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@jessicaS há 7 meses
Público
No centro do patio, a memoria floresce. A B U #jessica_poema
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@wilcipolli há 7 meses
Público
Museu do amanhã O idoso paginou seu jornal com dedos nervosos. Era um gesto necessário, calculado. Não que houvesse acabado as páginas anteriores; foi meramente para disfarçar sua espionagem. De longe, seus olhos fitavam, por cima dos óculos, um menino que esperneava no chão da praça, pois sua mãe lhe negara um balão do carrinho de pipoca. Era compreensível que, aos três anos de idade, sua mentalidade ainda não aceitasse bem negações. Seu olhar não carregava julgamentos, apenas curiosidade. Curiosidade de quem se senta no mesmo banco, naquela mesma praça, cotidianamente, e acaba entediado caso não haja o que ver além do próprio jornal. Vez ou outra, o coreto recebia visitas de artistas locais. Uma sombra do que já fora em outros tempos. Ah, que tempos. Quando a praça central era, de fato, o centro das atenções. Durante o dia, pais e mães levavam seus filhos para brincar. Quase todos na cidade frequentavam a igreja, que, em dias de missa, reunia toda a comunidade, e, após as orações, davam voltinhas na praça, a fumar, beber ou comer uma maçã doce. Mesmo nas noites sem missa, a praça enchia-se de rapazes e moças a se paquerarem, principalmente aos domingos, quando a banda da cidade tocava, sem faltar, pois era, unanimemente, o evento mais aguardado da semana. E, assim como coração de mãe, na praça parecia sempre caber mais um, por mais que já se vissem multidões. No entanto, em algum momento, o centro das atenções se dividiu: um pub famoso aqui, uma avenida badalada ali, um parque melhor noutra praça para os pequenos. E, por fim, o coreto tornou-se um símbolo — simbólico. O idoso era o coreto, e o coreto era o idoso. Via-se em cada tijolo de outro tempo, em cada pedaço de tinta já desgastada pela idade. Talvez esquecido… certamente esquecido, mas ainda respeitado e lembrado. E cada transeunte — adolescentes com seus celulares, crianças com suas birras, pais que agora preferiam os pubs à praça — evidenciava o contraste temporal que ali residia: um idoso e seu coreto, visitados por contemporâneos que já habitavam outra era. Então ele não observava as pessoas por curiosidade. Observava-as como quem percorre um museu. Não para ver o novo, mas para recordar o que já foi seu, agora em outra perspectiva.
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@eduliguori há 7 meses
Público
Um silêncio absurdo me atinge, aquele ensurdecedor adeus. Reconstruir parece impossível, mas não será, porque sempre existe uma nova chance. Tudo é novo nestes tempos, me enganei achando que seria fácil, é muito difícil. Andei por aí e nada vi, as ruas ainda estão escuras, desertas. Mas pelo menos sinto o coração vazio e não partido, o que seria bem pior. A poesia está mais rara, me alimento de música, minha atual companheira. Mas as palavras não me deixam, continuo exposto, necessitando gritar. Quem lê acaba identificando momentos comuns, porque no fim somos todos iguais. E sendo tão parecidos, reside aí minha esperança. Com uma probabilidade relativamente alta, existe alguém procurando algo que eu possa oferecer. E esse alguém tem em estoque o pão que necessito. Por entre as linhas que rabisco enquanto ouço Caetano, Djavan e Chico cantarem o amor, me isento de uma louca insanidade como a que vivi a pouco. Preferiria se tivesse a oportunidade de escolher uma nova amizade, que tal qual um botão de flor, fosse desabrochando com o sol. Mas, quem sou eu para escolher? Quem será que vai chegar? Já está por perto e só não enxergo? Ou ainda é uma viajante distante a se perder em meu caminho? Risível é a vontade de entender os nossos desígnios, nunca saberemos ao certo. Mas no silêncio que me atinge, ouço algo bater baixinho... Um sinal de que claramente ainda há tempo e se há tempo, tenho fé. Edu Liguori
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@wilcipolli há 7 meses
Público
Fruta-do-dragão Já aviso de antemão: isto não é um texto informativo. Já sou crescido, posso até lhe ensinar algo aqui ou acolá, e ainda assim sigo sendo surpreendido por banalidades — o que, convenhamos, é uma forma elegante de dizer que o mundo continua me enganando. Ultimamente tenho ficado ansioso com uma questão simples: qual será a nova fruta da vez? Porque isso existe. Não me diga que não. Vinte anos atrás, no interior de São Paulo, ninguém saberia explicar o que diabo era um açaí — e, se soubesse, certamente não teria provado. Bastaram três ou quatro míseros anos e — bum! — açaiteria brotando pelos bueiros. De repente, todo mundo sempre gostou, sempre tomou, sempre soube. Passei a infância inteira sem sequer desconfiar da existência de um creme roxo, doce e gelado que hoje vendem como se fosse patrimônio da humanidade. Não me entra na cabeça. Como é que uma coisa dessas simplesmente… aparece? Tudo bem, há quem não goste. Dizem que tem gosto de terra. Respeito, mas discordo. O que não consigo respeitar são aqueles que defendem aquela frutinha amarela, azeda e francamente desnecessária chamada physalis — tão insossa quanto o próprio nome. Passei anos gloriosos da minha vida sem saber que aquilo existia, e sinceramente não vejo o que ganhei ao descobrir. Mas eis o ponto: se tem quem goste — e aparentemente tem — por que só foram me apresentar isso depois dos meus quinze anos? Onde estavam essas frutas antes? Quem decide o momento exato em que elas entram em circulação? Existe um calendário secreto da agricultura? Um comitê, talvez, que se reúne de tempos em tempos e resolve: “agora é essa aqui”? Gosto de pensar que sim. Que há um roteiro sendo seguido. Que a cada década lançam uma novidade, como episódio de série, só para manter a gente entretido. Se for esse o caso, preciso admitir: o episódio mais recente me agradou. A tal da fruta-do-dragão — que, convenhamos, já começa ganhando pelo nome — é dessas que não pedem licença. Chega chamando atenção, cor viva, aparência quase exagerada, quase artificial. E não é que entrega? Doce na medida, suculenta, textura que desmancha. Um escândalo discreto. Dessas que você experimenta e imediatamente pensa: onde você estava esse tempo todo? E lá vou eu de novo, com a mesma sensação incômoda: vivi dois terços da vida sem isso aqui. Dois terços. Tempo suficiente para formar caráter, opinião, até arrependimento — mas não para conhecer uma fruta que claramente merecia ter participado de tudo isso. Recentemente descobri que o caju, por exemplo, apesar de ser nosso, virou celebridade lá fora. Vietnã, Índia — potências na produção da castanha. Faz sentido: o fruto é delicado, não aguenta desaforo, estraga fácil. O mundo acabou ficando com a versão seca, domesticada, exportável. O caju de verdade, aquele que mela a mão e mancha a roupa, ficou restrito a quem pode alcançá-lo antes que apodreça. Talvez seja sempre assim. Em algum lugar — no Japão, por exemplo — alguém ainda não faz ideia do que seja um caju. Talvez, daqui a alguns anos, surja por lá uma estufa quente o suficiente, seca o bastante, eficiente como tudo que eles fazem. E então, de repente, alguém vai provar pela primeira vez. E vai se perguntar: onde isso esteve esse tempo todo?

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