Cantar da Afronta de Corpes Poema de Mio Cid · Capítulo 3 de 3
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Cantar da Afronta de Corpes

Cantar da Afronta de Corpes

Os infantes de Carrión partiram de Valência levando Elvira e Sol, filhas do Cid, como quem leva troféu e peso ao mesmo tempo. Receberam do Campeador dons magníficos, mas cada presente lhes recordava que a grandeza vinha dele, não deles. O orgulho baixo transforma benefício em insulto.

No caminho, entraram no robledo de Corpes, lugar afastado, espesso, cheio de sombra. Ali decidiram mostrar a verdadeira medida de seus corações. Mandaram a comitiva seguir adiante e ficaram a sós com as esposas. Então, sem honra, sem piedade e sem temor de Deus, feriram as filhas do Cid com correias e esporas, deixando-as caídas entre as árvores, quase mortas, como se a violência pudesse apagar a própria vergonha.

Elvira e Sol ficaram no bosque, ensanguentadas e abandonadas. Mas a justiça, no poema do Cid, pode tardar como cavalo cansado; não deixa de chegar. Félez Muñoz, parente delas, desconfiou do silêncio e voltou pelo caminho. Encontrou-as entre a vida e a morte, cobriu-as, deu-lhes água e levou-as para lugar seguro. A afronta fora cometida em segredo, mas não permaneceria secreta.

Quando a notícia chegou a Valência, Rodrigo Díaz não gritou como homem sem governo. A dor o atingiu onde a espada não alcança, mas ele era senhor de si. Não reuniu homens para vingança cega; pediu justiça ao rei. A honra do Cid devia ser lavada em corte pública, diante de todos, para que ninguém confundisse reparação com desordem.

O rei Afonso convocou cortes em Toledo. Vieram nobres, cavaleiros, parentes dos infantes, homens do Cid e curiosos de toda parte. Rodrigo entrou com dignidade. Não parecia derrotado, embora suas filhas tivessem sido ultrajadas. Pediu primeiro a devolução das espadas Colada e Tizona, que dera aos genros indignos. Depois pediu a restituição dos bens. Por fim pediu o que importava mais: juízo de honra.

Os infantes tentaram defender-se com palavras tortas. Disseram que as filhas do Cid não eram iguais a eles em linhagem. Era a fala de quem, não tendo coragem, se agarra a brasões. O Campeador respondeu pela boca dos fatos: seus feitos eram conhecidos; suas riquezas, ganhas; sua lealdade, provada; sua casa, ferida sem culpa. Sangue nobre não limpa mão covarde.

O duelo judicial foi marcado. Pero Bermúdez, Martim Antolínez e Muño Gustioz tomaram a causa do Cid contra os infantes e seu aliado. Cada combate seria julgamento diante de Deus e dos homens. As armas que antes haviam servido à conquista serviriam agora à verdade.

Na arena, a soberba de Carrión se quebrou. Pero Bermúdez enfrentou Fernando González e lançou contra ele a memória do leão, da batalha evitada, da honra fingida. Martim Antolínez combateu Diego González. Muño Gustioz enfrentou Asur González. Os golpes caíram pesados, e um a um os adversários perderam força, coragem e palavra. A vitória coube aos campeões do Cid.

A corte reconheceu a infâmia dos infantes. As filhas de Rodrigo estavam livres daqueles casamentos, e sua honra fora restaurada diante do reino. Mas o poema não termina apenas com castigo; termina com elevação. Mensageiros de Navarra e Aragão pediram Elvira e Sol em casamento para seus senhores. As mulheres abandonadas no bosque seriam rainhas.

Assim se completou o caminho começado em Vivar. O homem que saíra de casa sem abrigo viu sua linhagem subir acima daqueles que o desprezaram. O rei que o expulsara reconheceu sua grandeza. Os inimigos que mentiram contra ele ficaram pequenos diante do tempo. Rodrigo Díaz, o Cid Campeador, não venceu porque nunca sofreu afronta; venceu porque nenhuma afronta conseguiu arrancar-lhe a medida da honra.

E por isso seu nome atravessou os séculos: não apenas como guerreiro de lança firme, mas como figura de fidelidade, prudência e justiça. Na poeira das estradas, no rumor das cortes e no silêncio dos bosques, o poema repete a mesma lição: a honra verdadeira não nasce do orgulho, mas da constância com que alguém permanece inteiro quando tudo o empurra para a queda.

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