Nunca acreditei em sorte. Acredito em colheitas — no gesto silencioso de semear, cultivar e confiar no tempo. Chegamos ao mundo com o livre-arbítrio pulsando nas mãos. A origem, a família, a cor, a história… tudo isso pode influenciar, mas não determina quem nos tornaremos. O caminho é sempre escolha — e podemos mudá-lo a qualquer instante, como quem decide plantar novas sementes no solo da própria existência. Cada decisão abre frestas no tempo. Algumas fazem nascer flores; outras, espinhos. É assim que nosso destino se borda, ponto a ponto. Por isso, não espere por um golpe de acaso — ele é vento passageiro. Cultive bons pensamentos. Cerque-se de boas almas. Desenhe um projeto de vida que honre quem você é e quem deseja ser. Ninguém está aqui a passeio: existe uma missão pulsando dentro de cada um. Descubra a sua. A trajetória ganha significado quando deixamos fluir nossos talentos. Seja farol. Brilhe. Ilumine a estrada do outro. O que muitos chamam de sorte é apenas o resultado visível de quem caminhou com disciplina, foco e trabalho. É o nome que dão ao seu esforço quando desconhecem a sua história. Nada deve ser mais triste do que chegar ao fim da existência e perceber que nada brotou das próprias mãos. Então fica a pergunta: Você está fazendo diferença no mundo? Qual legado deseja deixar? Não pense apenas no que se pode tocar. O material é importante, sim, mas não atravessa com você para o outro lado. O que permanece são os gérmens invisíveis — amor, gratidão, generosidade. Eles florescem em qualquer época, idade ou plano. Alimentam e fortalecem a alma. Ecoam na eternidade. Não espere a virada do ano ou qualquer ritual para iniciar um novo plantio. Prepare o terreno. Planeje. Recomece agora. Um novo ciclo se aproxima, mas nada será diferente se continuarmos iguais. Você não transforma o outro — transforma a si mesmo. E, quando isso acontece, o universo inteiro ao redor encontra um novo ritmo.
É curioso — e triste — perceber quantas pessoas se apressam em desestimular nossas conquistas. Já reparou nisso? Às vezes nasce um projeto tão claro, tão vibrante, que chega a pulsar nas veias. Cada etapa já está desenhada: investimento, tempo, esforço… tudo medido com a precisão de quem sabe exatamente o que quer. Mas basta compartilhar a ideia com a família, colegas ou amigos para que uma enxurrada de dúvidas apareça. Poucos acreditam. Muitos tentam plantar sombras. Outros insistem que aquilo está destinado ao fracasso. E é justamente aí que a vida nos apresenta duas escolhas: ceder ao coro dos acomodados — aqueles que repetem receitas e vivem na monotonia — ou silenciar o barulho externo e seguir adiante, ainda que em absoluta solidão. Porque nem todos nasceram para romper ciclos, desafiar tradições e abrir caminho onde não há trilha. Isso exige impulso, coragem… e um preço que poucos aceitam pagar. E confesso: quando dizem que não será possível, é exatamente nesse ponto que encontro mais força. Para mim, “impossível” é apenas uma palavra vazia. De repente, o chamado vem. Silencioso, porém retumbante. A intuição desperta — essa bússola fiel que, quando respeitada, nos conduz por estradas jamais imaginadas. Quando a ouvimos, o medo abre espaço para oportunidades antes ocultas pelo véu da incerteza. Então você escolhe o novo. E escolher o novo exige abandonar conceitos antigos. Seus dias já não aceitam diálogos vazios; sua rotina muda; leituras e programas ganham tons diferentes. O círculo de pessoas antes tão próximas se afasta. E a noite... sua única companhia é o travesseiro. A tela mental volta a desenhar, milimetricamente, a criação que insiste em nascer A imagem é tão nítida que chega a dar medo de adormecer e perder o espetáculo de vê-la se materializando. Pela manhã o banho quente e o espelho revela: ninguém mais interfere no que nasceu no seu coração. Obstáculos virão — você sabe. Mas também entende que cada um deles fortalece o caminho… e fortalece você. Com o tempo, compreende que realizar sonhos exige, muitas vezes, caminhar só. Compartilhá-los cedo demais é arriscar-se a receber a carga pesada da desmotivação — vinda daqueles que preferem ver o outro parado para não enfrentar o próprio imobilismo. Porque quando alguém alcança algo, uma verdade incômoda se revela: muitos não chegam lá simplesmente porque permanecem imóveis. Por isso, proteja suas ideias. Deixe que elas nasçam primeiro, e que se desenvolvam, no silêncio fértil da determinação, antes de apresenta-las ao mundo.
