Alféria, a cidade das fadas, é conhecida por uma tradição milenar: Freya, deusa do amor e da fertilidade, escolhe periodicamente os casais que devem se unir.
E ela jamais errou em seu julgamento.
Houve, porém, um tempo em que suas leis eram apenas um murmúrio entre florestas densas com suas folhas exalando um amargor ganancioso. Casamentos eram forjados por alianças, enquanto casais predestinados eram trocados por paixões efêmeras, frágeis dentro da bajulação egoísta.
Além das asas, cada fada possui um dom — da música às marés — e todas cumprem seu papel no equilíbrio do mundo. Mas existe uma classe distinta: a dos trovadores, narcisos de berço, com o ego perigosamente inflamado. São capazes de transformar corações em marionetes, criar ilusões, mover reinos e montanhas. E esses tolos acreditaram que poderiam viver sob suas próprias regras até se afogarem na própria arrogância.
Quando o olhar ametista de Freya pousou sobre esse caos, a deusa foi consumida pela fúria. Sem piedade, condenou aqueles que não lhe deram ouvidos a nunca mais voar.
É exatamente aqui, em tempos longínquos, que começa a história: num casebre abobadado, encrustado nas raízes de uma árvore anciã, fumegando neblina arroxeada pela chaminé sob um céu pincelado de estrelas. Dentro dele, gritos femininos faziam o mogno escuro trepidar, e pela janela via-se a silhueta de uma jovem com as costas encostadas à porta.
Alguém tenta entrar, e ela força o batente de volta.
— Eu me recuso! Mande-o embora!
A outra voz surge abafada pela madeira que as separa.
— Lianna, siga as regras, meu bem. Não podemos fugir delas. Henry será seu esposo.
— Não!
As mãos tremem em descompasso. Uma delas se embrenha nos cabelos vermelhos; a cabeça nega freneticamente, enquanto dois brincos esmeraldinos balançam nas orelhas pontudas, no ritmo da incredulidade.
— Está errado, está errado! Vocês não podem me obrigar! Onde está Midran? Ele vai...
— Midran aceitou o próprio destino.
Silêncio.
A traição subiu pela garganta, borbulhando no estômago. Uma revelação ácida demais, quase capaz de derreter o que restava do coração dilacerado. Tapou a boca, tomada pela vertigem, e acariciou o ventre; a respiração tropeçava escancarando o desespero.
— É... é mentira. Ele não...faria isso comigo...
— O rapaz fez o que deveria fazer.
A madeira rangeu, anunciando o desabar de Lianna — junto de suas esperanças juvenis — sobre o chão. Marés escorriam por seu rosto; o gosto salgado das lágrimas envenenava seus lábios e infestava seu peito com a certeza cruel da solidão.
Ele sabia! Sabia, e mesmo assim, decidiu abandoná-la?
Do outro lado, Madame Jasmim soltou um suspiro cansado. Já havia desistido de convencer a filha. Talvez o tempo curasse suas decepções. E, acreditando nisso, deixou-a à vontade para derramar todo o pranto que ricocheteava melancólico pelas paredes rígidas da renomada Casa Auralis.
Mas o choro que atravessou a madrugada não foi capaz de purificar a alma que ansiava pelo calor dele, pelos olhos mansos, a voz divertida, as promessas agora carentes de qualquer significado. Num esforço desumano, Lianna conteve outro soluço dolorido, o som de uma saudade que jamais teria consolo. Os dedos, ainda sobre a barriga, contraíram-se contra o vestido.
O que faria agora?
Então, um assovio — familiar demais — foi carregado pela brisa gélida que venceu uma fresta tímida entre as cortinas de seda aveludada.
O assovio de Midran.
Lianna se ergueu; as pernas doíam após tanto tempo encolhida sobre as tábuas de cedro. Cambaleou até a janela e abriu as esquadrias. Na penumbra, logo adiante, perto do bosque, viu uma sombra.
Midran?!
Quis gritar o nome do amado, mas não conseguiu. As cordas vocais se recusaram, respeitando o que quer que fosse aquele ser. Quando ele partiu para dentro da floresta, a moça pulou o parapeito e correu em sua direção. Com passos largos e a saia dourada arrastando na grama enlameada, ergueu o braço para alcançá-lo.
Não o deixaria partir.
— Midran...
O sussurro morreu assim que ela alcançou os arbustos. Galhos arranharam sua pele; um farfalhar maquiavélico anunciou o início do fim. Então Lianna foi engolida pela escuridão para nunca mais retornar.
Na manhã seguinte, o vilarejo inteiro soube do sumiço. Todos se uniram nas buscas, mas as esperanças murcharam com o acúmulo dos meses. Um desfecho sombrio — alimentado vorazmente por burburinhos maldosos — tornava-se cada vez mais aceito. Menos por Madame Jasmim, que procurou com a perseverança materna de uma felina, ignorando todos os que lhe diziam para desistir.
A persistência até gerou frutos, embora nada agradáveis: a filha da líder dos bardos não foi encontrada. Mas Midran, sim.
Morto, perto de um riacho distante do vilarejo das fadas, quase nos limites entre os portais dos universos. Uma estaca atravessava seu abdômen; os olhos carmesins, vidrados, dois espelhos pálidos refletindo o luar macabro naquele Dia das Bruxas. Os cabelos negros quase se fundiam à terra. No punho cerrado, um dos brincos esmeralda de Lianna repousava seguro, ao contrário de seu corpo, que se perdeu entre o dever e a rebeldia.
Não demorou para que essa tragédia virasse lenda: a Trovadora Louca, uma fada cega por anseios insanos, incapaz de aceitar o próprio destino. Tão poderosa que, embriagada pela loucura, ceifou a alma que a rejeitara e moldou um mundo inteiro onde pudesse viver de mentiras doces e eternas. Mas, no Dia das Bruxas, ela retomava a consciência na forma de uma aparição agourenta, importunando aqueles que esbanjassem a felicidade que sempre quis conquistar.
De acréscimo em acréscimo, a história se consagrou no folclore. Dizia-se que quem conseguisse tirá-la das alucinações e libertasse seu espírito, ganharia qualquer coisa, um desejo sem amarras concedido de bom grado por aquela capaz de alterar a realidade.
Mas, para aqueles que falhassem, restaria viver os sofrimentos inconcebíveis em ciclos intermináveis de agonia.
As canções que espalhavam o conto eram entoadas em cada fogueira. Temerosas, as crianças evitavam as árvores que se retorciam, reverentes à escuridão. Em seus pesadelos, ecoava o nome da moça que ousara desafiar a deusa soberana e que agora assombrava os Bosques das Lamúrias. Alguns adolescentes se aventuravam, crentes de sua bravura, apenas para voltarem aos prantos, o terror estampado nos olhos arregalados e nas bocas trêmulas.
Até que um dia, não muito distante do tempo presente, já com Freya como divindade absoluta, a nova chefe da divisão dos bardos, Madame Calíope, acorrentou a presença maligna. Sua arma? Um alaúde de poder ancestral, herança da família Azvir por gerações.
Pela primeira vez, o bosque respirou aliviado. Mas o vilarejo nunca soube a verdade por trás dos rumores antigos. Para todos os pesares, dentro daquele instrumento ainda repousam acordes que ninguém ousou escutar.
E quando as cordas vibrarem novamente, o eco de Lianna talvez cante, enfim, a verdade.