O tac-tac surdo das botas de escamas de dragão acompanhava o balançar leve do jovem trovador em sua caminhada despreocupada. Ao seu redor, as fadas saboreavam os excessos da adolescência no famoso Dia das Bruxas.
Algumas pregavam peças nos mais novos; outras sumiam nas sombras das árvores — tingidas pelo alaranjado pálido do entardecer — para trocarem beijos e promessas. Havia também quem se empanturrasse de marshmallows gritantes, que soltavam suspiros açucarados a cada mordida, enquanto histórias de terror arrepiavam até as fadas mais valentes reunidas em torno das fogueiras improvisadas.
Em meio ao caos festivo, a fumaça carregava o burburinho das cantigas; no ar predominava a mansa fragrância de abóboras frescas e terra molhada.
De repente, Fendrel parou a marcha, puxado pela própria capa negra que se prendera a um arbusto. Resmungou baixo, deixando à mostra duas presas afiadas. Da boca escorria um fio de maquiagem escarlate de sangue falso, da mesma cor carmesim de seus olhos e madeixas.
Puxou uma, duas, três vezes. O silvo do rasgo no tecido da fantasia arranhou-lhe os ouvidos e logo foi substituído por um suspiro amuado. Os olhos fixaram-se na fenda enorme , as bordas desfiadas, cheias de fiapos de algodão cambraia que pendiam desajeitados.
— Vovó Calíope vai me matar… — murmurou, a palma afagando o pescoço até raspar na bolsa de couro presa às costas. Algo pesado estava escondido ali, embrulhado com zelo absurdo dentro do pano escuro. — Pensando bem, já vou ter castigo suficiente por roubar isso...
Os pensamentos tombaram no instante em que ouviu uma movimentação no mesmo maldito arbusto. Franziu o cenho e cruzou os braços. Num pulo atrapalhado, um rapaz surgiu: braços erguidos, língua de fora, pupilas faiscando num jeito brincalhão. Os cipós azulados que formavam seu cabelo acompanhavam seu movimento e pendiam de um lado para o outro, as pontas tingidas de verde.
— Cérebro! — gemeu ele, aproximando-se; ataduras enrolavam o pescoço, e sua pele exibia vários desenhos de costura à la Frankenstein. — Cérebro!
Mas o aspirante a zumbi parou subitamente, a atenção capturada por um novo detalhe no amigo: um brinco cor esmeralda na orelha esquerda.
— Jóia nova, canarinho? — um sorriso malicioso abriu os lábios finos, realçando as sardas no rosto moreno. — Ah! Foi ela quem te deu, né?
Fendrel revirou os olhos e retomou o passo, seguido pelo colega, que fez menção de tocar o adereço.
— Kollin, se você encostar nisso, eu juro pela Deusa que vou te transformar num zumbi de verdade!
— Uau — disse, pousando as mãos na cintura. — Você, o príncipe da cordialidade, agressivo assim? Então me conta... Presente? De aniversário?
— Isso não é da sua conta.
— Claro que é, Fen! — apertou o passo para alcançar o trovador. — Quero saber de uma vez se vou ficar de vela!
O silêncio permaneceu por segundos suficientes para que Kollin se perguntasse se havia ido muito longe . Mas a consciência logo cedeu à tentação e o sorriso voltou, largo, audacioso, incentivado por uma justificativa perfeita para o embaraço de Fendrel. Então, ele disparou à frente do bardo. Interpôs-se ao caminho, dedo em riste, exibindo uma zombaria que arrancaria risos até dos espíritos mais agourentos.
— Espera aí! — cutucou as maçãs do rosto do amigo. — Rolou beijinho, foi?
A vergonha subiu em Fendrel como lava em erupção. As bochechas arderam, mais quentes que a madeira crepitando nas fogueiras ao redor. Tossiu, quase engasgou, as palavras se recusaram a sair da garganta, incapazes de formar frases convincentes.
