Na primeira tentativa, Fendrel falhou em abrir os olhos. As pálpebras pesavam feito elmos de ferro fundido. A cabeça latejava no compasso de um martelo de ferreiro contra sua leal bigorna: alto, ritmado, pulsando em ondas irritantes de dor.
Tateou o entorno; parecia deitado sobre nuvens que absorviam cada movimento desleixado. O pescoço repousava em algo macio, uma almofada digna dos salões de um lorde. De fato, um cenário bem diferente daquele em que estivera minutos atrás.
Teria… sonhado?
Fez mais um esforço. Desta vez, esfregou os olhos e os obrigou a encarar aquele mundo nada familiar. Um quarto grande, em alguma casa que certamente pertencia ao vilarejo de Alféria. Mas não era seu quarto. Mogno escuro, uma escrivaninha cheia de papéis rabiscados e instrumentos de todos os tipos espalhados pelos cantos: um violino, uma flauta, tamborins…
Ergueu-se; grossos cobertores de lã deslizaram por seu dorso nu.
Espera… como assim, nu?
— Querido? O sol nem nasceu…volte a dormir
Fendrel hesitou. Foram necessárias várias tomadas de ar para angariar coragem suficiente e, — num movimento que pareceu durar séculos— , virar a cabeça em busca do timbre feminino que jamais ouvira.
A visão se formou aos poucos: curvas abraçadas pelo tecido, quadris generosos descendo até uma cintura fina. Dali, as pontas de cabelos cor de fogo o guiavam provocativamente pela barriga, na direção dos…
Pela deusa!
— Você… você também está…
Tapou a boca. Suas cordas vocais vibraram numa tonalidade assustadoramente aveludada e dotada de uma autoridade absoluta.
Mas… ele era tenor, não barítono!
Trêmulas, suas mãos tocaram bochechas bem mais enxutas que as suas. O queixo, largo demais… e, ao afagar os fios longos e pesados, trouxe-os à vista: eram negros como uma pérola de maresia.
— Midran? Amor?
— Então, qual o plano? — sussurrou Kollin, inquieto. Suas botas performavam uma marcha nervosa, a madeira rangendo tão desesperada quanto eles.
— Quer parar de andar desse jeito? O chão vai ceder ...
Um grunhido irritado escapou de Verbena, mais ameaça do que queixa, enquanto vasculhava o quarto. Os galhos de Winky, atentos em seus ombros, reagiam a qualquer movimento suspeito. Fendrel fora arrastado até lá, mas quando chegaram — abrindo a porta como dois malucos — encontraram apenas poeira, móveis partidos pela podridão dos anos e a penumbra solitária se esgueirando por cada fresta.
— Impossível ele desaparecer assim! — o rapaz abanou os braços, indignado. — A casa comeu ele, por acaso?
— Isso lá é hora pra piada, Kollin?
— Não foi piada… e se Fendrel… sabe…
Um peteleco ardido invadiu a testa. Kollin reagiu com uma careta emburrada, o golpe repreensor viera da planta, a mando de sua dona.
— Vira essa boca pra lá! Vamos achar ele, ou meu nome não é Verbena Auralis! — O dedo apontava, impositivo, para o menino, que apenas suspirou algo inaudível para a própria segurança. — Seja útil e pega o alaúde que ficou na sala de estar. Quando encontrarmos Fendrel, vamos precisar do instrumento pra trancar o que quer que seja essa maluquice enfurecida que saiu de lá e tome aqui — envolveu um dos ramos de Winky no braço dele —, tem comprimento suficiente pra isso. Se algo acontecer, ela vai te puxar de volta.
Com rosnados sonoros e insatisfeitos, Kollin partiu para fora do cômodo, deixando Verbena com a paz há muito desejada, bem longe das queixas descontroladas do amigo falante, surpreendentemente mais irritante que uma mandrágora jovem na primavera. Ela aproveitou o momento para respirar fundo, tentando encontrar, em algum canto daquele ar putrefato, a calma necessária para domar os nervos que insistiam em formar imagens sobre os inúmeros destinos que poderiam ter sido impostos a Fendrel.
“Aos que falham, resta o caos infinito da própria dor.”
As canções sobre Lianna sussurravam uma possibilidade. Mas onde, afinal, Fen estaria vivendo a própria dor? Sua mente buscava uma resposta e só encontrava o vazio. Nada. Depois nada. E mais nada, só que dessa vez com um toque insuportável de impotência.
Bufou contra a própria ignorância, a cabeça tombando para trás num gesto de pura exaustão. Eles podiam ter um Halloween normal? Não! Tinham que inventar de trazer de volta uma doida varrida.
