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Meu Vizinho de Porta Errada

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Meu Vizinho de Porta Errada

Capítulo 1 · Meu Vizinho de Porta Errada

A Encomenda do Chef

Júlia Barros mudou para o apartamento 1204 levando três malas, uma cafeteira, duas plantas quase mortas e a decisão firme de nunca mais dividir armário com homem que chamava traição de fase confusa. O prédio se chamava Jardim Verona, embora não tivesse jardim, Verona ou qualquer compromisso com poesia. Tinha portaria espelhada, elevador temperamental e um síndico que enviava comunicados com ponto de exclamação em excesso. Júlia queria silêncio, recomeço e vizinhos sem relevância emocional. Às oito da noite, recebeu a primeira encomenda errada. Uma caixa enorme, gelada, endereçada ao apartamento 1205, com aviso de perecível e o nome Rafael Brant escrito em letras pretas.

Ela conhecia Rafael Brant. Todo mundo conhecia. Chef de televisão, dono de restaurante fechado depois de briga pública com investidor, homem bonito demais para pedir desculpa direito em entrevista. Júlia carregou a caixa até a porta ao lado, ainda usando roupa de mudança e humor de quem montara cama sem manual. Tocou a campainha. Ninguém respondeu. Tocou de novo. Do lado de dentro veio barulho de panela caindo e um palavrão criativo. A porta abriu de repente, revelando Rafael descalço, cabelo molhado, camiseta cinza e uma colher de pau na mão. Ele olhou para a caixa, depois para Júlia, depois para a caixa de novo, com a concentração de alguém diante de um crime culinário.

Rafael agradeceu sem sorrir e disse que a portaria errava tudo desde a troca do sistema. Júlia respondeu que o sistema talvez apenas respeitasse o padrão humano do prédio. Ele riu pelo nariz, pouco, e pegou a caixa. Um cheiro de manjericão, tomate e manteiga invadiu o corredor. O estômago de Júlia fez um ruído traidor. Rafael ouviu. Ela fingiu que não. Ele ofereceu comida em troca do transtorno. Ela recusou com dignidade. A barriga discordou de novo. Rafael ergueu a sobrancelha. Júlia disse que aceitava apenas porque ainda não achara talheres na mudança e porque fome reduzia convicção feminista em situações logísticas específicas.

O apartamento dele parecia restaurante depois de terremoto. Bancada cheia de tomates, panelas abertas, facas alinhadas com cuidado profissional e caixas espalhadas pelo chão. Rafael explicou que testava receitas para um retorno discreto. Júlia olhou para a quantidade de molho fervendo e perguntou se discreto era nome de batalhão. Ele serviu massa fresca num prato fundo e ficou esperando opinião com uma ansiedade que tentava parecer desinteresse. Júlia provou. Estava absurdo. Disse apenas que servia. Rafael levou a mão ao peito com drama. Disse que servia era sentença cruel para homem que já recebeu estrela em revista. Ela respondeu que estrela não lavava prato. Ele sorriu dessa vez, inteiro, e o corredor lá fora pareceu menos hostil.

A paz durou onze minutos. O síndico apareceu à porta com uma notificação por cheiro excessivo em área comum. Atrás dele, dona Marlene do 1102 filmava tudo com celular. Rafael discutiu sobre liberdade aromática. Júlia tentou sair de fininho, escorregou numa tampa de caixa e derrubou meio pote de molho no próprio vestido claro. Dona Marlene virou a câmera para ela com a felicidade selvagem de quem encontra conteúdo. Rafael pegou um pano, aproximou-se para ajudar e parou antes de tocar, perguntando se podia. Júlia, vermelha de raiva e tomate, disse que podia ajudar a processar o condomínio por exposição vexatória. Na manhã seguinte, o vídeo já tinha oito mil visualizações e o título cruel. A nova vizinha do chef tomou banho de molho.

Meu Vizinho de Porta Errada

Sinopse

Júlia muda para o apartamento 1204 depois de uma separação vergonhosa e descobre que sua porta vive recebendo encomendas do vizinho, um chef famoso em queda pública que cozinha de madrugada e discute com síndicos por esporte. Entre pacotes trocados, reuniões de condomínio e um vídeo viral envolvendo molho de tomate, os dois transformam uma guerra de corredor em romance improvável.

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