O relógio marca 19h45. Eu aqui, parado, esperando o trem. Multidão apressada, um frio intenso. Olhares vazios. Mais um fim de dia sem sentido. Preso na mesma rotina: a mesma estação, o mesmo vazio, a mesma angústia.
Uma sirene se aproxima. O barulho me assusta. Ouço tiros. As pessoas correm. O chão parece se abrir sob meus sapatos gastos. O pavor toma conta, o ar fica pesado e um silêncio ensurdecedor invade o nada.
Corro sem pensar. Entro no túnel de luz. O ar congela o peito, a cabeça lateja. Escuridão absoluta. Grito. Ninguém ouve. Minha voz não ecoa.
Atravesso a ponte que ameaça desabar. Arranha-céus se dissolvem em nuvens de miasmas. Lamentos e pedidos de socorro vêm de todos os lados. A visão fica turva. Meus batimentos aceleram.
Minha mão tenta tocar o seu vestido. A seda macia desliza entre os dedos enquanto procuro me refugiar entre seus joelhos. Tremendo, me agarro a você… busco sua proteção. Um anjo surge, e o clarão te veste de ouro. Com o rosto banhado em lágrimas, meu soluço rasga o desespero que antes me estrangulava.
A sirene da ambulância toca. São 20h00. Caído no chão, envolto em sangue, compreendo: você veio me proteger — mesmo depois de ter partido — para que eu não atravessasse esse momento sozinho.
Abriu uma fresta no tempo onde o amor de mãe não encontra limite. Já não sinto medo dos bandidos, do tumulto, da catástrofe ao redor. Sinto apenas o seu abraço, o seu beijo e a sua bênção… e o seu olhar trazendo luz para a minha vida que antes parecia apagada.
Enquanto eu sigo para um recomeço, sei que você ainda cuida de mim. No ar, fica o seu perfume — enquanto você parte na carruagem conduzida pelos guardiões da morte…
Deixa comigo a coragem de voltar à vida, sem medo do que ainda virá — porque agora sei que não existe fim, apenas recomeços.
Você já sentiu saudade de um lugar que não sabe dizer onde fica? Eu sinto desde sempre. Quando criança, eu fugia de casa como quem obedece a um chamado antigo. Pegava qualquer rua, guiada por uma força silenciosa que não cabia no corpo miúdo. Caminhava seguindo rastros apagados, até que algum adulto me encontrava e me conduzia de volta ao que chamavam de lar. Lar… Uma palavra bonita, mas que nunca me abrigou inteira. Minha família sempre foi afetuosa, mas havia em mim um horizonte que não cabia dentro de paredes. Eu me percebia deslocada neste tempo — como se viesse de uma era em que a alma caminhava descalça e reconhecia cada elemento da natureza como parte de si. Nunca me encaixei nos moldes deste século. Quanto mais exigiam que eu me adaptasse, mais meu âmago se erguia em rebeldia — como um pássaro que recorda o vento antes mesmo de abrir as asas. Regras me pareciam máscaras, e eu jamais quis ser figurante numa peça que não escrevi. Sempre preferi vivenciar as cenas que a vida projetou para o meu crescimento. Tornei-me adulta desafiando limites e expectativas. Nunca vivi para agradar ninguém. E, às vezes, ultrapassei fronteiras apenas para provar a mim mesma que elas não eram reais. Há dias em que me sinto dentro de uma redoma transparente: o mundo gira lá fora, pessoas se movem em ritmos que desconheço... e eu, do lado de dentro, encosto as mãos no vidro, incapaz de atravessar. O que mais machuca não é a distância — é a falta de sentimento, tão rara, tão esquecida. E, ainda assim, existe