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Cartas de Inglaterra

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Cartas de Inglaterra

Capítulo 10 · Cartas de Inglaterra

O Brasil e Portugal

10 de 12 ≈ 19 min de leitura

Os jornais ingleses de esta semana têm-se ocupado prolixamente do Brasil. Um correspondente do Times, encarregado por esta potencia de ir fazer pelo continente americano uma «vistoria social» definitiva deu-nos agora, em artigos repletos e mássicos, o resultado do seu ano de jornadas e de estudos.

O último artigo é dedicado ao Brasil: eu, que nunca visitei o império, não tenho naturalmente autoridade para apreciar essas revelações (porque o correspondente toma a atitude de um revelador) sobre a religião, a cultura, os productos, o comércio, a emigração, o caráter nacional, o nível de educação, a situação dos portuguezes, a dinastia, a Constituição, a república, et de omni re braziliensi e não posso transcrevel-as também porque elas enchem, no Times, vasto como é, mais espaço que o próprio Brasil ocupa no território da America do Sul. Esse artigo excitou o interesse e os comentários da Pall-Mall Gazette e de outros jornais, e aí se rompeu a falar do Brasil com simpatia, com curiosidade, com essas admirações ingenuas pela sua rutilante flora, esse pasmo quase assustado pela sua vastidão, que decerto tiveram nossos avós, quando o bom Pedro Alvares Cabral, largando a procurar o Preste João, voltou com a rara nova das terras entrevistas do Brasil...

Devendo mostrar-lhes a opinião presente da Inglaterra sobre o Brasil, de esses artigos floridos, escolho o do Times, anotando e glosando o trabalho do seu enviado. (É de este modo respeitoso que se deve falar sempre de um correspondente do Times).

Começa, pois, o grande jornal da City por dizer--«que a descripção do vasto Império do Brasil com que foi fechada a serie das cartas sobre o continente americano, deve ter feito transbordar o sentimento de admiração pelo explendor, etc...» Seguem-se aqui naturalmente vinte linhas de extasi. É, em prosa, a aria do 4.º ato da Africana: Vasco da Gama, de olhos humidos e coração suspenso no enlevo de tanta flôr prodigiosa, de tão raros cantos de aves raras...

Depois vem o espanto clássico pela extensão do Império: «Só o simples tamanho de um tal domínio (exclama) na mão de uma diminuta parcela da humanidade é já em si um facto suficientemente impressionador!»

E todavia esta admiração do Times pelo gigante é misturada a um certo patrocínio familiar, de ser superior,--que é a atitude ordinária da Inglaterra e da imprensa inglesa para com as nações que não têm duzentos couraçados, um Shakspeare, um Bank of England, e a instituição do roast-beef... em este caso do Brasil, o tom de proteção é raiado de simpatia...

Depois o artigo rompe de novo em um hymno: «A Natureza no Brasil não necessita do auxilio do homem para se encher de abundancias e se cobrir de adornos!... Para seu próprio prazer planta, ela mesma, luxuriantes parques! E não ha recanto selvagem que não faça envergonhar as mais ricas estufas da Europa...» Isto é decerto exato: mas o Times, receiando que os seus leitores viessem a supor que a natureza do Brasil está de tal modo repleta, tão indigestamente atestada, que não permite, que se recusa com furor a receber no seu ventre empanturrado uma semente mais sequer--apressa-se a tranquillisal-os: «Mas (diz este sábio jornal judiciosamente) ainda que a Natureza dispense bem todo o trabalho do homem, que outros solos menos generosos requerem para se abrir em flôres e fructos,--não o repele todavia». Isto sossega os nossos ânimos: ficamos assim certos que nenhum fazendeiro, nos distantes cafezais, ao atirar á terra, a terra mãe, com a enxadada fecundadora a semente inicial, corre o risco atroz de ser por ela atacado á pedrada ou a golpes de bananeira... Nem outra coisa se podia esperar da doce e pacifica Ceres.

