Nasci com um propósito que sempre me pareceu claro: servir. Desde os primeiros passos, fui moldada para ser a esposa perfeita, um ideal que parecia brilhar como uma estrela distante, mas que nunca me permitiu brilhar por conta própria. Aprendi a tocar violino, a dominar as regras da etiqueta, e a nunca reclamar-como se minhas emoções fossem um fardo que eu deveria carregar em silêncio.
No entanto, por trás das aparências impecáveis e dos sorrisos ensaiados, havia uma alma perdida. A máfia me impôs um peso insuportável: ser submissa à vontade dos homens, aceitar tudo sem questionar, como se minha própria voz fosse uma nota dissonante em uma sinfonia de opressão.
Cada dia era um lamento silencioso, cada sorriso uma máscara que escondia a dor de não ser eu mesma. O que é viver assim? Uma sombra do que poderia ter sido? O vazio se expandia dentro de mim, como um eco interminável de sonhos não realizados e desejos sufocados.
Eu ansiava por liberdade, mas fui aprisionada em correntes invisíveis, aprisionada por expectativas que não eram minhas. E agora, ao olhar para o futuro, sinto o peso do passado me puxando para baixo-sou apenas um reflexo do que os outros desejam que eu seja.
— Bom, sem delongas, ele disse, com uma voz firme que ecoou pelo quarto. — Chame a pirralha e pegue suas sacolas. O Dom Marco quer que vocês se aprontem logo. Usem estas roupas; hoje à noite, as cabeleireiras e maquiadoras estarão aqui.
A cada palavra, o peso da ordem se tornava mais opressivo, como se uma nuvem escura tivesse se instalado sobre nós.
— E vocês sabem que ele não suporta essas merdas de atraso, Luan completou, antes de sair do quarto.
A porta se fechou com um estalo, deixando o ar carregado de tensão e um calafrio correndo pela minha pele. A sensação de urgência me envolveu como uma correnteza implacável. O que estava por vir? O que Marco tinha em mente para nós naquela noite? A palavra reverberava em minha mente, um lembrete cruel da minha posição submissa.
Olhei para as roupas deixadas sobre a cama-eram deslumbrantes, mas pareciam mais uma armadura do que um traje festivo. A expectativa estava no ar, e eu sabia que não havia como escapar da tempestade que se aproximava.
O vestido que eu ia vestir estava sobre a cama, um longo modelo preto que abraçava o corpo com elegância. As alças ombro a ombro realçavam meu colo, enquanto os brilhantes estrategicamente posicionados na cintura refletiam a luz de maneira hipnotizante, como estrelas em uma noite clara. Cada detalhe parecia ter sido pensado para me transformar em algo que eu mal reconhecia-uma versão mais glamourosa de mim mesma.
Ao lado, o vestido da Âmbar chamava atenção com seu tom suave de rosa. As mangas em tule flutuavam delicadamente, quase como se fossem nuvens de algodão-doce, enquanto a saia esvoaçante prometia movimento e graça a cada passo que ela desse. Era um contraste perfeito: o preto intenso do meu vestido e o rosa suave do dela, como sombras e luz.
Precisávamos estar com a aparência impecável; afinal, estávamos prestes a ir a uma festa na sede da nossa máfia. O pensamento disso me enchia de um misto de ansiedade e excitação. Cada detalhe contava, cada brilho e cada costura tinha seu peso em um mundo onde as aparências eram tudo. O reflexo no espelho parecia gritar por perfeição, e eu sabia que não podíamos decepcionar. A pressão estava lá, pulsante, como o ritmo de uma música alta que ecoava em minha mente
Olhei para Âmbar, que já estava claramente irritada com toda aquela situação. Seu rosto refletia uma mistura de cansaço e desdém, como se cada ordem que recebíamos fosse uma gota a mais em um copo que já estava transbordando.
— Mais uma vez vamos sair e fazer a família feliz e perfeita, ela disse, a voz carregada de sarcasmo. — Ah, como eu queria que o Marco — ou melhor, o Dom Marco — morresse engasgado ou esfaqueado… sei lá, qualquer coisa que o mantivesse longe de nós. Palavras saíram como veneno, e eu podia sentir a frustração pulsando no ar.
