Universo da obra
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Cantar do Desterro
Com lágrimas nos olhos, o Cid olhava para trás. As portas de sua casa em Vivar estavam abertas, mas já não havia ali mesa posta, falcões no poleiro, peles nas arcas nem gente entrando e saindo com a pressa de uma casa viva. As arcas estavam vazias, os cabides sem mantos, as varas sem aves de caça. Tudo parecia ter ouvido a sentença antes dos homens: Rodrigo Díaz devia deixar Castela.
O Campeador suspirou, mas não se queixou contra Deus. Ergueu os olhos e disse que graças fossem dadas ao Senhor, pois seus inimigos maus haviam urdido aquilo. Então virou o cavalo e seguiu para Burgos, acompanhado de poucos fiéis. Iam calados, porque a dor que vinha do rei não se respondia com gritos na estrada.
Em Burgos, as janelas se enchiam de rostos. Homens e mulheres choravam ao vê-lo passar, e todos diziam a mesma coisa em voz baixa: que bom vassalo seria, se tivesse bom senhor. Mas ninguém se atrevia a abrir-lhe a porta. A ordem régia pesava sobre a cidade: quem acolhesse Rodrigo, quem lhe desse pão, vinho, abrigo ou conselho, perderia os bens e os olhos da face.
O Cid bateu em sua pousada. Ninguém respondeu. Bateu de novo, com mais força. Uma menina se aproximou e falou por todos, tremendo, mas sem mentir: Campeador, nesta noite não vos podemos receber. O rei nos mandou carta selada; se vos abrirmos, perderemos tudo. Ide com Deus, que vos proteja.
Rodrigo ouviu a criança e compreendeu. Não era covardia daquela gente; era medo de uma ordem injusta. Afastou-se da porta e atravessou Burgos sem amaldiçoar ninguém. Fora da cidade, armou acampamento na areia do Arlanzón, como quem já começava a viver fora dos muros de seu próprio mundo.
Antes de partir de vez, precisava de dinheiro para os homens que o seguiam. Martim Antolínez, burgalês astuto e leal, concebeu então um expediente. Encheram duas arcas com areia, cobriram-nas com couro vermelho e pregos dourados, e fizeram crer aos judeus Raquel e Vidas que ali estavam os tesouros do Cid, deixados em penhor até que a fortuna voltasse. Os mercadores aceitaram o trato e deram prata bastante para a jornada. Não era engano de avareza vil, mas artifício de desterrado que ainda haveria de pagar com honra.
Depois, o Cid tomou o caminho de San Pedro de Cardeña, onde estavam sua mulher, dona Ximena, e suas filhas, Elvira e Sol. Ao vê-lo chegar, Ximena caiu-lhe aos pés. Ela sabia que não havia força capaz de prender um homem chamado pelo desterro, mas a despedida lhe cortava a alma. Rodrigo abraçou a esposa e as meninas, recomendando-as ao abade e a Deus. Prometeu que voltaria com honra maior do que a que lhe haviam tirado.
A noite passou curta. Ao amanhecer, os sinos soaram como se chorassem, e o Campeador montou novamente. Beijou as filhas, que ainda eram pequenas, e partiu sem olhar demais, porque nenhum guerreiro resiste por muito tempo ao pranto dos seus. O prazo do rei se esgotava; se passasse a noite em Castela, seria traidor pela letra da ordem.
Ao sair da terra do rei Afonso, Rodrigo não saiu da lealdade. Jurou ganhar pão e honra com a espada, mas nunca levantar mão contra seu senhor natural. Com ele iam Álvar Fáñez, chamado Minaya, Pero Bermúdez, Martim Antolínez e outros cavaleiros que preferiam pobreza honrada a riqueza sem alma. A pequena companhia seguia para a fronteira, onde a necessidade se transforma depressa em batalha.
Tomaram Castejón por surpresa, com disciplina e rapidez, e dali seguiram para Alcocer. O Cid combatia sem desperdício de sangue: vencia, recolhia botim, repartia com justiça e mantinha seus homens unidos. Sabia que cada vitória era também uma mensagem para Castela. Quem o julgara perdido ouviria em breve que o desterrado crescia.
Em Alcocer, cercado por forças inimigas, o Campeador não se deixou apertar como presa. Fingiu retirada, atraiu os adversários para fora e então voltou sobre eles. A lança de Pero Bermúdez abriu caminho, Minaya sustentou o choque, e Rodrigo apareceu onde a batalha mais fervia. Quando o pó baixou, os inimigos fugiam e os homens do Cid recolhiam cavalos, armas e riquezas.
O quinto do ganho foi separado para o rei. Rodrigo enviou Minaya a Castela com presentes, não como súplica de homem quebrado, mas como prova de que continuava vassalo leal. Afonso recebeu os dons e ouviu as notícias. Ainda não perdoou o Cid, mas permitiu que novos cavaleiros se juntassem a ele. Às vezes a justiça entra por uma fresta antes de abrir a porta.
Enquanto isso, o nome do Campeador se espalhava. Em terra de mouros e cristãos, diziam que havia um homem desterrado que cumpria a palavra, pagava soldo, dividia botim, protegia os seus e não esquecia a honra. E assim, sem casa em Castela, Rodrigo começou a construir outra morada: uma fama que nenhuma ordem régia podia fechar.
# Nota editorial
Esta edição Literunico apresenta o Poema de Mio Cid, grande epopeia castelhana medieval, em tradução e adaptação para o português brasileiro. A versão foi preparada a partir de texto em domínio público do Project Gutenberg e organizada em três cantos narrativos: o desterro do herói, a conquista de Valência e a reparação da honra após a afronta de Corpes.
O objetivo desta publicação é oferecer ao leitor brasileiro uma porta de entrada clara, fluente e publicável para o ciclo do Cid, preservando os nomes próprios, a estrutura épica e o movimento moral do poema: perda, serviço, conquista, injúria e justiça. A referência brasileira de María de la Concepción Piñero Valverde foi usada apenas como orientação bibliográfica e de cotejo, sem reprodução de texto.
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