Tendo assim floreado, de penacho oratorio ao vento, o Times investe com as ideias praticas. E começa por declarar, que, segundo o copioso relatório do seu correspondente, «o que surprehende na America do Sul (se exceptuarmos aquela tira de terra que constitui a República do Chili, e alguns bocados da costa do enorme império do Brasil) é a grandeza de tais recursos comparada á desapontadora magreza dos resultados». Seria fácil responder com a escassez da população. O Times de resto sabe-o bem, porque nos fala logo de essa população nas republicas hespanholas, mas não a acha escassa; o que a acha é torpe!... A pintura que nos dá do Perú, Bolivia, Equador e consortes é ferina e negra: «Essa gente vive em uma indolencia vil, que não é incompativel com muita arrogância e muita exagerada vaidade! de esse torpor só rompe, por acesso de frenesi politico. Todo o trabalho ai emprehendido para fazer produzir a natureza é dos estrangeiros: os naturais limitam-se a invejal-os, a detestal-os por os verem utilisar oportunidades que eles mesmo não se quiseram baixar a usar!» Isto é cruel: não sei se é justo: mas entre estas linhas palpita todo o rancor de um inglez possuidor de maus títulos peruanos. «E se o nosso correspondente (continua o artigo) oferece de alto o Brasil á nossa admiração, não é em absoluto, é relativamente, em contraste com os paizes que quase o egualam em vantagens materiais, como o Perú e o Rio da Prata, mas onde a discórdia intestina devora e destroe todo o progresso nascido da atividade estrangeira. O Brasil é portuguez e não espanhol: e isto explica tudo. O seu sangue europeu vem de aquela parte da Peninsula Iberica em que a tradicção é a da liberdade triunfante, e nunca suprimida.» O Times aqui abandona-se com excesso ás exigências rítmicas da frase: parece imaginar que desde a batalha de Ourique temos vindo caminhando em uma larga e luminosa estrada de ininterrompida democracia!...

Mas, emfim, contínua: «Quando o Brasil quebrou os seus laços coloniais não tinha a esquecer feias memorias de tirania e rapacidade; nem teve de suprimir genericamente todos os vestígios de um maú passado.» Com efeito; pobres de nós! nunca fômos de certo para o Brasil senão amos amáveis e timoratos.

Estavamos para com ele em aquela melancólica situação de um velho fidalgo, solteirão arrasado, desdentado e tropego, que treme e se baba diante de uma governanta bonita e forte. Nós verdadeiramente é que eramos a colonia: e era com atrozes sustos do coração que, entre uma Salvè Rainha e um Lausperene, estendiamos para lá a mão á esmola...

O Times prossegue: «Ainda que independente, o Brasil ficou portuguez de nacionalidade e semi-europeu de espirito. Pelo simples facto de se sentir portuguez, o povo brasileiro teve, e conserva, o instincto do grande dever que lhe incumbe: tirar o partido mais nobre da sua nobre herança... Sejam quais tenham sido os erros de Portugal, não se póde dizer que se tenha jamais contentado com o mero numero das suas possessões, sem curar de lhes extrahir os proventos...» O Times aqui dormita, como o secular Homero.

E justamente o que nos preocupa, o que nos agrada, o que nos consola é contemplar simplesmente o numero das nossas possessões: pôr-lhes o dedo em cima, aqui e além, no mapa; dizer com voz de papo, ore rotundo: «Temos oito; temos nove: somos uma nação colonial, somos um povo marítimo!...» Enquanto a extrahir-lhes os proventos, na frase judiciosa do Times, de esses detalhes miseráveis não cura o pretor, nem os netos de Affonso de Albuquerque!... Mas prossegue o Times: «O império colonial de Portugal talvez tenha sido outr'ora caracterisado por desfortuna--quase nunca por estagnação.» Talvez é bom: com o império do Oriente no nosso passado, que é um dos mais feios monumentos de ignominia de todas as edades... Continuemos.

