Ruína
A escuridão assolava a cidade. A noite consumia todo e qualquer resquício de luz, mas isso já não era surpresa. Já fazia um tempo que todos os dias eram assim: o mesmo tom deprimente, dia após dia. Havia uma única coisa que parecia mudar: a constante sensação de estar sendo observado, que aumentava a cada dia.
Nas ruas desertas, onde o vento parecia sussurrar uma marcha fúnebre enquanto soprava sem rumo, aquela presença se movia com a precisão de um predador. Com passos silenciosos, deslizava como uma sombra; o som de sua respiração era quase imperceptível. Mas, dentro de sua mente, essa batalha estava longe de ser silenciosa. Era como se algo ou alguém o estivesse chamando, sussurrando palavras de ódio e desespero o tempo todo — algo que ele já não conseguia mais controlar.
A essa altura, ele já não distinguia onde começava a realidade e onde terminava a loucura. Seus pensamentos sufocavam os resquícios de sanidade que ainda restavam, como uma serpente rastejando e envenenando cada indício de um sentimento bom. Essa presença o consumia de dentro para fora, mas, no fundo, ele entendia que aquilo era parte dele. Ele a ouvia o tempo todo, sussurrando palavras amargas, envenenando seus pensamentos, sempre o lembrando de sua impotência, de seus fracassos e de sua dor.
“Você falhou mais uma vez!”
A voz parecia vir de todas as direções, mas ele sabia exatamente de onde ela vinha. Ele sentia a presença, o peso, o veneno se infiltrando em cada fibra de sua existência, drenando sua força vital. Mas ele não se importava mais. Não podia se dar ao luxo de se importar.
Ele se olhou no espelho quebrado do banheiro — um reflexo distorcido e fragmentado. O rosto que um dia lhe fora familiar agora estava irreconhecível; era apenas um espectro de si mesmo. Seus olhos, escuros e opacos, não refletiam mais esperança, apenas um vazio imenso e avassalador.
“Você é um monstro!”
A voz parecia se divertir com sua miséria. Ele queria gritar, mas a dor em sua garganta o impedia, como se suas cordas vocais estivessem rasgadas. Ele já não sabia mais se era ele quem controlava a presença em sua mente ou se era ela que o controlava.
Ele se lembrava de tudo. De como já tinha sido feliz um dia, antes de tudo começar a desmoronar. Antes de perder tudo aquilo com que se importava. Antes de se perder. Mas, agora, nada mais importava. Nada fazia sentido. A escuridão em sua alma era tão espessa que ele já não conseguia mais ver a luz, nem um mísero feixe.
Ele caminhava pelas ruas desertas, sem rumo, sem propósito. Cada passo o enterrava mais fundo em sua obsessão. Pensava em como se tornara invisível, em como as pessoas falhavam em vê-lo, em entendê-lo, em como ele, mesmo sendo apenas um reflexo do que as pessoas queriam ver, ainda se tornava um fardo para elas. Ele sabia que não seria o herói que esperavam. E, mais do que isso, não queria ser.
“Eu sinto a vontade que você tem de me destruir, mas o que você não entende é que eu sou você!”
Cada sussurro o desestabilizava ainda mais. Ele sabia que não havia salvação. Nada poderia curá-lo. Nada poderia tirá-lo dessa prisão que ele mesmo havia criado. Não podia mais escapar.
Mas, ao mesmo tempo, sentia-se poderoso. A presença dentro dele — essa sombra, esse ódio, essa dor — era dele agora, e ninguém mais poderia tirá-la. A raiva, a vingança, o desespero — tudo isso o alimentava. Ele era o veneno que corria em suas próprias veias. Ele era a escuridão que engolia tudo ao seu redor.
Quando chegou à praça central da cidade, parou e observou todo o vazio à sua frente: os prédios quebrados, os veículos abandonados, as luzes apagadas, a ausência de vida. Tudo parecia refletir o que sentia por dentro. Uma cena de destruição, de desolação completa. O vento gelado cortava seu rosto, mas ele não sentia nada. Não se importava mais.
“Depois que as luzes se apagarem e a sua vida inútil chegar ao fim, eu estarei aqui. E vou me lembrar de todas as vezes em que você gritou e do quão saboroso é o seu sofrimento!”
A frase ecoou em sua mente, e, pela primeira vez em muito tempo, ele sorriu. Um sorriso torto, que não chegava aos olhos. Ele sabia que estava preso em um ciclo de vingança e dor, e entendia que não havia mais como sair. Mas, de alguma forma, não queria sair. Queria que a presença o consumisse por completo, que a dor o engolisse até que não restasse mais nada.
E, enquanto a cidade se afundava em silêncio e desolação, ele se entregava àquilo que havia se tornado: um eco de sua própria ruína, um reflexo distorcido de sua antiga humanidade, um monstro à espreita, pronto para devorar tudo o que ainda restava.
Porque, no final, ele sabia que não se importava mais. Não poderia mais se dar ao luxo de se importar, de sentir.
O monstro era ele, e ele era o monstro.