Avatar

Matheus Reis

@ omathreis

Nível
2
Essência
🔥 Fogo
Ritual
0 Dias

Patrimônio

0.0 LC

ESTRADA

LITERÁRIA

Updates

05/0410:26
21 de Novembro de 1987

Querida Elisa,

Mais uma vez estou sentado, me perguntando como nossos caminhos se separaram. Como nosso castelo de amor, promessas e planos simplesmente desmoronou?

Como pude permitir que nossos corações se quebrassem em dois?

Tenho tido dificuldades para dormir. A cama parece grande demais sem você aqui. Fria demais sem seu calor. Me perguntaram se eu tenho pesadelos, mas como posso considerar pesadelos meus constantes sonhos com você?

Acordo sem chão, como se eu não pertencesse mais a este lugar. Não sei se é loucura minha, mas tenho certeza de que o seu cheiro ainda está forte no seu lado da cama. Nada mais faz sentido sem você aqui. Penso em você todos os dias e me culpo na mesma intensidade.

Sinto-me um completo idiota por ter demorado tanto tempo para perceber que nosso amor estava em apuros. Quanto tempo antes teria sido suficiente para te fazer mudar de ideia? Um dia? Uma semana? Um mês? Não tenho como saber essa resposta, mas eu trocaria tudo para ter percebido pelo menos cinco minutos antes. Eu daria tudo, faria tudo, te daria o mundo para que você não partisse.

Mas a vida é assim, cheia de idas e vindas. E eu nunca sequer cogitei que precisaria me preparar para a sua partida, pelo menos até o dia em que você disse que iria embora. E assim o fez.

Do fundo do meu coração, desejo toda a sorte do mundo a você. Desejo que seja feliz, mesmo que, infelizmente, não seja ao meu lado.

Mesmo que, infelizmente, o amor por si só não tenha sido suficiente para nos manter juntos.

No fundo, espero que um dia o amor nos encontre novamente e que seja forte o bastante para quebrar as correntes da distância que nos separam.

Todas as noites me pergunto como isso aconteceu. Depois de todos os momentos juntos, todos os toques, todos os planos... como isso aconteceu?

Dói pensar que todas as promessas foram em vão.

Ontem voltei ao nosso café favorito. Sentei-me na mesma mesa de sempre, aquela no canto perto da máquina de café, o cheiro forte do café torrado que você adora ainda pairava no ar, impregnando todo o ambiente. A mesma mesa onde sempre nos perdíamos em tudo e em nada, em conversas tão gostosas quanto o som da sua risada. Cada gole amargo era como se eu estivesse esperando você chegar a qualquer momento, sorrindo, dizendo que eu exagero no açúcar. O garçom me reconheceu, perguntou de você, e eu menti. Disse que estava viajando. Foi mais fácil do que admitir que você nunca mais vai voltar.

Principalmente agora que eu soube que você está com outro.

Ri. Tentei negar a ideia. Tentei acreditar que não passava de um boato. Como se fosse impossível. Como se meu nome ainda estivesse gravado no seu peito. Mas a risada morreu rápido demais. No fundo, eu sabia. Sempre soube. A vida segue, e, dessa vez, seguiu sem mim

Sei que seguir em frente era o certo para você. Que era necessário. Mas, ainda assim, dói. Espero, de verdade, que esteja bem. Que tenha encontrado a felicidade que, por mais que eu tentasse, nunca consegui te dar.

E se um dia ele te magoar, espero que saiba que o amor verdadeiro nunca machuca, nunca abandona, nunca te faz sentir sozinha. Espero que saiba que eu nunca faria isso, como nunca fiz. O que torna ainda mais difícil aceitar que tudo acabou.

O que torna ainda mais difícil aceitar que preciso te deixar ir.

E esse processo tem sido muito doloroso.
Sinto como se meu coração tivesse sido arrancado do peito e deixado para secar ao sol, esquecido, sem vida. Nos momentos em que não dói, sobra apenas um silêncio ensurdecedor. Ainda não sei como deixei apagar a luz que iluminava toda a minha vida.

Enfim... pode ser que esta seja a última vez que você vai ouvir falar de mim. Do fundo do meu coração, espero que não, mas, se for, quero que saiba que nunca estará sozinha. Onde quer que esteja, meus pensamentos sempre vão te encontrar.

Sinto sua falta, garota. E talvez sempre sinta. Mas se o amor verdadeiro nunca abandona, então, de alguma forma, estarei sempre aí. Mesmo que você nunca olhe para trás. Talvez no aroma do café que você tanto ama. No último gole do vinho branco que você insiste em tomar depois do jantar. Ou até mesmo no lado vazio da cama, quando se lembrar que, um dia, nossos sonhos já dormiram juntos.

Eu ainda te amo!
Realmente te amo!

