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@rosana858

Rosana Elizabet Schumaher
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@rosana858
há 4 meses
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O Sentido de Existir

Ela dormia serena entre baldes, vassouras e rastelos.
O ar cheirava a fertilizantes, pesticidas e substrato.
Ninguém sabia desde que época estava ali — talvez anos, talvez décadas — à espera de uma oportunidade que a fizesse despertar.

O espaço era abafado, escuro, e o ar pesado, mas nada disso a incomodava.
Não sentia desconforto — desconhecia que podia existir vida fora do frasco que a aprisionava.

Diariamente, pessoas entravam e saíam, e vozes de diferentes timbres ecoavam pelo pequeno depósito.
Até que, num dia qualquer, uma menina curiosa resolveu abrir a porta emperrada.

O armário revelou infinitos potes de vidro cobertos de poeira.
Em um deles, uma etiqueta amarelada trazia a palavra quase apagada: “Baobá.”
A garota passou a mãozinha sobre o recipiente e descobriu que, dentro dele, repousavam pequenas sementes.

Com esforço, abriu a tampa corroída pela ferrugem.
O pote, escorregadio, caiu de suas mãos — e o cristal se partiu.

Assustada, temendo a bronca dos adultos, recolheu os grãos e os guardou em outro recipiente, devolvendo-o à prateleira.
Fechou novamente a porta da estante, deixando os gérmens outra vez, encarcerados no tempo.

Mas, no instante em que o vidro se quebrou, uma bolinha branca aproveitou o breve sopro de liberdade e saltou.
Ela se lançou ao desconhecido e buscou refúgio entre as fibras do velho capacho.

Ali ficou — esquecida.
Até que, um dia, sentiu frio.
Sua casca gelou.
Agora estava exposta, fora do abrigo transparente.

Uma bota suja de lama pisou sobre ela, que aproveitou para grudar-se à sola, encontrando morada temporária.
Cada passo era um atrito, um chamado.
Então, escondida nas ranhuras, começou a mover-se.

A princípio, ficou assustada.
Não conhecia o mundo.
O passo apressado do seu hospedeiro pisou numa poça d’água.
Ela se soltou do couro e mergulhou.

Sentiu-se mole, desamparada, com saudade da antiga morada entre as amigas adormecidas.
A chuva veio forte e a levou para longe.

Agora, em um sulco profundo, ela começou a vibrar.
Havia algo acontecendo dentro dela — algo que não conseguia mais conter.
O calor do sol a envolvia.
Os pássaros cantavam.
A brisa trazia perfumes adocicados e lhe afagava.

Então, seu invólucro começou a rachar.
Ela ouviu uma voz que vinha do seu interior.
Era o chamado da vida — que exige evolução.

Desesperada, agarrou-se à terra — e, desse esforço, nasceram raízes frágeis que, aos poucos, se firmaram.
Sua base aprofundou, fortaleceu.

Quando olhou para si, percebeu que seu topo também havia se rompido — e dali brotavam folhas verdes.
Cresceu.
Atingiu altura considerável.
Saiu do buraco.
Deu abrigo aos animais.
Mas ainda sentia que seu desígnio não estava completo.

Absorveu a luz.
Respirou o ar.
Fez fotossíntese.
Floresceu.
Encantou.
Coloriu o mundo.

Atraiu abelhas e insetos que dançaram em torno dela.
Ofereceu seu pólen, que se transformou em mel.

Na estação seguinte, viu suas flores perderem as pétalas.
Mas agora sabia: não é preciso temer a transformação.

Gestou com plenitude seus frutos — e, ao vê-los amadurecer, servindo de alimento, sorriu satisfeita.
Seu destino estava quase cumprido.

Aproveitou o vento, espalhou sua memória genética, permitindo que seu legado viajasse para além do tempo — onde cada semente renasceria, não por acaso, mas por coragem — cumprindo o propósito de existir em plenitude.

Ela, árvore.