«Da origem de onde o Brasil deriva a sua atividade, deriva também (o que não é menos importante) o respeito pela opinião da Europa. O vadio das ruas de Lima, de Caracas ou de Buenos-Ayres nutre um soberano desprezo pelos juízos que a Europa possa formar das suas tragi-comedias politicas... Não tem consciência de coisa alguma, a não ser do seu sangue castelhano... Sente decerto o inconveniente de ser expulso do credito e das bolsas da Europa... Mas avalia esta circumstancia apenas pelos embaraços momentâneos que ela lhe traz. O financeiro brasileiro, porem, esse presta uma tão respeitosa atenção ao temperamento das bolsas de Paris e Londres, como ao da mesma praça do Rio de Janeiro...»

O Times vê em este symptoma a consideração que o Brasil tem pela opinião da Europa.

Mas, onde o Times se engana é quando pretende que o Brasil deve ao seu sangue portuguez esta bela qualidade de obedecer aos juízos do mundo civilisado. Não ha paiz no universo, onde se despreze mais, creio eu, o julgamento da Europa, que em Portugal: em esse ponto somos como o vadio das ruas de Caracas, que o Times tão pitorescamente nos apresenta: porque eu chamo desdenhar a opinião da Europa não fazer nada para lhe merecer o respeito. Com efeito, o juízo que de Badajoz para cá se faz de Portugal, não nos é favorável, nós sabemol-o bem--e não nos inquietamos! Não falo aqui de Portugal como Estado politico. Sob esse aspecto gosamos uma razoável veneração. Com efeito, nós não trazemos á Europa complicações importunas; mantemos dentro da fronteira uma ordem suficiente: a nossa administração é correctamente liberal; satisfazemos com honra os nossos compromissos financeiros.

Somos o que se póde dizer um povo de bem, um povo boã pessoa. E a nação vista de fora e de longe, tem aquele ar honesto de uma pacata casa de província, silenciosa e caiada, onde se presente uma família comedida, temente a Deus, de bem com o regedor, e com as economias dentro de uma meia... A Europa reconhece isto: e todavia olha para nós com um desdem manifesto. Porque? Porque nos considera uma nação de medíocres: digamos francamente a dura palavra--porque nos considera uma raça de estúpidos. Este mesmo Times, este oraculo augusto, já escreveu que Portugal era, intelectualmente, tão caduco, tão casmurro, tão fóssil, que se tornara um paiz bom para se lhe passar muito ao largo, e atirar-lhe pedras (textual).

O Daily Telegraph já discutiu em artigo de fundo este problema: Se seria possível sondar a espessura da ignorância luzitana! Tais observações, além de descortezes, são decerto perversas. Mas a verdade é que em uma epocha tão intelectual, tão critica, tão scientifica como a nossa, não se ganha a admiração universal, ou se seja nação ou individuo, só com ter propósito nas ruas, pagar lealmente ao padeiro, e obedecer, de fronte curva, aos editais do governo civil. São qualidades excelentes, mas insuficientes. Requer-se mais: requer-se a forte cultura, a fecunda elevação de espirito, a fina educação do gosto, a base scientifica e a ponta de ideal que em França, na Inglaterra, na Alemanha, inspiram na ordem intelectual a triunfante marcha para a frente; e nas nações de faculdades menos creadoras, na pequena Holanda ou na pequena Suecia, produzem esse conjunto eminente de sabias instituições que são, na ordem social, a realização das formas superiores do pensamento.

Dir-me-hão que eu sou absurdo ao ponto de querer que haja um Dante em cada parochia, e de exigir que os Voltaires nasçam com a profusão dos tortulhos. Bom Deus, não! Eu não reclamo que o paiz escreva livros, ou que faça arte: contentar-me-ia que lesse os livros que já estão escritos, e que se interessasse pelas artes que já estão creadas. A sua esterilidade assusta-me menos que o seu indiferentismo. O doloroso espectaculo é vêl-o jazer no marasmo, sem vida intelectual, alheio a toda a ideia nova, hostil a toda a originalidade, crasso e mazorro, amuado ao seu canto, com os pés ao sol, o cigarro nos dedos e a boca ás moscas... É isto o que punge.

E o curioso é que o paiz tem a consciência muito nítida de este torpor mortal, e do descredito universal que ele lhe atrai. Para fazer vibrar a fibra nacional, por ocasião do centenário de Camões, o grito que se utilizou foi este:--Mostremos ao mundo que ainda vivemos! que ainda temos uma literatura!

