Ballet do Primeiro Galo - Parte 3
Aviso: não se admitem línguas travadas. O verbo transitivo pede dois pronomes, a primeira pessoa do plural apresenta às vêzes uma flexão inclusiva e outra exclusiva. A abundância e flexibilidade dos supinos recomeça o ballet em notáveis fouettés. Cunhanbebe alça o galo executando uma cabriola heróica. Entram em cena vários índios de Alencar em pas-de-deux. Agora afluem os andarilhos da grande nação. Primeiro os de beira-mar, depois os do centro até o baixo S. Francisco, até os chapadões da bacia do Amazonas, até o alto Purús, até o Orenoco, à Guyana, à nação do Nahuatlato.
Vamos pois acabar com êstes diálogos de grandezas, e adiantamos a viagem do galo pelos caminhos do Brasil, feita pelos geógrafos carijós, caraibas, maipures, panos, nambiquaras e muitos outros grandes bailarinos mais rápidos que o telégrafo. Ao começar o terceiro ato, o alto falante avisa que o galo partiu do Recôncavo, pousado no cocoruto de valente pioneiro tupinambá.
E' para admirar-se os elegantes pliés que o andarilho adota até a grande redução de Santo Antonio de Jacobina. Muitas confrarias aderem ao ballet, empunhando estandartes, ostentando opas, agitando turíbulos servidos de sementes de cumarú. Daí vão até o Piaguí, freguesia de Nossa Senhora da Vitória, cento e setenta léguas corridas, e pela parte do norte até o Ceará-mirim, oitenta léguas, e daí até o Ceará grande, trezentas léguas. Os currais desta parte hão de passar de oitocentas léguas, e felizmente os índios levam o galo sempre no cocoruto atravessando rios, lagoas, restingas, fundões, peraus insondáveis e boqueirões, numa chispada dôida. Nas pedreiras de Cunaní avistaram emas; o galo era mais formoso. Prosseguiram no arranco acochando de mais a mais o passo ginástico. Rente ao pico de Arassundava enxergaram araras, jandais, tucanos, patativas; nada disso: o galo era mais formoso. Às vêzes paravam um tico de tempo incontável para o galo repousar uma madorna, tendo cuidado com as inúmeras cunhãs que desejavam se casar com a divina ave.