Ballet do Primeiro Galo - Parte 2
Entretanto, a nau prossegue já liberta do tempo e do espaço, mesmo da jesuítica era de 1500 e tantos, com Tomé de Souza medroso de comer cabeça de peixe. Os marinheiros justamente querem é comer cabeça de xaréu, de carapeba, de curimans, por causa dos princípios nutritivos que os cabo-verdes sábios, os cabindas sábios dizem existir no gênio de Machado de Assis. O alto falante está agora dizendo que o bergantim do galo foi torpedeado pelos árias à altura de Fernando Noronha. O resto da tripulação: dois caboverdeanos, dois portugas e um índio de torna-viagem se salvaram em cima de um pneumático. O resto da população não morreu pròpriamente de nazismo, mas de escorbuto. Sabe-se que o galo silenciosamente se salvou, e segue viagem com os heróicos náufragos. No correr da viagem até a altura das barreiras de Jequiá não passou nenhum avião que localizasse as pobres vítimas. Por cúmulo do caiporismo desceu sôbre o barco uma calmaria de morte. Há nos olhares da tripulação um desejo recôndito de comer o galo. Aí vem a sua defesa. (Muito cuidado a fim do bailado mais a expressão social dos principais proletários ao descrever os rápidos tours-doubles não ficarem demasiado russificados). No segundo dia de fome completa, a ave, compreendendo a sua situação insustentável, acomoda-se às circunstâncias e põe o primeiro ovo. Depois mais outro, e outro, enfim dezenas.
Nenhuma censura moral. O fato econômico predomina. Até mesmo: o galo se sublima em constelação e guia o barco em veloz estirada corrida até as terras do Pau-Brasil. O rei Cunhanbebe nunca vira animal tão belo. Só mandando-o de presente a outro guerreiro, a outro rei. Agora só se fala língua-geral. A platéia mune-se imediatamente de pequenos dicionários e decreta-se nas repúblicas vizinhas o seu ensino obrigatório.