— Eu também quero ele bem longe da gente, respondi, tentando manter a calma em meio à tempestade de emoções. — Mas infelizmente temos que cumprir suas ordens. Você sabe muito bem que não devemos irritá-lo. Olhei em seus olhos, buscando algum sinal de compreensão enquanto ela revirava os olhos como um protesto silencioso. O movimento expressava tudo: a raiva contida, a impotência diante da situação e o desejo ardente de se libertar daquela prisão dourada.
A tensão entre nós era palpável, como se estivéssemos presas em um jogo cruel de xadrez, onde cada movimento poderia ser fatal. O peso das expectativas da nossa família era esmagador, e mesmo assim, éramos obrigadas a usar sorrisos falsos e vestidos deslumbrantes enquanto dançávamos sob a sombra do Dom Marco.
Nossa conversa foi abruptamente interrompida pela entrada das maquiadoras, que invadiram o quarto como um furacão de pincéis e spray. Horas de preparação, finalmente estávamos prontas, mas a pressa nos consumia. Com o coração acelerado, saímos apressadas em direção às escadas, cada passo pesado com a ansiedade.
E lá estava ele, à nossa espera: Dom Marco. A personificação do mal, parado como uma estátua imponente no final da escada. O terno preto que vestia parecia absorver toda a luz do ambiente, e sua presença era como uma sombra que se estendia sobre nós. Alto e musculoso, mesmo já tendo passado dos 60 anos, ele emanava uma força que deixava qualquer um em alerta.
— Boa noite, meninas, sua voz era suave, mas carregava uma ameaça latente. — Que bom que vocês não se atrasaram. Ele fez uma pausa, seus olhos penetrantes avaliando-nos como se fôssemos peças de um tabuleiro. — E porra, vocês estão belíssimas.
Um frio percorreu minha espinha ao ouvir suas palavras. Havia algo na maneira como ele falava que me deixava inquieta; era como se cada elogio escondesse um aviso sutil de que qualquer deslize poderia ter consequências terríveis. O ar estava carregado de tensão, e eu podia sentir o peso do olhar dele em nós, como se estivesse esperando por um erro.
À medida que descíamos as escadas, a sensação de perigo se intensificava. . Era como se estivéssemos prestes a entrar em um labirinto repleto de armadilhas, onde cada sorriso poderia ser uma máscara para algo muito mais sinistro.
Ele continuou a falar, o charuto preso entre os lábios, exalando um aroma forte que misturava poder e perigo. — E estão realmente belíssimas, um caralho. Se não fossem minhas filhas, eu até pensaria em casar com vocês.
Com um frio na barriga, seguimos em direção ao automóvel-um modelo luxuoso que reluzia sob as luzes da noite, cercado por seguranças que pareciam sombras protetoras. Assim que entramos, o motor rugiu como um leão prestes a atacar, e partimos em direção à sede da máfia.
Depois de alguns minutos que pareceram uma eternidade, chegamos a um imponente casarão. Suas paredes antigas guardavam segredos obscuros e histórias de traição. Fotografias e repórteres se aglomeravam na entrada, todos prontos para capturar cada momento daquele evento caótico.
A atmosfera estava carregada de expectativa. As luzes dos flashes piscavam como estrelas em uma noite sem lua, refletindo a tensão que pairava no ar. Eu podia sentir os olhares curiosos das pessoas da imprensa, como se estivessem esperando por um deslize que pudesse gerar manchetes explosivas.
Enquanto descíamos do veículo, a sensação de estar no centro de um jogo perigoso aumentava. Cada passo em direção ao casarão era como caminhar em uma corda bamba sobre um abismo — qualquer movimento em falso poderia ser fatal.
O murmúrio da multidão ecoava ao nosso redor, misturando-se com risos nervosos e sussurros conspiratórios. O mundo lá fora parecia vibrante e cheio de vida, mas dentro daquele casarão, sabíamos que havia algo sombrio à espreita.