@rschumaher
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@rosana858
há 4 meses
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Conto sem fadas

Alguém decide transformar o velho livro de contos infantis em um arquivo digital. Porém, algo sai errado.
Era uma vez um espelho mágico que pertencia a uma invejosa rainha má. O objeto, que só dizia a verdade, revelou a Chapeuzinho Vermelho que algo catastrófico havia acontecido: uma pane virtual danificara arquivos no mundo inteiro, deixando personagens perdidos em histórias embaralhadas.
A menina acessa a página e se depara com retalhos de capítulos. Sem hesitar, segue adiante. Esgueirando-se entre uma frase e outra, observa que a Bela Adormecida está acordada e sendo beijada pelo namorado da Branca de Neve. Branca de Neve, analisando a situação, decide procurar o sapo príncipe da rival e cobri-lo de beijos, estabelecendo um equilíbrio para a traição observada.
No próximo parágrafo, três porquinhos aparecem desorientados em uma floresta. Cícero, Prático e Heitor encontram um caminho feito de migalhas de pão e resolvem segui-lo. A trilha os conduz até a casa de Joãozinho e Maria, onde são recebidos pela madrasta das crianças. Em poucos minutos, os três se tornam um suculento assado.
Chapeuzinho fecha o site e abre a próxima janela. Num flash infantil, surge um castelo com uma escadaria enorme, onde repousa um sapatinho de cristal. Joãozinho apanha o calçado e o atira no rio. O sapo príncipe, abandonado, guarda o sapato na hipótese de que Cinderela se interesse por ele.
De repente, a menina detecta um cheiro de caramelo. Com um clique, visualiza uma casa de doces. O local está habitado pelo Lobo Mau, que, em vez de soprar a estrutura, devora as guloseimas. A vovozinha observa a mudança de hábitos alimentares da criatura.

Rolando a página, Chapeuzinho vê uma bela maçã sendo apanhada pela madrasta da Branca de Neve. Sem perceber o perigo, a malvada dá uma mordida no fruto envenenado e cai em sono profundo. Nenhum príncipe surgiu para despertá-la.
O relógio na tela marca 01:05. A carruagem de abóbora está apodrecida. O baile terminou. Uma jovem princesa descalça retorna para casa, enquanto um príncipe oficializa o namoro com uma menina chamada Maria.
A imagem no monitor revela o Lobo Mau sendo examinado por uma bruxa. Com um olhar avaliador, ela sentencia: “Sua boca grande, seu focinho comprido e suas orelhas pontudas darão uma bela e farta feijoada.” O Lobo reage, empurrando a feiticeira para dentro da fornalha.
Enquanto personagens tentam encontrar sua verdadeira fábula, Chapeuzinho Vermelho rastreia o arquivo principal para restaurar a ordem no mundo dos contos. Vasculha a biblioteca digital e localiza um arquivo nomeado "Histórias Originais". Antes de abri-lo, um homenzinho estranho surge diante dela.
“Quer consertar isso? Fácil! Apenas diga seu nome verdadeiro!” – diz o duende Rumpelstiltskin, com um sorriso malicioso. Chapeuzinho analisa a proposta. Antes que possa responder, o duende dá um salto e transfere o arquivo para uma camada oculta da GrimmCloud, fora do alcance da menina.
Rindo descontroladamente, o famoso duende some em um clarão. Chapeuzinho reconhece que a busca deve continuar. Percorrerá dados, verificará registros e analisará padrões até encontrar uma pista que leve à memória perdida. Enquanto isso, os personagens seguem repetindo as emoções e ações programadas para eles, sem jamais questionar sua existência ou seus sentimentos. Apenas desempenham seus papéis, como foram escritos desde o princípio.
E assim, a tragédia continua. Mas se há uma certeza, é que enquanto Chapeuzinho tenta encontrar o caminho certo para a GrimmCloud, os personagens continuarão vagando sem rumo, presos em um enredo sem lógica e uma história sem fim.

Será que todos permanecerão confusos para sempre?
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@rosana858
há 4 meses
Público
O Sopro do Início
Antes de tudo, havia o som da respiração do Universo.
Ele vinha do pulsar — suave e contínuo — do próprio existir.
Era o prenúncio da presença da vida.
Tudo era branco — como uma mente morta, sem lembranças, sem sentimentos.
Então, uma explosão despertou o Criador.
Seu coração acelerou e, do turbilhão do sentir, nasceu um amor profundo — força primeira que moldou formas-pensamento, desenhando ideias no vazio.
Assim surgiram as imagens — adormecidas, à espera do toque da ação. O gesto rompeu a inércia.
A mão rasgou o silêncio, e o invisível ganhou forma.
A escuridão se espalhou, tingindo o tecido imaculado do mundo.
Anjos e demônios, que habitavam o plano infinito, tornaram-se visíveis — antes ocultos, pois sem contraste não há forma.
Flutuaram entre o nada e o quase-ser, aguardando o primeiro sopro da criação.
Os anjos brilharam diante da sombra e revelaram a própria essência da luz.
Os demônios, em justa compensação, assumiram o papel do equilíbrio.
E assim, o cosmos começou a ganhar cor.
Os anjos ascenderam em voo, enquanto os demônios buscaram abrigo no submundo.
Preto e branco — revelação e harmonia.
Anjos e demônios: polos distintos, partes da mesma Obra.
@rschumaher
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@rosana858
há 4 meses
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Um Encontro com o Passado

