaterra, paiz tão pratico, tão bem equilibrado, se deixe levar em um tal arranque de admiração pelo homem que foi a personificação, a encarnação de tudo quanto é contrario ao temperamento, ás maneiras, ao gosto inglez? É que Lord Beaconsfield, mais que nenhum outro contemporâneo, impressionou a imaginação inglesa--e na fria Inglaterra, como sob céus mais cálidos, são grandes as influencias da imaginação.

Podia-se ás vezes sorrir das suas fantásticas obras de arte, protestar contra as suas teatrais combinações politicas, mas atravéz de protestos e sorrisos a sua própria personalidade nunca deixou de maravilhar e de fascinar. Qualquer inglez, medianamente educado, a quem se pergunte a sua opinião sobre Lord Beaconsfield dirá: Foi um homem extraordinario!

Extraordinario--é como ele se nos representa, agora que se vê o conjunto da sua existência, que não parece ter sido um producto natural dos factos ou das ocasiões, mas uma creação subjetiva da sua própria vontade, e como um enredo de romance talhado pela sua pena. Senão veja-se. Tendo nascido judeu--tornou-se o chefe de uma aristocracia saxônia e normanda, a mais orgulhosa da terra; começando em um obscuro circulo literário e vegetando algum tempo em um cartório de Londres--veio a ser o mais famoso primeiro ministro de um grande império; não possuindo senão dividas--bem cedo se tornou o inspirador das grandes fortunas territoriais; homem de imaginação, de poesia, de fantasia, foi o ídolo das classes médias de Inglaterra, as mais praticas e utilitárias que jamais dirigiram uma nação comercial; sem religião e sem moral, governou um protestantismo que não concebe ordem social possível fora da sua estreita religião e da sua estreita moral; confessando o seu desprezo pela omnipotência da sciencia moderna--foi o grande homem de uma sociedade que quer dar a todo o progresso uma base puramente scientifica: emfim, sendo o menos inglez possível, tendo um modo de ser e de sentir quase estrangeiros, dirigiu anos e anos a Inglaterra, o paiz mais hostil ao espirito estrangeiro, e que conhecia bem que não era comprehendida pelo homem que a governava. Tudo isto parece paradoxal--e a existência de Lord Beaconsfield foi com efeito um perpetuo paradoxo em acção. Para realizar tudo isto era necessário que o seu gênio, por um lado, por outro a sua habilidade, fossem grandes. E realmente em dons pessoais nada lhe faltou: prodigiosa finura de espirito, uma vontade de aço, uma coragem serena de herói, uma infinita veia sarcástica, um fogo ruidoso de eloquência, o absoluto conhecimento dos homens, a luminosa penetração no fundo dos caracteres e dos temperamentos, um poder subtil de persuasão, um irresistivel encanto pessoal,--e tudo isto envolvido (como em uma atmosfera luminosa) por alguma coisa de brilhante, de rico, de largo, de imprevisto, que era ou fazia o efeito de ser o seu gênio.

Eu por mim começo por admirar a sua própria aparência. Diz-se que fora formoso como um Apolo--e que isto concorrera muito para os seus primeiros triunfos: agora, já tão velho, era apenas pitoresco.

A sua grande testa sobre a qual cahiam aqueles dois extraordinarios caracóes paralelos, o seu olhar recolhido e como concentrado em pensamentos muito fundos, o nariz de pura raça israelita, a boca descahida na sua eterna curva sarcástica, o beiço inferior muito recurvo e muito pendente, e a sua estranha pera de Mephistopheles--constituiam uma de estas fisionomias que se sente que vão ficar na galeria da historia e que servirão a futuros historiadores para explicar um destino e um gênio. Em novo, e quando as modas românticas o permitiam, vestia-se de setim e veludo, recobria-se de um luxo de medalhões e joias, as suas próprias calças tinham bordados de ouro. Agora era mais sóbrio de toilette: usava apenas esses casacos compridos como túnicas, a que os homens de origem judaica são particularmente afeiçoados, e o seu único adorno eram os belos ramos que lhe enchiam o peito. Um jornalista francês, em um dia de crise politica em que Lord Beaconsfield devia fazer um discurso decisivo, encontrou-o momentos antes, em um dos salões da camara, ocupado a encher de água o tubosinho de cristal que por traz da botoeira da casaca conservava frescas as suas rosas. Todo o homem está em este traço.