Adentramos o casarão após tirarmos inúmeras fotos, flashes estourando como fogos de artifício em uma noite de festa. Algumas pessoas ali eram conhecidas, esposas de outros capos, sempre com um sorriso calculado no rosto. Mas a maioria… a maioria era escravas, meninas com a mesma tristeza na alma que eu, presas em um mundo que não escolhemos.
Enquanto caminhávamos pelo salão repleto de luxo e ostentação, pude ouvir sussurros ao meu respeito. Palavras soltas flutuavam no ar como veneno, mas não conseguia entender exatamente o que estavam dizendo. A tensão da máfia era palpável, um fio invisível que conectava todos os presentes-uma mistura de poder, medo e desespero.
Olhares furtivos se cruzavam entre as mulheres, cada uma carregando suas próprias cicatrizes. Elas sorriam para os capôs ao seu redor, mas seus olhos contavam uma história diferente-uma história de submissão e dor. Eu sentia aquela tristeza ressonando dentro de mim, como se estivéssemos todas conectadas por um laço invisível de sofrimento.
A música tocava suavemente ao fundo, mas não conseguia abafar o tumulto em minha mente. O encanto e a riqueza eram apenas uma máscara que escondia a verdadeira face daquele mundo sombrio. E ali estava eu, no meio da tempestade, tentando encontrar meu lugar em um jogo perigoso onde as regras eram feitas por aqueles que não conheciam compaixão.
A sensação de esmagamento era avassaladora, como se um peso invisível estivesse pressionando meu peito, sufocando qualquer vestígio de alegria. A tristeza se espalhava pelo meu corpo, transformando cada músculo em uma corda tensa. Algo estava muito errado, e essa percepção me paralisou. Meu corpo gelado e tenso, parecia gritar por socorro, mas eu não conseguia me mover.
Marco, como um predador à espreita, percebeu minha tensão. Seu olhar era cruel, cortante como uma lâmina afiada. Ele se aproximou, e a atmosfera ao nosso redor ficou pesada.
— Que porra você está fazendo? Garota, muda essa cara e sorria diante dos meus convidados, ele ordenou, a voz carregada de desdém. Era como se cada palavra dele fosse uma ordem cruel e inegociável. Ele não permitia fraquezas-não diante daquelas pessoas que eram suas peças no tabuleiro.
Mesmo com a pressão crescente em meu peito, eu não conseguia reagir. Meu corpo estava congelado em um estado de terror silencioso. Eu sabia que não podia desobedecê-lo; a máfia não tolerava insubordinação. Os olhares dos convidados eram como gélidas facas cortando minha pele, e eu me sentia exposta, vulnerável.
O salão estava repleto de risadas e conversas despreocupadas, mas por trás daquela fachada de festa havia um submundo sombrio pulsando em cada esquina. As paredes pareciam sussurrar segredos obscuros, e a tensão no ar era quase palpável-uma promessa de que qualquer deslize poderia custar caro.
E ali estava eu, presa entre a necessidade de agradar e a vontade de gritar por liberdade. O sorriso que Marco exigia parecia impossível de ser forçado em meio à tempestade que se desenrolava dentro de mim.
— Perdão, senhor. Âmbar disse, seu olhar transbordando desespero e uma bondade quase palpável enquanto ela se voltava para mim. — Hoje nosso dia foi muito agitado com as aulas de música e etiqueta. A Anny esqueceu de comer, e com todos os preparativos para estar aqui esta noite, nem tivemos tempo. Se o senhor me permitir, vou levá-la ao banheiro e ajudá-la.
— Pode levar, mas para o seu bem e o dela, Marco respondeu, sua voz carregada de um aviso ameaçador. — Espero que ela esteja bem na hora em que eu chamar. E não me faça perder a paciência com vocês. Ele se afastou, deixando Âmbar e eu sozinhas em meio ao caos.
Assim que ele desapareceu pelo corredor. Âmbar rapidamente me puxou na direção do banheiro, seus olhos refletindo a urgência da situação. Ela pegou uma garrafa de água e algumas bolachas pelo caminho, como se fossem um pequeno consolo em meio à tempestade que se aproximava. Dois seguranças nos seguiam de perto, como sombras ameaçadoras à porta.