— Caramba, Kollin, não. Deixe disso, qual é o seu problema? —conseguiu dizer, afastando a mão alheia com um gesto forçado.
— Meu problema é que você sempre foi um grande mentiroso — retrucou o outro, entre desafio e provocação. — Um dia ainda vou te pegar no pulo e arrancar toda a verdade. Ah, se você falasse dormindo...
— Vai sonhando…
— Ah, eu sonho sim — riu, empurrando o tom para limiares ainda mais perigosos. — Igual você aí, sonhando agora com o gosto dos lábios da Verbena.
O nome pairou entre eles e até o silêncio, que voltou denso e inegável, pareceu constrangido. Fendrel prendeu a respiração; buscou o brinco em busca de consolo ou quem sabe de uma saída para sua ansiedade. Os murmúrios e cantigas continuavam, ignorantes à tempestade interna recém-instaurada.
— Kollin, eu já disse pra parar com as brincadeirinhas...senão…
Mesmo com a reprimenda, a fada deu de ombros, brincalhona, o desafio estampado na sobrancelha erguida.
— E você vai fazer o quê? Me transformar num porquinho?
O arrependimento veio no exato instante em que Fendrel sorriu, maquiavélico, completamente satisfeito com a sugestão. Kollin arregalou os olhos; as pupilas seguiram, aflitas, os dois dedos prestes a se estalarem.
Não... ele não tinha poder pra isso ainda... tinha?
Click!
Uma fagulha percorreu o ar. Um breve lampejo verde escapou do brinco. Nenhuma misericórdia foi ofertada enquanto o tecido da realidade se contraiu por segundos desesperadores e as sardas do moreno se reorganizaram sobre a pele, fundindo-se em um focinho rosado, úmido e atrevido.
— Aaaaah! — o garoto levou as mãos ao rosto, os dedos encontrando um morro inesperado onde antes havia um nariz. — O que é isso?!
Atrás, uma cauda encaracolada brotara por cima das calças, balançando com vida — e opinião — própria. As fadas mais próximas começaram a rir, uma explosão de divertimento que quase fez uma delas derramar a caneca de hidromel.
— Fendrel! — guinchou ele, a voz meio chiada, meio porcina. — Tira isso de mim agora!
O trovador mordeu o lábio, tentando — sem qualquer sucesso — conter o riso.
— Eu avisei...
— Isso não é engraçado! — bufou Kollin, o que só fez o focinho emitir um barulhinho de “oin” no fim da frase.
— Discordo... — Fendrel inclinou a cabeça, buscando outro ângulo daquele espetáculo — É muito engraçado.
A cada protesto, a cauda de porquinho se agitava mais, como se caçoasse do próprio dono. Indignado, Kollin soltou um grunhido, ergueu o braço e, sob seu comando, a água de um poço no meio da praça começou a se erguer, girando até tomar a forma de um chicote azulado.
— Desfaz o feitiço, Fendrel!
— Ah, então agora você tá bravo?
Foi tudo o que o trovador conseguiu dizer antes de se abaixar para escapar do primeiro estalo da arma. O jato respingou nas pessoas que começaram a aplaudir, animadas, enquanto o bardo corria ao som de sonoras gargalhadas com seu amigo porquinho em seu encalço.
Entre “oinks” e galhofas, os dois tropeçavam em troncos e galhos caídos; fogueiras eram apagadas pela água que jorrava pelos vértices da fuga; um chuá-chuá sem fim. Algumas fadas até apostavam em supostos vencedores, torcendo por seus campeões.
Até ali, nenhuma gota sequer raspara em Fendrel.
Completamente frustrado com a afronta daquele príncipe dançarino insuportável, numa última tentativa enfurecida, Kollin acumulou água o suficiente para formar uma grande esfera e a atirou contra o amigo. Não deveria existir rota de fuga. O projétil era grande demais para isso.
Mas então o viu entoar um assovio baixo . O ar ao redor do trovador vibrou, a umidade ferveu, e, num piscar de olhos, sua silhueta se desfez em névoa vermelha.