E o paiz sentiu asperamente a necessidade de afirmar alto, á Europa, que ainda lhe restava um vago clarão dentro do craneo. E o que fez? Encheu as varandas de bandeirolas, e rebentou de jubilo a pele dos tambores. Feito o que--estendeu-se de ventre ao sol, cobriu a face com o lenço de rapé, e recomeçou a sésta eterna. de onde eu concluo que Portugal, recusando-se ao menor passo nas letras e na sciencia para merecer o respeito da Europa inteligente, mostra, á maneira do vadio de Caracas, o desprezo mais soberano pelas opiniões da civilização. Se o Brasil, pois, tem essa qualidade eminente de se interessar pelo que diz o mundo culto, deve-o ás excelências da sua natureza, de modo nenhum ao seu sangue portuguez: como portuguez, o que era logico que fizesse era voltar as costas á Europa, puxando mais para as orelhas o cabeção do capote...

Mas, retrocedendo ao artigo do Times, a conclusão da sua primeira parte é que «em riqueza e aptidões o Brasil leva gloriosamente a palma ás outras nacionalidades da America do Sul». Todavia, o Times observa no Brasil circunstâncias desconsoladoras: «Doze milhões de homens estão perdidos em um estado maior que toda a Europa: a receita publica, que é de doze milhões de libras esterlinas, é muitos milhões inferior á da Holanda e á da Belgica: com uma linha de costa de quatro mil milhas de comprimento, e com pontos de uma largura de duas mil e seiscentas milhas, o Brasil exporta em valor de gêneros a quarta parte menos que o diminuto reino da Belgica.»

O Times, todavia, tem a generosidade de admitir que nem a densidade de população, nem o total das receitas, nem a cifra das exportações constituem a felicidade de um povo e a sua grandeza moral. A Suissa, que tem dois milhões de habitantes e justamente os mesmos dois milhões de libras de receita, vive em condições de prosperidade, de liberdade, de civilisação, de intelectualidade bem superiores á tenebrosa Russia com os seus oitenta milhões de libras de receita, e os mesmos oitenta milhões em homens. «Todavia, contínua o Times, se a escassez da população, de rendimento e de comércio, não colocam o Brasil em um estado de adversidade, são uma prova que faltam a esse povo algumas das qualidades que fazem a grandeza das nações. Que os colonisadores portuguezes, apenas apoiados pelo pequeno trono portuguez, tivessem feito da metade do novo mundo, que lhes concedeu o papa Alexandre, mais que os colonisadores espanhóis que tiravam a sua força da grande nação de Espanha, é uma coisa que prova a favor do sangue portuguez comparado com o sangue castelhano, andaluz ou aragonez. Mas que as conquistas feitas no Brasil á natureza sejam tão insignificantes, e tão vastos os espaços que permanecem não só inconquistados mas desamparados--indica que são análogos os defeitos da colonia espanhola e da colonia portuguesa...»

O resto do artigo é mais serio; e eu devo transcrevel-o sem interrupção. «O Brasileiro não é, como o peruano ou boliviano, altivo de mais, ou preguiçoso de mais para se dignar reparar nos meios de riqueza e de grandeza tão prodigamente espalhados em torno de si. Não; o brasileiro tem energia suficiente para ambicionar e para calcular. A sua atenção está fixa nas ferteis regiões do interior. Desejaria bem vêr a rede dos seus rios navegaveis cobertos de barcos e vapores. Succede mesmo que, nos pontos mais ricos da costa, o habitante queixa-se que uma excessiva porção dos impostos com que é sobrecarregado vai ser gasta em colossais trabalhos emprehendidos em vantagem de remotas e incultas regiões que nunca ou, ao menos, só de aqui a longos anos, poderão aproveitar com eles. Mas, em todo o caso, o Brasil sente em si força suficiente para dar ao seu vasto território os benefícios de uma sabia administração.»

