Universo da obra
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Ballet do Primeiro Galo
O marinheiro, estando na escuridão, passou a mão no furto:
- Ai que estou é furtando a estrela papacéia!
Num vasto gesto coreográfico retirou a dextra, rodou na ponta dos pés, satisfeitíssimo:
- Coisa muito melhor: toco a crista de um galo. Que canja!
O diretor da cena começou imediatamente a corrigir as tendências literárias do bailarino, amputando algumas dansas de encomenda para ressaltar a cerimônia e o suntuoso adágio do início. Pouca literatura nestas coisas de ballet, ouviu, mano! Do contrário largo esta joça! Passado o incidente, o marinheiro muito valorizado com sua cabeleira de ébano e grandes olhos mortos, executando piruetas dificílimas leva o galo para bordo. Surge mestre cuca com seu séquito de cozinheiras em passo de mazurka, à frente Solis Pinzon, grande descobridor, equilibra sôbre a cabeça uma panela de metais semi-preciosos para ferver o galo. Intervem o capitão: o galo é para todos os efeitos mascote, pertence dêste momento em diante à família de bordo: comê-lo é praticar verdadeiro incesto.
A viagem começa em 1500 e pico e é transmitida em ondas curtas à platéia pelo Journal de la Société des Americanistes de Paris. Transmite-se imediatamente a promoção do bailarino a piloto-mor por causa da descoberta do galo, mas êste sem habilitações coreográficas é despedido da companhia por não conter nenhuma vontade heróica, nenhuma idéia plástica, tudo existindo nêle para interesses puramente publicitários.
Edição Literunico do texto original Ballet do Primeiro Galo, de Jorge de Lima, preservado pela Fundação Casa de Rui Barbosa e dividido em cinco blocos.
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