De raça oriental, teve sempre o amor do fausto, das pedrarias, dos ricos tecidos, da pompa; os seus romances transbordam de descripções de palácios, de festas perante as quais as mais ricas galas de Salomão são como desbotados scenarios de teatro de feira; o seu estilo resente-se de este gosto: é um sumptuoso estofo, com recamos de ouro, cravejado de joias, cintilante e espesso, caindo em belas pregas ao comprido da idéa. O dinheiro, o ouro, preocuparam-em o sempre, menos pela sua influencia social, que pelo mero esplendor da sua amontoação. Os seus heróis possuem fortunas tão prodigiosas que seriam impossiveis nas condições econômicas do mundo moderno; Lothario, o famoso Lothario, querendo dar um presente de anos a uma senhora católica, oferece-lhe uma catedral toda de mármore branco, que ele mandou construir e que dedicou á santa do nome de ela; o seu custo excederia decerto dois mil contos fortes. Confessemos que é chic. Pois bem; presentes de estes dava-os Lothario todos os dias. O banqueiro Sidonia, uma das mais curiosas creações de Lord Beaconsfield, dando ao seu amigo Tancredo uma carta de credito para os banqueiros da Syria, redige-a de este modo: «Pague á vista ao portador tanto ouro quanto seria necessário para reconstruir os quatro leões de ouro mássico que ornavam a porta direita do templo de Salomão.» Também muito chic.

Estou certo que um dos grandes prazeres de Lord Beaconsfield era poder manejar os milhões de Inglaterra. Todos os seus ministérios custaram caudalosos rios de dinheiro; gastava o ouro como a água,--e dava-se ao luxo de realizar por si, e á custa do seu paiz, as larguezas épicas do seu banqueiro Sidonia. Mesmo quando estava no poder, estava ainda no romance.

As linhas da sua biografia são conhecidas. Seu pai era um de estes literatos medíocres e trabalhadores que vão desenterrando e colecionando atravéz de in-fólios e bibliotecas casos curiosos e archaicos de historia e de literatura.

Benjamin Disraeli nasceu por isso entre os livros--literalmente entre os livros, porque a casa em que viviam os Disraeli oferecia o espaço de uma boceta, e no quarto da criança, entre a acumulação vetusta dos calhamaços, havia apenas espaço para uma cadeira e para um berço. O velho Disraeli era judeu: mas felizmente para os destinos futuros de seu filho rompeu com a sinagoga, e todos os Disraeli se fizeram christãos. Benjamin tinha então dezessete anos, e o seu padrinho na pia baptismal foi um certo Samuel Rogers, notável por ser ao mesmo tempo um dos mais ricos banqueiros da City e um dos poetas mais elegíacos do seu tempo--e notável ainda por não ficar na historia, nem como banqueiro, nem como poeta, mas como um requintado gourmet, o grande Lucullus de Londres, que deu os mais celebres, os mais finos jantares da Europa.

Assim marcado com o rotulo christão, Benjamin Disraeli largou a caminhar pela vida fora, mas foi encalhar bem depressa em um cartório de tabelião--onde se diz que, durante dois anos, este moço orgulhoso, que já então se considerava um semi-deus, redigiu procurações e testamentos. Com a mesma pena, porém, ia escrevendo Vivian Grey: e da tempestuosa sensação que este romance produziu data a sua grande carreira. A obra, á parte algumas fugitivas cintilações de um gênio ainda desequilibrado, é no seu conjunto, ao mesmo tempo pesada e vaga; mas satisfazia os gostos escandalosos e intrigantes da sociedade de então, pondo em scena todas as individualidades marcantes de Londres, políticos, dandies, rainhas da moda, poetas, especuladores.

