@calorliterario_
há 11 meses
Público
A dor me acordou antes do sol. Não foi um chamado abrupto, desses que fazem o coração disparar no susto. Foi um toque insistente, como alguém que sabe que não deve estar ali, mas também não vai embora.
De olhos ainda pesados, tentei ignorá-la. Rolei para o outro lado, puxei o cobertor, fechei os olhos com força, como se isso fosse suficiente para convencê-la de que não era bem-vinda. Mas a dor tem paciência. Sabe esperar. Sabe sussurrar no escuro até que a gente não tenha escolha a não ser escutá-la.
Ela não veio do corpo. Ou talvez tenha vindo e eu só tenha aprendido a senti-la de outro jeito. Sei que estava ali, pulsando no peito, nos pensamentos, no espaço vazio ao lado. Sei que era antiga, mas também nova. Uma dor conhecida, vestida com outra roupa.
Levantei. Senti o chão frio nos pés. Caminhei pela casa em silêncio, como se não quisesse perturbar as coisas que ainda dormiam. A cidade ainda não existia por completo. Havia só o silêncio, cortado aqui e ali pelo som de um carro distante, o barulho de árvore que o vento tocava.
A dor caminhou comigo. Não me disse nada. Apenas ficou. E eu, em vez de expulsá-la, fiz café. Sentei-me com ela. Olhei pela janela. Esperei.
A dor me acordou antes do sol. Mas eu, pela primeira vez em muito tempo, não tentei adormecê-la.
Estou cansada até pra isso, mais tarde uma agenda cheia de compromissos e eu já pensando em como de desvencilhar de todos de uma única vez….
Agora aqui às 03:15 acordada com a dor.
Comentários (2)
@JuNaiane
· há 11 meses
🥺🫂
@wilcipolli
· há 11 meses
Fiquei ansioso para descobrir qual era a dor, e no final, nem importa.
Entre para comentar.