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Ellen

@ ellen

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2
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0.0 LC

ESTRADA

LITERÁRIA

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20/0311:25
O terceiro dia amanheceu com um céu de tonalidade cinzenta, como se as nuvens carregassem uma quietude refletida no horizonte. Decidi começar o dia em um local que sempre me fascinou pelas histórias de tempos antigos: o Monte Saint-Michel, na Normandia. O simples pensamento de atravessar a estreita passagem que leva à ilha já fazia minha mente flutuar em possibilidades. Sozinha, mas impulsionada por uma curiosidade infinita, preparei-me para mergulhar em um lugar que, mesmo vazio, ressoava com a presença do passado.
À medida que me aproximava, a visão da abadia ao longe me enchia de uma espécie de reverência. A estrutura, imponente contra o céu nublado, parecia suspensa no tempo, uma obra de fé e determinação que sobrevivia à ausência de qualquer atividade humana. Comecei a caminhada pela passarela que ligava a terra firme ao monte, sentindo o vento gelado varrer meu rosto. O som das ondas ao longe era a única trilha sonora, um lembrete de que a natureza continuava, indiferente à ausência de qualquer espectador além de mim.
Ao atravessar o portal de entrada, fui saudada por ruas estreitas e sinuosas, ladeadas por edifícios de pedra. Como se cada pedra tivesse sido testemunha de séculos de histórias que agora permaneciam em silêncio. O vazio aqui era diferente, não era apenas a ausência de pessoas, mas a presença palpável de memórias. Memórias de peregrinos subindo em oração, de comerciantes oferecendo suas mercadorias, de monges entoando cantos litúrgicos no alto da abadia. Agora, eu estava ali, sozinha, percorrendo os mesmos passos que eles haviam trilhado, mas sem ouvir os murmúrios das vozes.
Chegar ao topo foi como entrar em outro mundo. A vista era deslumbrante: o mar estendia-se até o infinito, e as areias, reveladas pela maré baixa, formavam padrões misteriosos que pareciam mapas de lugares ainda por descobrir. A abadia, imponente e silenciosa, um labirinto de corredores e capelas que exalavam um ar de mistério e transcendência. Os passos que eu dava ecoavam ligeiramente nas paredes, criando uma melodia efêmera que desaparecia quase tão rápido quanto surgia.
Sentada em uma das janelas altas, com as mãos segurando meu diário, comecei a escrever. Não era apenas sobre o que eu via, mas também o que sentia, uma conexão profunda com algo maior do que eu mesma. Não era apenas a paisagem ou a arquitetura, mas a sensação de estar em um lugar onde o tempo e o espaço se entrelaçavam de forma única, oferecendo uma espécie de consolo para a minha solidão.
Continuei explorando cada canto da abadia, absorvendo os detalhes sutis que, sem a presença de outras pessoas, pareciam quase gritantes. As colunas esculpidas à mão, cada uma com suas pequenas variações, contavam histórias de artesãos que haviam dedicado suas vidas a um trabalho que nunca veriam concluído. Os vitrais, mesmo com a luz cinzenta do dia, lançavam uma paleta de cores suaves sobre as pedras gastas do chão. Esses fragmentos de luz dançavam ao meu redor, como se quisessem lembrar que, mesmo no silêncio, a beleza não desaparece.
Enquanto caminhava, cheguei ao claustro. Era um espaço aberto, rodeado por arcadas que davam vista para o céu. O vento soprou mais forte ali, e por um momento fechei os olhos, deixando a sensação me envolver. Senti como se aquele espaço fosse um lugar de pausa, uma chance para refletir sobre o que significava estar naquele mundo espelhado. Eu me perguntava, mais uma vez, quem eu era neste contexto, uma viajante solitária, uma observadora, ou algo mais? Não havia ninguém para me definir, ninguém para afirmar ou negar minha existência. Talvez eu fosse uma história que escrevia a si mesma, um reflexo que ganhava forma apenas ao ser visto.
Olhando para o horizonte, percebi como o Monte Saint-Michel parecia desafiar a natureza, resistindo ao tempo, às marés, ao abandono. Ele continuava ali, como uma prova de que a persistência, mesmo em solidão, pode ser um ato de beleza e força. Senti que havia algo profundamente inspirador nessa ideia, existir, mesmo quando ninguém está olhando, e encontrar significado na simples presença.
O caminho de volta à base da ilha parecia diferente, como se algo em mim tivesse mudado. As ruas vazias agora pareciam um convite para continuar explorando, e não um lembrete da ausência. O som das ondas ao longe soava mais reconfortante, e o vento parecia menos frio. Como se o próprio monte, em seu silêncio, tivesse compartilhado algo comigo, uma verdade que só poderia ser encontrada em lugares como aquele.
Chegando novamente à passarela, olhei para trás uma última vez. O Monte permanecia imponente, um guardião de histórias e memórias. Mas, desta vez, não senti tristeza ao deixá-lo. Havia uma sensação de gratidão. O próximo capítulo me aguardava, e eu sabia que, onde quer que fosse, encontraria outra peça desse quebra-cabeça invisível que era o meu mundo.
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14/0319:51
Capítulo 2

