Mais que opinião alheia, importa a verdade que você carrega de si.
Ele nascia no alto da serra, entre árvores frondosas, com uma vista deslumbrante. Deslizava pelas fendas feito um véu de noiva: leve, sereno, quase etéreo. Os animais que habitavam aquele lugar o observavam e murmuravam:
— Ele é estreito, raso… suas cachoeiras não têm cor. Nada se compara ao mar, vasto, profundo, da cor do céu.
O riacho, de tanto ouvir, começou a acreditar. Cada vez que olhava lá do alto, sentia-se pequeno, insignificante. Afinal, era apenas um fio de prata, e o rival, imenso, parecia ter todo o poder do mundo.
Ele observava os navios cruzando o tapete azul e se entristecia ainda mais. Queria ser gigante, abrigar tubarões, ser palco das acrobacias das baleias, berço de pérolas. Em suas piscinas só nadavam peixinhos, que refletiam sua pequenez. Mas o desejo de crescer era intenso. Sonhava em encontrar aquele que lhe causava inveja e perguntar-lhe o segredo da grandeza.
De tanto desejar, a força de seus pensamentos provocou uma tempestade em seu próprio abrigo. Rochas enormes rolaram da montanha em fúria e caíram lá embaixo com estrondo. Ignorando o desastre que havia provocado, ficou orgulhoso: se as pedras podiam descer, ele também podia. Então, deixou-se levar pela chuva torrencial, esticou seus braços fluentes e deslizou até a praia.
Ao chegar à areia, o sol era intenso e seu líquido cristalino se turvou, misturado à terra, à poluição e à pressa. Desesperado, correu em direção ao sonhado arquétipo. Uma onda veio ao seu encontro e o envolveu num abraço firme e salgado. O rio, assustado, se deixou levar. Misturou-se à maré profunda, sentiu o gosto do sal, das embarcações, a densidade do oceano, o poder que antes lhe parecia inalcançável.
Então ouviu pessoas comentando sobre sua beleza, sobre a delicadeza de sua bruma multicolorida, sobre a importância de suas águas cristalinas. Olhou para cima e sentiu vergonha dos sentimentos que carregava dentro de si. Saudade da origem, do silêncio, do verde da serra, das flores, da pureza de sua nascente.
E foi assim que descobriu seu valor: cada um tem sua medida, seu brilho. Ele era doce, essencial, único. E sua beleza, diferente da do mar, era igualmente grandiosa.
Infiltrou-se no solo o mais fundo que pôde, aconchegou-se num lençol freático e se deixou levar de volta ao seu leito no topo da colina, onde vive até hoje, amigo de todos os seres da floresta, mas sem permitir que a opinião alheia interfira em sua autoestima. Havia aprendido: ignorava o que pensavam sobre ele.
Estava atrasada. O táxi cortava as ruas como se fugisse de algo — talvez de mim. Eu queria partir. Outro país, outro idioma, outro fuso. Qualquer coisa que me desse a ilusão de começar de novo. Na bagagem, além das roupas e dos documentos, levava uma dor que ainda latejava fundo: um romance que não deu certo.
Quando o avião decolou, senti um aperto estranho. Não era medo de altura, mas de não conseguir ir embora. A cidade encolhia sob as nuvens e, por um instante, senti alívio. Achava que estava escapando. Mas bastou olhar pela janela: tudo diminuía — casas, ruas, memórias — exceto o amor.
Esse crescia, como se a longitude aumentasse aquilo que eu queria enterrar.
Lá embaixo, a paisagem se desenrolava como um mapa vivo. Rios e lagos uniam lugares, campos, florestas. E pensei: talvez até o sofrimento seja uma forma de ligação. Dentro da aeronave, línguas diferentes se misturavam — português, inglês, espanhol. Pessoas distintas, destinos variados, cruzando as mesmas nuvens, respirando o mesmo ar pressurizado. A diferença era só a linguagem porque, no silêncio, no gesto, no olhar, éramos iguais.
Pedi um espumante. Brindei sozinha.
À tentativa de ignorar o sentimento.
À fantasia da distância como cura.
O jantar veio e, com ele, pensamentos:
Quem plantou esse trigo?
Quem embalou esse molho?
Tudo conectado — do campo ao prato, da terra ao céu.