Para sempre seu,
Henrique.
🔒 Conteúdo Exclusivo
30/0317:47
Redenção

Ele abriu os olhos com dificuldade, sua cabeça latejava; tudo parecia ser mais uma enorme ressaca. Depois de algumas tentativas e algumas ânsias de vômito, ele conseguiu se sentar naquela cama que nada se assemelhava com a dele. O desespero se instaurou rapidamente em sua mente.

— Que lugar é esse?

Ele olhou ao redor, procurando algum indício que pudesse fazê-lo entender onde estava, mas não obteve sucesso. O quarto era escuro, não tinha janela, e a única fonte de luz era a lâmpada que balançava acima de sua cabeça, lançando sombras trêmulas por todo o cômodo, presa por um cabo solto que caía do teto, onde deveria estar fixada. As paredes estavam manchadas, e um líquido negro e viscoso vazava do teto e escorria pela parede à sua direita. O cheiro que impregnava o ar era quase insuportável, uma mistura de mofo, ferrugem e mais alguma coisa que ele não conseguia distinguir e preferiu não pensar muito sobre o que poderia ser. A única saída parecia ser uma grande porta metálica que se erguia à sua frente, mas não tinha nenhuma maçaneta na parte de dentro, ou algo que o fizesse acreditar que seria fácil abri-la.

Ele tentou se lembrar de como poderia ter ido parar ali, mas sua mente estava completamente bagunçada; todas as suas memórias não passavam de grandes borrões. Até seu próprio nome lhe escapava.

Um caderno de capa preta que estava no chão, ao lado da cama, chamou sua atenção. Ele o alcançou e começou a folhear, passou por algumas folhas em branco
até encontrar palavras trêmulas escritas em letras garrafais.

“VOCÊ PRECISA SE LEMBRAR”

“VOCÊ PRECISA ACEITAR”

“VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHO!”

Seu estômago revirou. Sentiu um arrepio gelado na nuca, como se alguém estivesse respirando muito perto de seu pescoço. Mas, ao girar o corpo, encontrou apenas o vazio. Ele se revirou mais algumas vezes, procurando por algo que nem sabia o que era — ou se queria encontrar.

Então, ele congelou. Seu coração martelava no peito. Ele se virou na direção da porta. O som de algo arranhando o concreto irrompeu e quebrou o silêncio da sala, que, a essa altura, já tinha permitido com que ele conseguisse escutar a estática da energia que alimentava a lâmpada.

Por alguns segundos, o silêncio se fez presente de novo, mas o som do concreto sendo rasgado do lado de fora da porta se repetiu. Lento. Deliberado.

E uma voz.

Uma voz baixa e rouca, sussurrando palavras soltas, sem sentido.

“SOZINHO”

“FALSAS PROMESSAS”

“SONHOS DESPEDAÇADOS”

“SOZINHO, SOZINHO, SOZINHO, SOZINHO”

Ele recuou, sentiu o ar faltar quando pisou em algo gelado e viscoso. Olhou para a parede onde o líquido negro escorria, e agora ela estava quase toda encharcada; aquilo tinha alcançado seus pés. Ele se abaixou e encostou o dedo no líquido a fim de investigar o que era e, no mesmo instante, se arrependeu. Era aquilo que estava impregnando o ar com cheiro de ferrugem: sangue.

A lâmpada piscou violentamente. Ele percebeu que sua sombra já não o acompanhava. Ele estava agachado, mas sua sombra continuava em pé. Ele se ajoelhou, o desespero tomou conta de todo o seu ser.

Ele gritou. Gritou o mais forte e alto que conseguia. Sua cabeça girava, sua mente parecia querer lhe pregar algum tipo de peça — ou até mesmo abandoná-lo. Sua consciência foi tomada por uma série de visões, visões de outras pessoas presas nesse mesmo quarto, partilhando de um mesmo desespero, se afogando nessa mesma existência miserável.

Demorou um pouco, mas ele finalmente percebeu: não eram outras pessoas, eram versões dele mesmo. Preso sozinho nesse quarto escuro, batendo a cabeça contra a parede enquanto tentava escrever palavras com sangue em mais uma folha em branco, em mais uma tentativa falha de entender toda aquela merda que fazia ele ser ele.

Ele voltou a si quando aquele barulho de coisa rasgando irrompeu pela sala mais uma vez, mas agora não era concreto que rasgava — era metal.

(acesse o epub para ler o texto completo!)
🔒 Conteúdo Exclusivo
16/0315:11
Ruína

A escuridão assolava a cidade. A noite consumia todo e qualquer resquício de luz, mas isso já não era surpresa. Já fazia um tempo que todos os dias eram assim: o mesmo tom deprimente, dia após dia. Havia uma única coisa que parecia mudar: a constante sensação de estar sendo observado, que aumentava a cada dia.