O melhor resultado de Vivian Grey, foi tornar Disraeli Junior (como ele então se assignava) o favorito de Lady Blenington e do conde de Orsay, as duas dominantes figuras de Londres de essa época, e que tinham de sociedade o mais selecto, mais inteligente, mais apetecido salão de Inglaterra.

Estes dois formavam um tipo destinado a reinar. Lady Blenington era uma mulher de graciosa e olímpica beleza, de uma extrema audácia de caráter e de alta energia intelectual. O conde de Orsay, esse era o homem que durante vinte anos governou a moda, o gosto, as maneiras, com a mesma indisputada autoridade com que hoje o príncipe de Bismarck arbitra na Europa.

Usar um modelo de gravata ou admirar um poeta que não tivessem sido aprovados pelo conde de Orsay, seria correr o mesmo risco de uma nação que hoje, sem auctorização secreta do príncipe de Bismarck, organisasse uma expedição militar. Lady Blenington, entre outras coisas embaraçadoras, tinha uma filha: e o belo de Orsay, não sei porque, nem ele o soube jamais, casou com essa menina. Os noivos vieram viver com Lady Blenington; e, bem depressa, entre seu brilhante marido e sua resplandecente mãe, a pobre condessa de Orsay foi como uma pálida lampada bruxoleando entre dois astros. Fez então uma coisa sensata e espirituosa: apagou-se de todo, desapareceu. E o conde de Orsay e Lady Blenington, livres de aquela senhora que entristecia, regelava as salas com o seu ar honesto e frio, começaram então a cintilar tranquilamente, como constelações conjunctas no firmamento social de Londres. E Londres curvou-se diante de esta nova e original situação domestica, como se curvava diante de uma nova sobrecasaca do conde de Orsay, ou diante de uma decisão literária de Lady Blenington.

Benjamin Disraeli tornou-se bem depressa um dos heróis de este salão--onde desde logo se mostrara com esse ar de tranquila superioridade, de correcto desdem, que foi um dos segredos da sua força. Ordinariamente conservava-se calado, apoiado ao mármore da chaminé, em uma pose de Apolo melancholico, abandonando-se á caricia ambiente dos olhares das damas que viam em ele a encarnação radiante do poético Vivian Grey. As pessoas mais intimas, começando por Lady Blenington, já lhe chamavam sempre Vivian, querido Vivian. O conde de Orsay fizera-lhe o retrato a sépia--honra que ele dava raramente, e a mais apetecida em esse curioso mundo.

Todos estes triunfos de Disraeli Junior não deixavam de surprehender Disraeli Senior. Um dia, dizendo-lhe alguém que seu filho estava compondo um romance, em que entravam duques, e toda a sorte de grandes, o velho e laborioso literato exclamou:--Duques, senhores! Mas meu filho nunca viu um sequer!

Viu muitos depois, viu-os todos--e governou-os com uma vara de ferro. Mas em esse tempo o belo Disraeli Junior era ainda radical, ou tomara ao menos essa atitude. Meditava mesmo a sua Epopêa da Revolução, a sua única obra em verso, uma vaga rapsódia que eu nunca li, mas de que os criticos mais benévolos falam como de um volume de duzentas paginas, sem uma só linha tolerável. E, coisa curiosa, este homem tão fino, tão sceptico, tão experiente, nunca perdeu a candura quase cômica de se considerar um grande poeta como Virgilio ou como Dante, e a esperança fantástica de que as gerações futuras poriam a Epopêa da Revolução ao par da Eneida, ou da Divina Comedia.

Apesar de poeta abominável e de perfeito dândi--ou talvez por isso mesmo--Benjamin Disraeli era reconhecido em esse tempo como um dos chefes do movimento da Joven Inglaterra.

A Joven Inglaterra consistia em um grupo de rapazes, ardentes e aristocratas, que se tinham embebido da Revolução atravéz da literatura; falavam muito da Humanidade e queriam sobretudo um burgo pôdre que os nomeasse deputados; cultivavam pelos salões o amor platônico, quereriam vêr o povo feliz comtanto que estivessem eles no poder para promover essas felicidades, e (traço decisivo das suas maneiras e da sua pose) quando se escreviam uns aos outros tratavam-se por my darling--meu amor!