dentro de mim uma força que chama para longe. Quero ir — para onde, não sei. Talvez para um local onde a magia ainda colore o universo em tons que não existem aqui. Onde o ar é puro, o silêncio tem melodia, e viver é sagrado — muito mais do que cumprir tarefas e colecionar objetos. Sinto uma nostalgia funda de algo que minha essência já viveu, uma memória que meu coração protege como um relicário. Meu inconsciente se recusa a apagar aquilo que não deveria ter sido esquecido. Às vezes levanto o rosto para o céu e troco olhares com as estrelas. Elas me reconhecem. E, no brilho que devolvem, há um aconchego antigo, como se, por um segundo, eu regressasse à minha verdadeira morada. Não sou contra o avanço das máquinas. Mas sei, no íntimo, que já fomos muito mais do que elas jamais serão. Carregávamos dons, forças, sensibilidades que hoje dormem nos cantos mais silenciosos do espírito. Desaprendemos a usar o que sempre foi nosso. Sinto a ausência de coisas que não sei nomear. Saudade de pessoas que talvez nunca tenham caminhado neste plano. E quando o déjà-vu me toca — num filme de época, numa ruína que respira histórias, numa trilha onde a natureza fala — eu reconheço esse toque como quem reencontra uma parte perdida de si mesma. Sigo procurando meu território — um lugar que parece viver entre o passado e o indizível, talvez numa dobra do tempo, onde ainda sou inteira. Escrevo este texto como quem lança uma garrafa ao mar. Talvez existam outros viajantes desse mesmo mundo invisível. Talvez você, que lê, também carregue essa memória de casa — uma casa que não aparece em mapas, mas que o sentir reconhece e insiste em reencontrar.
No silêncio ensurdecedor, ela dorme com Morfeu. O amanhã lhe estende os braços, mas ela resiste à realidade do dia seguinte. Apaga a meia-luz em que noite e dia se fundem e mergulha incessantemente no passado.
A campainha toca. Ela atende à porta. Os olhos sem luz do visitante vislumbram além do véu de Ísis. O mito estende a mão para ela, que se deixa levar, presa no cumprimento. Caminham alguns passos até o terraço. Ela avista Pégaso e permite que sua liberdade voe. O poeta segura firmemente a rédea de ouro enquanto Helena, com o coração ardente, protege suas costas. Juntos, circulam Gaia, que pulsa no firmamento, e presenciam do alto Poseidon abençoando os mares e oceanos.
Agora, em terra firme, o grego a abandona na porta do magnífico templo. Ela sobe os degraus, sente a rigidez da pedra sob seus pés descalços. Atravessa o pórtico e entra majestosamente. Ela desfila elegância entre as vinte e quatro colunas gigantescas que abrigam o trono de Zeus. A maravilha do mundo antigo tem o corpo esculpido em marfim e ébano. A autoridade da visitante arranca um olhar frio e semiprecioso do deus, que a convida para participar da festa que acontece no salão.
Apolo, um dos filhos do anfitrião, recita uma poesia, e ela fica fascinada com a perfeição de sua anatomia. Ela fala, e sua voz contagia os convidados, que percebem que a beleza física dele é insignificante diante da sabedoria dela. O poeta tenta cativar sua atenção e lhe oferece uma bebida. Quem serve é o irmão Dionísio, que, fascinado por ela, revela, num beijo, que sua língua possui sabor de vinho. Na intimidade, ele lhe pede para ser chamado de Baco, já que dividem a mesma taça.
