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@rosana858

Rosana Elizabet Schumaher
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@rosana858
há 5 meses
Público
Ônibus não é apenas uma crônica sobre transporte público — é um retrato vivo da cidade que desperta e adormece entre buzinas, cheiros, encontros e solidões. Aqui, cada passageiro carrega uma história, cada freada revela uma cena e cada olhar perdido nos lembra de que, mesmo rodeados, podemos sentir-nos ilhas.
Uma viagem breve, mas intensa, que transforma o cotidiano em poesia e nos faz refletir sobre a vida que acontece dentro e fora das janelas de um coletivo.

Crônica – Ônibus

A cidade desperta, sigo pela rua com passos largos, já que hoje estou sem carro. Meu olfato alimenta a imaginação: pão quente e café fresco. Sinto falta de mesa, de família.
Um caminhão barulhento estaciona e garis acrobatas, com meias-três-quartos, saltam e sobem novamente entre uma coleta e outra. Um jornaleiro apressado pilota a moto e atira o jornal na varanda da casa rosa. Chego ao ponto daquele que irá me conduzir até o outro extremo da cidade. Cumprimento o grupo de pessoas e tenho dúvida se me faço visível.
Em instantes, o imponente Mercedes-Benz chega e causa alvoroço. Com sorte, embarco e, sem conseguir avançar, agarro com força o veículo voador, enquanto minha mente acaba de trazer a lembrança de alguns acontecimentos: a colega de trabalho que sofreu um acidente naquela mesma linha. O motorista irresponsável provocou uma freada brusca que luxou o joelho da coitada, deixando-a com a língua partida e o canino na mão.
Aproveito a breve parada; antes que o motorista pise novamente no acelerador, avanço pelo corredor. Seguro a mochila que leva parte da minha rotina e fico admirada com o equilíbrio da galera que consegue se acomodar ao sacolejar desenfreado do veículo, enquanto eu mal consigo atingir a roleta. Agora, sinto um hálito quente no meu rosto e ganho meu primeiro bom dia. As horas passam... Muitos falam ao celular, um homem lê um livro e uma jovem retoca a maquiagem enquanto eu me preparo para saltar em direção ao meu trabalho.
No final da tarde, após cansativa jornada, novamente cumpro meu papel de passageira. Tento me equilibrar dentro da cápsula metálica que faz o caminho inverso, e a cada parada permite que mais e mais pessoas embarquem. O veículo, prestes a explodir, também carrega cestas básicas, que ganham novos formatos a toda freada. Marmitas vazias exalam cheiro azedo, e, sem opção, eu levito. Na esperança de respirar ar puro, tento alcançar a janela e, agora, tenho certeza de que aqui não cabe a lei da física: dois corpos ocupam, sim, o mesmo lugar no espaço.
Um homem levanta o braço para dar passagem a uma velhinha, meu olfato acusa que o perfume perdeu sua validade. Observo que ali laços são estreitados e que a mocinha troca palavras melosas com o cobrador.
Uma moça com o bumbum avantajado entra. Levo uma cotovelada na costela e, antes de esboçar um gemido, meu dedinho é amassado pelo salto da altíssima Anabela. Sem cerimônia, a beldade se acomoda no mínimo espaço que resta entre o banco que eu ocupo. A moça chupa um sorvete e tem fones nos ouvidos, mas o volume da música é tão alto que não há como impedir que todos os passageiros compartilhem de sua trilha sonora. Um homem aproveita a situação para encoxar a popozuda.
A felicidade toma conta da minha alma quando avisto o anjo dourado que toca trombeta no alto da abóbada do templo santo. Meu coração sente o cheiro de verde e sei que meu lar está próximo. É estranho estar só, mesmo entre tantas pessoas, como se eu fosse uma ilha em um mar de rostos desconhecidos. A solidão, mesmo rodeada de corpos, sempre se faz presente. Despeço-me da tarde, a noite chega e traz o frio presente. Desembarco do veículo e me perco na escuridão. A lotação prossegue com meus desconhecidos colegas.

@rschumaher
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@rosana858
há 5 meses
Público
Nesta crônica, convido você a me acompanhar a uma farmácia de hoje — repleta de shakes, esmaltes e promessas de saúde — enquanto minhas memórias me levam às farmácias da infância, com seus cheiros, cores e lembranças marcantes. Entre risos e nostalgia, percebo que, às vezes, saímos de um lugar simples levando muito mais do que esperávamos.

Crônica - A Farmácia da Vida Moderna
Juro que não sou frequentadora assídua de farmácia. Só entrei porque arranquei o siso e precisava comprar antibiótico. Mas confesso: assim que atravessei a porta, tive a sensação de ter parado no endereço errado.
Uma geladeira vertical transbordava shakes de todos os sabores e promessas. Ao lado, um freezer abarrotado de sorvetes me chamava; peguei alguns picolés para tentar refrescar a boca em luto.
À direita, um corredor inteiro de esmaltes, hidratantes, batons… tudo quase em promoção. No caixa, barrinhas integrais e proteicas, alinhadas como se vendessem saúde em doses embaladas.
Foi então que a nostalgia me atingiu.
Cadê a farmácia raiz da minha infância? Aquela em que o álcool ardia só de olhar? Onde o merthiolate era vermelho e denunciava a travessura por uma semana inteira? Hoje é incolor, indolor… e, quem sabe, até ineficaz.
Cadê o Neocid, que matava nossos piolhos, mas, vá entender, não nos matava também? E a Emulsão Scott, que tinha gosto de castigo, com aquela figura de bacalhau zombando da nossa careta?
Hoje, farmácia é quase um shopping: a gente entra para comprar remédio e sai com batom vermelho e brinco de argolas nas orelhas.
Talvez a cura esteja nisso mesmo: rir do absurdo moderno enquanto lembramos da violeta genciana que deixava a boca roxa.
Saí daquele espaço levando mais do que um simples comprimido. Levava lembranças… o carinho do Almanaque do Biotônico Fontoura, que prometia nos transformar em Hércules, enquanto histórias do Jeca Tatu se misturavam a passatempos, piadas e previsões astrais. Comprávamos remédio e, de brinde, levávamos cultura.
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@rosana858
há 5 meses
Público
Nesta crônica, o cotidiano se transforma em viagem sensorial. Entre palavras, sabores e silêncios, a narrativa percorre caminhos íntimos, revelando que a verdadeira comunicação vai além do que se diz — ela pulsa no corpo, no desejo e na memória.