Tinham ainda outros distintivos: usavam o cabelo á nazarena, mostravam a coragem (enorme em esse tempo) de admirar o odiado Byron, e procuravam elevar e aperfeiçoar a arte da cozinha em Inglaterra!

No emtanto, Benjamin Disraeli já estava bem decidido a sacudir o seu radicalismo--quando fosse necessário aos interesses da sua careira. E essa carreira via-a ele então, apesar de desconhecido e pobre, tão claramente triunfante no futuro como se a tivesse diante dos seus olhos escripta, parte por parte, em um programa.

Em pleno reinado dos tories, é característica já a sua resposta a Lord Melbourne, primeiro-ministro então, que lhe perguntava o que ele tencionava fazer.

--Ser eu o primeiro-ministro de aqui a pouco--respondeu o dândi com as suas grandes maneiras á Vivian Grey.

Lord Melbourne viu em esta resposta uma odiosa e insolente jactância. E assim parecia, quando, tempo depois, Disraeli, já deputado por Wycombe, fez o seu primeiro discurso--e o viu sufocado pelas gargalhadas e pelos apupos. Como não podia dominar o tumulto, calou-se, dizendo apenas estas palavras mais:

--Hoje não me quisestes ouvir. Um dia virá em que eu me farei escutar!

E um dia veio em que não só a camara dos comuns, mas a Inglaterra, todo o continente, a terra civilizada escutavam com ansiedade as palavras que iam cahir dos seus lábios, e que traziam consigo a paz ou a guerra na Europa.

II

A reputação de salão que gozava Lord Beaconsfield, levou algum tempo a transformar-se em popularidade; mas a sua popularidade, apenas obtida, penetrou rapidamente a enorme massa trabalhadora, e tornou-se em poucos anos essa vasta e ressoante nomeada, que fez o seu nome familiar, quase domestico, em toda a parte onde se fala inglez, na mais rude aldeia de pescadores de Cornwall, no bush de Australia, entre os mesmos montanhezes bárbaros das Highlands, e que, quando ele se dirigia ao congresso de Berlim, atraía ás estações do caminho de ferro as populações da Alemanha a contemplarem o grande inglez. E este reconhecimento de gloria constitue um dos fenômenos mais curiosos da carreira de Lord Beaconsfield; porque, em geral, não se avalia bem a dificuldade portentosa de obter uma fama, mesmo medíocre.

Não ha nada tão ilusório como a extensão de uma celebridade; parece ás vezes que uma reputação chega até aos confins de um reino--quando na realidade ela escassamente passa das últimas casas de um bairro.

No momento de sua prodigiosa voga, o velho Alexandre Dumas ficou assombrado de que o magistrado de uma vila vizinha de Paris, homem ilustrado, de resto, não soubesse com que letras se escrevia esse glorioso nome de Dumas!

E se nós pudessemos reduzir a números as proporções das glorias contemporâneas, ficariamos aterrados perante a grotesca mesquinhez dos resultados. Nós outros jornalistas, criticos, artistas, homens de estudo e de curiosidade literária, julgamos quase impossível que haja alguém na Europa que não tenha lido Victor Hugo, ou que, pelo menos, não conheça esse nome de silabas faceis, que ha meio século fere, a grande estrondo, o ouvido humano; pois bem, póde-se dizer que fora de França apenas cinco mil pessoas talvez terão lido Victor Hugo--e que não passará decerto de dez mil o numero de creaturas que lhe saibam o nome, incluindo mesmo a vasta massa democrática de que ele é o épico oficial. E já isto constitue um famoso progresso--desde o tempo em que Voltaire ambicionava ter cem leitores!

A conhecida alegoria da fama, cantando o nome de um varão com as suas cem bocas, aplicadas ás suas cem tubas, e voando de um a outro confim do universo--é uma das imagens mais descaradamente falsas que nos legou a Antiguidade. Esse estrondear das cem tubas morre como um suspiro dentro da área humilde de um corrilho ou de uma coterie: e nada viaja com uma lentidão egual á da Fama. Um fardo de fazendas gasta quatro dias a vir de Londres a Lisboa--e os nomes de Tennyson, Browning, Swinburne, os três grandes poetas da Inglaterra, e que ha quarenta anos são a sua mais pura gloria, ainda cá não chegaram. É verdade que todo o mundo necessita flanelas--e nem todo o mundo suporta poesia.