O sarcasmo, diluído em risadinhas curtas, logo perdeu força, pois algo chamara sua atenção. Entre as tábuas do teto, havia um pequeno buraco, largo o bastante para uma pessoa passar. As palavras de Kollin invadiram a mente.
“A casa comeu ele, por acaso?”
Levou um dedo ao queixo, pensativa. O pé tamborilou nervoso no piso.
Talvez não comido literalmente… mas levado pra outro lugar?
Incrível como a curiosidade vence qualquer temor. Com passos mudos e a esperança de uma pista reluzindo diante de si, aproximou-se até ficar bem embaixo da fenda.
E se…
Creck!
Deu um pulo para trás, o coração disparando. Winky se agitou, prestes a chamar Kollin, mas Verbena fez um gesto, pedindo calma. Seus olhos fixaram-se no objeto que pisoteara: cacos de um espelho, fragmentos meio foscos com riscos por toda parte. Um objeto que possivelmente um dia refletiu os rostos vividos dos residentes esquecidos daquela casa agora em frangalhos.
Estreitou o olhar para um dos estilhaços.
— Tem… tem algo ali… ou…?
Abaixou-se para pegá-lo e logo entalou um grito que quase rasgou o peito quando viu dois olhos escarlates encarando-a de dentro do reflexo. Mas eles… não eram assustadores. Estavam agoniados, perdidos.
Pareciam muito os olhos… de Fendrel.
O reflexo, porém, transmutou-se em instantes. As orbes diluíram uma na outra, se fundindo como um redemoinho em um caldeirão. Do estilhaço, começou a pingar um líquido viscoso, escorrendo com textura grudenta pelos dedos, palma e pulso de Verbena. Quente feito...
Sangue?!
Enfim, a aflição teve permissão de se traduzir em som, pois Verbena esperneou alto o suficiente para vencer as milhas sem fim entre os quinze reinos humanos. Winky puxou Kollin de volta apenas para que ele visse a amiga ser agarrada pela cintura por um cipó que desceu da abertura no teto, erguendo a vítima.
Munida de socos e sacudidas, a moça fez o possível para reagir. Infelizmente, seus movimentos só conseguiram lançar a bolsa da parceira vegetal para longe. E antes que o amigo pudesse ampará-la, a fada foi, num solavanco bruto, puxada para o andar de cima.
O teto se fechou, cuspindo lascas de poeira que choveram sobre ele e a planta de estimação. Segundos rolaram enquanto mais um silêncio tomava a casa com uma força opressora. Pelo andar da carruagem, até as paredes temiam seu mandante.
Daí... veio o pânico.
— Droga, droga, droga! — o rapaz cuspia as palavras entre dentes, correndo em círculos como um rato encurralado. — A casa comeu ela também! O que eu faço?!
Winky — os ramos de seu corpo tremendo — apontava para cima, num gesto urgente.
— Tá, tá, eu sei! — respondeu, ajoelhando-se para devolver a terra para dentro da bolsa. — Mas supondo que eu suba lá… como vou saber…
O alaúde, agora preso às suas costas, pulsou. Kollin reagiu de imediato, tirando-o de perto, os músculos tensos, prontos para revidar. Porém, o que se seguiu não ofereceu perigo: a corda de ré vibrou sozinha, emitindo um acorde que formou notas flutuantes, palpáveis como nuvens, ondulando na direção da escadaria do corredor.
Incrédulo, ele soltou um suspiro amuado e massageou as têmporas com os dedos sujos.
— Ótimo. Um instrumento possuído servindo de bússola. Nada poderia dar errado.
Winky soltou um estalo impaciente.
— Já estou indo! Caramba!
Oi! 👀
Como estão vocês? Bem? Corações em dia? Hahaha!
Acho que o fantasma chamou o Fendrel pra uma janta... mas ninguém avisou que ele seria o prato principal. Vamos ver o que esse menino vai fazer nessa situação.
E a Verbena? Parece que levou um fim parecido. Talvez ela seja a sobremesa? Neste caso... deu ruim, amigo Kollin... pois a casa vai te usar de palito de dente. 😂
P.S. Uma informação pra quem tiver curiosidade (já aviso...não sou expert em música, só entusiasta, a explicação vai bem além dessa que vou dar): tenor e barítono são classificações de voz. O tenor canta em tons mais altos, tipo Bruno Mars, enquanto o barítono tem um timbre mais grave e encorpado, como Elvis Presley ou Michael Bublé. Nas óperas, cada tipo costuma interpretar papéis específicos, dependendo da emoção e do personagem. Tem o baixo também, mas achei que seria demais pro Midran.
Enfim, é isso! Espero que tenham gostado e estejam ansiosos por um novo capítulo.
Até a próxima! 👻