Anoiteceu. O horizonte ficou escuro e salpicado de estrelas. Tecido cósmico. Tapeçaria divina. Onde estaria a aeronave agora? Em que país e em que tempo? E, mais do que isso, quem foi que decidiu dividir o globo em pedaços, como se fosse um quebra-cabeça, quando, na verdade, tudo sempre foi uma coisa só?
Olhei para a tela que mostrava o avião cingindo o espaço — uma animação boba, um ícone flutuando sobre tons de azul profundo. E foi ali, naquela representação simplificada do planeta, que algo dentro de mim se expandiu: o universo não tem demarcação. A vida inteira estamos tentando construir muros, quando, na verdade, o mundo é feito de pontes.
Por mais que o ser humano se esforce para separar, rotular, disputar e guerrear — por solo, poder, religião, ideias ou por amor — no fim das contas, nada disso importa. Estamos todos ligados. Por memória, por afeto, por ausência.
O mesmo mar que banha um país atravessa também outro. É a mesma água, em movimento, que abraça territórios que se dizem inimigos. As fronteiras são invenções humanas, linhas imaginárias traçadas por medo. Não há separação, apenas continuidade. Somos, talvez, peças do Todo, espalhadas por um cosmo imenso, misterioso e em evolução.
Talvez seja isso que chamam de vida: um eterno ir e vir, tentando costurar pedaços nossos espalhados pelo mundo. Talvez amar seja justamente reconhecer que nada está realmente distante. Que aquilo que dói, permanece. Que aquilo que é verdadeiro, encontra caminho.
Respirei fundo e fechei os olhos. Lá fora, o oceano continuava a se mover, indiferente às divisas. Aqui dentro, meu coração também — insistindo em se lembrar do que importa.
Porque, no fim, percebi que eu não estava fugindo de uma paixão.
Eu estava voltando para mim.
E quando estamos bem conosco… nunca estamos sozinhos.
O Espírito da Big Apple Um conto sobre personalidade, propósito e o desejo de ir além do que esperam de nós. Afinal, há quem prefira ser escolhido — e há quem ouse escolher.
Dizem que, certa vez, em um pomar distante, nasceu um fruto diferente. Trazia em si uma inquietude — uma vontade de ir além das raízes. Desde pequena, sentia que a vida podia ser mais do que um simples pote de geleia. Ela não queria amadurecer apenas para cair. Queria compreender o céu. Apesar de ter nascido da mesma macieira, nunca se sentiu somente parte dela. Enquanto as irmãs se vangloriavam da aparência da casca e da doçura da polpa, ela se perdia observando as borboletas, encantada com a possibilidade de um dia poder voar também. — Sonhadora! — diziam. — Em vez de conversar com insetos, devia se preocupar em sobressair para que suas sementes sejam escolhidas na próxima safra! Mas ela não queria ser escolhida. Queria escolher. O tempo passou, e fez amizade com abelhas, joaninhas e até com algumas criaturas consideradas pragas. Assim, o quintal passou a vibrar em harmonia — e os parasitas, sem sintonia com aquela vibração, buscaram outras plantações para habitar. O lugar floresceu. Então, o mundo notou. Um dia, chegaram homens com câmeras e microfones, tentando capturar o mistério daquela fazenda. Ela pressentiu que algo sagrado estava para acontecer. No instante em que o jornalista ergueu a lente, o panapanã coloriu o ar, e o sol rasgou as nuvens, iluminando seu galho. Uma pomba branca pousou sobre ela — guardiã do instante. E brilhou com uma intensidade jamais vista — como se o céu tivesse se inclinado para tocá-la. A imagem correu o universo. Símbolo do amor e da beleza, estampou capas de revistas, apareceu em comerciais e inspirou artistas. Logo, os prêmios mais cobiçados da cidade — especialmente no mundo das corridas de cavalos — começaram a ser apelidados de “The Big Apple”, por causa do encanto e da grandeza daquele pomo vermelho. O termo ganhou o coração dos nova-iorquinos e, mais tarde, tornou-se símbolo da metrópole que nunca dorme. Desde então, dizem que o espírito da maçã vive em Nova York. Esconde-se nas luzes dos arranha-céus, entre as árvores do Central Park e nas águas que cruzam o Hudson, no murmúrio das multidões que não param. Porque a cidade, como ela, aprendeu a não se conformar com o cesto. Aprendeu a brilhar.
Fui demitido depois de trinta anos trabalhando como almoxarife.
O chefe alegou que a empresa precisava “renovar o quadro” de colaboradores. Bonita forma de dizer que eu já não servia mais.