Mas uma celebridade não encontra só dificuldades em transpôr a fronteira--acha-as sobretudo e quase insuperaveis em fixar a atenção da grande turba dos seus concidadãos. Principalmente em um paiz como a Inglaterra, em que a áspera lucta pela existência, a sofrega preocupação do pão diário, o feroz conflito da concorrência, não permitem esses pachorrentos vagares, os vagares portuguezes ou hespanhóes, em que se está de barriga ao sol, pronto a olhar, a admirar o menor foguete que estala nos ares.

Em Inglaterra, o duque de Wellington era de certo popular--porque ganhou a batalha de Waterloo, e portanto, segundo a crença contemporânea, salvara a Inglaterra da invasão. Gladstone é conhecido em cem cidades e mil aldeias, porque aliviou a nação dos seus grandes impostos. Mas estes fórmam as excepções; as outras celebridades inglesas, ou sejam políticos como Lord Salisbury, ou filósofos como Spencer, ou poetas como Browning, ou artistas como Herkomer--permanecem profundamente ignorados da grande massa do publico. São reputações de salão, de academia, de club, de redacção de jornal.

Ora, Lord Beaconsfield realmente nunca fez coisa alguma para se tornar popular e sempre lembrado; nunca ligou o seu nome a uma grande instituição, a um grande beneficio publico, a uma campanha victoriosa. Tudo, ao contrario, em esta original personalidade parecia destinal-o á impopularidade: a sua origem, os seus gestos e hábitos anti-ingleses, a sua poderosa veia sarcástica, a sua oratoria requintada e subtil, o gongorismo metafisico das suas concepções literárias, e certos lados muito acentuados do seu fundo semítico. E a isto acrescia que, para a grande maioria da nação, ele representava um parvenu de autoridade oligarchica, surdamente hostil á ideia de democracia e de soberania popular.

A sua assombrosa popularidade parece-me provir de duas causas: a primeira é a sua idéa (que inspirou toda a sua politica), de que a Inglaterra deveria ser a potencia dominante do mundo, uma especie de Império Romano, alargando constantemente as suas colonias, apossando-se dos continentes bárbaros e britanizando-os, reinando em todos os mercados, decidindo com o peso da sua espada a paz ou a guerra do mundo, impondo as suas instituições, a sua língua, as suas maneiras, a sua arte, tendo por sonho um orbe terráqueo que fosse todo ele um império Britannico, rolando em ritmo através dos espaços.

Este ideal, que tomou o nome de imperialismo nos dias de gloria de Lord Beaconsfield, é uma idéa querida a todo o inglez; os mesmos jornais liberais que com tanto furor denunciavam os perigos de esta politica romana, no fundo gozavam uma imensa satisfação de orgulho em proclamarem a sua inconveniencia. Havia tanta prosápia britânica em conceber um tal Império, como em o condemnar, e em dizer, com um ar de nobre renunciamento: «Não nos convém a responsabilidade de governar o mundo!»

Lord Beaconsfield, sendo a encarnação oficial de esta idéa imperial, tornou-se naturalmente tão popular como ela. Foi considerado então como o instrumento da grandeza exterior da Inglaterra, como o homem que a fazia dominante e temida, que mantinha alta e reluzindo terrivelmente aos olhos do mundo a espada de John Bull. Gladstone, Bright, a grande escola liberal, conhecida pela escola de Manchester, era agora acusada de ter, com a sua politica de abstenção só ocupada de melhoramentos materiais, de finanças, de civilização interna--deixado definhar, morrer o prestigio inglez na Europa.

E ai vinha agora aquele extraordinario judeu, apoiado na riqueza, na prosperidade interior que lhe tinham legado os liberais, colocar de novo a Inglaterra á frente das nações, fazendo ressoar ao longe e ao largo a sua voz de leão...