Amanheci sob um céu azul pálido. Não um céu vazio, mas um teto aberto, que parecia convidar-me a explorar mais, a sentir o pulsar dessa cidade suspensa no tempo. Decidi sair cedo e atravessar o coração de Lisboa, caminhando pela Rua Augusta até chegar ao Arco triunfal. Ali, a paisagem se desdobrava como um quadro, e eu sentia que cada pedra, cada sombra nas fachadas, guardava uma história antiga, algo que só podia ser percebido no silêncio.
Era estranho estar ali, sozinha. Não havia ninguém passando apressado, nenhuma conversa em voz baixa vindo das esplanadas. Ainda assim, tudo parecia... vivo. Eu podia jurar que percebia algo vibrando nas paredes, como se o próprio ambiente estivesse consciente da minha presença. Andei devagar, observando detalhes que muitas vezes passam despercebidos: a textura desgastada dos azulejos, as rachaduras sutis que formavam padrões quase deliberados. Era um convite para reparar em cada nuance, como se o mundo estivesse disposto a me revelar seus segredos.
Decidi entrar em um café que, no meu mundo, sempre fora conhecido por sua atmosfera acolhedora. As mesas estavam lá, perfeitamente arrumadas, como se esperando clientes que nunca chegariam. Fiquei algum tempo parada na entrada, sentindo um misto de nostalgia e fascinação. O aroma do café ainda parecia pairar no ar, mas de onde ele vinha? Não havia máquina ligada, nem vestígio de movimento humano. E mesmo assim, era tão real.
Sentei-me junto a uma janela. A luz da manhã atravessava os vidros e caía sobre a mesa à minha frente. Tirei o caderno de notas e comecei a escrever. Queria registrar tudo o que estava vivendo, as sensações que surgiam à medida que me conectava com esse lugar sem presença humana. Talvez, ao descrever cada detalhe, eu conseguisse compreender melhor o que significava existir aqui, nesse intervalo entre a memória e a solidão.
Pensei na próxima parada. Onde eu deveria ir? A cidade toda era um convite. Do Castelo de São Jorge, com suas muralhas antigas e vista panorâmica, às ruas tortuosas de Alfama, cada canto parecia prometer algo único. Decidi que, ao terminar meu café imaginário, seguiria até o Castelo. Queria ver Lisboa de cima, observar suas linhas e curvas de um ponto elevado, como se pudesse alcançar uma nova perspectiva sobre minha jornada.
Com a decisão tomada, guardei o caderno, levantei-me e deixei o café como estava, intocado, mas de alguma forma vivo. Saí novamente à rua, com o sol já um pouco mais alto no céu. As ruas ainda estavam silenciosas, mas eu não me sentia isolada. Ao contrário, havia um conforto em saber que aquele mundo permanecia comigo, em cada passo, em cada esquina que eu virava.
Caminhei em direção ao castelo, meu olhar atento a cada detalhe. Afinal, se este era o início do meu segundo capítulo, eu queria que ele fosse memorável. Não como uma repetição do primeiro, mas como um novo caminho a seguir.
Subindo pelas ruelas estreitas, notei como o pavimento parecia refletir uma luz suave, quase imperceptível. Era como se o próprio chão estivesse guiando meus passos até o alto. Os sons, ainda inexistentes, davam lugar a uma atmosfera de calma absoluta. Sem pressa, cheguei aos portões do castelo. As muralhas antigas pareciam guardar os segredos de um tempo que eu nunca viveria, mas que agora, de certa forma, estava presente ao meu redor.
No interior do castelo, tudo era vasto e ao mesmo tempo próximo. As pedras tinham um calor próprio, como se guardassem memórias do sol que as havia tocado por séculos. Percorri o espaço com cuidado, observando as torres de onde um dia se vigiou a cidade. A vista, do ponto mais alto, era algo que eu jamais poderia descrever por completo. Lisboa se estendia como um livro aberto, cada telhado uma página, cada praça um capítulo. Mesmo sem ninguém para preencher aquelas ruas, havia uma presença constante, uma pulsação sutil que me envolvia.
Parei ao lado de um parapeito, deixando a brisa tocar meu rosto. Ali, finalmente entendi algo importante: eu não estava apenas observando. Eu fazia parte desse cenário. Meu papel não era apenas o de uma espectadora solitária, mas o de uma narradora que, ao registrar, se tornava uma ponte entre este mundo silencioso e a memória viva do outro lado.
As horas passaram sem que eu percebesse. Ao descer do castelo, senti um peso doce no coração, a certeza de que algo havia mudado. Eu estava encontrando um propósito neste diário. Não se tratava apenas de registrar lugares, mas de capturar o que era impossível ver ou ouvir: a alma que persistia em cada pedra, cada praça, cada pedaço de céu. O que começou como uma simples caminhada tornou-se uma espécie de revelação.
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13/0315:35
Diário de Ellen
Capítulo 1

