Ballet do Primeiro Galo - Parte 1
Ballet do Primeiro Galo
O marinheiro, estando na escuridão, passou a mão no furto:
- Ai que estou é furtando a estrela papacéia!
Num vasto gesto coreográfico retirou a dextra, rodou na ponta dos pés, satisfeitíssimo:
- Coisa muito melhor: toco a crista de um galo. Que canja!
O diretor da cena começou imediatamente a corrigir as tendências literárias do bailarino, amputando algumas dansas de encomenda para ressaltar a cerimônia e o suntuoso adágio do início. Pouca literatura nestas coisas de ballet, ouviu, mano! Do contrário largo esta joça! Passado o incidente, o marinheiro muito valorizado com sua cabeleira de ébano e grandes olhos mortos, executando piruetas dificílimas leva o galo para bordo. Surge mestre cuca com seu séquito de cozinheiras em passo de mazurka, à frente Solis Pinzon, grande descobridor, equilibra sôbre a cabeça uma panela de metais semi-preciosos para ferver o galo. Intervem o capitão: o galo é para todos os efeitos mascote, pertence dêste momento em diante à família de bordo: comê-lo é praticar verdadeiro incesto.
A viagem começa em 1500 e pico e é transmitida em ondas curtas à platéia pelo Journal de la Société des Americanistes de Paris. Transmite-se imediatamente a promoção do bailarino a piloto-mor por causa da descoberta do galo, mas êste sem habilitações coreográficas é despedido da companhia por não conter nenhuma vontade heróica, nenhuma idéia plástica, tudo existindo nêle para interesses puramente publicitários.