— Fen! — a voz de Kollin fez até Winky estremecer nos ombros da dona. — Você ainda não desfez essa porcaria!
Verbena se inclinou para a frente, estreitando os olhos na direção do amigo durante a caminhada. Os passos eram acompanhados pela melodia estridente de folhas secas e galhos se partindo. Quanto mais se afastavam da vila, mais a floresta se afundava na penumbra azulada do entardecer.
— Ué! Não era fantasia? Ia até te parabenizar pelo realismo.
A frase arrancou do garoto um grunhido, meio javali, meio humano. O pior de tudo é que bicho num arbusto próximo pareceu responder ao chamado, e os outros dois se dobraram em gargalhadas. O riso de Fendrel, em especial, vibrava nos tímpanos de Kollin numa frequência insuportavelmente atrevida.
Por que bardos eram tão impossíveis?
— Vocês que ficam de namorico por aí, e eu é que pago o pato?!... Ai!
O tapa que o trovador aplicou na nuca do rapaz ecoou baixo, seguido pelo grito da moça:
— O quê?! — o rosto dela atingiu exatamente o tom de uma rosa de dragão em flor. Os olhos amendoados buscaram imediatamente os rubis arregalados do bardo. — Que mentira você contou?!
— Nenhuma! — defendeu-se, braços erguidos em rendição. — Vêr... vamos com calma... Você sabe que o Kollin é um enxerido e inventa histórias na própria cabeça!
Ele deu dois passos para trás — três, só por precaução — observando trêmulo as trepadeiras das árvores se agitarem, atiçadas pela fúria da fada jardineira. Ultimamente, Verbena não tinha paciência para as desculpas dele. Na verdade, ela o ignorava com um afinco doloroso.
De repente, um som grotesco dilacerou o ar. Grito, uivo, grasnado, quem sabe uma mistura incômoda de todos. As pernas da garota congelaram no mesmo instante e a consciência veio impiedosa lembrar que aquele não era o momento mais oportuno para discussões.
Agora, apenas um fio de vento tecia sussurros entre as árvores. Esperaram algum movimento, mas nada veio. Um grilo — e um sapo — arriscaram os primeiros burburinhos tímidos. O silêncio se desfez em fragmentos compassados, e aos poucos o bosque pareceu voltar a respirar.
Nesse breve intervalo suspenso, por algum motivo que ela nunca soube explicar, Verbena buscou instintivamente a segurança do olhar do trovador.
Foi assim que sua atenção pousou na orelha esquerda de Fendrel. Bastou um segundo para compreender o motivo da confusão e da curiosidade alarmante de Kollin.
O coração dela se desarrumou dentro do peito: alegria e constrangimento se misturaram numa desordem difícil de disfarçar. Alegria, porque seu presente fora aceito com um zelo que jamais admitiria em voz alta; e vergonha... pelas lembranças daquela clareira, duas semanas atrás.
O que acontecera fora complicado. Um acidente. Apenas isso.
Eram amigos...
— C-certo... conversamos depois. E... — ela inclinou a cabeça na direção de Kollin, que acariciava o focinho assustado. — Tire isso dele, Fen.
Num estalar de dedos, os traços suínos se dissolveram no ar em fiapos de névoa dourada, cintilando por um instante antes de sumirem. O ex porquinho, entre risadas e gritinhos de alívio, celebrava o fim da maldição.
Sem mais delongas — e desta vez, lado a lado, os ombros quase se encostando — os três seguiram caminho.
— Que inferno! Minhas bochechas coçam!
— Efeito colateral — Fen encolheu os ombros, espiando o companheiro que acumulava um punhado de água para esfregar na pele irritada. — Quase todas as magias de bardo têm um...
— Não devia ser em você?
— A maioria usa esse feitiço em si mesmo... pra parecer mais bonito, se disfarçar... às vezes até mudar de gênero.
— Vocês bardos são uns trambiqueiros sem escrúpulos.
— Pode ser... — a sobrancelha arqueada e o sorriso maroto denunciavam que Fendrel levara o que era pra ser insulto como elogio. — Já ouviu a lenda de que a própria Freya era uma trovadora?
— Isso explicaria muita coisa... — Verbena bufou. — Vocês realmente acham que mandam no mundo. Dona Calíope que o diga!
— Não mandamos... — ele a observou e, sem piedade, um milhão de canções apenas sobre o tom turquesa dos cabelos dela pipocaram na mente. Como sempre, abafou cada uma com um suspiro cansado e completou: — No fim, não temos controle de absolutamente nada...
Depois de mais alguns minutos de trilha, o murmúrio do riacho finalmente chegou aos ouvidos na forma de um chiado preguiçoso. Pararam. À frente, o musgo cobria as pedras escorregadias da margem, polidas pela correnteza ao longo dos anos. Do outro lado, a floresta se curvava em arcos naturais, formando um túnel de folhas azuladas: o limiar do mundo das fadas.
— É aqui? — Verbena perguntou, a voz num fio temeroso.
Antes que Fendrel pudesse responder, uma rajada de vento assolou seus rostos. Kollin ergueu as mãos para proteger a vista, já a moça cambaleou para trás, amparada a tempo pelo bardo, que a segurou pela cintura.
— D-desculpe, Fen, eu…
— Tudo bem — ele cortou com um sorriso. — E sim, foi aqui que... bem... segundo a vovó…a trovadora Lianna enlouqueceu de vez.
Desvencilhando-se com delicadeza, o bardo levou as mãos até o embrulho nas costas. Deslizou a bolsa dos ombros e a colocou no chão com cuidado, desatando as ataduras sob os olhares atentos dos amigos. Ao puxar o último nó, o pano escuro caiu por conta própria, revelando o alaúde.