O Times aqui tem um pequeno período, aludindo á nobre ambição que têm os brazileiros de fazer tudo por si mesmos, vendo com aborrecimento as grandes obras entregues á pericia estrangeira, e preferindo os esforços da sciencia e do talento nacionais, ainda mesmo quando eles falham, custando ao paiz milhões perdidos... Depois prossegue:

«Mas enquanto o brasileiro se mostra assim, em teorias politicas e administrativas, ancioso por fomentar ele mesmo, por ele mesmo fazer todas as obras dos seus cinco milhões de milhas quadradas--ás suas mãos repugna o agarrar o cabo da enxada, ou tomar a rabiça do arado, que é justamente o serviço que a natureza reclama de ele. em um continente, que depois de três séculos e meio contínua a ser um torrão novo, a grandeza das Republicas ou dos Imperios depende exclusivamente do trabalho manual.

«Italianos, alemães, negros, têm sido, estão sendo importados para fazerem o trabalho duro que repugna aos senhores do solo. Mas, inaclimatados, em certos districtos, eles nunca poderiam labutar como os naturais dos trópicos. Nem mesmo nas províncias mais temperadas do Império jamais os imigrantes trabalharão resolutamente--até que o exemplo lhes seja dado pela população indígena, senhora da terra. O brasileiro ou tem de trabalhar por suas mãos, ou então largar a rica herança que é incompetente para administrar. Á maneira que o tempo se adianta, vai-se tornando uma positiva certeza que todos os grandes recursos da America do Sul entrarão no patrimonio da humanidade.»

O Times aqui embrulha-se. Prefiro explicar a sua ideia, a traduzir-lhe a complicada prosa; quer ele dizer que o dia se aproxima em que a civilisação não poderá consentir que tão ricos solos, como os dos Estados do Sul da America, permaneçam estereis e inúteis, e que, se os possuidores atuais são incapazes de os fazer valer e produzir, para maior felicidade do homem, deverão então entregal-os a mãos mais fortes e mais habeis. É o sistema de expropriação por utilidade de civilização. Teoria favorita da Inglaterra e de todas as nações de rapina...

Continúa depois o artigo, com ferocidade: «No Perú, na Bolivia, no Paraguay, no Equador, em Venezuela... em outros mais, os atuais ocupadores do solo terão gradualmente de desaparecer e descer àquela condição inferior, que o seu fraco temperamento lhes marca como destino. (Nunca se escreveu nada tão ferino!) O povo brasileiro, porém, tem qualidades excelentes e a Inglaterra não chegará promptamente á conclusão de que ele tem de partilhar a sorte de seus febris ou casmurros visinhos... Mas, dadas as condições do seu solo, o Brasil mesmo tem a escolher entre um semelhante futuro ou então o trabalho, o duro esforço pessoal, contra o qual até agora se tem rebelado. Se o seu destino tivesse levado os brazileiros a outro canto do continente, nem tão largo, nem tão belo, poder-se-hia permitir-lhes que passassem a existência em uma grande somnolencia. Mas ao brasileiro está confiada a decima quinta parte da superfície do globo: essa decima quinta parte é, toda ela, um tesouro de beleza, riquezas e felicidades possiveis; e de tal responsável--o brasileiro tem de subir ou de cahir!»

E com esta palavra, á Gambetta, termino. Já se alonga muito esta carta para que eu a sobrecarregue de comentários á prosa do Times. No seu conjuncto é um juízo simpático. O Times, sendo, por assim dizer, a consciência escripta da classe media da Inglaterra, a mais rica, a mais forte, a mais solida da Europa, tem uma autoridade formidável; e escrevendo para o Brasil, eu não podia deixar de recolher as suas palavras--que devem ser naturalmente a expressão do que a classe media da Inglaterra pensa ou vai pensar algum tempo do Brasil. Porque a prosa do Times é a matéria-prima de que se faz em Inglaterra o estofo da opinião.

E reparando agora que, por vezes em estas linhas, fui menos reverente com o Times--murmuro, baixo e contricto, um peccavi...

Cartas de Inglaterra

Sinopse

Cartas de Inglaterra, de Eça de Queirós, reúne doze textos de observação política, social e cultural em edição Literunico de domínio público, conservadoramente normalizada para PT-BR moderno.

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