Todo o paiz andou durante anos inchado com esta grandiosa filáucia, que Lord Beaconsfield ia sempre entretendo com os seus discursos belicosos, as ameaças teatrais, as concentrações de frotas, um constante movimento de regimentos, invasões aqui e além, a ocupação de Chypre, a quase absorpção da propriedade do istmo de Suez, sempre algum lance brilhante em que a Inglaterra aparecia entre os fogos de Bengala da sua eloquência, como a senhora do mundo. E John Bull adorava isto, apesar de vêr que a espada da Inglaterra, depois de flamejar um momento nos ares, era invariavelmente recolhida á bainha; apesar de comprehender que o dinheiro se gastava como a água das fontes; apesar de sentir que os impostos cresciam; apesar de perceber que a Inglaterra estava tomando sobre os hombros responsabilidades desproporcionadas com a sua força.

Depois, um dia, o grande senso pratico da Inglaterra viu claramente a necessidade de brilhar menos aos olhos do mundo--e de se ocupar da machina interior, que começava a desarranjar-se: pôs fora o grandioso Beaconsfield, e chamou o pratico Gladstone--o homem que reconstitue as finanças, que alivia os impostos, que faz as grandes reformas interiores... Mas, apesar de tudo, Beaconsfield ficou como o tipo do estadista que mais que nenhum outro amou e desejou a grandeza imperial da pátria.

A esta causa de popularidade deve juntar-se outra--a reclame. Nunca um estadista teve uma reclame igual, tão continua, em tão vastas proporções, tão hábil. Os maiores jornais de Inglaterra, da Alemanha, da Austria, mesmo da França, estão (ninguém o ignora) nas mãos dos israelitas. Ora o mundo judaico nunca cessou de considerar Lord Beaconsfield como um judeu--apesar das gotas de água christã que lhe tinham molhado a cabeça. Este incidente insignificante nunca impediu Lord Beaconsfield de celebrar nas suas obras, de impôr pela sua personalidade a superioridade da raça judaica,--e por outro lado nunca obstou a que o judaísmo europeu lhe prestasse absolutamente o tremendo apoio do seu ouro, da sua intriga e da sua publicidade. Em novo, é o dinheiro judeu que lhe paga as suas dividas; depois é a influencia judaica que lhe dá a sua primeira cadeira no parlamento; é a ascendência judaica que consagra o exito do seu primeiro ministério; é emfim a imprensa nas mãos dos judeus, é o telegrafo nas mãos dos judeus, que constantemente o celebraram, o glorificaram como estadista, como orador, como escritor, como herói, como gênio!

Como romancista, Lord Beaconsfield nunca escreveu propriamente um romance tal como nós modernamente o comprehendemos. Alguns dos seus romances são panfletos em que os personagens constituem argumentos vivos, triunfando ou sucumbindo, não segundo a logica dos temperamentos e as influencias do meio, mas segundo as necessidades da controvérsia ou da tese. Outros fórmam verdadeiras alegorias como as tem a pintura decorativa nas muralhas dos monumentos públicos. em um dos mais celebres, Lothair, ha um mancebo ideal, encarnação do espirito inglez, que ama sucessivamente três mulheres: uma italiana casada com um americano, bela creatura de perfil clássico e formas de Deusa, que representa a Democracia; uma ardente rapariga de cabelos negros e revoltos, sempre em extasi, que é a personificação da Egreja Catholica; e emfim uma doce e loura donzela, séria, grave e terna, que simboliza o Protestantismo. Depois de hesitar entre estas três paixões--decide-se, como um bom inglez, por casar com o Protestantismo, quero dizer, com a loura, conservando um culto vago e secreto pela Democracia, quero dizer, pela soberba americana de perfil marmóreo. Moral: a felicidade de um povo está na posse de uma forte moral christã, aliada a um uso moderado da liberdade. Isto dava um excelente e aparatoso fresco na sala de um parlamento. E Lord Beaconsfield acentua os detalhes alegóricos com uma tal ingenuidade, que faz por vezes sorrir; assim, por exemplo, a americana, isto é, a Democracia, aparece sempre em soirées e festas vestida á grega, com uma Estrela de brilhantes na fronte, como a cabeça da república nas moedas francesas de cinco francos!