No banheiro, a luz fluorescente iluminava nossos rostos pálidos. O espelho refletia não apenas nossas aparências, mas também o peso do que estávamos enfrentando. O silêncio era ensurdecedor, quebrado apenas pelo som da água pingando da torneira.
— Você está bem? Âmbar sussurrou, sua voz tremendo levemente. Eu podia ver a preocupação em seus olhos-uma mistura de empatia e medo. Mas como poderia eu estar bem? A pressão sobre meus ombros era como uma corrente pesada me arrastando para o fundo.
— Eu… não sei, respondi honestamente, minha voz quase inaudível. O que eu sentia era uma mistura de pânico e desespero, como se estivesse presa em uma armadilha sem saída.
— Precisamos encontrar uma maneira de sair disso. Âmbar insistiu, olhando para os seguranças que aguardavam do lado de fora. — Mas precisamos ser cuidadosas. Marco não brinca.
O ambiente estava impregnado por um ar denso de tensão; cada segundo parecia se arrastar enquanto o relógio ecoava no fundo da sala como um aviso sombrio. Sabíamos estarmos à mercê de forças muito além do nosso controle-um jogo cruel onde as peças eram vidas humanas e os riscos eram mortais.
Nossos pensamentos e conversas foram abruptamente interrompidos por batidas firmes na porta. Um dos seguranças abriu-a com um gesto brusco.
— Dom Marco mandou vocês saírem agora. Ele vai fazer o pronunciamento, disse ele, a voz grave ecoando no espaço pequeno do banheiro.
Senti um frio na barriga enquanto passava a mão pelo rosto, como se tentasse afastar a ansiedade acumulada. Saímos em direção ao grande salão, onde a opulência do lugar era quase sufocante. As luzes brilhantes refletiam nos rostos das pessoas, mas o brilho que antes parecia festivo agora se transformava em um peso insuportável.
Quando chegamos, Marco já estava posicionado no topo da escada, à frente do microfone. Assim que todos o avistaram, uma saudação reverente ecoou pela sala. Mas o que deveria ser uma celebração se transformou em um emburro no estômago-uma mistura de expectativa e desconforto pairava no ar.
— Boa noite, meus queridos companheiros, começou Marco, sua voz firme e autoritária. — Como todos sabem, hoje à noite estamos aqui reunidos para consagrar a união entre as empresas Mikailvos e Miller. Nossos queridos Ivan e Victor, capôs da máfia americana. Ele fez uma pausa dramática, permitindo que o peso de suas palavras se instalasse nos corações dos presentes.
— E para isso, continuou ele, os olhos brilhando com uma satisfação perturbadora, -fechamos com chave de ouro o noivado da bela Anny D'Medici com o meu querido Victor Miller.
Um silêncio pesado caiu sobre a sala. O ar estava carregado de tensão; os olhares se cruzavam em meio ao murmúrio nervoso dos convidados. O casamento arranjado não era apenas uma transação de poder-era um fardo emocional que pesava sobre mim.
Senti meu coração acelerar enquanto as reações ao redor se desenrolavam como um filme em câmera lenta. Algumas pessoas sorriram, outras pareciam desconfortáveis; mas eu sabia que por trás dos sorrisos havia um labirinto de sentimentos não ditos.
Âmbar estava ao meu lado, seu rosto pálido refletindo seu estado interno-uma mistura de resignação e medo. O olhar dela buscava algum tipo de escape, mas naquele momento estávamos todas presas em uma teia tecida por interesses obscuros.
— Como podemos mudar isso?pensei comigo mesma, sentindo a urgência da situação apertar como um grilhão ao redor do meu pulso. O peso da escolha que havia sido feita por nós pairava como uma sombra ameaçadora sobre nossas cabeças.
Ele falou esticando a mão, fazendo-me aproximar a cada passo que dava até ele naquela escada. Cada movimento parecia uma facada na minha alma, cortando a esperança que eu ainda tinha de escapar. Parei ao lado daquele homem alto, moreno e musculoso que tinha por volta dos 30 anos. Não o conhecia pessoalmente, mas já tinha ouvido muito sobre ele-Victor, o Terrível, como o chamavam. Seu nome carregava um peso que me deixava inquieta.
