II. A sexualidade infantil
Faz parte da crença popular sobre a pulsão sexual que ela esteja ausente na infância e que apareça pela primeira vez no período da vida conhecido como puberdade. Isto, embora seja um erro comum, tem consequências graves e deve-se principalmente à nossa atual ignorância dos princípios fundamentais da vida sexual. Um estudo abrangente das manifestações sexuais da infância provavelmente nos revelaria a existência das características essenciais da pulsão sexual e nos familiarizaria com seu desenvolvimento e sua composição a partir de diversas fontes.
*A negligência do infantil.* - É notável que os escritores que se esforçam para explicar as qualidades e reações do indivíduo adulto tenham dado muito mais atenção ao período ancestral do que ao período da própria existência do indivíduo - isto é, atribuíram mais influência à hereditariedade do que à infância. Na verdade, poderia muito bem supor-se que a influência deste último período seria mais fácil de compreender e que teria direito a mais consideração do que a hereditariedade.[1] Na verdade, ocasionalmente encontramos na literatura médica notas sobre as atividades sexuais prematuras de crianças pequenas, sobre ereções e masturbação e até mesmo ações semelhantes ao coito, mas estas são referidas meramente como ocorrências excepcionais, como curiosidades, ou como exemplos dissuasores de perversidade prematura. Nenhum autor, que eu saiba, reconheceu a normalidade da pulsão sexual na infância, e nos numerosos escritos sobre o desenvolvimento da criança o capítulo sobre “Desenvolvimento Sexual” é geralmente ignorado.[2]
*Amnésia infantil.* - Esta notável negligência se deve em parte a considerações convencionais, que influenciam os escritores devido à sua própria educação, e em parte a um fenômeno psíquico que até agora permaneceu inexplicável. Refiro-me à amnésia peculiar que oculta à maioria das pessoas (não a todas!) os primeiros anos da sua infância, geralmente os primeiros seis ou oito anos. Até agora não nos ocorreu que esta amnésia deveria nos surpreender, embora tenhamos boas razões para surpresa. Pois somos informados de que naqueles anos dos quais mais tarde não obtemos nada, exceto alguns fragmentos de memória incompreensíveis, reagimos vividamente às impressões, que manifestamos dor e prazer como qualquer ser humano, que demonstramos amor, ciúme e outras paixões à medida que nos afetavam; na verdade, somos informados de que proferimos comentários que provaram aos adultos que possuímos compreensão e um poder de julgamento emergente. Ainda não sabemos nada de tudo isso quando envelhecemos. Por que nossa memória fica atrás de todas as nossas outras atividades psíquicas? Realmente temos motivos para acreditar que em nenhum momento da vida somos mais capazes de impressões e reproduções do que durante os anos da infância.[3]
Por outro lado, devemos assumir, ou podemos convencer-nos através de observações psicológicas sobre os outros, que as próprias impressões que esquecemos deixaram, no entanto, os traços mais profundos na nossa vida psíquica e agiram como determinantes para todo o nosso desenvolvimento futuro. Concluímos, portanto, que não se trata de um verdadeiro esquecimento das impressões infantis, mas sim de uma amnésia semelhante à observada nos neuróticos para experiências posteriores, cuja natureza consiste em serem detidas da consciência (repressão). Mas que forças provocam esta repressão das impressões infantis? Quem conseguir resolver esse enigma também explicará a amnésia histérica.
Não hesitaremos, contudo, em afirmar que a existência da amnésia infantil nos proporciona um novo ponto de comparação entre os estados psíquicos da criança e os do psiconeurótico. Já encontramos outro ponto de comparação quando confrontados com o fato de que a sexualidade do psiconeurótico preserva o caráter infantil ou voltou a ele. Não poderá haver uma ligação última entre a amnésia infantil e a amnésia histérica?
A conexão entre a amnésia infantil e a histérica é realmente mais do que um mero jogo de humor. A amnésia histérica que serve à repressão só pode ser explicada pelo fato de que o indivíduo já possui uma soma de lembranças que foram retiradas da disposição consciente e que, por conexão associativa, agora apreendem aquilo que é influenciado pelas forças repulsivas da repressão emanadas da consciência.[4] Podemos dizer que sem amnésia infantil não haveria amnésia histérica.
