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@purapoesia há 1 ano
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[Crônica] Apartamentos - Parte 01 Jorge gosta de contemplar a manhã através das grades da varanda de seu apartamento. Ele tem o hábito peculiar de pôr para tocar no celular sons passarinhais, apenas para ter na boca da lembrança o gosto doce de sua juventude interiorana. Sente falta dos pássaros enquanto ouve os cantos guturais dos carros. Ele tem muitas aves encarceradas dentro de si. As grades da sacada constantemente o lembram, de que o corpo pode estar retido mas a alma estará sempre em voo. O maior temor de Clara: dar de cara com alguém no elevador. A pandemia plantou nela uma aversão à companhias em espaços de poucos metros quadrados e os frutos permanecem até hoje. Além disso, detesta ser obrigada a dar uma bom dia ou um sorriso qualquer (aquele tipo de obrigação que criamos para nós mesmos), quando na verdade está querendo se ver longe de quem quer que seja. Claro que ela sempre foi meio fechada para o convívio social, porém, quem tem a chave para adentrar em seu círculo limitado é amado incondicionalmente. Clara é como uma planta adaptada a um vaso, gosta de fincar raízes em espaços pequenos mas que sejam somente seus. Ela é como um planeta que orbita distante do sol, mas que sem a sua gravidade morreria, ninguém vive sem sol. O sol de Clara é café, livros e alguns poucos amigos. Um fato científico é que tudo tende a manter o movimento até que algo se oponha a ele, até que alguma força o freie. Fernando segue à risca esse mandamento, acorda todos os dias muito cedo e, em jejum, desce do 402 para a rua a fim de iniciar a sua corrida matinal, ou seria crepuscular? Muitas vezes a manhã ainda está limpando as remelas dos olhos e adiantando o alarme da soneca, enquanto Fernando queima suas calorias. Certo dia, inventou de correr na chuva. Como resultado, foi contemplado com 40ºC de febre e teve que parar no hospital. A vida sempre impõe um freio quando ultrapassamos a velocidade permitida. (Continua...)

Comentários (1)

@MarU · há 1 ano
Adorei! É tão interessante poder se ler, de certa forma, dentro da narrativa. Passamos por situações assim durante a pandemia. Eu colocava o som de pássaros, do mar, de cachoeiras… Estava grávida e acabei criando um pânico social extremo. Hoje, tanto tempo depois, depois de tanto, que se passou… É bom refletir em um texto e ver o que fomos capazes de superar. 👏👏👏🥹.
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