Ele estendeu o braço e pegou minha mão, que estava gelada como o medo que pulsava dentro de mim. Aproximou-se do meu ouvido e falou:
— Sorria, pequeno sabiá. Você não sabe o quanto esperei nas sombras por esse momento.
Sua voz era uma mistura inquietante de desejo e tesão, mas havia também uma maldade escondida em seu tom que me deixou arrepiada. Era como se ele estivesse se alimentando da minha angústia.
— Eu… eu… Tentei falar, mas as palavras mal saíram da minha boca. A voz falhou, inaudível, enquanto a adrenalina pulsava nas minhas veias. O medo me paralisava, mas uma pequena chama de coragem começou a crescer dentro de mim.
— Não quero casar com você! Nunca vou aceitar isso!finalmente consegui gritar, ecoando minha recusa no salão, agora em silêncio.
As palavras flutuaram no ar pesado como um desafio lançado contra ele. O olhar de Victor se intensificou; pude ver a surpresa misturada à raiva em seus olhos escuros. A tensão entre nós era palpável-um campo de batalha invisível onde cada um lutava por seu próprio destino.
As murmurações começaram a ressoar entre os convidados, mas eu não me importava mais com eles. O mundo ao nosso redor desapareceu; só existíamos nós dois naquele momento carregado de emoção. A adrenalina pulsava em mim como se eu estivesse prestes a explodir.
Victor inclinou-se ligeiramente para frente, sua expressão mudando para algo mais sombrio e determinado. — Você acha que tem escolha? Este casamento é mais do que apenas você e eu; é uma questão de poder, controle.
Minhas pernas tremiam sob a pressão da situação, mas eu não ia recuar.
— Eu não sou uma peça nesse jogo! Não sou um troféu para você exibir! As palavras saíram.
Marco, observando a tensão crescendo entre nós, lançou um olhar sufocante que parecia cortar o ar. Ele se posicionou entre mim e Victor, tentando desviar a atenção.
— Não levem a Anny a sério, ela está brincando. Ela está apenas aprendendo a brincar, disse ele com um sorriso forçado, como se estivesse tentando acalmar uma tempestade prestes a eclodir. — Claro que ela vai casar! Vamos ser uma família grande e feliz. Suas palavras soaram como uma mentira bem ensaiada, enquanto ele se afastava do microfone e se aproximava de mim.
— Quando chegarmos em casa, você e eu, menina, vamos ter uma conversa séria, ele disse, seu tom grave fazendo meu coração disparar. Marco se afastou, mas não antes de lançar um olhar penetrante para Victor, que se mantinha à distância como um abutre sobre uma carcaça morta — pronto para atacar assim que eu mostrasse fraqueza.
Amba se aproximou de mim, seus olhos brilhando com lágrimas que ameaçavam derramar. Ela segurou minha mão com força, como se quisesse me ancorar em meio ao caos. — O que faremos, Anny? Como você vai casar com aquele… aquele filho do capeta?
Suas palavras ecoaram em minha mente, amplificando o desespero que eu tentava esconder. A ideia de me unir a Victor era como um pesadelo do qual eu não conseguia acordar. Um frio percorreu minha espinha enquanto olhava para Amba; ela estava tão assustada quanto eu.
— Eu não sei… minha voz saiu baixa e trêmula. — Não posso deixar isso acontecer! Ele não é quem todos pensam que ele é! É tudo um jogo para ele! A frustração explodiu dentro de mim, e as lágrimas começaram a escorregar pelo meu rosto.
A sala agora estava cheia de murmúrios nervosos; o clima tornou-se pesado com a expectativa do que aconteceria a seguir. A pressão aumentava e cada olhar parecia me sufocar ainda mais.
— Anny, Âmbar disse suavemente, -precisamos de um plano. Não podemos deixar que eles decidam por você. Você é mais forte do que isso!
As palavras dela foram como um raio de esperança em meio à escuridão crescente. Eu precisava lutar-não apenas por mim mesma, mas por todas as expectativas que estavam sendo impostas sobre mim.