Acredito que a amnésia infantil que faz com que o indivíduo olhe para a sua infância como se fosse um tempo pré-histórico e lhe oculta o início da sua própria vida sexual - que esta amnésia é responsável pelo fato de normalmente não se atribuir qualquer valor ao período infantil no desenvolvimento da vida sexual. Um único observador não pode preencher a lacuna assim produzida no nosso conhecimento. Já em 1896 eu já havia enfatizado a importância da infância para a origem de certos fenômenos importantes relacionados com a vida sexual, e desde então não deixei de colocar em primeiro plano a importância do fator infantil para a sexualidade.
O PERÍODO DE LATÊNCIA SEXUAL DA INFÂNCIA E SUAS INTERRUPÇÕES
As descobertas extraordinariamente frequentes de manifestações sexuais aparentemente anormais e excepcionais na infância, bem como a descoberta de reminiscências infantis em neuróticos, até então inconscientes, permitem-nos esboçar o seguinte quadro do comportamento sexual da infância.[5]
Parece certo que a criança recém-nascida traz consigo os germes das sensações sexuais que continuam a desenvolver-se durante algum tempo e depois sucumbem a uma supressão progressiva, que por sua vez é interrompida pelos avanços adequados do desenvolvimento sexual e que pode ser controlada pelas idiossincrasias individuais. Nada se sabe sobre as leis e a periodicidade deste curso oscilante de desenvolvimento. Parece, no entanto, que a vida sexual da criança se manifesta principalmente no terceiro ou quarto ano de alguma forma acessível à observação.[6]
*A Inibição Sexual.* - É durante este período de latência total ou pelo menos parcial que se desenvolvem as forças psíquicas que mais tarde atuam como inibições na vida sexual e estreitam sua direção como represas. Essas forças psíquicas são a aversão, a vergonha e as exigências morais e estéticas ideais. Podemos ter a impressão de que a construção dessas barreiras na criança civilizada é obra da educação; e certamente a educação contribui muito para isso. Na realidade, porém, este desenvolvimento é determinado organicamente e pode ocasionalmente ser produzido sem a ajuda da educação. Na verdade, a educação só permanece adequadamente dentro do domínio que lhe foi atribuído se seguir estritamente o caminho do determinante orgânico e lhe imprimir uma impressão um pouco mais limpa e profunda.
*Formação de reação e sublimação.* - Quais são os meios que realizam essas construções tão importantes e tão significativas para a cultura e normalidade pessoal posteriores? Provavelmente são provocadas à custa da própria sexualidade infantil, cujo influxo não cessou nem mesmo neste período de latência - cuja energia, na verdade, foi desviada total ou parcialmente da utilização sexual e conduzida para outros objetivos. Os historiadores da civilização parecem ser unânimes na opinião de que tal desvio das forças motrizes sexuais dos alvos sexuais para novos objetivos, um processo que merece o nome de sublimação, forneceu componentes poderosos para todas as realizações culturais. Acrescentaremos, portanto, que o mesmo processo atua no desenvolvimento de cada indivíduo, e que começa a atuar no período de latência sexual.[7]
Também podemos arriscar uma opinião sobre os mecanismos dessa sublimação. As sensações sexuais destes anos infantis, por um lado, não poderiam ser utilizáveis, uma vez que as funções de procriação são adiadas – esta é a característica principal do período de latência; por outro lado, seriam em si perversos, pois emanariam de zonas erógenas e nasceriam de impulsos que no curso do desenvolvimento do indivíduo só poderiam evocar um sentimento de desprazer. Despertam, portanto, forças contrárias (sentimentos de reação) que, para suprimir tal descontentamento, constroem as represas psíquicas acima mencionadas: aversão, vergonha e moralidade.[8]
*As Interrupções do Período de Latência.* - Sem nos iludirmos quanto à natureza hipotética e à falta de clareza de nossa compreensão a respeito do período infantil de latência e atraso, retornaremos à realidade e afirmaremos que tal utilização da sexualidade infantil representa uma educação ideal da qual o desenvolvimento do indivíduo geralmente se desvia em certa medida e muitas vezes de forma muito considerável. Uma parte da manifestação sexual que se retirou da sublimação ocasionalmente irrompe, ou uma atividade sexual permanece durante toda a duração do período de latência, até a irrupção reforçada da pulsão sexual na puberdade. Na medida em que prestaram alguma atenção à sexualidade infantil, os educadores comportam-se como se partilhassem as nossas opiniões relativas à formação das forças morais de defesa à custa da sexualidade, e como se soubessem que a atividade sexual torna a criança ineducável; pois os educadores consideram todas as manifestações sexuais da criança como um “mal” diante do qual pouco se pode realizar. Temos, porém, todos os motivos para dirigir a nossa atenção para esses fenómenos tão temidos pelos educadores, pois esperamos encontrar neles a solução da formação primitiva da pulsão sexual.