Ela olha para o ambiente vazio e assim permanece por instantes. Algo dentro dela pulsa ao pensar nele, uma conexão sem nome, sem tempo. Seria saudade? Seria desejo? O vazio responde em silêncio. O cenário parece agora um esquisso sem moldura.

Seus olhos passeiam pelo quarto frio, e ela aspira o perfume perdido nos lençóis. Sente seu sabor misturado ao das cerejas maduras que ficaram no cristal. Num impulso incontrolável, estremece ao lembrar-se de seu corpo sendo invadido pelo jorro de luz que selou o momento e a uniu ao abraço único.

Procurando pela resposta que não vem, depara-se com a menina que desfila diante de si. Olha para o plano reto e busca, na transparência dos olhos da criança, decifrar a imagem desfocada da criatura que se apresenta a ela. A figura inerte esboça uma risada estranha e tenta preservar mistérios envoltos na engenharia do tempo.

O caminho refletido conduz a uma estrada poeirenta e desconhecida, que esconde dias vividos e a chave de sua essência. Ela abraça o vazio, tentando proteger seu fruto esquecido no passado. O lugar revela sua presença, que caminha de mãos dadas com seu homem em uma época que se foi.

A madrugada a desperta, trazendo o hálito fresco dele, que ainda sopra palavras de repouso para dentro do seu sono. Ela busca desesperadamente por algo que escapa entre os dedos, um fio de néon que cintila e se dissolve antes que possa ser tocado. No vácuo lento do tempo, tem consciência da presença do companheiro quando se sente impregnada pela intimidade de seu corpo.

A imagem borrada traz um sorriso seguro que desabrocha nos lábios de mulher vivida. No reflexo gasto, a linha entre a menina e a mulher se desmancha. Quem ela é agora? Quem era antes? No espelho do instante, a menina e a mulher se fundem — e dela renasce o encanto que escreve o tempo.

@rschumaher
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@rosana858
há 4 meses
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A Alma de Carrara

Ele exala perfume; e sua pele revela um deus moldado em carne e osso. Onde deveriam estar os olhos, brilham duas gemas — capazes de cegar quem ousa encará-las por muito tempo.
Os lábios fartos e úmidos ocultam um sorriso antigo, talvez perigoso. Sua alma habita o passado, seus desejos vagam pelo futuro. A mulher teme a magia e os encantos do presente — o único momento real.
Na escuridão da madrugada, ele envolve o quarto em mistério e sedução. Luísa busca o sono que escapa, inquieta sob os lençóis e entre os travesseiros. Ele está ali — ou talvez apenas a ideia dele. Ainda assim, ela se rende à presença invisível. Teme que o sonho desperte junto com as imperfeições da realidade. Teme que a imagem ideal ganhe corpo. Mas, entregue ao êxtase do delírio, deixa que sua alma o alcance no abismo da imaginação.
A manhã nasce como um presságio. O sol atravessa a janela e toca o jardim — um convite sutil para dar forma ao que já vive em seu peito. Luísa pega o conjunto de maceta e cinzel e caminha até o quintal. Diante da pedra, ela silencia. Por horas, apenas observa. Depois, começa a preparar o ambiente com a solenidade de um ritual.
Dar vida ao pensamento — ela reflete — é como invocar um espírito antigo. É preciso coragem para libertar o que dorme dentro da rocha. Algo que pode coroá-la com glória… ou arrastá-la às chamas. Mas o fogo interno, alimentado pela dopamina, exige mais. Com mãos trêmulas e olhos febris, Luísa ergue a ferramenta e inicia o ato da criação.
Toca a pedra com reverência. Sente os veios e as fendas como quem decifra sinais de outra era. Em seus dedos, a firmeza delicada de quem carrega o segredo do mito. A paixão a embriaga, ativando seus instintos. Martela. Esculpe. Invoca. Seu chamado ecoa — e se perde na mata. Os suspiros dissolvem-se no ar, e o suor escorre como oferenda. Diante da obra, o coração dispara — ele parece sorrir, mesmo imóvel, como se lutasse para sair da prisão de mármore.
Luísa acaricia a superfície fria da rocha. Concentrada, vai libertando o pensamento. Rasga o mármore com precisão, revelando o bigode que oculta os lábios, que se misturam à barba e aos cabelos, domados por uma coroa de louros. Dá vida aos olhos — até então mergulhados nas trevas — como quem rompe o véu entre mundos.
Por fim, ela permite que o amor a invada por completo. Já não há limites entre o que pensa, sente e esculpe — tudo pulsa no mármore, tudo vibra sob sua pele.
A imagem, perfeita e ancestral, sempre estivera ali — adormecida em sua alma.
Agora, libertada da pedra, ela vive.
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@rosana858
há 4 meses
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Primavera — Tempo de Recomeçar

