A noite se estendia sobre a clínica como um manto pesado, sufocando todos em uma atmosfera densa de desespero e medo. Anthony permanecia à porta, aguardando notícias sobre Ivana, sua mente consumida por pensamentos sombrios que se entrelaçavam como sombras em um labirinto. A cada segundo que passava, a angústia o dilacerava, transformando cada batida do coração em um eco ensurdecedor de ansiedade. O tempo parecia se arrastar, como se a própria noite estivesse zombando de sua agonia.
No centro cirúrgico, uma operação desesperada se desenrolava sob a luz fria e implacável. Dr. Silva e Herda lutavam contra o tempo, seus rostos marcados pela tensão e pelo suor que escorria como testemunhas silenciosas da batalha travada. O ar estava carregado de uma energia palpável; cada gesto era meticulosamente calculado, cada respiração parecia um fardo insuportável. A sala pulsava com a urgência da vida e da morte, onde o silêncio gritava mais alto do que qualquer palavra poderia expressar.
O ar estava carregado, pesado como um presságio sombrio; cada gesto na sala era um grito silencioso, uma súplica não pronunciada.
— Perdemos muito tempo… a cura não está funcionando como deveria, murmurou Dr. Silva, sua voz quase se perdendo na espessura do desespero.
Herda fechou os olhos, concentrando todas as suas energias na luta pela vida de sua filha. A dor em seu coração era palpável, uma tempestade de emoções que ameaçava consumir tudo ao seu redor.
— Mas… mas! Não posso perdê-la! Sua voz tremia, cada palavra carregada de desespero e determinação.
Os minutos se arrastavam como horas intermináveis, cada segundo um lembrete cruel da fragilidade da vida. Finalmente, após o que pareceu uma eternidade no centro cirúrgico, Dr. Silva e Herda emergiram exaustos, seus rostos pálidos e marcados pelo peso da luta travada.
Na sala de espera, Anthony, Max e Mariana aguardavam com corações acelerados e olhos ansiosos. O ambiente estava saturado de expectativa; o silêncio pesado era interrompido apenas pelas batidas de seus próprios corações apressados. Quando os olhares se cruzaram, a gravidade do momento se instalou, como se o mundo ao redor tivesse parado em um instante crucial. O que os médicos trariam? A esperança ou a tragédia?
O ar tenso parecia se dissipar levemente com a chegada abrupta de Gabriel, sua expressão carregada de esperança, mas também de preocupação. Ele se aproximou, seus olhos buscando respostas em meio ao caos que os cercava.
— E aí? Perguntou Gabriel, a voz trêmula enquanto passava a mão pelo rosto, tentando conter o turbilhão de emoções.
Herda olhou para ele, o coração pesado como chumbo.
— Nossa cura não foi suficiente… ela perdeu muito sangue, começou, cada palavra, uma luta contra a realidade cruel que enfrentavam.
— A bala estava envenenada com algo que ainda não conseguimos identificar e... estava muito próximo do coração. Uma pausa se seguiu, o peso da informação pairando no ar como uma nuvem sombria.
— Agora ela está em coma,continuou Herda, sua voz quase um sussurro, como se temesse que as palavras pudessem invocar um destino ainda mais trágico. Ela hesitou novamente, os olhos brilhando com lágrimas contidas enquanto pensava nas próximas palavras.
— Não sei ao certo quanto tempo ela vai ficar assim…
O silêncio que se seguiu era ensurdecedor; todos estavam paralisados pela gravidade da situação. O desespero e a incerteza se entrelaçavam, criando um nó na garganta de cada um deles. O que fazer agora? Como lidar com essa fragilidade tão brutal?
Anthony, saindo desse pensamento, direcionou sua atenção a Gabriel.
— O que você descobriu?
Gabriel então tentando não falar sob o assunto, mas sabendo que não teria como não falar, fechou os punhos em raiva.
— Acredito que foi a Luciana!
Fleche de lembrança invadiram a mente de Anthony ao pensar em Luciana. Somente a menção de seu nome era suficiente para reabrir feridas que ele acreditava já cicatrizadas. A dor que sentia era inesperada, como se o passado conseguisse ressurgir e perturbar sua paz.
Ele se viu transportado para os dias em que a conheceu, quando tinha apenas dez anos. Era um menino tímido, mas com uma bravura escondida sob a superfície. Os amigos eram poucos, e nenhum deles se comparava à conexão que tinha com Gabriel. Ele estava sentado em um banco do colégio, aguardando a chegada do amigo, quando uma presença inesperada interrompeu seus pensamentos.