Crônica - Odisseia da Língua

A manhã fria de junho anunciava que o dia seria agitado. O calor do líquido quente me trouxe aconchego. Senti prazer ao perceber o sabor do café encorpado invadir minhas papilas gustativas. O pão com manteiga tinha uma textura aveludada! Ainda bem que Márcia decidiu quebrar a dieta, pois aquele pão áspero, com gosto de isopor, era horrível!

Meia hora depois, saí para trabalhar dentro do meu refúgio refrescante, mergulhada na fragrância do antisséptico bucal.

Durante o expediente, falo vários idiomas e causo inveja nas vozes robóticas que ecoam pela sala. Sou única: consigo moldar o volume, o timbre e a frequência para tocar a alma daqueles que estão distantes. Arranco suspiros, lágrimas e sorrisos, dependendo do que o momento exige.

Agora, por exemplo, na reunião com o diretor da empresa, sou responsável pela conquista de Márcia. Ela irá receber o prêmio de melhor vendedora. A formação dos fonemas permitiu que os clientes “caíssem na lábia” da corretora, que conseguiu bater a meta de vendas do ano em apenas seis meses.

Logo mais, é hora do almoço! A refeição colorida e saborosa me deixa feliz! Pena que Márcia não lambeu o prato desta vez! O garçom surge com a sobremesa. O umami ativa minha salivação quando a taça de mousse de maracujá é colocada sobre a mesa. Sem resistir à tentação, deslizo sobre o creme açucarado, e meus receptores provocam uma deliciosa sensação de prazer.

Mas no final da tarde, a Márcia vai à dentista. Ainda meio adormecida, descanso após o trabalho árduo de falar o dia todo. A doutora Margarete havia exagerado. A dose cavalar de anestesia, os empurrões para cima, para baixo, para os lados e aquele ácido fosfórico com gosto amargo de veneno me deixaram estressada.

Vou para a universidade. Durante a aula de física, fico passeando pelo céu da boca, chupando balas, imitando lápis quando contorno os lábios sem me expor demais, para não parecer maluca e ser confundida com a língua de Albert Einstein, que, depois de anos, ainda permanece estampada na mídia.

A sirene anuncia que é hora de recolher os livros. À noite sigo pelas ruas da cidade. Márcia vai encontrar suas amigas no bar badalado da esquina. O som anima o ambiente e eu aprecio vários sabores: o salgado da batata frita, o amargo da cerveja, o azedo do limão e o doce do ketchup.

A mesa ao lado revela muitos sorrisos jovens, e um deles chama a atenção de Márcia, que tenta provocar um moreno de óculos fundo de garrafa e cara de intelectual. Entre lábios vermelhos e carnudos, vou me preparando. Aproveito as risadinhas para surgir devagarinho, fazendo cenas pelo canto da boca de Márcia. Às vezes, permaneço no centro, me revelando por inteiro, em outras, escorrego pelo sorvete de forma sensual.

Márcia está realizada. Conseguiu conquistar Leonardo, o maior “nerd” da Unicamp. Está feliz pelo empenho na conquista. É óbvio que fui eu quem verbalizou e trouxe à tona sentimentos que nem a própria Márcia sabia que existiam dentro dela.

O romance entre Márcia e Léo me trouxe novas experiências. Descobri sensações inéditas e atingi o clímax ao encontrar, dentro da boca do estudante, um órgão igual a mim: macio, carinhoso, mutável e com sabor de hortelã. A semelhança nos uniu e, entrelaçadas, vivemos uma sensação inexplicável. Então fascinada percebi que não é apenas a boca que fala, mas todo o corpo, todo o ser. Nossa dança sensual e delicada, transmite o que palavras jamais conseguirão. E, na união de dois seres, encontro o verdadeiro poder da comunicação, aquele que vem do coração e se traduz em um beijo.

Depois de momentos únicos, Márcia caminha pela noite, enquanto eu, revestida de mucosa, me abrigo em minha morada. Me calo diante das lembranças que não podem ser expressadas em frases. Márcia oculta o sorriso apaixonado.

E assim, eu, a língua de Márcia, sigo minha jornada de palavras não ditas, de carícias e segredos revelados. Entre o silêncio e o som, entre os beijos e as risadas, continuo a contar a história que não se escreve, mas se sente. Sou o elo invisível entre os corações, moldando desejos e revelando os mais profundos anseios.

E, enquanto a noite se estende e Márcia adormece, eu, a língua, permaneço em meu refúgio, entre os dentes que guardam meus segredos e os lábios que os revelam. O amor está presente, acolhido entre os tecidos macios das gengivas, enquanto eu repouso diante das muralhas de porcelana. Somos ciclos que se repetem, momentos que se completam, como um beijo que começa e acaba, mas deixa uma marca eterna na memória. Aqui, dentro desta boca, sou o que não se diz, o que se sente.
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