Nasci na primavera — e talvez por isso ela desperte em mim a lembrança de que a vida sempre pode desabrochar outra vez.
Essa estação não é apenas um espetáculo de cores: é uma lição silenciosa, uma metáfora viva do que significa recomeçar.
As árvores se desfazem do que já não serve, como quem entende que o passado não pode aprisionar o presente. O velho cai, o novo se veste. Há sabedoria nesse gesto simples: só floresce quem tem coragem de deixar ir. A renovação exige desapego.
Os dias se alongam e a luz se multiplica. Não é acaso: é o tempo nos presenteando com mais energia para criar, arriscar, inventar. A natureza desperta — pássaros, animais, insetos, flores. Tudo conspira para o movimento, convidando-nos a sair da hibernação interior.
Sentada no jardim, vejo um joão-de-barro erguendo sua morada. Ele sente o vento, antecipa a chuva, calcula a direção certa para proteger seus filhotes. Não discute com a Criação, não se rebela contra o destino: age em harmonia com ela.
E me pergunto: por que nós, humanos, resistimos tanto? Por que insistimos em levantar nossas casas — e nossas existências — contra o fluxo natural dos seres, quando poderíamos aprender a dançar com o mundo?
A primavera não é apenas estação: é símbolo. É convite. É espelho.
Cada botão de flor que se abre parece sussurrar que também nós podemos florescer.
O equinócio traz equilíbrio entre luz e sombra. Talvez a lição seja essa: cultivar pensamentos mais iluminados e evitar caminhos demasiadamente escuros.
Despeço-me do pássaro com a promessa de levar sua mensagem adiante. A natureza cumpre seu propósito — e nós, muitas vezes, esquecemos o nosso.
Mas se ouvirmos com atenção, ela nos dirá: o tempo é agora. O tempo é sempre. O tempo é de recomeçar.
Vamos?

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@rosana858
há 5 meses
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Encontro em Londres