Nas ruas desertas, onde o vento parecia sussurrar uma marcha fúnebre enquanto soprava sem rumo, aquela presença se movia com a precisão de um predador. Com passos silenciosos, deslizava como uma sombra; o som de sua respiração era quase imperceptível. Mas, dentro de sua mente, essa batalha estava longe de ser silenciosa. Era como se algo ou alguém o estivesse chamando, sussurrando palavras de ódio e desespero o tempo todo — algo que ele já não conseguia mais controlar.

A essa altura, ele já não distinguia onde começava a realidade e onde terminava a loucura. Seus pensamentos sufocavam os resquícios de sanidade que ainda restavam, como uma serpente rastejando e envenenando cada indício de um sentimento bom. Essa presença o consumia de dentro para fora, mas, no fundo, ele entendia que aquilo era parte dele. Ele a ouvia o tempo todo, sussurrando palavras amargas, envenenando seus pensamentos, sempre o lembrando de sua impotência, de seus fracassos e de sua dor.

“Você falhou mais uma vez!”

A voz parecia vir de todas as direções, mas ele sabia exatamente de onde ela vinha. Ele sentia a presença, o peso, o veneno se infiltrando em cada fibra de sua existência, drenando sua força vital. Mas ele não se importava mais. Não podia se dar ao luxo de se importar.

Ele se olhou no espelho quebrado do banheiro — um reflexo distorcido e fragmentado. O rosto que um dia lhe fora familiar agora estava irreconhecível; era apenas um espectro de si mesmo. Seus olhos, escuros e opacos, não refletiam mais esperança, apenas um vazio imenso e avassalador.

“Você é um monstro!”

A voz parecia se divertir com sua miséria. Ele queria gritar, mas a dor em sua garganta o impedia, como se suas cordas vocais estivessem rasgadas. Ele já não sabia mais se era ele quem controlava a presença em sua mente ou se era ela que o controlava.

Ele se lembrava de tudo. De como já tinha sido feliz um dia, antes de tudo começar a desmoronar. Antes de perder tudo aquilo com que se importava. Antes de se perder. Mas, agora, nada mais importava. Nada fazia sentido. A escuridão em sua alma era tão espessa que ele já não conseguia mais ver a luz, nem um mísero feixe.

Ele caminhava pelas ruas desertas, sem rumo, sem propósito. Cada passo o enterrava mais fundo em sua obsessão. Pensava em como se tornara invisível, em como as pessoas falhavam em vê-lo, em entendê-lo, em como ele, mesmo sendo apenas um reflexo do que as pessoas queriam ver, ainda se tornava um fardo para elas. Ele sabia que não seria o herói que esperavam. E, mais do que isso, não queria ser.

“Eu sinto a vontade que você tem de me destruir, mas o que você não entende é que eu sou você!”

Cada sussurro o desestabilizava ainda mais. Ele sabia que não havia salvação. Nada poderia curá-lo. Nada poderia tirá-lo dessa prisão que ele mesmo havia criado. Não podia mais escapar.

Mas, ao mesmo tempo, sentia-se poderoso. A presença dentro dele — essa sombra, esse ódio, essa dor — era dele agora, e ninguém mais poderia tirá-la. A raiva, a vingança, o desespero — tudo isso o alimentava. Ele era o veneno que corria em suas próprias veias. Ele era a escuridão que engolia tudo ao seu redor.

Quando chegou à praça central da cidade, parou e observou todo o vazio à sua frente: os prédios quebrados, os veículos abandonados, as luzes apagadas, a ausência de vida. Tudo parecia refletir o que sentia por dentro. Uma cena de destruição, de desolação completa. O vento gelado cortava seu rosto, mas ele não sentia nada. Não se importava mais.

“Depois que as luzes se apagarem e a sua vida inútil chegar ao fim, eu estarei aqui. E vou me lembrar de todas as vezes em que você gritou e do quão saboroso é o seu sofrimento!”

A frase ecoou em sua mente, e, pela primeira vez em muito tempo, ele sorriu. Um sorriso torto, que não chegava aos olhos. Ele sabia que estava preso em um ciclo de vingança e dor, e entendia que não havia mais como sair. Mas, de alguma forma, não queria sair. Queria que a presença o consumisse por completo, que a dor o engolisse até que não restasse mais nada.

E, enquanto a cidade se afundava em silêncio e desolação, ele se entregava àquilo que havia se tornado: um eco de sua própria ruína, um reflexo distorcido de sua antiga humanidade, um monstro à espreita, pronto para devorar tudo o que ainda restava.

Porque, no final, ele sabia que não se importava mais. Não poderia mais se dar ao luxo de se importar, de sentir.

O monstro era ele, e ele era o monstro.
🔒 Conteúdo Exclusivo