Estranho como o ser humano é, às vezes, tratado como uma peça gasta, sem conserto — um objeto que perdeu a utilidade.
Recolhi meus poucos pertences das gavetas e, enquanto caminhava até o portão, senti o peso leve de quem não carrega mais crachá, mas a estranheza de quem perdeu o chão.
Se meu corpo estava cansado, minha mente nunca estivera tão desperta.
Saí sem pressa.
Os passos, antes longos e céleres, tornaram-se lentos, como se eu redescobrisse o ritmo das horas.
Ao atravessar a rua, um som me chamou a atenção — o canto de um sabiá.
Foi então que reparei em um parque do outro lado da rua, algo que sempre estivera ali. Talvez a rotina acelerada tivesse me cegado.
Decidi adiar a volta para casa. Afinal, eu tinha o dia inteiro livre.
Entrei no bosque, curioso. O ar fresco tocou meu rosto, convidando a ficar.
As árvores altas entrelaçavam galhos sobre mim, formando uma catedral verde.
Sentei num banco. Admirei os patos. Me encantei com as flores dançando nas margens do lago.
A paisagem respirava, mas era ignorada.
Pessoas passavam correndo, com fones nos ouvidos, alheias à canção dos pássaros.
Mães empurravam carrinhos de bebê sem notar o sorriso dos filhos — presas às telas luminosas dos celulares.
Ali confirmei o que sempre soube: a idade de uma pessoa não se mede pelo tempo, mas pela luz que brilha na alma.
Dialoguei com idosos que ainda não sabiam que a existência se torna mais serena quando aceitamos e aprendemos com as diferenças.
Acredito que não estamos aqui a passeio. Precisamos dar nosso recado ao mundo, deixar marcas em gestos fraternos — e, quando fazemos isso, a trajetória ganha cor e significado.
A bagagem que levamos ao partir não é material; quanto mais leve a mala, mais suave a travessia.
A vida é didática — às vezes coloca obstáculos para que compreendamos o sentido de cada desafio.
E sorrio — porque ocasionalmente recebemos sinais cifrados, que podem vir pelo canto do sabiá.
No dia 31 de outubro, algo mágico acontece: o véu que cobre os mundos fica mais transparente!
Kundo, o duende da sabedoria, florescia de alegria.
Ele queria provar que o medo é uma forma de controle disfarçada.
Pelo Cosmos, criaturas fantásticas bailavam entre varinhas de condão, caldeirões fumegantes, poções mágicas e caveiras risonhas — e entre elas estava Mafalda, uma bruxinha de seis anos, com vestido púrpura e olhos ansiosos que faiscavam como estrelas.
De repente, um vento brincalhão de Kundo arrastou todos para o outro lado do véu — direto para uma festa na Terra!
A noite mágica já encantava a Vila dos Despertos, e a celebração de Halloween prometia surpresas assombradas.
A fogueira estalava com chamas atrevidas, e abóboras sorridentes iluminavam mesas repletas de doces em forma de morcegos, aranhas e monstrinhos coloridos.
Bruxas em vassouras deslizavam pelo ar, fadas cintilavam como arco-íris, fantasmas atravessavam paredes, zumbis tocavam músicas engraçadas, e múmias dançavam, sacudindo seus esqueletos em ritmo maluco — animando e convidando todos a entrar na roda.
Mafalda corria de mãos dadas com Duda, um garoto humano.
Eles riam e pediam doçuras em troca de travessuras.
Fantasmas zombeteiros atravessavam paredes, fazendo os humanos rir e aplaudir.
O olhar não julgava, e o impossível era verdade.
Era a lógica zombando das certezas.
O encantamento não exigia explicação — apenas abria espaço para que o mistério florescesse, e a magia surgisse.
O possível, disfarçado de impossível, brincava, se escondia e só se revelava para quem acreditava nele e lhe dava asas.
Então, Kundo subiu no palco com uma bola de cristal nas mãos.
— Agora vocês vão ver a verdade! — anunciou.
E o sorriso se perdeu diante da dúvida sobre o que viria a seguir.
E todos viram.
De um lado, humanos.
Do outro, criaturas fantásticas.
Por um instante, houve pânico.
Gritos.
Silêncio.
Mafalda e Duda olharam assustados.
Mas a inocência não compreendeu o porquê da confusão!
Continuaram de mãos dadas e começaram a rir.
E, aos poucos, o medo de todos se quebrou como vidro.