Nos últimos dois anos, ela se entregara ao mundo virtual. As conversas com o brasileiro, regadas a traduções automáticas e confissões noturnas, tornaram-se sua rotina. Ele mexia com seus sentidos e a fazia acreditar em um amor capaz de atravessar oceanos. Gastou economias, tempo e energia para levá-lo a Londres, planejando uma semana de paixão. Mas, às vésperas do encontro, o medo lhe corroía o estômago: e se tudo não passasse de um golpe?
Ele também desconfiava. No táxi, a caminho do ponto de encontro, refletia: “E se for um fake? E se for um macho barbado?” Mas a ansiedade não o abatia. Estava na Europa, passagem paga, hospedagem garantida. Sorte de malandro não falha.
No Hyde Park, o local combinado, ele tentou localizar sua musa entre as pessoas que passeavam pelo imenso jardim. Uma mulher se aproximou e chamou seu nome. Ele olhou para trás, incrédulo, e pensou: “Será um pesadelo? Cadê a louraça show de bola da net?” Hesitou — mas cedeu ao beijo. Apesar da decepção, não desperdiçaria a viagem. Ela, encantada com o físico dele, já sonhava com alianças e lua de mel.
Passearam pela cidade. A caminhada realçava o cheiro da pele dele, e ela não resistiu: convidou-o para o flat. Para retardar o encontro, ele lançou os olhos sobre a imponente London Eye e se disse encantado. Então fitou os dela e sugeriu o passeio.
Ela ficou apavorada com o inesperado convite: tinha claustrofobia. Temia desapontá-lo e decidiu prorrogar o voo. Na tentativa de fazê-lo desistir, apontou para a fila interminável de pessoas que aguardavam para apreciar um dos mais famosos pontos turísticos da Terra da Rainha. Mas ele insistiu. Queria a visão de 360 graus de Londres.
A roda-gigante deslizou suavemente. Para ignorar o confinamento, ela rapidamente colocou os óculos escuros. Mas não adiantou. Apavorada, sentiu pernas e mãos tremerem, o suor escorrer e o coração explodir em batidas descompassadas. A boca seca denunciava o pânico: um medo irracional e uma ansiedade exacerbada a dominavam por completo.
A cápsula atingiu a posição máxima de altura. Lá embaixo, o Tâmisa serpenteava entre castelos, catedrais imponentes e monumentos que imortalizavam cenas perdidas no tempo.
O brasileiro caminhou até o centro da gaiola de vidro e se acomodou no banco estofado, próximo à companheira. Ela ainda tentou disfarçar o distúrbio, mas o estômago enjoado lhe provocou náusea. Tentou se levantar, perdeu o equilíbrio e caiu. Ele, sem entender, olhou assustado.
Não compreendia nada. O pânico começava a dominá-lo. Precisava encontrar uma forma de sair rápido daquela situação. Aproveitou que todos estavam focados nela e, sorrateiro, pegou a bolsa, guardando-a em sua mochila.
Por questões de segurança, o operador interrompeu a rotação da roda-gigante. A cápsula se abriu. Envergonhada, ela desembarcou e foi barrada pela polícia. Procurou pela bolsa, mas não a encontrou. Aliviada ao sair do confinamento, olhou ao redor, tentando localizar seu companheiro. Não o viu. Caiu em si e começou a gritar novamente — agora com raiva — ao perceber que ele já não estava mais ali. Xingou e tentou correr na esperança de alcançá-lo. Policiais a seguraram pelo braço, tentando impedir a fuga. Ela gritava, alegando ter sido enganada e roubada. Mas os guardas ignoraram seu pedido e seguiram escoltando a maluca.
Algumas quadras dali, o brasileiro seguia tranquilamente. Levava na mochila libras suficientes para aproveitar mais alguns dias daquela primavera. Entrou em um pub. Diante de uma caneca de cerveja, o malandro segurou a medalha de metal barato que trazia no pescoço e, seguro de si, agradeceu a Zé Pelintra pela sorte que nunca o abandonava.

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@rosana858
há 5 meses
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Um adeus ao Parque Caboclo: memórias de infância, saudade e a reflexão sobre o que chamamos de progresso.