O meio, em que os seus romances se passam, tem quase sempre um ar feérico: tudo são, como disse ha pouco, palácios de um fabuloso e sombrio luxo, festas como as não tiveram os Medicis, fortunas de banqueiros, de duques, perante as quais os Cresus, os Monte-Christos, os Rothchilds, todos os ricaços da lenda ou da realidade aparecem como despreziveis pelintras.

A linguagem de estes personagens corresponde ao esplendor das suas moradas e ao nebuloso dos seus destinos. Misses de dezoito anos, habitando prosaicamente Belgrave Square, falam aos seus namorados com a pompa alegórica do Cantico dos Canticos; e quando (o que é frequente) dois brilhantes espíritos como Sidonia ou Mrs. Coningsby conversam, veem-se, cruzando rapidamente de um a outro lábio, as imagens rutilantes, os luminosos conceitos, como se as duas creaturas se estivessem recitando um ao outro números do Intermezzo ou sonetos de Petrarcha.

Esta linguagem, de resto, convém ás idéas, aos sentimentos, ás aventuras que ele atribue aos seus tipos principais; tudo o que é humano e real fica absolutamente de fora de essas transcendentes creações: falando como poetas, comportam-se naturalmente como chimeras.

O seu mais famoso herói, Tancredo, vai a Jerusalém e á Syria com este fim: penetrar o mistério asiático. Não percebem? É fácil. Sendo Jerusalém e as planícies da Syria o único ponto do Universo em que Deus, em tempos, conversou com o homem, em que apareceram os profetas e os Messias, em que das sarças, do murmurio dos rios e do echo dos desertos surgiram as Leis Novas, dando á humanidade destinos novos--o moço Tancredo parte, para que lá, em esses logares, Deus lhe fale, um raio de luz o divinize, uma religião lhe seja revelada, e tendo partido de Londres como simples lord, possa regressar a Regent Street, como Messias e regenerador de sociedades!

E (perguntar-me-hão) o que sucede a Tancredo na Syria? O que sucede a todos os personagens de Lord Beaconsfield, que nas primeiras paginas partem para sobrehumanos destinos, como os antigos cavaleiros da Tavola Redonda: sucede-lhe que casa com uma linda e honesta menina, e que tem muitos filhos no meio de muita felicidade...

E o mistério asiático? Parece que o não achou. Mas descobriu coisas curiosas e de rara fabula: por exemplo, um povo pagão, onde reina uma bela sacerdotisa de Apolo, que celebra ainda hoje nobres cultos helênicos, e que se namora de Tancredo. Mas Tancredo, cavaleiro christão, depois de a defender da invasão de um outro povo, que adora ídolos infames, foge, foge á desfilada, deixando a clássica rainha a gemer de amor aos pés da estatua de Astarte. Depois ele mesmo está para ser rei do Libano. Emfim, uma grandiosa e rutilante salsada. E tudo isto se passa aí por 1855, no tempo da Exposição de Paris.

Mas que prodigioso talento, que arte, que amplidão de imaginação para pôr de pé, em todo o seu brilho, este desordenado monumento de Idealismo!

Com efeito, que artista fino e por vezes poderoso!

Apesar de este abuso do gongorismo na ficção, do vago e ao mesmo tempo do amaneirado das suas concepções, de estes enredos e de estes personagens que por vezes parecem uma mistificação--os seus romances nunca deixam de interessar, direi mesmo, nunca deixam de captivar. Atravessa-os sempre um entusiasmo sincero--em que se sente o amor poético com que ele segue os seus generosos heróis, as suas belas mulheres, em esses destinos fora da realidade. Depois a sua fina sensibilidade, o seu idealismo um pouco convencional, mas de grande elan, os requintes de um gosto supremo--levam-no a dotar os seus personagens, e a acção em que eles se movem, de uma tal beleza espiritual, de uma tão alta nobreza de costumes, que os olhos enlevam-se, a imaginação namora-se de esse mundo fictício, de essa humanidade de poema, onde nada existe de vulgar ou de baixo, e onde brilham formas maravilhosas e transcendentes do pensar, do sentir e do viver.

