@MarU
há 14 horas
Público
#desafio 287

—Histórias de amor—

Quantas histórias de amor
como a nossa,
são segredo?

Palavras escritas
em textos,
escondidas nas entrelinhas…

que só nós dois
compreendemos.

Quantos amores
não viveram
e viverão
o que vivemos?

Quantos…
me diga?

Desde que o mundo é mundo,
o coração vagabundo
escolhe suas vítimas.

É do instinto humano,
amar o que não é possível,
o inalcançável, proibido.

Que terão sido
dos amores não vividos?

Histórias e mitos.

Quem serei eu
na sua história?

Presente,
futuro,
passado…

Serei eu digna,
de algum espaço
na memória?

Serei anjo
ou diabo?

Será nosso amor indigno
de ser sequer lembrado?

Ou pior…

serei nada,
pois nada aconteceu.

Um nome do passado,
esquecido na lista
de contatos bloqueados…

— Na minha história,
você é o amor
que me trouxe à vida.

Viverei todos os dias
com saudades
do que nunca teve princípio…

nem fim,
em mim.

MarU
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@MarU
há 3 dias
Público
#desafio 286

—Segundos Infinitos—

Olhando o firmamento,
meu pensamento
me trai
por um momento.

Sinto o calor
invadir meu corpo,
os dentes travados,
sorvo a sensação
de outros dentes
no meu pescoço.

A língua lasciva
subindo para a orelha,
arrepios íntimos,
pulsares invasivos,
a umidade descendo
entre minhas pernas,
mamilos acesos,
pelos arrepiados.

Em fração de segundos,
somos corpos suados,
rolando línguas
no céu de nossas bocas.

Nestes breves segundos,
somos presente,
passado,
futuro.

Somos tudo,
sem sermos nada
além de pensamentos
dentro de mim.

Te sinto aqui,
inteiro.

Te vivo em mim
nestes momentos,
pequenos momentos
que me fazem transbordar
além das estrelas,
ao infinito.

MarU
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@MarU
há 4 dias
Público
#desafio 285

— Ex-vizinha —

Pequeno conto em forma de carta.

Maio, 20 de 1314.

Olá, vizinho!

Está em casa?

Lembra de mim?

Costumávamos deixar a porta apenas encostada para quando quiséssemos nos visitar, mas eu mudei.

Não tem muito tempo, mas foi tempo o bastante para não saber mais de você. Espero que esteja bem!

Talvez nossa amizade seja daquelas antiquadas, sem ligações ou mensagens curtas de “bom dia!”. Talvez sejamos de cartas longas, falando sobre a vida, dessas que levamos um mês ou mais escrevendo e que, quando postamos, o correio demora para fazer a entrega e, às vezes, até extravia, mas que, ao ler o nome do remetente, recebemos sorrindo e lemos, com o coração acelerado, cada detalhe.

Agora que não estou mais à sua porta, não sei se também está sentindo falta do tempo em que fomos vizinhos e não precisávamos de portas; éramos “de casa”.

Confesso que tenho sentido.

Eu mudei. Não estou assim tão mais longe, mas, por algum motivo, não consegui me desfazer do meu apartamentinho. Ao sair, não pude fechar a porta; deixei apenas encostada, para o caso de sentir minha falta, precisar respirar nos dias que te sufocam. Mesmo sendo um apartamento vazio das coisas, lembranças não faltam em cada cantinho. Sei, pois eu mesma ainda visito usando qualquer desculpa ou motivo. Entro pela porta escura em silêncio, fecho os olhos e respiro…

Por alguns instantes, viajo no tempo. Revivo cada momento bonito; os mais doloridos, coloridos pelo sorriso trazido por você; os frios, aquecidos pelos momentos em que nos deixamos aquecer. Você estava lá comigo, organizando a bagunça que não me deixava ver o que importa.

Este velho apartamento, caindo aos pedaços, me deixou muitas saudades ainda agora…

Nunca te dei as minhas chaves, mas tem uma cópia no capachinho.

Sei que deve estar ocupado, mas, se puder, dê uma passada de vez em quando para ver se está tudo certinho… Agradeço!

Ou…
se for muito difícil e quiser fechar a porta de vez com a chave do capachinho, vou entender. Não ficarei chateada contigo. Será o fechamento de um ciclo, a carta branca para eu vender.

Hoje passei em frente ao seu andar. Fitei o número no elevador, mas não apertei. Não quero te incomodar. Sua vida é muito corrida para receber quem quer que seja sem avisar.

Ia passar esta carta por baixo da sua porta, mas não deixei. Tive receio de encontrá-la fechada.

Deixei a carta na portaria do nosso condomínio. Nela tem o endereço da minha nova casa.

Sinta-se sempre bem-vindo, meu velho amigo. Onde eu estiver, nunca vou te esquecer.

Amo você!

Sua ex-vizinha.

MarU
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@MarU
há 5 dias
Público
#desafio 284

—Arcana—

Autoras eternas
morrem cedo demais,
são infinitas
em suas letras.

Nisso,
no ofício da escrita,
sei que sou pequena,
e isso talvez me ajude
a ir mais longe...
na idade.

Ninguém se busca
nas minhas letras,
ninguém cita minhas palavras
nem em minha presença.

Ninguém leu o que escrevi,
nem você,
que me inspira
todos os dias.

Ninguém sabe
da minha tristeza.