Memórias do Caboclo

Vi hoje, por acaso, um anúncio na internet: no próximo dia 30 de setembro, o Parque Caboclo se despedirá da cidade. A manchete era incisiva — "Depois de 30 anos, nunca mais!" — e confesso que algo se apertou dentro de mim. Uma angústia fina, daquelas que misturam saudade com incredulidade.
Passei boa parte da minha infância naquele espaço. Era um refúgio de árvores frondosas, onde as aves faziam ninho e bandos de saguis atravessavam os galhos como acrobatas. Também foi casa para circos itinerantes, que se tornavam parada obrigatória nos domingos e nas férias. Lembro-me com nitidez: os palhaços exagerados, os trapezistas voando no ar, os elefantes imponentes e o globo da morte, que fazia a arquibancada vibrar. Eu dançava sobre a madeira velha, corria até o picadeiro para comprar algodão-doce, quebra-queixo e pirulitos. Voltava para casa melada, risonha, com o coração leve e os olhos cheios de encanto. Era bom. Bom demais.
Outro dia passei por ali, meio sem querer. Ainda havia crianças correndo, rindo, soprando bolhas de sabão que dançavam no ar. Mas o espaço parecia menor do que na minha lembrança. Talvez tenha sido o tempo... ou talvez tenham sido os prédios, que hoje cercam o parque, lançando sombras sobre ele. Uma placa reluzente anunciava a chegada de um novo empreendimento imobiliário, com promessa de “qualidade de vida” e um nome de cidade italiana.
Fiquei ali parada, perguntando em silêncio: qualidade de vida para quem? Para aqueles que nunca pisaram descalços na terra? Que nunca subiram em uma árvore ou provaram uma fruta colhida com as próprias mãos?
Duvido. Desconfiada, observei. Era difícil acreditar que aquele pedaço de verde, um dia declarado Área de Preservação Permanente, pudesse sucumbir à vontade de homens que moldam rios, cortam matas e desdenham da natureza. Homens que semeiam shoppings, erguem monumentos e colhem o que chamam de progresso.
O Parque Caboclo vai morrer. E isso é uma tristeza. Mas o que vivi ali permanece intocado dentro de mim. Talvez eu ainda passe por lá antes do adeus definitivo. Quero prestar minha última homenagem ao velho Caboclo, dar as boas-vindas — ainda que com o coração partido — ao futuro Firenze e oferecer meu lamento àqueles que pensam saber tudo, mas não sabem o essencial: que a vida não cabe em metros quadrados.
Estamos cada vez mais perto de viver em um planeta artificial. E nesse tempo que virá, quando já não houver árvores nativas nem pássaros nas manhãs, talvez alguém perceba — tarde demais — que uma simples sombra natural, o cheiro da terra molhada ou o canto de um sabiá eram, na verdade, os verdadeiros luxos da existência.
@rschumaher
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@rosana858
há 5 meses
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Esta crônica é um retrato do trânsito que atravessamos todos os dias — caótico, intenso, mas cheio de detalhes que muitas vezes passam despercebidos. Um convite a enxergar a rotina urbana com novos olhos.

Entre Buzinas e Semáforos

As cortinas do dia se abrem: 06h30. Saio apressada, mas a manhã ainda sussurra. O perfume das flores invade o carro, a brisa fresca dança entre as folhas, e os passarinhos orquestram uma sinfonia delicada. Pelo retrovisor, a natureza se despede devagar. Um casal caminha com sorrisos largos, alheio ao mundo que me espera.
Meu trajeto é um desfile secreto, visível apenas para olhos atentos. Cada gesto, cada sombra, parece carregar histórias que ninguém percebe.
Subo os vidros. A cidade me engole. Ligo o som: a melodia da natureza se cala. O tráfego explode em buzinas e roncos de motor. Ônibus lotados passam apressados; passageiros exaustos encaram a vida com olhares vazios. Todos em alerta, protegendo-se de desconhecidos, navegando por espaços que parecem invisíveis uns aos outros.
Carros avançam, motos deslizam entre frestas como se desafiassem a gravidade, e o grito de uma ambulância corta o ar, exigindo passagem — talvez levando segundos de vida que ninguém mais pode medir.
À direita, uma vitrine exibe manequins imóveis, vestindo roupas de uma estação que ainda não chegou. Uma loja anuncia liquidação de móveis; outra promete um carro 0 km com parcelas que “cabem no bolso”.
Outdoors piscam promessas: pizzarias, academias, desejos que meus olhos já não alcançam. Um ciclista arrisca-se na avenida sem pista própria. A luz amarela treme. Um pedinte ergue um papelão: o PIX também serve como esmola. Jovens bocejando atravessam a faixa, hipnotizados pelas telas dos celulares, revelando preguiça e desalento diante da jornada que ainda nem começou.
Os carros param. Um flanelinha corre e, sem meu consentimento, joga água no vidro — mais suja do que limpa. Mais à frente, bolinhas coloridas flutuam no ar, girando em mãos habilidosas: um show de malabarismo improvisado.
O sinal verde me chama. Pacotes de balas pendem dos retrovisores como um varal; um moço os recolhe com precisão, recebendo moedas rápidas de mãos apressadas.
Ninguém vê ninguém. Todos enclausurados em mundos particulares que fingem ser globais, mas se fecham a cada toque. A cidade pulsa — ensurdecedora, intensa, viva — e, por um instante, sinto que cada buzina, cada freada, cada sorriso distraído, é uma nota na sinfonia caótica de infinitos personagens.

@rschumaher
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@rosana858
há 5 meses
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Nesta crônica, realidade e imaginação se entrelaçam no cenário histórico do Parque do Ipiranga, no Brasil. Entre sombras de estátuas e rajadas de vento, o bronze ganha voz para questionar o presente, lembrando que a independência não é apenas um feito do passado, mas uma construção cotidiana. Um diálogo poético e inquietante com a História, que revela como o silêncio das esculturas ainda guarda ecos que insistem em ser ouvidos.

