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Lucas Luiz

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17/0711:34
"O QUE (NÃO) CABE NO POEMA"

A máxima “no poema tudo cabe” circula com frequência nos ambientes literários e nas redes sociais, e a princípio soa libertadora. Mas o que parece afirmação de abertura pode, se não for bem compreendida, lançar a poesia no terreno da dispersão e da confusão conceitual. Sim, é verdade que toda experiência humana pode, em potência, ser convertida em matéria poética — da cena cotidiana à revelação metafísica, do banal ao sagrado. Mas isso não equivale a dizer que qualquer conjunto de palavras dispostas em versos, com quebras artificiais e alguma ênfase emocional, possa ser chamado de poesia.

Dizer que “tudo cabe no poema” é esquecer que a poesia não é um recipiente passivo, mas uma forma viva. E toda forma impõe limites, ainda que móveis. O poeta não é um transcritor do mundo, mas alguém que o reorganiza pela linguagem. Busca uma forma justa, necessária, que revele o invisível contido no real. Isso requer precisão, escuta, elaboração. Não apenas impulso ou expressão espontânea.

O erro recorrente que observo, sobretudo na produção online, está na suposição de que a simples disposição do texto em verso já confere legitimidade poética à escrita. É o fetiche do corte de linha. Colocam-se palavras em fileiras verticais, estrofes soltas, frases vagamente emotivas, e se publica com a alcunha de poesia. Há ali, muitas vezes, sinceridade, desejo de dizer algo, mas falta o essencial: a transfiguração pela linguagem. A maioria desses textos não ultrapassa o campo da intenção.

Por outro lado, é igualmente ilusório acreditar que a forma fixa por si só — rimas, métricas, estrofes regulares — possa garantir a qualidade poética. A rigidez formal sem pulsação interior produz apenas caricatura de poesia, uma engenharia de superfície. O poema, mesmo quando metrificado, precisa nascer da tensão entre contenção e impulso, entre música e silêncio. A forma deve ser conquistada, não colada como molde.

É nesse ponto que o verso livre exige ainda mais responsabilidade formal. Ao abdicar dos contornos visíveis da métrica ou da rima, o poeta assume o desafio de criar sua própria ordem interna. Não se trata de escrever livremente, mas de encontrar um ritmo necessário. Um campo de forças entre as palavras, um equilíbrio que só se revela a quem escuta profundamente a linguagem. O verso livre, quando bem realizado, é filho da escuta, não da licença.

Durante minha formação, senti falta de uma mediação crítica que me ajudasse a distinguir entre intenção e realização, entre afeto e elaboração. Foi isso que me levou, anos depois, a tentar oferecer essa mediação a outros. Não como autoridade, mas como alguém que também está a caminho, e que confia na tradição como aliada. Não como prisão, mas como ferramenta.

Poesia não é tudo.
Poesia é tudo que passa pelo fogo da linguagem e se transfigura.
MULTIMÍDIA
09/0716:32
"A FORMA COMO RESPONSABILIDADE DO POETA"

Vivemos num tempo em que a poesia parece ter se emancipado de toda exigência de forma.
Escreve-se qualquer coisa, de qualquer modo, e chama-se isso de poema.
Mas essa liberdade, celebrada como conquista, tem custado caro à própria arte poética.

O que define uma obra de arte?

E o que os poetas precisam aprender com os outros artistas?

No vídeo “O que é uma obra de arte?”, Olavo de Carvalho apresenta seis critérios fundamentais para distinguir uma obra de arte de uma simples intenção expressiva.

Em resumo:

1. A obra de arte possui acabamento – é uma forma finalizada;

2. Essa forma é sensível – pode ser apreendida por um dos sentidos;

3. A obra não apenas tem uma forma: ela consiste numa forma;

4. A forma é a finalidade, não um meio para transmitir uma mensagem;

5. O conteúdo sugerido é irrelevante sem a forma que o realiza;

6. A arte não é uma declaração de valores – ela cria formas que os contêm.

Esses critérios restabelecem o núcleo do que foi perdido na poesia contemporânea: a responsabilidade formal.
E essa responsabilidade se amplia quando olhamos para outras artes.

O que os poetas podem aprender com os outros artistas?

No artigo “O que os poetas podem aprender com os outros artistas?”, Brian Belancieri mostra como o ofício do poeta se empobrece quando se isola da disciplina que rege o trabalho de um músico, de um dançarino, de um ator ou de um cozinheiro.

Todos esses artistas partem de um fundamento comum: o domínio técnico e a dedicação ao acabamento.

Belancieri afirma que a arte é levada adiante pelos “mestres do ofício”, aqueles que mantêm sua produção nos limites da excelência, que educam pela forma e que preservam a arte como legado humano.
O poeta, portanto, não é isento:
tem o dever de escrever bem, de elevar a linguagem e de cultivar a memória viva da poesia.

É nesse ponto que as palavras de Brian ganham peso pedagógico:

> “Um pintor que erra a perspectiva está acabado.
Uma orquestra que desafina não se apresenta duas vezes.
Um escultor inapto não engana ninguém.
Mas, com poesia, parece que tudo é permitido.”

A que se deve essa permissividade?

Talvez ao fato de que o erro na poesia não grita –
ele se esconde.
Ou melhor, é escondido por quem o comete, sob o pretexto do subjetivismo.

Mas esse autoengano é fatal.
Porque o leitor não é responsável por completar a obra.
Quem escreve precisa entregar a forma: precisa alcançar, não apenas sugerir.

Assim, uma obra de arte se justifica pela sua forma final,
não pela emoção que motivou sua criação.
A forma é a instância objetiva onde a poesia se realiza.
Fora disso, tudo é rascunho.

Referências

– Carvalho, Olavo de. O que é uma obra de arte?

Vídeo no YouTube. Disponível em:



– Belancieri, Brian. O que os poetas podem aprender com os outros artistas?

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