O horror não existia.
Era só brincadeira.
Kundo ergueu o véu, e a noite seguiu encantada, abrindo espaço para mais festejos.
No dia seguinte, todos os santos seriam lembrados.
E, logo depois, em 2 de novembro, flores e velas iluminariam a memória dos que nunca se vão.
Quando o sol nasceu, o feitiço se desfez.
As máscaras voltaram a cobrir rostos.
Mas, na Vila dos Despertos, ninguém esqueceu: o medo nada mais era que ignorância.
E todos — humanos, bruxas, fadas, fantasmas e duendes — pertenciam à mesma dança.
Ali dormem objetos antigos, obras de arte, mitos e muita história. Caminho entre as alas do museu como quem atravessa gerações — cada sala é um portal, cada vitrine um eco do que já foi vida. Na maioria delas, o ar é denso, de séculos. Os sarcófagos, expostos como joias raras, guardam o silêncio de civilizações que insistem em não partir.
Entre os artistas mais consagrados estão: Michelangelo, que toca o divino com as mãos; Da Vinci, que desafia um sorriso enigmático; e Caravaggio, que captura sentimentos dançando entre a claridade e a escuridão profunda.
Sinto um chamado estranho que não identifico. Meu coração me conduz à escadaria Daru. Com cautela, subo os degraus, temendo acordar os espectros que vigiam os destroços da Grécia antiga. E ali, no topo monumental, reina uma deusa alada — imóvel e viva. Ela atrai a multidão que caminha cega, fascinada por seu brilho.
Como quem se aproxima de um altar, paro diante dela, e um arrepio percorre meu corpo. O mármore de Paros respira e pulsa. A figura imponente cativa olhares e admiração, mesmo mutilada. As asas, abertas ao sopro invisível do mar, ainda preso em suas dobras. Ela não foi esculpida apenas em pedra — foi moldada em sonhos, desejos e tempos suspensos.
A imagem transcende. Sua essência flutua entre matéria e éter. Com um pé na terra e outro no infinito, sua envergadura triunfal abre águas invisíveis.
O vestido branco guarda o sal do criador. Da proa de um navio imaginário, ela me convida a atravessar as eras. E, de repente, o murmúrio do Louvre se dissolve. O relógio se detém. Os passos ecoam, distantes, desaparecendo nas paredes de rocha. Do alto do palco de calcário, ela vibra — e o portal se abre.
Totalmente inebriada por sua presença, aceito o convite. Embarco. A nave flutua, rasgando o vazio. Ao longe, avisto a ilha de Samotrácia. Aporto num século que se foi.
Lembranças despertam. A areia quente abraça meus pés. O instante traz um perfume — reconheço mesmo antes de lembrar. É o mesmo que senti quando te perdi. Um frio percorre o estômago. A dor despedaça minha alma, que vaga à deriva.
Corro. Subo a colina e te procuro junto às ruínas do Santuário dos Grandes Deuses. Clamo por você entre os vestígios da época, mas encontro apenas a resposta do teu nome. Sou parte daqueles que estão no Templo dos Mistérios Sagrados.
Ali, uma mulher alada reina completa. Flutuando à frente do barco, a deusa olha para o azul do Egeu. Sua mão saúda a vitória com leveza. O pé roça suavemente a nau. A roupa é presa pelo vento.
Desesperada, busco teu rosto entre os corpos caídos no chão. Grito. Driblo a guerra. Enfrento os soldados romanos. Por um instante, vejo teu olhar — mas ele se apaga, como uma estrela que decide voltar ao céu. O sangue mancha minha pele. Registra medo e perda do amor em minha essência.
A natureza completa seus ciclos. A tempestade soterra tudo. Minha fé e minha paixão repousam submersas. A morte chega — e me leva, para que eu possa surgir novamente.
Um lampejo me traz de volta ao museu. Agora eu vejo: Nike, sem mãos. Alcança o presente com a mesma grandeza com que consagrou a vitória no passado. Sem olhos, mas capaz de iluminar — de transformar Paris em cidade-luz.
Despeço-me do Louvre Mergulho na noite. Ainda tento encontrar você em qualquer resquício onde possa existir história — onde o tempo, em segredo, ainda nos recorda. Deixo para trás o peso das salas escuras, o cheiro de funeral, o ancestral fossilizado. Levo comigo a saudade daquele dia — teu beijo, e o sopro invisível da Samotrácia.