— Você está certa, respondi com mais determinação do que sentia. — Não vou me deixar ser empurrada para esse casamento sem lutar! Vou encontrar uma maneira de sair dessa.
Nesse momento decisivo, percebi que o drama estava apenas começando-uma batalha entre o desejo pela liberdade e as correntes invisíveis da tradição e da pressão social.
Finalmente, a festa chegou ao fim, e o caminho de volta para casa parecia uma eternidade.
O silêncio no veículo era ensurdecedor, cada um perdido em seus próprios pensamentos, como se estivéssemos atravessando um deserto emocional.
Ao chegarmos, o clima pesado só aumentou. Marco me olhou com uma expressão que misturava raiva e desespero.
— Você, menina, vai para o seu quarto!ele ordenou, apontando para Âmbar que estava ao meu lado. Depois, seu olhar se voltou para mim, e a intensidade dele me fez sentir um frio na espinha. — Você e eu temos um assunto a tratar.
Senti meu coração disparar quando ele se aproximou.
— Quem você acha que é para falar o que vai ou não fazer? Ainda mais na frente dos meus homens e subalternos! Ele gesticulou com força, apontando o dedo para mim e depois pressionando contra minha bochecha com uma força que me fez estremecer.
— Eu só… eu só… tentei falar, mas as palavras pareciam presas na minha garganta. Balancei a cabeça tentando me livrar daquele aperto emocional que estava me sufocando.
Mas, algo dentro de mim se acendeu. Uma chama de coragem começou a brilhar em meio à escuridão.
— Sou a dona do meu destino! Gritei, sentindo a adrenalina correr pelas minhas veias.
— Nunca vou deixar você fazer o que fez com a minha mãe, com a mãe da Âmbar ou com todas essas outras mulheres! E com isso, cuspi na cara dele como um ato de rebelião.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Marco ficou paralisado por um momento, seu rosto expressando uma mistura de choque e raiva. A tensão no ar era palpável; eu podia sentir o peso das palavras não ditas pairando entre nós.
— Você não tem ideia do que está fazendo, ele rosnou, os olhos brilhando com fúria. Mas havia algo mais ali-talvez um toque de medo? A percepção de que eu estava disposta a lutar poderia ter abalado sua confiança.
— Sei exatamente o que estou fazendo, respondi com firmeza. — Estou quebrando as correntes que você tentou colocar em mim!
Nesse momento, percebi que havia cruzado uma linha invisível — não apenas entre nós dois, mas entre quem eu era e quem eu queria ser. O drama estava apenas começando; cada palavra trocada poderia ser uma faísca em um incêndio prestes a explodir.
— Amei sua mãe como amei, Marco disse, sua voz carregada de uma frieza que cortava como vidro. — Só que ela tinha a mesma raiva e a mesma tempestade.
As palavras dele ecoaram em minha mente, como um eco sombrio. Ele falava de mamãe como se ela fosse apenas uma sombra de alguém que não conhecia, alguém que não era real. A comparação me feriu profundamente, como se ele estivesse despojando minha mãe de sua identidade.
— Você nunca a amou, eu disse, a voz tremendo. — Nem mesmo sabia o nome dela! Cecília… esse era o nome da minha mãe! Ela foi só mais uma na sua mão. Cada palavra que saía da minha boca carregava o peso de toda a dor que eu havia guardado por tanto tempo.
O olhar de Marco se endureceu, mas dentro dele havia um brilho de algo indefinido-talvez culpa? Ou seria apenas raiva? Não importava. O que realmente doía era saber que ele via minha mãe como um mero objeto em sua coleção de conquistas.
— Cecília, minha mãe era uma mulher forte, continuei, as lágrimas começando a escorregar pelo meu rosto. — Ela não merecia ser tratada assim! E você… você só a usou como se fosse uma marionete em seu jogo cruel.
A tristeza dentro de mim crescia, como uma tempestade prestes a se desatar. Eu podia sentir cada lembrança dela-seu sorriso, suas risadas, a maneira como ela me abraçava quando tudo parecia desmoronar. Agora tudo isso estava sendo dilacerado pela frieza de Marco.