Disfarçada de fragilidade, ela caminha com suavidade. Tenta ocupar sua visão em todos os espaços. Olha para cima e observa a gigantesca cúpula amarela que coroa a morada dos deuses e presenteia o edifício com movimento celeste. Ela fecha os olhos e é invadida pelo jorro de luz abundante que desce do interior da abóbada, sustentada por oito pilares, e que traz, de surpresa, Eros apoiado em um deles. Ela percebe que o cupido tenta evitar seus olhos, então se aproxima o suficiente para que ele sinta o perfume do querer que exala de sua pele. Ele não resiste à sedutora fragrância, que propositalmente foge. Ingenuamente, ele a persegue até o jardim.
Junto ao lago de nenúfares, um rapaz está parado. A água cristalina reflete sua figura. Eros possui Helena, mergulha na sua fonte de prazer, penetra as pétalas do seu desejo. Narciso não se dá conta da magia do amor entre as duas criaturas e permanece solitário, perdido de paixão pela sua imagem refletida no espelho.
Ela deixa o Panteão, abrigado pelos matizes coloridos de seus aposentos, enquanto os deuses do Olimpo desfilam seus mistérios e belezas.
Na calçada, ela avista Tânatos e, assustada com sua fisionomia metálica e seu coração de ferro, sente o cheiro de morte que paira no ar. Foge apressada, pressente que ele tenta guiar sua alma para outros mundos.
O banquete celestial se dissolve em sobras e, quando Helena se dá conta, seus passos ecoam em corredores de pedra. As galerias se curvam em círculos secretos, à espera de serem decifrados. Ela vê o rastro e teme o eco de um bramido desolado. O monstruoso ser com corpo de homem e cabeça de touro habita o labirinto de sua mente. Ela desenrola o novelo do pensamento e coloca na linha o bravo Teseu, que mata a fera que existe dentro dela.
Na rua da Era do Bronze, ela ouve tiros e se esconde atrás das muralhas. Alguém passa e a carrega num abraço. O ventre de madeira abriga soldados. O coração da espartana saltita dentro do corpo inventado. Ela vaga pelas ruas de Troia enquanto é raptada por Páris. Agora, está dividida entre os beijos do sequestrador e a saudade do bruto e doce Menelau.
O rei vem ao seu encontro e, na fantasia épica, ela tem sangue da cor do Egeu. Juntos, partem sob o calor vermelho das labaredas que envolvem a cidade e começam a aquecer seu quarto.
O espírito dela sente que a viagem mitológica está prestes a terminar, então, além do limite de sua ousadia, dribla Cronos e retorna no tempo. Entra no Coliseu dirigindo uma biga que chama a atenção do felino que está na arena. O grito dos gladiadores apavora a urbe cristã. O imperador vem até ela e dá um beijo quente em seus lábios. Ela sente o cheiro da manhã fresca e envolve Nero com os braços enquanto esboça um sorriso adormecido.
O marido olha para Helena e fecha as cortinas do dia, enquanto cuida para que o lençol lhe proteja o sono. Cuidadosamente, tira o livro das mãos da esposa e o deposita na cabeceira. Ela beija em sonho, e seus lábios tocam o papel histórico, onde dormem mitos e lendas que se equilibram entre o sagrado e o profano.
Ele sai silenciosamente, enquanto Helena vive na Ilíada e continua sua Odisseia.
Não temas o que libertas — o que retorna é apenas aquilo que está pronto para ser compreendido. Como todas as lendas, também esta tenta traduzir o que escapa à razão — aquilo que mora entre o mistério e a ignorância. Mas e se Pandora não tivesse aberto a caixa? Teríamos sido poupados da dor, da solidão e dos desvios do espírito? Ou, sem os males, teríamos perdido também o impulso de nos compreender?
