Cantar das Bodas
Cantar das Bodas
O caminho do desterro levou o Cid para terras cada vez mais largas. Já não era apenas o cavaleiro que dormira na areia de Burgos; era chefe de hoste, senhor de homens experimentados, nome temido nas torres inimigas. Sua fortuna crescia, mas ele não a guardava como avaro. Dava parte aos companheiros, parte às igrejas, parte ao rei, e reservava para si o necessário à honra.
Valência surgiu no horizonte como prêmio e desafio. Rica, forte, cercada de hortas e águas, era cidade que não se entregaria a qualquer aventureiro. O Cid a cercou com paciência. Cortou caminhos, venceu socorros, esperou a fome trabalhar onde a espada não entrava. Muitos dias se passaram; muitos homens duvidaram; Rodrigo não duvidou.
Quando Valência enfim abriu as portas, o Campeador entrou não como saqueador desordenado, mas como senhor que sabia que conquista sem governo vira poeira. Distribuiu casas, guardou a cidade, confirmou os seus, e mandou que a riqueza fosse contada com justiça. O desterrado possuía agora uma cidade à beira do mar.
A notícia correu até Castela. De novo Minaya levou presentes ao rei Afonso: cavalos de grande preço, ouro, tecidos, sinais de vitória. Rodrigo pedia, acima de tudo, que Ximena e suas filhas viessem para Valência, pois não era justo que a casa do Cid continuasse separada quando Deus lhe dera morada tão alta.
O rei começou a mudar de semblante. A grandeza do vassalo já não podia ser tratada como culpa. Autorizou a viagem de dona Ximena, Elvira e Sol, e muitos nobres as acompanharam. Quando a família chegou perto de Valência, o Cid saiu ao encontro delas com toda a sua hoste, não em aparato vazio, mas em júbilo contido. Ximena viu o marido enriquecido de honra, e as filhas viram o pai como senhor que havia arrancado futuro da perda.
Rodrigo levou-as ao alcácer e mostrou-lhes a cidade. Do alto, via-se o mar; e para aquelas meninas criadas no interior de Castela, o mar era quase outro céu. O Campeador apontou as torres, as hortas, as casas e as muralhas, e disse que tudo aquilo, com a graça de Deus, pertencia agora à família que antes tivera de se despedir entre lágrimas.
Mas a fama chama alianças, e alianças chamam ambição. Os infantes de Carrión, Diego e Fernando González, nobres de sangue alto e coração estreito, ouviram falar da riqueza do Cid. Não procuravam suas filhas por amor, nem seu parentesco por admiração verdadeira. Queriam subir pela mão de quem haviam desprezado.
O rei Afonso, desejoso de selar a reconciliação, propôs o casamento das filhas do Cid com os infantes. Rodrigo não se alegrou. Conhecia o valor da própria linhagem e desconfiava da soberba vazia. Mas era vassalo, e o pedido vinha do rei, agora em paz com ele. Aceitou, deixando claro que entregava as filhas por mandado de Afonso, e que o rei responderia pela honra daquele enlace.
Celebraram-se as bodas em Valência com grande pompa. Durante dias houve mesa, música, armas reluzindo, cavalos ajaezados, mulheres com vestidos ricos e cavaleiros medindo uns aos outros pelo olhar. Os infantes de Carrión pareciam satisfeitos, mas no fundo não suportavam viver à sombra do sogro. O Cid era grande demais para que a vaidade deles respirasse.
Logo se viu a diferença entre aparência e valor. Um leão escapou no palácio, e os homens correram para proteger o senhor. Os infantes, porém, esconderam-se: um debaixo de um assento, outro atrás de onde pôde. O Cid, despertado do sono, levantou-se tranquilo, tomou o leão pela juba e conduziu-o de volta à jaula. Ninguém precisou dizer nada. O silêncio já ria.
Depois veio batalha contra o rei Búcar de Marrocos, que cercou Valência com grande poder. Ali também se provou quem era feito de coragem. Os homens do Cid avançaram, Minaya feriu, Pero Bermúdez rompeu fileiras, e Rodrigo, montado em Bavieca, lançou-se contra o inimigo. O mar viu fugir aqueles que tinham vindo ameaçar a cidade. O Cid ganhou a espada Tizona, e sua glória se tornou ainda maior.
Os infantes receberam honras que não mereciam, e isso lhes pesou como afronta. Em vez de aprenderem grandeza, acumularam rancor. Suportavam mal os risos velados sobre o leão, mal a coragem dos homens de Valência, mal a dependência em que viviam do Cid. A honra verdadeira era para eles um espelho cruel.
Então pediram licença para levar as esposas a Carrión. Disseram que queriam mostrar às suas terras as filhas do Campeador. Rodrigo deu presentes, cavalos, roupas e riquezas. Despediu-se das filhas com ternura e confiou-as aos maridos, embora no peito lhe ficasse uma sombra. Nem todo perigo aparece armado na estrada; alguns viajam com rosto de parente.