Ninguém pensa:

quem terá sido seu amor?
Como ela era
quando menina?

Ninguém sequer imagina
quem realmente eu seja.

Sou uma ilustre desconhecida.

Viverei por muito tempo ainda,
não tenho mesmo
um público leitor,
para ao menos
ser esquecida.

Escrevo
e leio eu mesma
o que escrevo,
com medo
que eu me esqueça.

Principalmente
quando o coração aperta,
na esperança
de sentir menos dor.

Quem sabe
encontrar em meus escritos
uma resposta
que esclareça,

ou reviver na lembrança
o ardor
que me aqueça.

Sem aceitar, enfim,
a irrelevância
do que sei ser
pra você
ou pra quem não me lê.

E assim,
quem sabe,
serei longínqua em anos,

passarei dos 100
escrevendo poemas arcanos.

MarU

Marjane Satrapi e Clarice Lispector, mesma idade, na morte 56, em comum a tristeza de ambas. Clarice teve câncer. Marjane, ainda não é clara a causa, só o motivo, que podemos linkar comum. Fiquei pensando, sobre outras mulheres revolucionárias na escrita, que partiram cedo demais, N motivos, mas a melancolia fazia parte do que as identifica. Escrevi um texto, reflexo. Não exatamente sobre elas, mas sobre o ofício de escrever. As ilustres, serão eternas, ainda que venham a morrer cedo demais RIP鹿
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@MarU
há 5 dias
Público
#desafio 283

—Quatrocentas mil palavras—

Quatrocentas mil palavras,

alinhadas como soldados

diante de uma guerra

já perdida.

Na linha de frente,

nada é mais trucidante

que o silêncio
 que grita

no reflexo diante do espelho.

Esse silêncio

não é descrito em palavras,

mas em sentimentos impotentes

diante das circunstâncias.

A vida cala

e, calando, fala alto

para que a alma incruste

no subconsciente a resposta

e aceite, conformada…

que não há o que fazer.

MarU
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@MarU
há 6 dias
Público
#desafio 282

—Sóbria—

Hoje não teremos vinho.
Irei me embriagar
das palavras malditas,
sorver cada letra
em meia taça de decote,
até que te derrame do meu peito.

Hoje meu leito é frio,
como a tua capacidade
de esquecer o meu cio,
de não ceder
a esse desejo vil
e permanecer intacto.

Hoje,
romperemos nosso pacto,
como quem goza antes do outro
em descompasso
e não se importa
com o chamado em pulso,
que clama ao ápice
em conjunto.

Virando-se para o lado.

Hoje,
prometi te tirar
da minha cabeça.
Mentirei para mim mesma,
como fiz ontem,
cruzando forte
as minhas pernas,
fluindo e escorrendo
entre as frestas
o que não controlo.

Assumo.

Hoje,
queria que fosse ontem
e com a garrafa de vinho aberta,
te beber entre cobertas,
embriagada de amor,
embalados por músicas bregas,
cavalgaríamos toda a noite,
entrelaçados sem pudor.

Quem dera ontem
não tivesse acabado
e dos sonhos hoje
eu não tivesse despertado.
Quem dera estivesse ainda
embriagada.

Mas não vou beber hoje
sequer uma taça,
amortecendo o desejo
no fundo de uma garrafa,
tingindo meus lábios de rubi,
exalando o hálito perfumado de uva,
fermentando na saliva
a quentura
que te convida a viver.

Esta é outra noite tediosa.
Estou sóbria e lúcida,
sem você.

MarU
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@MarU
há 6 dias
Público
#desafio 281

—Questão—

Mar profundo
no oceano dos seus olhos,
mais uma vez mergulho,
me molho…

sozinha.

Te busco
e não encontro.

Como poderia
a tempestade me ver?

Na imensidão
deste mundo,
sou mais um ser vagabundo
com coragem de viver.

Por mais que me molhe,
a água fria
em minha pele quente
escorre.

Dissolvo, crente,
que parte de mim
mistura-se à água,
mas não serei tempestade
nem assim,
nem serei chuva,
molhada.

Trovões são música,
conversa metafísica,
mensagens escondidas
em raios
e nuvens escuras.

Não são raios de sol,
mas a luz da lua
me reflete
um pouco de brilho.

Que, translúcida,
interpreto
sem entender…

e cismo serem
seu toque de carinho
comigo.

Aqueço
um pouquinho…

Recebendo as migalhas
de um divino ser,
ou não ser.

Eis aí
minha questão
com você.

MarU
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@MarU
há 1 semana
Público
#desafio 280

—Fim de verão—

Mais uma vez
me molhei
em suas tempestades.

Agora o vento sopra
e sinto frio
e saudades.

Ouço o assovio
dos ventos,
e o frio
me toca a pele
e o peito.

Arrepio por fora
e sinto lentos
meus batimentos.

Já é tempo
de me trocar
e ir embora.

O medo
do tempo feio
não mais me apavora,
estou cansada
de tanta demora.

Primavera em mim
virou história,
outono em fim
deixou memórias.

Faz parte do fim
o inverno
de agora.

Faz parte de mim
o inferno de Caim
que me controla.

Ainda amo tempestades,
noites escuras,
a lua,
as sombras,
as músicas
e as mãos
que me lembram
as suas.

Ainda amarei
por muito tempo
o que restou
de você em mim.

Ainda amarei,
mas não poderei
continuar assim,
sem respostas.

MarU
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