Uma garota de aproximadamente doze anos apareceu, seus cabelos castanhos caindo em ondas suaves ao redor do rosto. Seus olhos azuis penetrantes brilhavam com uma intensidade quase hipnótica, como se guardassem segredos que Anthony ainda não estava preparado para descobrir. Ele nunca a havia visto antes e o seu cheiro era completamente novo e intrigante.
— Garoto, você sabe onde fica aquela porcaria de diretoria? A voz dela soou desafiadora e ousada, típica da menina má que todos desejavam estar perto, mas temiam ao mesmo tempo.
Anthony ficou paralisado por um momento, incapaz de articular uma resposta. A intensidade de seu olhar o prendia, e ele só conseguiu apontar vagamente na direção do local indicado.
Naquele instante, enquanto as memórias dançavam em sua mente como sombras longínquas, ele percebeu que Luciana era mais do que apenas uma garota; ela era um mistério envolto em charme e perigo-uma raposa disfarçada entre os cordeiros. E assim, aquela lembrança se tornara parte dele, um eco persistente de um tempo perdido
Os dias foram passando, e Luciana foi conquistando, pouco a pouco, um espaço na vida e no coração de Anthony. Ele se lembrava de como, mesmo diante das constantes manifestações de desagrado de Gabriel, ele se via cada vez mais envolvido por ela, como se estivesse sob um feitiço. Era como se Luciana tivesse lançado um encantamento que o mantinha preso aos seus encantos.
Ele recordava os risos compartilhados nos corredores da escola, as trocas de olhares, dizerem mais do que palavras poderiam expressar. Era uma época em que a inocência misturava-se com a descoberta e o coração batia mais rápido a cada encontro inesperado. Anthony sentia-se como um pássaro cativo em uma gaiola dourada; a beleza do momento o prendia, mas a consciência de que algo não estava certo pairava sobre ele.
A imagem dela dançando com os amigos, seu cabelo brilhando à luz do sol, ainda estava viva em sua mente. Como ela ria, desafiadora e encantadora ao mesmo tempo, deixava uma marca indelével em seu coração. Anthony se lembrava claramente da sensação de estar completamente hipnotizado por sua presença, mesmo quando os alerta de Gabriel ecoavam em seus ouvidos.
Era um amor jovem e tumultuado, repleto de promessas e incertezas. Ele se via perdido em um labirinto de sentimentos, onde cada esquina trazia consigo uma nova emoção-alegria, confusão e até mesmo medo. Luciana era um mistério fascinante que o atraía irresistivelmente, e enquanto as memórias dançavam na sua mente como folhas ao vento, ele sabia que aquela fase de sua vida seria eternamente marcada por ela.
De volta daquelas memórias torturantes, Anthony sentia um peso imenso em seu coração. Ele sabia que devia toda a sua vida àquele que sempre esteve ao seu lado: seu amigo, ou melhor, seu irmão de coração, Gabriel. Era ele quem, com olhos afiados e um instinto protetor, sempre percebeu o lado obscuro daquela criatura encantadora-aquele monstro disfarçado em um corpo de menina doce.
Enquanto as lembranças o envolviam como uma névoa densa, Anthony se via preso em um conflito interno. A imagem de Luciana, com seu sorriso sedutor e olhar provocante, contrastava dolorosamente com a realidade que Gabriel havia tentado alertá-lo. O amigo sempre viu o que estava por trás da fachada; ele sabia que a beleza podia esconder venenos mortais. As palavras de Gabriel ecoavam em sua mente como um lamento: -Cuidado, Anthony. Atração é uma coisa, mas amor pode ser uma armadilha.
Cada vez que Anthony revivia os momentos com Luciana, o coração pulsava com uma mistura de desejo e desespero. Ele se lembrava das noites em que Gabriel tentava convencê-lo a abrir os olhos, a enxergar a verdade por trás do encanto. Mas o que era mais forte? O amor platônico que o envolvia ou a lealdade inabalável ao amigo? A tensão entre os dois mundos
Saindo dos devaneios ele falou
— Luciana depois deste tempo todo-falou trazendo o desgosto
— Sim, filho, disse Mariana, com a voz turva e embargada, como se cada palavra fosse um esforço doloroso.
— Eu também imaginei que Luciana esteve por perto, senti o cheiro… E, acredite, depois de tanto tempo, ainda me lembro do perfume dela. Enquanto falava, passou a mão suavemente pelos próprios braços, como se tentasse dissipar a lembrança que a envolvia.
— Podem ir para casa e resolver tudo. Fico aqui com a sua madrinha e com o Max. Se houver alguma notícia, eu ligo, ela completou, forçando um sorriso que não conseguia esconder a tristeza profunda em seus olhos. Estendeu a mão para Anthony e Gabriel, ambos em um misto de preocupação e dor. Gabriel concordou com um leve aceno de cabeça, despedindo-se de todos antes de sair rapidamente, como se quisesse escapar da pressão do momento.