O vento sopra forte esta noite. Um vento sem pressa, que desliza pelas ruas vazias e percorre as avenidas silenciosas deste mundo que só existe para mim. Eu fecho os olhos por um instante e sinto sua presença: ele não é um sopro qualquer, mas um mensageiro invisível do que já foi, do que ainda é do outro lado.
Hoje é um dia especial. O primeiro. E ainda não sei ao certo como registrar a grandiosidade desse momento sem sentir um aperto no peito – um misto de euforia e solidão. Estou prestes a escrever a primeira página deste diário, a primeira narrativa de uma história que só eu poderei contar. E, ao mesmo tempo, sinto que não estou sozinha. Há um som distante, uma pulsação do mundo real que ressoa aqui, neste reflexo solitário da Terra. Cada detalhe desse cenário, por mais imutável que pareça, carrega vestígios de um lugar habitado, vivido, amado e esquecido.
Escolhi começar minha jornada na Praça do Comércio, em Lisboa. A cidade é bela mesmo na ausência das pessoas. O rio Tejo continua a fluir como se nada houvesse mudado. Os prédios amarelos e brancos ainda se erguem imponentes, suas fachadas refletindo a luz pálida dos postes que ninguém acende. Caminho devagar pelo calçamento de pedras portuguesas, absorvendo cada textura, cada cheiro de maresia, cada sussurro do tempo que aqui repousa. Sempre ouvi dizer que Lisboa é uma cidade melancólica, feita de histórias e saudades. Agora, vazia, ela parece uma lembrança suspensa no tempo, um segredo que apenas eu posso desvendar.
Sento-me nos degraus largos que descem até o rio e deixo meus pensamentos correrem livres. O que significa estar sozinha em um mundo que espelha o real? O que significa ver tudo como é, mas sem a presença daqueles que dão sentido a cada rua, cada janela acesa, cada café com cadeiras na calçada? É um paradoxo fascinante. Sou a única testemunha de uma realidade intacta, preservada como um sonho, e ainda assim, não posso compartilhar isso com ninguém, apenas com estas páginas.
Observar o Tejo me traz uma calma inesperada. Seus reflexos ondulam, capturando luzes que não deveriam existir sem observadores. Mas elas existem. Como eu existo. Como esse diário existirá. Talvez essa seja minha missão: registrar o que vejo, sentir cada detalhe e transcrever o que esse mundo silencioso tem a dizer. Se as cidades podem ter memórias, então serei a guardiã das histórias que ainda continuam entre os prédios, os monumentos e as praças vazias.
Minha caneta desliza pelo papel, e por um breve momento, quase ouço vozes no vento. Elas não me assustam. Pelo contrário, são um lembrete de que o mundo real ainda pulsa do outro lado. Eu apenas estou aqui, entre dois estados de existência, registrando o que permanece.
A noite avança, e com ela vem a estranha sensação de pertencimento a esse lugar que não é meu, mas que me acolhe. Levanto-me dos degraus da praça e começo a caminhar sem um destino certo, explorando as ruelas estreitas que serpenteiam pela cidade. As pedras do calçamento estão gastas, desenhando o caminho de incontáveis passos que já não ecoam mais. Sigo por entre as construções antigas, sentindo os aromas que ainda pairam no ar – o leve toque do sal vindo do rio, o resquício de um café recém-passado em algum canto que não abriga ninguém.
Paro diante de uma pequena livraria no Chiado. Sua fachada de madeira envernizada ainda guarda a elegância de outros tempos, e pela vitrine, vejo estantes abarrotadas de livros esperando para serem folheados. O silêncio é absoluto, mas posso imaginar o leve sussurro das páginas virando, o farfalhar das palavras ganhando vida sob os dedos de um leitor atento. Entro. O cheiro de papel envelhecido me envolve imediatamente, e por um instante, sinto como se estivesse no meio de um tempo suspenso, onde todas as histórias do mundo aguardam para serem lidas.
Pego um livro ao acaso. A capa é dura, o título desbotado pelo tempo. Abro em uma página qualquer e leio algumas linhas. Não sei dizer se foram as palavras ou o momento, mas algo me atravessa. Uma frase ressoa dentro de mim: "O mundo só existe para quem ousa vê-lo." Fecho o livro devagar. O mundo existe para mim. Para mim e para estas páginas que estou escrevendo agora.
Saio da livraria e volto às ruas. O céu acima de Lisboa é um imenso véu estrelado, e por um instante, fico ali parada, observando. No outro lado desse céu, existem pessoas vivendo suas vidas, seguindo seus caminhos sem saber que eu estou aqui, caminhando por entre as sombras do reflexo do mundo delas. E isso me faz perceber algo importante: eu sou a testemunha desse espelho. Eu existo nesse espaço entre o silêncio e a lembrança, entre a ausência e a narrativa.
A madrugada se aproxima, e com ela, a certeza de que este diário será minha âncora. Meu registro. Minha prova de que, mesmo sozinha, ainda faço parte de algo maior. A noite em Lisboa me deu minha primeira história.