AS MANIFESTAÇÕES DA SEXUALIDADE INFANTIL
Por razões que discutiremos mais tarde, tomaremos como modelo das manifestações sexuais infantis a sucção do dedo (chupar por prazer), à qual o pediatra húngaro Lindner dedicou um excelente ensaio.[9]
*Chupar o dedo.* - A sucção do dedo, que se manifesta no bebê em amamentação e que pode ser continuada até a maturidade ou ao longo da vida, consiste em uma repetição rítmica do contato de sucção com a boca (os lábios), onde o propósito de se alimentar é excluído. Uma parte do próprio lábio, a língua, que é outra região preferível da pele ao alcance, e até mesmo o dedão do pé - podem ser considerados objetos de sucção. Simultaneamente, há também um desejo de agarrar coisas, que se manifesta num puxão rítmico do lóbulo da orelha e que pode fazer com que a criança agarre uma parte de outra pessoa (geralmente a orelha) para o mesmo propósito. A sucção prazerosa está ligada a todo um esgotamento de atenção e leva ao sono ou mesmo a uma reação motora em forma de orgasmo.[10] A sucção prazerosa costuma ser combinada com o contato de fricção com certas partes sensíveis do corpo, como os seios e os órgãos genitais externos. É por esse caminho que muitas crianças passam da sucção do dedo à masturbação.
O próprio Lindner reconheceu a natureza sexual desta ação e enfatizou-a abertamente. No berçário, chupar o dedo costuma ser tratado da mesma forma que qualquer outra “travessura” sexual da criança. Uma objeção muito forte foi levantada contra esse ponto de vista por muitos pediatras e neurologistas, o que certamente se deve em parte à confusão dos termos “sexual” e “genital”. Esta contradição levanta a difícil questão, que não pode ser rejeitada, nomeadamente, em que traços gerais queremos reconhecer as manifestações sexuais da criança. Acredito que a associação das manifestações sobre as quais obtivemos conhecimento através da investigação psicanalítica nos justifica reivindicar a sucção do dedo como atividade sexual e estudar através dela as características essenciais da atividade sexual infantil.
