@eduliguori
há 1 semana
Público
Após muitos afazeres e acomodações, ao entardecer ela sugeriu um café, foi ao fogão e pôs água para aquecer. A pose tradicional do pano de prato ao ombros, o pé apoiado na perna, como todos os mortais aguardam a água para passar um café.
Enquanto coava a bebida, pediu gentilmente que coletasse as xícaras, para isso ele passaria pelo corredor estreito onde ela estava e se Tesla ainda fosse vivo, ficaria alarmado com a energia que cintilou naquele pequeno espaço quando os dois corpos estiveram a poucos centímetros um do outro e certo que puderam respirar o mesmo ar que cada qual exalava.
Trêmulo, as pernas o traiam, retornou e beberam encabulados com o que havia atropelado a tarde na cozinha.
Agora, se fosse um filme, subiria uma música, uma canção, luzes mornas das cinco horas e o clima estaria perfeito para que definitivamente nossa história partisse para uma sólida trama.
Ao levar as xícaras para a pia, retornaria pelo mesma estrada em que os sinos badalaram minutos atrás, só que desta vez qual um condenado seguiu olhando firme nos olhos de sua sentença, a cada passo de aproximação a temperatura subia e apitos soavam ao longe, era como se Vivaldi estivesse compondo a primavera das quatro estações. Mais um metro, mais um passo e tão próximos estavam que seus lábios se tocaram.
O frenesi momentâneo e desconcertante deixou ambos surpresos e ele seguiu confuso ainda com a assinatura impressa dos lábios carnudos que acabara de saborear.
Não discutiram, comentaram ou revelaram seus pensamentos. Ele só sabia que havia muito tempo que não sentia o que acabara de brindar. Sequestrado pelo aroma, pelo toque mesmo que breve, compôs internamente a estrofe: se um poeta precisa estar vivo para escrever, nunca me senti mais poeta, após essa pétala que acabo de receber.
Como todos os homens encantados, frágeis se derretem e perdem seus poderes. Se tornou naquele horário, daquele ano, naquele dia e mês passageiro de um trem que o carregaria para onde desejasse, pois ela se tornara deusa, Afrodite, Perséfone e ele não diria não.
Nas datas que foram chegando e passando, houve carinho, abraços, mãos dadas, colo, sorrisos, revelações, sedução, cheiros e cafunés. Juntos e em todos os lugares onde as pessoas vivem, foram amigos, companheiros, confidentes, beberam, dançaram, choraram, riram, caminharam e distribuíram brincadeiras e provocações. Até que ele sentiu necessidade de afirmar que entre estes enlaces havia se apaixonado. Assim depressa, deste jeito sem filtros e afobado.
Havia uma reciprocidade silenciosa, se beijaram longamente algumas vezes, dormiram abraçados, cochicharam e se divertiram.
Entendia e lia que era perfeita. Tinha uma clareza imensa do mundo, culta, delicada, divertida, atrevida, inteligente, capaz, educada, consciente e belíssima. Iracema, Capitu, Gabriela, Diadorim e Pagu. Completa, absoluta e desejada.
Se aproximava a época mais temida, a partida. Me perdoe leitor por tê-lo omitido que ele estava em viagem. Ao se despedir choraram. Ele sentiu perder um membro do corpo, ou o coração. Embarcou despedaçado com receio do futuro não discutido.
Os primeiros próximos dias e por breve período foram de planos, intenções, provável partilha e sonhos. Seu coração estava emendado.
Mas as histórias nunca são assim, elas sempre tem uma revolução e a Bastilha caiu quando percebeu que a intensidade se esvaia com o tempo somado a distância.
Então com o impulso dos bravos decidiu lutar, sabre em mão que venham os dragões. E foi tentar buscar a fulô que o sequestrou.
E como diz aquele ditado, nada se perde, tudo se transforma.
A caminhada deu espaço para a razão, para os conselhos, para a visão, e por motivos até hoje não revelados, as lágrimas, a saudade, os planos foram resumidos na frase:
"Eu te amo, mas não desse jeito, não desta forma"
Edu Liguori