O céu rugia como se antigos deuses despertassem em suas nuvens. O vento uivava, trazendo a memória de Zeus e dos Titãs — um sopro quente que abria fendas entre galáxias. Prometeu, porém, caminhava nas entrelinhas do ar, lembrando que todo fogo roubado é também um convite à consciência humana. A tarde exalava o perfume de flores que jamais existiram neste século — fragrâncias vindas de um jardim desaparecido, onde as primeiras sacerdotisas dançavam com a lua. Entre esses aromas, uma voz ergueu-se como eco de uma profecia esquecida:
— Eu não sou culpa. Sou o dom divino de ver o invisível.
Na Grécia, uma pequena vila adormecida parecia um relicário de eras. Uma prosaica rua escondia uma loja de antiguidades; o silêncio guardava mais que peças — sepultava pactos, segredos, invocações e presságios. Quando a porta rangeu, a energia se adensou. Um corvo cruzou o teto como mensageiro das antigas Moiras, anunciando que os fios do destino seriam tocados. A moça entrou acompanhada do abutre — o guardião ancestral das passagens, incompreendido pelos séculos, mas reverenciado pelas pitonisas que sabiam ler em seu voo, o sinal do recomeço. A forasteira viera para dizer que é impossível prender a alma da mulher, mesmo que em um vaso de ouro, envolto em papéis falsos e rótulos de mentiras. Seus olhos buscavam o objeto que trazia seu nome — aquele que atravessara a história usando o medo como ferrolho para esconder a verdade. Tateou prateleiras e paredes usando a psicometria. Leu, com o terceiro olho, símbolos ocultos. Lá fora, a tempestade batia contra as vidraças como se quisesse amedrontar quem ousa vislumbrar além da moldura. A neve caía pesada, deixando tudo igual, branco, sem referência — apenas para testar a ousadia dos que não temem buscar pensamentos próprios. Então o relógio badalou. Não marcava horas, mas a passagem entre universos. E, segura de si, ela cruzou o lusco-fusco e encontrou um velho baú. A fechadura ruiu como se reconhecesse sua dona. Dentro, repousava a ânfora — o coração adormecido do próprio mito. Pandora se aproxima da caixa — aquela onde, um dia, disseram que armazenava inveja, crueldade, fome e desespero. Passa os dedos sobre a tampa, como quem toca o sagrado. Abre-a com delicadeza, afastando o fundo falso e o veludo vermelho. E então vê. Não há monstros. Não há sombras. Há apenas um espelho. E, sem temor, ela se vê por inteira. No reflexo, reconhece a si e a todas as mulheres que existiram antes e depois dela. Revela ao mundo que o feminino nunca foi causa da discórdia, mas o fio que tece a consciência do amor. E, sob o cristal, como um sussurro guardado por milênios, repousa aquilo que jamais deveria ter sido aprisionado: a esperança — ainda viva, ainda pulsante. Ela estava de volta não para apagar o passado, mas para ressignificar o que chamaram de maldição. E maldição foi ela ter acreditado que a mulher não pode olhar além dos limites impostos a ela. Porque, um dia, quando ela abriu aquela caixa, ela não sabia quem era. Não conhecia sua força. Agora, porém, voltava para refazer o gesto — não por curiosidade, mas por consciência.
Maravilha Antiga – Jardins Suspensos da Babilônia (Iraque) O vento sopra. Um aroma intenso de verde invade a passarela. Em meio a águas artificiais, palmeiras e flores exóticas, os Jardins Suspensos surgem como canteiros suntuosos. Construídos — dizem — pelo rei Nabucodonosor II para matar a saudade da esposa Amitis, que sonhava com montanhas e florestas. A vegetação então sussurra ao vento: — Ninguém sabe onde exatamente existimos. — Alguns até duvidam da nossa existência. Uma árvore imensa declara: — Somos o paraíso de namoros que virou lenda. E a lenda... vira maravilha. Ele se desfaz como miragem em alto mar, deixando os arqueólogos com o olhar perdido entre a realidade e a ilusão.