Isto dá-lhe uma qualidade encantadora: é luminoso. Personagens, paizagens, interiores, o próprio movimento da aventura--tudo está banhado em uma luz serena e graciosa. Pintando as coisas fora da verdade social, não tendo de lhe apresentar as sombras tristes, exclue dos seus vastos quadros tudo o que na vida é duro, brutal, feio, maú, estupido--as formas varias da baixeza humana.

Escrevia para uma sociedade rica, nobre, literária, requintada--e mostra-lhe um mundo de ouro e cristal, girando em uma bela harmonia, batido de uma luz cor de rosa...

Tenho insistido em este lado não real dos livros de Lord Beaconsfield. Todavia, um homem de estes, antigo dândi, critico, estadista, habituado a governar, observador por necessidade, não podia deixar de ter acumulado uma grande experiencia dos caracteres e da sociedade; e essa experiencia deveria necessariamente transparecer nas suas pinturas da vida. E lá está com efeito. Por entre as suas grandes creações simbólicas, de indisciplinada imaginação (Tancredo, Lothair, Sibyl) move-se todo um mundo real, de uma vida exacta e forte, figuras de carne, postas de pé com um singular vigor de desenho e cor. São os seus personagens secundários, os seus políticos, os seus intrigantes, os seus homens de letras, as suas mulheres da moda, os seus lords elegantes. Todos estes tipos fôram copiados do natural. Londres conhecia-os, dava-lhes logo os nomes; e o escândalo de estes retratos foi mesmo uma das grandes causas do sucesso de Lord Beaconsfield. Mas, mesmo para quem não frequenta a sociedade de Londres, e não conhece os originais, estes tipos interessam--porque vivem.

Ordinariamente são apenas esboços, mas magistrais; e aparecendo assim em destaque, ao lado de creações de pura imaginação, descomedidamente poéticas e de contornos fluctuantes, esses tipos reais adquirem um relevo maior, como perfis da verdadeira humanidade, mostrando-se por entre o nebuloso de uma mitologia.

São eles os que interessam, e da vasta galeria de Lord Beaconsfield só eles ficarão lembrados.

Seria impossível, em este estudo ao correr da pena, feito só de impressões, marcar todos os traços de uma individualidade tão complexa como a de Lord Beaconsfield.

Poucos homens têm produzido um tão curioso conflito de apreciações: diz-se de ele que foi um grande homem de estado, e diz-se também que foi apenas um charlatão; a critica tem-em o apresentado como um romancista de gênio--e como um maú alinhavador de novelas! Homem de partido, sofreu em politica e em literatura, ora a idolatria, ora o rancor da parcialidade partidária. Uma coisa porém tinha a seu favor: é que todos os medíocres o detestavam.

É difícil, de resto, separar em ele o politico do romancista: sempre fez politica nas obras de arte, que se tornavam assim resoantes manifestos das suas idéas de estadista--e fez romance no governo, que parecia muitas vezes um scenario de drama, sobre o qual ele estava de pena na mão, combinando os lances de efeito. Seja como for, a Inglaterra perdeu nele um dos seus gênios mais pitorescos e mais originais.

Individualmente foi um feliz. Tendo, em novo, lançado o plano da sua vida futura, como quem prepara um enredo de romance, realisou-o plenamente em todos os pontos, em um continuo triunfo. Foi formoso, foi amado, foi rico, teve a melhor esposa de Inglaterra (como ele dizia), deixou uma vasta obra literária, foi o confidente escolhido da sua rainha, governou a sua pátria, pesou nos destinos do mundo, e findou em uma apoteose. Foi então absolutamente, ininterrompidamente, ditoso? Não. Este homem triunfante viveu acompanhado de um secreto, de um pequenino, de um ridículo desgosto: nunca pôde falar bem francês!

Cartas de Inglaterra

Sinopse

Cartas de Inglaterra, de Eça de Queirós, reúne doze textos de observação política, social e cultural em edição Literunico de domínio público, conservadoramente normalizada para PT-BR moderno.

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