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@sylvviarubra há 1 ano
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#desafio 365 dias

Dia 44 - Do que não consigo escrever

Olho para o cursor: ele tirita, lembrando-me de que um texto não aparecerá na tela se eu não dispuser meus dedos no teclado e os fizer trabalhar. Barney pula no meu colo; pelo menos meus gatos sabem que não suporto solidão.

Dou reload na página: a internet ainda não voltou. Não podia ser diferente, o dia passou como animação dos anos 30, como se estivéssemos desenhados em folhas e alguém as dedilhasse. Tanto faz: estamos separados ao final.

Ontem, ela me perguntou o que eu sentia. Ela sempre precisa etiquetar, enumerar, pesar, medir e, o que mais me atormenta, nomear. Em busca do que dizer, olho as pessoas ao redor: todas têm a mesma face. Depois julgo que as ver assim é egoísmo meu. Todas têm um cursor trêmulo à frente, à espera de que algo novo seja digitado; talvez só não o enxerguem. Ela chamou minha atenção e eu não tinha resposta. Talvez nunca tenha.

Acho que sinto fome, eu tentei dizer. Igual à do cursor: não me interessa quantas páginas já foram escritas, tremulo. E, tremendo, expando o que percebo. Curvo o mundo à minha palavra, me iludo. Egoísta é você, penso, como se ela me tivesse chamado de. Mas não falo, por lembrar que essa foi minha, e só minha, conclusão.

Você deveria ter as palavras certas; ela não me diz, mas certamente é o que pensa.

Eu nunca tenho palavras, na verdade.

São elas que me têm.

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