________________________________________ ️ Maravilha Moderna – Petra (Jordânia) As luzes mudam de cor — tons rosados revelam paredes esculpidas diretamente na rocha. Exibe um sistema de canalização de água desafiador para sua época. Petra desfila, imponente como o deserto e silenciosa como segredos milenares. Capital dos nabateus, guardiã de rotas comerciais, seu olhar traz de volta os Jardins com admiração e serenidade: — Querido, você vive no imaginário. Eu… sobrevivo no silêncio das pedras. Os Jardins retrucam, brilhando como visão elegante: — E quem disse que existir é apenas ocupar um lugar físico? A cidade rosa baila diante do pano de fundo e canta: — Você representa o que o coração quer lembrar. Eu… o que o mundo tenta esquecer e não consegue. E por um instante raro, os dois se admiram. Com olhar babilônico, ele sussurra: — Sua cor é linda! Petra fica vermelha e sorri: — Confesso que seu perfume me atrai. Os mais enigmáticos. Os mais poéticos. As mais inesquecíveis. Os convidados assoviam, aplaudem e se desdobram tentando alcançar as celebridades que seduzem e brincam com as eras.
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Encerramento do Desfile As quatorze maravilhas se alinham. O palco treme. O mundo prende a respiração. As luzes do anfiteatro da História oscilam. O som do Universo é ampliado. Uma voz divina ecoa: — O que torna alguém uma maravilha não é como foi feito… mas como continua inspirando. Os aplausos sacodem a eternidade. A presença estabelece o que o Chronos não consegue apagar.
Maravilha Antiga – Mausoléu de Halicarnasso (Turquia) A luz baixa, e o clima fica romântico e trágico se entrelaçam. Surge o Mausoléu, com o coração arquitetado. Erguido para homenagear Mausolo, o rei da Cária — uma obra do amor de Artemísia, sua esposa. Tem pilares, esculturas e uma pirâmide no topo: mistura de estilos gregos, egípcios e lícios — “arquitetura fusão” antes de virar moda. Ele suspira: — Fui construído pela saudade. E pela dor de uma união que nem a morte separou… A audiência suspira. Finalmente alguém sensível! ________________________________________ 懶 Maravilha Moderna – Taj Mahal (Índia) E então, a porta se abre para… o maior romance em mármore já vivido. Erguido pelo imperador Shah Jahan para sua amada Mumtaz Mahal. Simetria perfeita, cristais semipreciosos, reflexos de lua no rio Yamuna… O Taj Mahal avança entre seus quatro minaretes: — Amor também me ergueu. Mas para lembrar que a saudade pode ser bela como lápis-lazúli. — Sou poema, sou lágrima, sou cúpula costurada com fios de ouro. Eles trocam um olhar cúmplice. O Mausoléu fecha os braços em colunas e pergunta: — Copiou minha ideia de luto luxuoso? Antes de você, quem chorava em mineral branco era eu! O Taj responde com charme: — Halicarnasso, por favor… sua beleza inspirou a minha. Mas convenhamos: eu sou a versão de luxo. O Mausoléu encara o destino em ruínas e conclui: — O amor verdadeiro sobreviveu. A paixão de uma Artemísia me ergueu e você foi construído em memória a joia mais rara de um imperador. Permanecemos eternos. Os espectadores se emocionam. Até Zeus enxuga uma chispa discretamente. ________________________________________ Maravilha Antiga – Colosso de Rodes (Grécia) Música épica ecoa. A estátua de trinta e dois metros de altura, feita de bronze — um super-herói da Antiguidade — entra. Ainda com o olhar que guarda o porto, ele caminha com passos pesados. O deus grego diz: — Eu sou o protetor das navegações. Titã, deus do Sol. Primeiro “supercolosso” que o mundo já viu! Eu vislumbro a grandeza de Rodes. Sob meus pés, o Egeu pede passagem. Um terremoto me derrubou do pedestal. Os paparazzi antigos ficaram traumatizados com o meu tombo colossal. O auditório faz reverência imediata. ________________________________________ ️ Maravilha Moderna – Coliseu (Itália) Rugidos de feras ecoam. Ele entra. Eis então a maior arena de gladiadores que Roma já ergueu: cinquenta mil espectadores, batalhas, espetáculos, um mundo inteiro gritando “Ave!”