*Autoerotismo.* - É nosso dever aqui organizar este estado de coisas de maneira diferente. Insistamos que o caráter mais marcante desta atividade sexual é que o impulso não é dirigido contra outras pessoas, mas que se gratifica no seu próprio corpo; para usar o termo feliz inventado por Havelock Ellis, diremos que é autoerótico.[11]
Além disso, é claro que a ação da criança que chupa o dedo é determinada pelo fato de ela buscar um prazer já experimentado e agora lembrado. Através da sucção rítmica de uma porção da pele ou mucosa ela encontra a gratificação da maneira mais simples. Também é fácil conjecturar em que ocasiões a criança experimentou pela primeira vez esse prazer que agora se esforça por renovar. A primeira e mais importante atividade na vida da criança, a sucção do seio materno (ou seu substituto), deve tê-la familiarizado com esse prazer. Diríamos que os lábios da criança se comportaram como uma zona erógena e que a excitação através do jato quente de leite foi realmente a causa da sensação de prazer. Na verdade, a gratificação da zona erógena foi inicialmente unida à gratificação de se alimentar. Aquele que vê uma criança saciada afundar-se no seio da mãe e adormecer com as bochechas vermelhas e um sorriso feliz, terá de admitir que esta imagem permanece tão típica da expressão da gratificação sexual na vida adulta. Mas o desejo de repetição da gratificação sexual está separado do desejo de se alimentar; uma separação que se torna inevitável com o aparecimento dos dentes, quando o alimento não é mais sugado, mas mastigado. A criança não utiliza um objeto estranho para sugar, mas prefere a própria pele porque é mais conveniente, porque assim se torna independente do mundo exterior que ainda não pode controlar, e porque assim cria para si mesma, por assim dizer, uma segunda zona erógena, mesmo que inferior. A inferioridade desta segunda região leva-a a procurar mais tarde as mesmas partes, os lábios de outra pessoa. (“É uma pena que eu não possa me beijar”, pode ser atribuído a isso.)
Nem todas as crianças chupam o dedo. Pode-se presumir que ela é encontrada apenas em crianças nas quais o significado erógeno da zona labial é constitucionalmente reforçado. As crianças nas quais isso é mantido beijam habitualmente quando adultos e mostram uma tendência a beijos perversos, ou como homens têm um desejo acentuado de beber e fumar. Mas se a repressão entra em ação, eles sentem repulsa por comer e evidenciam vômitos histéricos. Em virtude da comunidade da zona labial, a repressão invade o impulso de nutrição. Muitas de minhas pacientes que apresentavam distúrbios alimentares, como globos histéricos, sensações de asfixia e vômitos, eram chupadoras de dedo enérgicas durante a infância.
Na sucção do polegar ou do prazer já pudemos observar os três caracteres essenciais de uma manifestação sexual infantil. Este último tem a sua origem em conjunto com uma função corporal muito importante para a vida, ainda não conhece nenhum objeto sexual, é autoerótico e o seu alvo sexual está sob o controle de uma zona erógena. Suponhamos por enquanto que esses caracteres também são válidos para a maioria das outras atividades da pulsão sexual infantil.
O alvo sexual DA SEXUALIDADE INFANTIL
*As características das zonas erógenas.* - A partir do exemplo da sucção no dedo, podemos reunir muitos pontos úteis para distinguir uma zona erógena. É uma porção da pele ou mucosa na qual os estímulos produzem uma sensação de prazer de qualidade definida. Não há dúvida de que os estímulos produtores de prazer são governados por determinantes especiais que desconhecemos. Os caracteres rítmicos devem desempenhar algum papel neles e isso sugere fortemente uma analogia com as cócegas. Contudo, não parece tão certo se o caráter da sensação de prazer evocada pelo estímulo pode ser designado como "peculiar" e em que parte desta peculiaridade existe o fator sexual. A psicologia ainda tateia no escuro quando se trata de questões de prazer e dor, e a suposição mais cautelosa é, portanto, a mais aconselhável. Talvez possamos mais tarde encontrar razões que parecem apoiar a qualidade peculiar da sensação de prazer.
