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@CrisRibeiro há 5 horas
Público
Acabei de assistir a The Watchers e amei o filme e vim tagarelar aqui… É a história de Mina, uma jovem que acaba perdida em uma floresta e encontra um abrigo onde outras pessoas estão presas. Todas as noites, elas precisam ficar diante de uma grande parede de vidro enquanto criaturas misteriosas as observam. E existe uma regra muito clara: não dá para sair. A premissa já é ótima para um suspense. Mas o que me interessou mesmo foi o tema do olhar que, psicanaliticamente, nunca é uma coisa tão simples. A gente gosta de pensar que existe uma diferença confortável entre quem olha e quem é olhado. Só que, na prática, o olhar do outro começa a morar dentro da gente muito cedo. A criança aprende a se perceber através do olhar dos pais.Depois vêm a escola, os amigos, os amores, a sociedade. “Isso pode.” “Isso não pode.” “Assim você fica bonita.” “Assim você está exagerando.”“Não faça isso.” “Não seja assim.” E, quando percebemos, ninguém precisa mais mandar…a gente se vigia sozinho. Se poda. Se adapta. E, muitas vezes, vai anulando justamente aquilo que nos torna quem somos. E aqui entra uma pergunta bem psicanalítica: Quem somos nós quando ninguém está olhando? Aliás, será que existe mesmo esse “ninguém”? Freud nos apresentou o inconsciente, esse lugar onde ficam desejos, medos, lembranças e conflitos que muitas vezes preferimos não encontrar. Jung, por outro caminho, fala da sombra: aquilo que não queremos reconhecer em nós mesmos e que, justamente por isso, pode ganhar uma força enorme. E The Watchers brinca deliciosamente com essa ideia: o monstro está lá fora. Mas, quanto mais a história avança, mais desconfortável fica a pergunta: E se o monstro também estiver dentro? Não necessariamente como uma criatura literal, claro, mas como aquilo que reprimimos, que não queremos lembrar. Aquilo que tentamos manter trancado porque parece mais fácil viver sem olhar. Só que o inconsciente tem uma péssima educação, né? Ele não costuma bater na porta antes de entrar. E talvez seja por isso que o filme seja tão inquietante. O medo não vem apenas da ameaça externa. Vem da sensação de que existe alguma coisa sobre nós mesmos que ainda não conseguimos enxergar. E existe outra coisa que achei muito interessante: o filme trabalha com a ideia de pertencimento. Porque, quando estamos assustados, aceitamos regras absurdas com uma facilidade impressionante! Não necessariamente porque acreditamos nelas. Mas porque precisamos desesperadamente que alguém nos diga como sobreviver. É assim que muitas relações de poder começam: alguém oferece segurança, depois oferece regras. E, quando você percebe, já está chamando prisão de proteção. Essa talvez seja uma das coisas mais humanas do filme. A gente suporta muita coisa quando acredita que aquilo vai nos manter seguros, inclusive versões de nós mesmos que já não cabem mais. No fim, The Watchers pode ser visto como um filme de criaturas, floresta, mistério e suspense (e dos bons), mas também pode ser visto como uma história sobre identidade, trauma, memória, repressão e esse desejo quase infantil de encontrar alguém que finalmente diga: “Eu sei quem você é.” E aí mora o maior perigo: ser visto pode ser maravilhoso.l, mas também pode ser assustador. Principalmente quando alguém enxerga aquilo que passamos a vida inteira tentando esconder de nós mesmos. “Quem são os Watchers?” É mesmo preciso saber? Ou é melhor perguntar: “Quem está olhando para você quando você pensa que está sozinho?” Porque não é raro que a pessoa que mais nos vigia, nos cobra, nos pune e nos tortura seja justamente aquela que mora dentro de nós. E talvez amadurecer tenha um pouco a ver com isso:parar de viver diante do vidro e finalmente descobrir quem somos quando ninguém está mandando a gente ser alguma coisa. Eu estou nesse doloroso processo. E você?

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