. O Coliseu observa o colega grego: — Me desculpe, mas… ser “colosso” não é só altura. — É aguentar o peso da história sem cair na primeira trepidação. O Colosso cruza os braços de bronze: — Querido, você faz o mundo acreditar que tapas e leões são entretenimento saudável… O Coliseu responde orgulhoso: — Espetáculo é espetáculo. E eu ainda sou o cartão-postal mais clicado do nosso continente. O Colosso dá uma piscadela metálica: — Ok… você é grande. — Mas “colosso”, só eu. A plateia vai ao delírio. O narrador quase precisa intervir com escudos e calmantes homéricos. ________________________________________
⚡ Maravilha Antiga – Estátua de Zeus (Grécia) Um estrondo ecoa como trovão. As nuvens se abrem feito cortinas — e surge o rei do Olimpo. Sentado no trono com autoridade divina: doze metros de puro ouro, ébano e glória. Na mão direita, a vitória; na esquerda, o cetro dos deuses. Construída por Fídias, para lembrar aos mortais que os seres supremos mandam no jogo. Zeus olha para as Sete jovens, ergue uma sobrancelha de marfim e diz: — Moderninhos, vocês têm selfies demais e reverência de menos. Um raio cai no cenário. Silêncio absoluto. A estátua cintila entre gemas preciosas. Ninguém ousa responder. ________________________________________ ️ Maravilha Moderna – Machu Picchu (Peru) Ela surge como profecia nascida de montanha, silenciosa e sagrada: Uma cidade inteira construída a quase dois mil e quatrocentos metros de altura, encaixando rochas com tanta precisão que nem uma folha de papel passa entre elas. Machu Picchu ergue o que seria sua “voz” ancestral: — Grande Zeus, não precisa exagerar nos efeitos especiais. — No meu período, poder era silêncio, altitude e… estratégia. Zeus rebate: — Altitude? Eu moro no Olimpo, lembra? Machu Picchu, tranquila como uma lhama sábia, responde apenas com existência — sólida e eterna. Mas a plateia aplaude a engenharia da civilização inca. E Zeus, mesmo contrariado, aceita: os Andes também têm suas divindades. ________________________________________ Maravilha Antiga – Templo de Ártemis (Turquia) Ele chega cercado de cento e vinte e sete colunas — como um exército de mármore. É tão grandioso que dizem ter sido reconstruído três vezes, renascendo após desastres. O Templo cede a palavra à deusa da caça, que fala: — Eu era museu e galeria de arte num só corpo. Ela lança uma flecha imaginária para o teto, só por glamour. O tecido cósmico se rasga e estrelas caem, bordando o mar. Ártemis retorna ao monumento, que é ovacionado, e exala fragrâncias de flores noturnas que deixam o público enfeitiçado. ________________________________________ Maravilha Moderna – Chichén Itzá (México) A música muda — tambores maias tocam o ritmo do tzolkin. Surge Kukulkán, pirâmide com escadarias alinhadas ao Sol. A serpente de luz do equinócio toma forma. Chichén Itzá cumprimenta com elegância: — Saudações, Ártemis. Vejo que seu templo era famoso pela forma. — O meu… pela transformação. Ártemis responde com sorriso de predadora: — Meu querido, rituais sob a lua eu inventei. — Mas confesso que sua serpente é poesia que desce degraus. Um encantamento paira no ar. Uma coruja pia para quebrar o feitiço. ________________________________________
Mensagem da Autora Escrevi este texto movida por um amor antigo — o amor pela História. Desde sempre, ela me fascina. Não apenas pelos fatos ou pelos nomes, mas pelas vozes que ainda ecoam em cada pedra, em cada ruína, em cada sonho humano que ousou existir. Desejo que, ao ler estas palavras, você também sinta um pouco dessa vibração. Que perceba que a História não vive apenas nos livros, mas no coração de quem ainda se emociona diante da beleza do que fomos — e do que podemos voltar a ser. Não quero ensinar. Quero lembrar. Quero que você caminhe comigo entre as Maravilhas do Mundo Antigo e, por um instante, perceba que nada foi realmente perdido. Tudo ainda vive — dentro de nós.
