Relicário
No fundo do quintal, dorme a memória
sob a folhagem úmida e severa;
ali ficou, sem nome, a primavera
que a vida me tomou sem cerimônia.
Havia sol de bronze sobre a infância,
um rio magro cortando a terra fria,
e o vento, entre os galhos, se perdia,
como quem não voltava da distância.
Eu era então senhor de pouca coisa:
um fruto verde, um pássaro, uma estrada,
a mão ferida, a roupa empoeirada,
e a alma atenta ao que no escuro pousa.
Hoje, se a chuva inclina os arvoredos,
volta-me ao peito um rumor esquecido:
não sei se é folha, se é o tempo perdido,
se é Deus mexendo nos meus brinquedos.
Eu quero começar a trazer meus textos, sabe? Acho que aqui ia ser um lugar bacana.
Bom, nem sei como cheguei aqui. Acho que pode ser uma boa por parecer que tá chegando mais gente e acho que dá pra ir sendo mais intimista.
Eu escrevo sobre coisas do meu passado e não da minha vida atual. Coisas de pé na terra, de cheiro de mato.
Queria muito dividir essas minhas memórias com desconhecidos.
Eu achei que ia ficar aliviada depois de publicar.
Não fiquei.
Agora só fico pensando em duas ou três cenas que talvez eu tivesse escrito diferente se esperasse mais uma semana. O que é uma armadilha, porque eu provavelmente esperaria mais uma semana e acharia outra coisa pra mexer.
Então é isso. Publicar também é aceitar que o texto saiu andando com as próprias pernas. Ou com outras partes do corpo.
Publiquei Depois do Décimo Segundo.
Passei alguns dias com Marina ocupando mais espaço do que eu tinha planejado. Ela entrou pela livraria, subiu para o décimo segundo, foi para Paraty e, quando percebi, já estava discutindo com todo mundo: com Caio, com Ernesto, comigo.
Eu comecei achando que era uma história sobre desejo. Ainda é. Mas no meio apareceu outra coisa: o cansaço de ter que explicar onde termina uma cena e onde começa uma permissão.
Tem sexo. Tem hotel. Tem estrada. Tem uma câmera que nunca é só uma câmera.
E tem uma pergunta que ficou comigo depois do fim: quando uma mulher escreve o próprio desejo, quem se acha autorizado a revisar?
Vou gostar de saber por onde vocês entram nessa história.
Uma coisa que me fascina
tu vive algumas décadas
faz faz faz
não faz não faz não faz
e puft
acaba
era só isso
e tudo isso
sorte de quem
entendeu e viveu
Edu Liguori
Não tenho mais idade para ter sonhos
ou desejos devassos
meus pensamentos estão ligados a imagens que não me pertencem mais
meu tempo já acabou
a moral e os costumes
estes vermes
cada cerveja que bebo
cada ar que respiro
me transformam neste velho poeta
em um mundo que não perdoa
que julga e dilacera
calado cumpro minha pena
a caneta e um coração defasado
sem beijos
suspiros
ou atiros
uma pessoa que se desencaixou
sem lugar neste mundo
a música acabou
Edu Liguori
Cookies no Literúnico: usamos os técnicos para login e segurança. Analytics e Tag Manager só serão ativados se você permitir. Ver Política de Privacidade.