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Os amores que já não existem
Franthesca Kally 22/10/2026
Talvez o meu problema seja pertencer demais à arte, aos livros, aos romances impossíveis
Aos amores que nunca existiram fora das páginas, mas que, dentro de mim
Sempre pareceram mais reais do que a própria realidade
Talvez eu tenha lido histórias demais e aprendido a esperar aquilo
Que o mundo já não se preocupa em oferecer
Dizem que o amor é para todos, que existe alguém em algum lugar
Uma alma que reconhece a nossa, um encontro que faz todas as esperas valerem a pena.
Mas ninguém fala daqueles que passam a vida procurando, e só encontram versões incompletas
Daquilo que tanto sonharam viver
Porque a verdade é que nem todo mundo encontra o amor
Alguns encontram apenas promessas, outros, ausências disfarçadas de interesse
E há aqueles que precisam aprender a conviver com o vazio, de nunca terem sido amados como imaginavam
Eu já não me encaixo neste mundo, onde os sentimentos são descartáveis, de interesses passageiros
De pessoas que prometem eternidade, sem sequer saber permanecer até o fim de uma estação
Onde foram parar as cartas?
As palavras cuidadosamente escolhidas?
Os textos escritos durante a madrugada
Porque alguém simplesmente não conseguia dormir, sem transformar saudade em declaração?
Onde estão aqueles que atravessariam cidades, enfrentariam distâncias
Desafiariam o orgulho, só para provar que um coração, não é um lugar onde se chega por conveniência?
Quando foi que demonstrar amor, passou a ser motivo de vergonha?
Quando foi que sentir profundamente, se tornou sinônimo de fraqueza?
Eu nunca soube fingir indiferença nunca aprendi a sentir pela metade
Nem a oferecer pouco, quando tudo em mim deseja entregar o infinito
Mas, se existe algo que sei fazer, é construir mundos, invento encontros, diálogos, despedidas
Imagino mãos que se procuram, olhares que confessam o indizível, amores que não precisam implorar para serem escolhidos
Crio vidas inteiras na minha cabeça, talvez porque lá dentro, ninguém precise mendigar reciprocidade
E, quando retorno à realidade, a pergunta permanece, em que momento o amor deixou de ser abrigo
E se tornou um jogo de quem se importa menos?
A fidelidade virou exceção, a lealdade parece uma espécie em extinção
A esperança é uma chama teimosa, apaga, reacende, vacila, mas nunca desaparece por completo
E o amor?
O amor, que deveria ser encontro, se tornou disputa, que deveria ser cuidado, se tornou dúvida
Que deveria ser escolha, se tornou conveniência
As câmeras eternizam sorrisos, que talvez nunca tenham existido, as fotografias exibem felicidades que não sobrevivem ao silêncio
A verdade muda de forma conforme os interesses de quem a conta
E a falsidade aprendeu a se perfumar para ser confundida com sinceridade
Ainda assim, quem nasceu da arte, quem encontrou nos livros um lar
E nos romances uma linguagem para a alma, não consegue aceitar o pouco
Só porque o mundo desaprendeu a oferecer muito, porque não é arrogância desejar profundidade, não é ingenuidade acreditar na lealdade
Não é fraqueza querer um amor inteiro, em um mundo que se acostumou aos pedaços
É apenas não saber trair a si mesma, para caber naquilo que nunca foi feito
Para acolher a sua essência, e, se para pertencer a este mundo
Eu precisar abandonar tudo aquilo em que acredito, talvez o problema nunca tenha sido, o meu excesso de sentimento
Talvez seja este mundo que tenha se acostumado, a sentir tão pouco