Uma peça deslumbrante, entalhada em madeira de nogueira escura, com filetes de madrepérola sereiana formando runas entrelaçadas. As cordas vibravam em um ritmo manso, hipnótico. Cada nota parecia um feitiço requisitando obediência.
— Alguns avisos... — Fen voltou a falar, tomando o instrumento nos braços. — O que quer que minha avó tenha acorrentado aqui só pode ser libertado e selado por uma música e um trovador da família Azvir. Se algo der errado, eu fecho isto de novo. Estamos entendidos?
Verbena e Kollin acenaram.
— Muito bem. As lendas dizem que precisamos descobrir a verdade sobre o que aconteceu. Lianna acordará e concederá o desejo. Já sabem o que vão pedir?
— Asas! — os dois responderam em uníssono.
Fendrel franziu o cenho.
— Como é? Mas vamos ganhar asas quando…
— Não quero esperar — interrompeu Verbena. — Sei lá quem vai me aguentar no futuro, se é que essa pessoa existe. Algumas fadas nunca encontram a alma gêmea. Mesmo com Freya, não quero assumir esse risco. Eu estou longe de ser “delicada” ou “amável”. A deusa vai ter trabalho.
Kollin pigarreou, com o sarcasmo pingando da língua:
— A deusa vai ter trabalho é pra arranjar alguém para aquela maluca da Seryin.
Riram, imaginando o espetáculo caótico que seria a vida do pobre coitado destinado a dividir o teto com aquela fada trovadora: surtos melódicos, exigências cantadas em falsete e véus de seda anã tremulando em protesto.
— E você, Fen, o que vai pedir?
Sem aviso, Verbena encarou o trovador com um sorriso tão meigo que o desconcertou por completo.
— Eu... er...
As palavras do bardo morreram, tudo o que ele queria dizer se recolheu, pequeno, na sombra da covardia que seria sua companheira teimosa por muitos anos.
Talvez seu pedido fosse egoísta demais para existir.
Kollin decidiu preencher rápido o silêncio constrangedor, dizendo com pose debochada:
— Eu só quero sair por aí dizendo que tenho asas antes dos outros!
— É justo.. — Fen piscou pra ele, recuperando a solenidade. — Enfim, vamos ao que interessa. Preparados? Mãos nos meus ombros.
Os dois se posicionaram atrás do bardo, os dedos pressionando com firmeza o gibão. Fendrel encheu os pulmões. Seu sopro, condensado no ar gelado, raspou contra os lábios ressecados antes de se transformar num assobio.
Aquela foi a semente de uma melodia que germinou junto aos acordes do instrumento. Uma sequência feita de lamentos e segredos apodrecidos. E ela ecoava dentro dos ossos, transmitindo uma tristeza profunda que apertou os corações de Kollin e Verbena. Era a música ancestral dos Azvir e sua cadência tentadora funcionava como uma armadilha, capaz de seduzir e enjaular não só criaturas, mas a própria realidade.
Das cordas do alaúde, névoas disformes emergiram, dançando e rodopiando em volta do trio, tecendo uma cúpula de penumbra que abafou o mundo exterior. E então, num súbito momento de vertigem, as sombras desabaram, dissolvendo-se no chão.
Um chão que… já não era mais de terra fofa, mas de tábuas de cedro podre que estalavam sob seus pés. As árvores haviam dado lugar a paredes de madeira nobre — outrora suntuosas — agora tomadas por mofo cinza, pulsando como se vivessem às custas do ar empoeirado daquela casa abandonada e claustrofóbica.
A canção chegou ao fim e a ausência de sons que se seguiu era mais aterrorizante que qualquer sinfonia macabra .
— Er... o que fazemos agora? — Kollin sussurrou.
Assim que o carma foi recitado, à frente deles, numa escadaria imponente, uma figura se materializou. Cresceu, sugando as trevas ao redor, até formar uma silhueta enegrecida, de ombros curvados. Da sua face, apenas os olhos surgiram: duas orbes avermelhadas de puro ódio, flutuando e focando neles.
Todos prenderam a respiração. A saliva desceu em desespero viscoso, arranhando a garganta.
A atenção da criatura pousou sobre Fendrel. Ela deslizou pelos degraus, sem som, chegando perto... muito perto. A figura se ergueu e soltou um grito agonizante pinicando os tímpanos feito agulhas em brasa, obrigando-os a tapar os ouvidos.
Uma porta atrás do bardo abriu rangendo feito uma lamúria dolorida. De suas entranhas, um emaranhado de raízes necrosadas irrompeu, serpenteando com velocidade sobrenatural. Laços de madeira podre prenderam-se aos tornozelos e à cintura do trovador.
Fendrel mal teve tempo de erguer as mãos, pois elas também foram atadas. O instrumento caiu com um baque surdo contra as placas de cedro negro do chão. Tentou recitar um feitiço, mas outro galho, praticamente um tentáculo, cobriu-lhe a boca.
— Fen!
Apavorados, os gritos de Verbena e Kollin pairaram vazios na sala enquanto viam o amigo ser arrastado e consumido pela escuridão daquele cômodo. A porta fechou-se com um estrondo final, deixando pra trás apenas o desespero.
Oi 👀
Parece que deu ruim pro nosso canarinho galã, Fendrel. Mas também... foi falar pros quatro ventos que precisavam dele pra prender o bicho!
Será que Verbena e Kollin conseguem se virar sozinhos?
Até a próxima 👻