@edsonbas
há 1 mês
Público
Streaming de sonhos (parte 1)
Enquanto eu caminhava pela Times Square, eu percebi que todas as pessoas que passavam por mim ficavam me encarando. Uma dessas pessoas até me esbarrou e disse que era meu fã, que curtia tudo o que vinha de mim e que eu era o melhor. Sem saber do que se tratava, perguntei do que ele estava falando. Ele só apontou para cima, para um dos telões e disse: "- Eu assino o pacote Premium Live 18+".
Quando levantei a cabeça para olhar, o restante do meu corpo quase acompanhou o movimento e caiu para trás. O telão mostrava eu voando e, de dentro das nuvens surgia o anúncio: “Dream Stream - O streaming de sonhos - Live e On Demand - 1° mês grátis”. O que era aquilo? Um sonho meu sendo vendido? Eu voando entre as nuvens? Por que uma pessoa iria querer assistir isso? Espera! Aquele homem tinha falado em 18+. O que ele quis dizer com isso? Estão vendendo todo tipo de sonho? O que está acontecendo? Como? Onde? Quando? Por que?
Levei um bom tempo para voltar a mim. Tudo aquilo ficou rodando dentro da minha cabeça por muito tempo. Pelo menos foi essa a impressão que eu tive, a de que fiquei alí parado, boquiaberto, sem piscar os olhos, encarando eu mesmo naquele telão e tentando entender. E não entendi. Mas queria. Então memorizei o nome do streaming, Dream Stream, o número do telefone e o endereço do site. Acho que eu nunca tinha conseguido memorizar tanta informação ao mesmo tempo.
Com os dados que eu tinha, não foi difícil descobrir o endereço da sede da empresa responsável pelo streaming. O difícil foi chegar até lá, pois eu não conhecia nada nem ninguém por alí. Eu não era dalí. Pensando bem, o que eu estava fazendo alí? E como eu estava conseguindo falar e entender inglês? Perdi mais um bom tempo tentando “digerir” todas essas perguntas. Não consegui e desisti. Resolvi revistar meus bolsos. Encontrei um cartão de banco. Parei para tomar um café, pedi informações, peguei ônibus, metrô. Em todos os lugares, o cartão foi aceito.
Desci numa estação do metrô que ficava em frente à sede da tal empresa. Foi só atravessar a avenida e lá estava eu. Não era muito grande, três andares apenas. O primeiro era para atendimento ao cliente. Os atendentes foram muito educados, mas não souberam dar nenhuma informação que não fosse sobre preços de assinaturas e as vantagens de cada pacote de programação. Pedi para falar com o gerente. Ele me encaminhou para o terceiro andar, onde ficava a administração. Disseram que não sabiam como funciona o processo, pois só eram responsáveis por transmitir as imagens para os assinantes. Na saída, o gerente insistiu para que eu ficasse com o cartão dele. Peguei e o enfiei no bolso. Agradeci e saí.
Voltei para a estação do metrô. Sentei num banco e abaixei a cabeça. No meio do caminho para baixo, meus olhos viram o cartão do gerente no bolso da camisa. Peguei. Tinha o nome da empresa, o dele e os contatos dos dois. Nada demais, um cartão de visita normal. E no verso? No verso, escrito à caneta, um endereço e o nome de uma outra empresa: Mind Chip Corp. Levantei, tomei mais um café e comecei uma nova jornada.
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