Dizem que, quando nascemos, um livro se abre no universo. As primeiras frases são escritas por mãos invisíveis — talvez o destino, talvez o acaso. Mas o restante… ah, o restante pertence apenas a nós.
Você sempre soube disso, mesmo sem perceber. Desde pequena, gostava de imaginar que a vida era uma grande história sendo desenhada a cada instante. E, como todo bom autor, aprendeu cedo que não existem linhas perfeitas — apenas aquelas que fazem sentido dentro do coração.
No começo, tentou seguir o roteiro que os outros sugeriam: textos previsíveis, personagens convenientes, finais seguros. Mas em algum momento percebeu que estava escrevendo uma biografia que não era a sua. Então, apagou, respirou fundo e decidiu recomeçar.
Foi assim que o gênero da sua história mudou.
Deixou de ser drama e passou a ser aventura.
Vieram os capítulos intensos — aqueles de luta, de insegurança e de noites insones. Mas também vieram as vitórias, as descobertas e o brilho de um novo amanhecer após cada tempestade. Você aprendeu que toda narrativa grandiosa precisa de emoção — e que o nome disso, no fundo, é crescimento.
O medo, esse personagem insistente, tentou roubar espaço em várias passagens. Mas você o venceu — não o eliminando, e sim convidando-o a caminhar ao seu lado, para que ele aprendesse o que é coragem.
Hoje, suas páginas estão marcadas por rabiscos e reescritas. Há trechos excluídos, parágrafos refeitos e versos que você decidiu transmutar. E é justamente isso que torna sua obra viva, autêntica e rara.
Não há nada mais mágico do que chegar ao epílogo e perceber que cada linha — até as mais doloridas — ajudou a construir uma história digna de ser lembrada.
Por isso, continue.
Não permita que ninguém escreva por você.
Seja intensa: ame, seja poesia, viva um romance.
Seja ousada — e, se for preciso, arranque páginas e recomece quantas vezes for necessário.
Seja sábia o bastante para reconhecer que só você sente o que pulsa dentro do seu próprio enredo.
E quando alguém, um dia, abrir o livro com o seu nome na capa, quero que sorria ao perceber:
A mulher deixa-se embalar pelo ritmo do vento que move a rede. Observa a noite iluminada à sua frente.
A lua brinca de esconde-esconde. Nuvens afoitas tentam apagar sua luz, mas para ela, soberana e única, pouco importa estar em primeiro plano.
Sedutora e senhora de muitas faces, ora se recolhe no quarto minguante, ora na fase nova. Cresce ao longo das semanas e, finalmente, se entrega por inteiro — plena e cheia, como nesta noite.
As duas vibram na mesma frequência; seus ciclos são um só. Então, um intruso se aproxima. A disputa feminina paira no ar. Ele surge de mansinho, vindo da escuridão.
O clima de paixão se adensa. A mulher, tomada por ciúme, intui que o amor entre ele e a feiticeira vem de outras eras. Desconfia que se encontram nas madrugadas — num namoro secreto.
A lua, desejando impressioná-lo, cintila com toda a sua intensidade. O homem veste um manto de névoa e dança pelo gramado, seguindo o ritmo das marés.
A mulher percebe que sua presença é ignorada. Levanta-se e decide também entrar no palco. Com medo de quebrar a magia daquele instante, sente a terra sob os pés e caminha lentamente.
Ele ignora sua presença e continua a bailar livremente. Tomada por uma intensa necessidade de fazer parte daquele espetáculo, a mulher compreende que precisa entrar em cena.
Libera seu perfume. Seu cheiro atrai a criatura, que, fascinado, bebe o elixir de sua taça. Ela o observa com paixão, como um mestre diante de sua obra-prima. Seu corpo se torna leve, como tinta na ponta do pincel de um artista. Deixa-se conduzir, permitindo que ele defina suas nuances e formas. Entrega-se ao compasso frenético e multicolorido da obra, que finalmente se completa.
Uma conexão ancestral. A fertilidade ascendente. Masculino e feminino se fundem em prazer. E a lua, em silêncio, brilha — mera testemunha.
Ela era o nó silencioso que amarrava várias estradas. Estava ali desde antes do tempo registrado.
No início, o lugar era oceano; depois, tornou-se deserto. Ela, que fora um pequeno grão de areia, crescia, acumulando matéria orgânica que grudava em seu corpo, resultado dos tombos que levava. No começo, era frágil e se quebrava; com o passar das eras, ganhou resistência.