— Ei! Isso aí não é justo! —Kollin protestou, fungando.
Enquanto isso, o disparo passou pelo espaço vazio e atingiu outro alvo — ironicamente escolhido pelo destino — que não demorou para soltar gritinhos estridentes.
— Seus loucos!
O timbre feminino, divinamente afinado, contrastava com o desalinho das roupas encharcadas. O cabelo prateado, ensopado, grudava nas coxas. Antes que qualquer desculpa fosse oferecida, ela arrumou a franja molhada e bradou:
— Fendrel! Sua avó saberá disso!
— Seryin, foi sem querer!
— Quando eu me tornar a Mestre dos Bardos, quero ver se vai continuar fazendo besteira!
— Tsc! — Kollin resmungou, cuspindo na grama. — Mestre dos Bardos? Enlouqueceu? Se enxerga, garota!
— Se enxerga você, bruto idiota!
A fada Seryin saiu de cena a passos pesados. Sua fúria prensada em cada movimento contra a terra fofa.
Fendrel e Kollin se entreolharam, cúmplices e juntos soltaram o ar num suspiro demorado.
— Essa menina é impossível…
— Cuidado com o que fala, Kollin. Nunca se sabe... Freya pode fazer dela sua esposa.
— Eu, hein! Sai com essa ideia pra lá! A deusa quer me amaldiçoar por acaso? — resmungou, observando o amigo arrumar o embrulho nas costas. — Ah! Então conseguiu? Que os deuses nos ajudem...a tia Calíope vai surtar se descobrir.
— E quando aquela bruxa não está surtando?
Uma sombra se desprendeu do tronco de um carvalho ancião atrás deles. Mais uma voz feminina familiar se apresentou, dona de cabelos azulados que escapavam desgrenhados por baixo de um chapéu de bruxa gasto e repleto de remendos. O vestido, de um roxo torturante aos olhos, era longo demais, o que a obrigara a prendê-lo com um laço rosa improvisado na cintura.
Verbena esboçou um sorriso torto, um pouco contrariada com os olhares que recebeu.
— Por que estão me encarando assim?
— N-nada... — responderam os dois em uníssono.
No ombro da garota pendia uma bolsinha cheia de terra; dentro dela, um caule tímido se esgueirava e oscilava de um lado para o outro, quase como se dissesse um “oi” aos novos amigos.
— Ah, essa é a Winky — Verbena apresentou, orgulhosa. — Criei na aula de botânica com Madame Gantriel. Acho que ela vai ser útil.
— Então você virou mãe de planta — Fendrel fez um esforço para recompor o semblante. — E onde exatamente ela vai ser útil?
— Deixe de ser reclamão! Qualquer ajuda conta para conseguir aquele desejo — disse ela, erguendo o queixo com determinação cômica.
Winky esticou dois raminhos e enlaçou o dedo indicador de cada garoto, agitando-os num gesto que lembrava um cumprimento cerimonioso.
Eles riram.
— Muito prazer, Winky — Fendrel sorriu. — Preparados, então?
Um único e decisivo aceno uniu o trio, sincronizado na cumplicidade de uma amizade forjada na infância. Sem outra palavra, mergulharam na escuridão do arvoredo, na direção do antigo Bosque das Lamúrias, enquanto Winky se ancorava nas vestes de Verbena. Nitidamente, a plantinha, embora recém nascida já era dotada de mais cautela do que aqueles três aventureiros incorrigíveis juntos.
Oi 👀
Não sei vocês, mas pra mim a Madame Calíope mete mais medo nas crianças do que a própria assombração da Lianna.
E o Kollin? Engraçadão, né? Brinca com os outros, mas quando vira o motivo do riso o mau humor aflora na hora haha
E aí...o que acharam do meu trio maravilha de protagonistas? 😏 Pros leitores veteranos... conseguiram pegar todas as referências? Quais são as teorias de vocês pro que vem por aí?
Até a próxima 👻