A qualidade erógena pode aderir principalmente a regiões definidas do corpo. Como mostra o exemplo da sucção no dedo, existem zonas erógenas predestinadas. Mas o mesmo exemplo também mostra que qualquer outra região da pele ou mucosa pode assumir a função de zona erógena; deve, portanto, trazer consigo uma certa adaptabilidade. A produção da sensação de prazer depende, portanto, mais da qualidade do estímulo do que da natureza da região corporal. A criança que chupa o dedo olha seu corpo ao redor e seleciona qualquer parte dele para chupar com prazer e, ao se acostumar com isso, ela então prefere. Se ele acidentalmente atingir uma região predestinada, como seio, mamilo ou genitais, naturalmente terá preferência. Uma tendência bastante análoga ao deslocamento é novamente encontrada na sintomatologia da histeria. Nesta neurose, a repressão diz respeito principalmente às zonas genitais propriamente ditas; estes, por sua vez, transmitem sua excitação às outras zonas erógenas, geralmente adormecidas na vida madura, que então se comportam exatamente como os órgãos genitais. Mas, além disso, assim como na sucção do dedo, qualquer outra região do corpo pode ser dotada de excitação dos órgãos genitais e elevada a uma zona erógena. As zonas erógenas e histerógenas apresentam as mesmas características.[12]
*O alvo sexual Infantil.* - O alvo sexual do impulso infantil consiste na produção de gratificação através da excitação adequada desta ou daquela zona erógena selecionada. Para deixar o desejo de sua repetição, essa gratificação deve ter sido previamente experimentada, e podemos estar certos de que a natureza inventou meios definidos para não deixar esta ocorrência ao mero acaso. O arranjo que cumpriu esse propósito para a zona labial já discutimos; é a conexão simultânea desta parte do corpo com a alimentação. Encontraremos também outros mecanismos semelhantes como fontes de sexualidade. O estado de desejo de repetição de gratificação pode ser reconhecido através de uma sensação peculiar de tensão que em si é de caráter bastante doloroso, e através de uma sensação de coceira ou sensibilidade determinada centralmente que é projetada na zona erógena periférica. O alvo sexual pode, portanto, ser formulado da seguinte forma: o objetivo principal é substituir o sentimento de sensibilidade projetado na zona erógena por aquele estímulo externo que remove o sentimento de sensibilidade, evocando o sentimento de gratificação. Este estímulo externo consiste geralmente numa manipulação análoga à sucção.
Está totalmente de acordo com o nosso conhecimento fisiológico se o desejo for despertado também perifericamente através de uma mudança real na zona erógena. A ação só é intrigante até certo ponto, na medida em que um estímulo para a sua supressão parece querer que outro seja aplicado ao mesmo lugar.
AS MANIFESTAÇÕES SEXUAIS MASTURBÁTICAS[13]
É uma grande satisfação saber que não há mais nada de maior importância para aprender sobre a atividade sexual da criança depois que o impulso de uma zona erógena se tornou compreensível para nós. As diferenças mais pronunciadas encontram-se na ação necessária à gratificação, que consiste em sugar para a zona labial e que deve ser substituída por outras ações musculares conforme a situação e natureza das demais zonas.
*A Atividade da Zona Anal.* - Assim como a zona labial, a zona anal é, através de sua posição, adaptada para conduzir a sexualidade às demais funções do corpo. Deve-se supor que o significado erógeno desta região do corpo era originalmente muito grande. Através da psicanálise encontramos, não sem surpresa, as muitas transformações que normalmente são empreendidas com as excitações habituais que daqui emanam, e que esta zona muitas vezes retém para a vida um fragmento considerável de irritabilidade genital.[14] Os catarros intestinais, tão frequentes durante a infância, produzem irritações intensas nesta zona, e muitas vezes ouvimos dizer que o catarro intestinal nesta idade delicada causa "nervosismo". Nas doenças neuróticas posteriores, exercem uma influência definida na expressão sintomática da neurose, colocando à sua disposição todo o conjunto dos distúrbios intestinais. Considerando a importância erógena da zona anal que foi retida pelo menos na transformação, não se deve rir das influências hemorroidárias às quais a antiga literatura médica atribuía tanto peso na explicação dos estados neuróticos.
