O terceiro dia amanheceu com um céu de tonalidade cinzenta, como se as nuvens carregassem uma quietude refletida no horizonte. Decidi começar o dia em um local que sempre me fascinou pelas histórias de tempos antigos: o Monte Saint-Michel, na Normandia. O simples pensamento de atravessar a estreita passagem que leva à ilha já fazia minha mente flutuar em possibilidades. Sozinha, mas impulsionada por uma curiosidade infinita, preparei-me para mergulhar em um lugar que, mesmo vazio, ressoava com a presença do passado.
À medida que me aproximava, a visão da abadia ao longe me enchia de uma espécie de reverência. A estrutura, imponente contra o céu nublado, parecia suspensa no tempo, uma obra de fé e determinação que sobrevivia à ausência de qualquer atividade humana. Comecei a caminhada pela passarela que ligava a terra firme ao monte, sentindo o vento gelado varrer meu rosto. O som das ondas ao longe era a única trilha sonora, um lembrete de que a natureza continuava, indiferente à ausência de qualquer espectador além de mim.
Ao atravessar o portal de entrada, fui saudada por ruas estreitas e sinuosas, ladeadas por edifícios de pedra. Como se cada pedra tivesse sido testemunha de séculos de histórias que agora permaneciam em silêncio. O vazio aqui era diferente, não era apenas a ausência de pessoas, mas a presença palpável de memórias. Memórias de peregrinos subindo em oração, de comerciantes oferecendo suas mercadorias, de monges entoando cantos litúrgicos no alto da abadia. Agora, eu estava ali, sozinha, percorrendo os mesmos passos que eles haviam trilhado, mas sem ouvir os murmúrios das vozes.
Chegar ao topo foi como entrar em outro mundo. A vista era deslumbrante: o mar estendia-se até o infinito, e as areias, reveladas pela maré baixa, formavam padrões misteriosos que pareciam mapas de lugares ainda por descobrir. A abadia, imponente e silenciosa, um labirinto de corredores e capelas que exalavam um ar de mistério e transcendência. Os passos que eu dava ecoavam ligeiramente nas paredes, criando uma melodia efêmera que desaparecia quase tão rápido quanto surgia.
Sentada em uma das janelas altas, com as mãos segurando meu diário, comecei a escrever. Não era apenas sobre o que eu via, mas também o que sentia, uma conexão profunda com algo maior do que eu mesma. Não era apenas a paisagem ou a arquitetura, mas a sensação de estar em um lugar onde o tempo e o espaço se entrelaçavam de forma única, oferecendo uma espécie de consolo para a minha solidão.
Continuei explorando cada canto da abadia, absorvendo os detalhes sutis que, sem a presença de outras pessoas, pareciam quase gritantes. As colunas esculpidas à mão, cada uma com suas pequenas variações, contavam histórias de artesãos que haviam dedicado suas vidas a um trabalho que nunca veriam concluído. Os vitrais, mesmo com a luz cinzenta do dia, lançavam uma paleta de cores suaves sobre as pedras gastas do chão. Esses fragmentos de luz dançavam ao meu redor, como se quisessem lembrar que, mesmo no silêncio, a beleza não desaparece.
Enquanto caminhava, cheguei ao claustro. Era um espaço aberto, rodeado por arcadas que davam vista para o céu. O vento soprou mais forte ali, e por um momento fechei os olhos, deixando a sensação me envolver. Senti como se aquele espaço fosse um lugar de pausa, uma chance para refletir sobre o que significava estar naquele mundo espelhado. Eu me perguntava, mais uma vez, quem eu era neste contexto, uma viajante solitária, uma observadora, ou algo mais? Não havia ninguém para me definir, ninguém para afirmar ou negar minha existência. Talvez eu fosse uma história que escrevia a si mesma, um reflexo que ganhava forma apenas ao ser visto.
Olhando para o horizonte, percebi como o Monte Saint-Michel parecia desafiar a natureza, resistindo ao tempo, às marés, ao abandono. Ele continuava ali, como uma prova de que a persistência, mesmo em solidão, pode ser um ato de beleza e força. Senti que havia algo profundamente inspirador nessa ideia, existir, mesmo quando ninguém está olhando, e encontrar significado na simples presença.
O caminho de volta à base da ilha parecia diferente, como se algo em mim tivesse mudado. As ruas vazias agora pareciam um convite para continuar explorando, e não um lembrete da ausência. O som das ondas ao longe soava mais reconfortante, e o vento parecia menos frio. Como se o próprio monte, em seu silêncio, tivesse compartilhado algo comigo, uma verdade que só poderia ser encontrada em lugares como aquele.
Chegando novamente à passarela, olhei para trás uma última vez. O Monte permanecia imponente, um guardião de histórias e memórias. Mas, desta vez, não senti tristeza ao deixá-lo. Havia uma sensação de gratidão. O próximo capítulo me aguardava, e eu sabia que, onde quer que fosse, encontraria outra peça desse quebra-cabeça invisível que era o meu mundo.