Para os que amam a História, o passado se veste de gala e o tempo aplaude de pé — um encontro repleto de humor, brilho e reflexão.
O Desfile das Maravilhas Quando a História volta aos holofotes — deuses e mortais descobrem que nem o tempo apaga o que é sublime.
A História, inquieta ao perceber que os humanos já quase não se lembram de suas próprias origens, decide realizar um encontro grandioso: As Sete Maravilhas do Mundo Antigo frente a frente com as Celebridades do Mundo Moderno. O encontro épico está repleto de egos, mistérios e muita pose. O local escolhido: um centro de convenções imaginário em pleno Atlântico, onde ondas batem como aplausos e drones projetam lembranças de séculos atrás. Somente os nomes mais influentes foram convidados: historiadores, artistas, arqueólogos, pensadores, governantes… Atores norte-americanos conduzem a noite — afinal, amam espetáculos que transformam em cenas de Hollywood. As Maravilhas Antigas cruzam o tapete vermelho como quem traz consigo o pó da idade. As Modernas sussurram, com certo desdém: — Quem ainda lembra desses monumentos velhos de pedra? Ofendidas, as Antigas erguem suas colunas e respondem: — A humanidade vive da memória. E nós somos memória. O público silencia. Os refletores se acendem. O desfile do século XXI começa.
⛰️ Maravilha Antiga – Grande Pirâmide de Gizé (Egito) Ela surge com a elegância de quem reina sozinha por mais de quatro mil e quinhentos anos. O mestre de cerimônias anuncia: Única sobrevivente das Sete Maravilhas Antigas! Símbolo do Faraó Quéops! Cento e quarenta e seis metros quando jovem — quase sem rugas! Guardiã de enigmas, astros e espíritos! A Pirâmide desliza como supermodelo de granito: — Não envelheci… apenas me petrifiquei com estilo. O público aplaude. Até os drones reverenciam.
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隣 Maravilha Moderna – Grande Muralha (China) Ela se estende por quilômetros, ondulando como serpente da Terra: — Por favor, piramidinha… aqui chega a mais ilustre e longa do planeta. A Pirâmide revira seus blocos e responde: — Extensão não define grandeza, querida. A Muralha rebate: — Melhor comprida que saqueada por milênios. Risos. A Pirâmide tosse de forma milenar, soltando um grão de areia: — Magoei. Os historiadores vibram. Os fotógrafos disparam flashes. E o evento prossegue. ________________________________________ Maravilha Antiga – Farol de Alexandria (Egito) Um hieróglifo plasmado de luz e bronze se materializa. Três andares que antes guiavam navios e sonhos. Sentinela da Biblioteca de Alexandria e guia dos mares. O personagem avança na passarela e diz: — Eu era o farol que iluminava destinos, o wi-fi marítimo antes de qualquer bússola. Ele faz movimentos circulares; seu ápice de espelho reflete a energia solar e ofusca os presentes, que se curvam diante do seu brilho. Os artistas aplaudem. ________________________________________ ✝️ Maravilha Moderna – Cristo Redentor (Brasil) Acordes de bossa nova trazem harmonia. Ele surge com trinta e oito metros de braços abertos, abraçando o mundo do alto do Corcovado. Construído em pedra-sabão, símbolo da fé e da paz. Sorri com serenidade e anuncia: — Meu amigo Farol… eu também guio. Mas guio corações. O Farol pisca sua luz antiga: — E quando um navio se perde? Você abre mais os braços? Cristo sorri com calma celestial: — Eu confio na fé do marinheiro. A plateia dá um “ohhhh!”. O Redentor deixa a passarela. As pessoas ficam em clima de oração. ________________________________________