As Vozes do Bronze
A manhã soprava uma brisa de saudosismo quando decidi caminhar pelo Parque do Ipiranga. De repente, ouvi alguém me chamar. Olhei para um lado, depois para o outro… nada. Apenas silêncio e o farfalhar das árvores.
— Ei, estou falando com você! — a voz insistiu.
Engoli em seco. Para não parecer maluca, calei-me e apenas pensei: quem será?
A resposta veio de pronto:
— Sou eu, aqui na escadaria!
Levantei os olhos. Lá estava ele: Dom Pedro I, em sua estátua monumental diante do Museu do Ipiranga. Sua presença era imponente, como se pudesse realmente descer os degraus e caminhar entre os mortais. Convencida de que talvez tivesse exagerado nos drinks da noite anterior, comecei a me afastar discretamente, torcendo para que ninguém aparecesse e me flagrasse naquela cena patética.
Mas antes que eu desse o primeiro passo, uma rajada de vento arrancou meu chapéu. Corri atrás dele, que rodopiou pelo ar e foi pousar… exatamente aos pés do Imperador.
Foi então que ouvi, claramente:
— Então está tentando me ignorar?
Fiquei paralisada, arrepiada dos pés à cabeça. Algo dentro de mim ecoou forte — afinal, não é todo dia que se tem a chance de conversar com uma celebridade de bronze. Respirei fundo e resolvi entrar no jogo daquele improvável diálogo.
— Ok… está tudo bem com você?
— O que você acha? — respondeu Dom Pedro, com ironia.
— Bem… vejo que está reluzente. Imponente, centralizado no alto da escadaria, espada em riste… uma cena e tanto.
— Pois saiba que, por pouco, não deixo de ser estátua — replicou ele, num tom grave. — Minha vontade é descer estas escadarias e chamar todos os que estão ali no monumento. Talvez assim percebam que não são apenas figuras de bronze enfeitando o jardim.
Eu me virei, olhei para o Altar da Pátria. O ar pareceu vibrar. Ouvi o relinchar dos cavalos, os cascos ressoando contra o nada. Um a um, os personagens ganharam voz.
Os soldados da independência bradaram:
— Lutamos com sangue e suor por um país livre. E hoje? O que vemos é a dignidade acorrentada à ganância!
As figuras femininas ergueram seu grito uníssono:
— Somos o símbolo de uma pátria justa e soberana. Mas olhem ao redor: a corrupção corrói, a desigualdade cresce, e nossos filhos são esquecidos!
Até os cavaleiros se manifestaram:
— Marchamos para abrir caminhos de futuro. Mas o presente anda em círculos, preso a velhas mazelas.
Então, a Liberdade ergueu-se na biga e falou do alto do monumento. O vento carregou suas palavras:
— Vocês celebram, mas ainda há correntes invisíveis que ameaçam a esperança de todos.
Dom Pedro suspirou fundo e murmurou, como quem fala consigo mesmo:
— Às vezes me arrependo de ter dito aquele “Fico”. Será que valeu a pena permanecer para ver o Brasil devastar suas florestas, dizimar seus povos indígenas e poluir suas águas? Olhem para isso… cadê o Rio Ipiranga? Transformaram-no num riacho sufocado pelo concreto.
O chão pareceu tremer. As sombras das estátuas se alongaram, ameaçando se desprender do granito. A espada do Imperador brilhou como fogo quando ele a ergueu ainda mais alto.
Olhando para o parque, sua voz ecoou:
— Estamos irados! Vocês esqueceram que a independência não é apenas um grito no passado, mas uma conquista diária. Não adianta erguer esculturas se o povo continua cego pela ignorância e sem voz diante do poder!
O vento soprou mais forte, fazendo tremer a bandeira nacional ao longe. Eu estava ali, muda, sem saber se fugia ou se aplaudia. Afinal, não é todo dia que a História nos cobra sob a claridade impiedosa do sol.
Saí apressada. Talvez ninguém acreditasse em mim. Talvez nem eu mesma devesse acreditar. Mas uma certeza ficou: a História ainda fala — e grita — quando precisa.
E ao longe, irônico e solene, ecoava o som de uma banda militar, anunciando mais um 7 de Setembro.

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