Mas antes de deixar a clínica, Gabriel parou e virou-se para Anthony, seu olhar carregado de uma intensidade sombria.
— Anthony, avisou ele com firmeza, -tem algo que quero que você veja… algo que precisa ser visto com seus próprios olhos. As palavras deixaram um peso no ar, uma sensação de urgência que fez o coração de Anthony acelerar. O que poderia ser tão importante? O que ele havia escondido?
A expectativa pairava entre eles como uma nuvem carregada-o tipo de expectativa que prenuncia uma tempestade. Anthony sentiu um frio na barriga enquanto seguia Gabriel pelo corredor silencioso da clínica. O ambiente parecia sufocante, cada passo ecoando como um presságio do que estava por vir. Ele sabia que tudo estava prestes a mudar.
Cada passo naquele corredor tornava o ar cada vez mais sufocante. A presença de Azzarel, o lobo interior de Anthony, pulsava em sua mente, sussurrando que algo estava muito errado. Era como se uma sombra estivesse se formando, emergindo das profundezas de sua alma, tentando alertá-lo de um perigo iminente.
Ao adentrar em uma sala, Anthony parou abruptamente. O que viu fez seu coração disparar e sua respiração falhar. Várias macas estavam dispostas de maneira grotesca, cada uma carregando o que parecia ser corpos de lobos-mas não eram os lobos que ele e Azzarel conheciam. Aqueles eram monstros deformados, distorcidos de uma maneira que desafiava qualquer descrição. Nem em seus sonhos mais absurdos ele poderia ter imaginado tamanha monstruosidade.
— Deus… sussurrou, quase inaudível, a voz trêmula e repleta de horror. — O que são essas coisas? Ele falou em um tom preocupado, a incredulidade e o medo, entrelaçados em suas palavras. A realidade se desdobrava diante dele como um pesadelo vívido, e a conexão com Azzarel pulsava com força crescente, como se ambos estivessem prestes a serem consumidos pela escuridão que os cercava.
— Nossos guardas, Gabriel disse, a voz transbordando de ódio, pegaram esses quatro depois do tiro da Ivana. Não pegamos o atirador. Ele gesticulou agressivamente, dando um tapa na cabeça de um dos seres grotescos que jazia na maca. — Mas esse aqui não teve a mesma sorte.
Anthony observava os corpos com uma mistura de repulsa e incredulidade. Aquilo era uma abominação: uma macabra fusão de lobos, vampiros e ciborgues, cada um deles grotescamente modificado, alguns com armas fundidas em seus próprios membros. A cena era tão surreal que parecia ter saído de um filme de terror.
— Isso é horrível, Anthony murmurou, sua voz tremendo com a intensidade da visão diante dele. — Deu um trabalho enorme matar esses desgraçados. A indignação e o horror se misturavam em seu coração, enquanto ele tentava processar a brutalidade daquela realidade. Como era possível que o mundo tivesse chegado a esse ponto? O que mais estavam escondendo nas sombras?
A sensação de impotência e raiva crescia dentro dele, enquanto ele se perguntava se ainda havia esperança em meio àquela escuridão aterradora.
— Precisamos encontrar Luciana, falou Anthony, sua voz carregada de ódio e desespero. O olhar em seu rosto era uma tempestade de emoções, refletindo a dor e a traição que sentia. — Ver o que ela está tramando… isso não pode continuar. Cada palavra que saía de seus lábios parecia vibrar com a intensidade de sua determinação, mas também com o peso de um medo profundo.
A atmosfera ao redor deles parecia se fechar, como se as sombras estivessem escutando cada palavra, esperando para devorar qualquer esperança que ainda restasse. O ar estava impregnado com um pressentimento sombrio, como se o próprio universo estivesse conspirando contra eles.
Gabriel fechou os punhos, os nós brancos dos dedos contrastando com a escuridão ao seu redor.
— Não posso deixar que ela continue com isso. Não posso permitir que mais vidas sejam destruídas por suas mãos traiçoeiras. O ódio em seu coração pulsava como um tambor de guerra, alimentando a urgência de sua missão.
Anthony, ao seu lado, sentiu o peso da responsabilidade crescer. A busca por Luciana não era apenas uma questão de justiça; era uma corrida contra o tempo para impedir que o mal se espalhasse ainda mais. As sombras dançavam nas paredes, sussurrando segredos obscuros, enquanto eles se preparavam para enfrentar a verdade aterradora que os aguardava.