Cavaleiros e algumas carroças solitárias começaram a cruzar seu caminho. Nas noites de sexta-feira, ela era altar. Um grupo depositava oferendas sobre ela. O sangue de animais, velas, cachaça manchavam sua pele. A encruzilhada se iluminava com a luz trêmula dos rituais, e ela absorvia a energia, em clima de oração.
Movia-se apenas quando um casco de animal a empurrava, quando uma roda passava sobre ela e a fazia rodopiar, ou quando algum desatento a chutava. Uma vez, uma enxurrada a arrastou para o barranco, e ela só retornou à estrada anos depois, quando uma família a escolheu como base para a fogueira de um piquenique. Naquele dia, sentiu o calor aquecê-la, o que provocou um desejo enorme de soltar faíscas.
Mas naquela manhã, tudo mudou.
Veículos enormes invadiam a rodovia. Máquinas ruidosas arrancavam pedaços do solo que ela chamava de lar. O mundo se multiplicava em possibilidades e vozes, e, de repente, uma pá de ferro gigantesca a abocanhou junto com a terra.
Dentro da caçamba, soterrada, o mundo se abriu com um solavanco. O caminhão partia em velocidade. Do alto, olhou para a rotatória e viu que um horizonte poeirento ficava para trás. Os buracos do trajeto a faziam emergir ainda mais do cume de chão despedaçado. Depois de horas saltitando, uma colina surgiu à frente. O ar ficou fresco, quase líquido. A vegetação mudou; agora era verde vibrante, cheia de viço. As cachoeiras caíam em perfeitos véus de noivas. Flores bordavam os barrancos, colorindo tudo ao redor. Ela ficou fascinada; o chão que conhecia era feito apenas de lama, sem vida, sem nuance.
Ao final do trajeto, deslizou junto com a terra que ainda carregava o cheiro do antigo lar. Caída no gramado, ficou por uma semana. Mãos cuidadosas a tocaram com fascínio e a colocaram em uma carriola. Um par de olhos sensíveis olhou para ela — "Que xisto incrível… Vai ficar perfeito no novo projeto" — sussurrou alguém.
A sujeira que a envolvia foi retirada. Segura por luvas de borracha, recebeu seu primeiro banho. Sentiu a bucha ativar sua crosta, e seus veios tímidos azulados apareceram. Agora podia revelar seu brilho oculto.
Meses depois, a cruz de madeira ergueu-se no alto da montanha. Uma igreja nasceu, e o sino da torre badalava com força. Polida, reluzente, foi colocada no altar entre dois anjos, tornando-se a pia batismal que receberia a água e o choro das crianças, guardando memórias e esperanças no fundo de sua alma de rocha.
E ali, finalmente, aprendeu que, mesmo uma pedra lançada à encruzilhada do tempo, podia ser lapidada — e se tornar luz.
O chamado ecoa; o coração sente. Ela segue, sobe os degraus de pedra, observa — e não vê. No alto da torre, o cenário panorâmico sepulta o horizonte, que se veste de nuvens como uma mortalha. Toca o passado. O antigo sino de ferro fundido permanece calado. Passa os dedos pelos desenhos forjados em ferro e devoção. Juntos, no mesmo templo — ele no subterrâneo; ela no alto da torre —, ambos escutam o mesmo cântico ressoando entre seus mundos. A alma dela se eleva — sente a vibração da presença que mora no calabouço. A sombra dança na escuridão; ele recita versos em silêncio. Cada nota é uma centelha que aquece, como um corte profundo — um refrão que dissolve o “eu”, até restar apenas o pulsar do mistério que a instiga. A melodia atravessa os dois; mesmo separados, consagra. Ela o aceita, acolhe, transcende; na diferença, tece significado. Ele se deixa permear, esquece a prisão, oferece-se à força que o desnuda. E, por um instante — breve e eterno —, um jorro de luz atravessa a rocha. O abismo e o alto se encontram. Os dois reconhecem o mesmo ritmo, a mesma origem. O mundo sopra entre eles — invisível e, ainda assim, palpável. Um tempo se dobra, se reflete, se transforma. Do cume da fortaleza, ela entende que a canção não lhes pertence. Do fundo da galeria, ele sente que o canto não precisa de resposta — apenas de presença. E assim, o sentimento continua, ignora as muralhas, aquecendo o que já foi tocado pelo amor — e que dispensa palavras por, desde o início, simplesmente ser.