As crianças que utilizam a sensibilidade erógena da zona anal podem ser reconhecidas pela retenção das massas fecais até que, através do acúmulo, resultem contrações musculares violentas; a passagem dessas massas pelo ânus pode produzir uma irritação acentuada da membrana mucosa. Além da dor, isto deve produzir também uma sensação de prazer. Uma das premonições mais seguras de excentricidade ou nervosismo posteriores é quando um bebê se recusa obstinadamente a esvaziar o intestino quando colocado na enfermaria pela enfermeira e reserva essa função para seu próprio prazer. Não lhe interessa que sujará a cama; tudo o que lhe importa é não perder o prazer subsidiário ao defecar. Os educadores têm mais uma vez a noção certa quando designam como más as crianças que retêm essas funções. O conteúdo do intestino, que é um objeto excitante para a superfície sexualmente sensível da membrana mucosa, comporta-se como o precursor de outro órgão que só se torna ativo depois da fase da infância. Além disso, possui outros significados importantes para a criança. É evidentemente tratado como uma parte adicional do corpo, representa a primeira “doação”, cuja disposição expressa a flexibilidade, enquanto a retenção dela pode expressar o despeito do pequeno ser para com o seu ambiente. Da ideia de “doação” ele ganha posteriormente o significado de “bebê” que, segundo uma das teorias sexuais infantis, é adquirido pela alimentação e nasce pelo intestino.
A retenção de massas fecais, a princípio intencional para utilizá-las, por assim dizer, para a excitação masturbatória da zona anal, é pelo menos uma das raízes da constipação tão frequente nos neuropatas. Todo o significado da zona anal reflete-se no fato de que há poucos neuróticos que não têm seus costumes, cerimônias escatológicas especiais, etc., que mantêm com cauteloso sigilo.
A verdadeira irritação masturbatória da zona anal por meio dos dedos, evocada por prurido de suporte central ou periférico, não é nada rara em crianças mais velhas.
*A Atividade da Zona Genital.* - Entre as zonas erógenas do corpo da criança há uma que certamente não desempenha o papel principal e que não pode ser a portadora das primeiras sensações sexuais - que, no entanto, está destinada a grandes coisas na vida adulta. Tanto no homem como na mulher está relacionado com a micção da urina (pênis, clitóris), e no primeiro é encerrado num saco de mucosa, provavelmente para não perder as irritações causadas pelas secreções que podem despertar a excitação sexual em idade precoce. As atividades sexuais desta zona erógena, que pertence aos órgãos genitais reais, são o início da vida sexual normal posterior.
Devido à posição anatômica, ao transbordamento de secreções, à lavagem e fricção do corpo e a certas excitações acidentais (a perambulação de vermes intestinais na menina), acontece que a sensação de prazer que essas partes do corpo são capazes de produzir torna-se perceptível para a criança ainda na idade de sucção, despertando assim o desejo de sua repetição. Quando revisamos todos os arranjos reais, e temos em mente que as medidas de limpeza têm o mesmo efeito que a própria impureza, dificilmente podemos confundir a intenção da natureza, que é estabelecer a futura primazia destas zonas erógenas para a atividade sexual através do onanismo infantil do qual dificilmente um indivíduo escapa. A ação de retirar o estímulo e liberar a gratificação consiste em uma contiguidade de fricção com a mão ou em certo reflexo de pressão previamente formado, efetuado pelo fechamento das coxas. Este último procedimento parece ser o mais primitivo e é de longe o mais comum nas meninas. A preferência pela mão nos meninos já indica que uma parte importante da atividade sexual masculina será realizada no futuro pelo impulso à maestria (Bemächtigungstrieb).[15] Só poderei contribuir para a clareza se eu afirmar que a masturbação infantil deve ser dividida em três fases. A primeira fase pertence ao período de amamentação, a segunda ao curto período de florescimento da atividade sexual por volta do quarto ano, apenas a terceira corresponde àquela que muitas vezes é considerada exclusivamente como onanismo da puberdade.
O onanismo infantil parece desaparecer após um breve período, mas pode continuar ininterruptamente até a puberdade e representar assim o primeiro desvio acentuado do desenvolvimento desejável para o homem civilizado. Em algum momento durante a infância, após o período de amamentação, a pulsão sexual dos órgãos genitais desperta novamente e continua ativa por algum tempo até ser novamente suprimido, ou pode continuar sem interrupção. As relações possíveis são muito diversas e só podem ser elucidadas através de uma análise mais precisa de casos individuais. Os detalhes, porém, desta segunda atividade sexual infantil deixam as impressões mais profundas (inconscientes) na memória da pessoa; se o indivíduo permanecer saudável, eles determinam seu caráter e se ele adoecer após a puberdade, determinam a sintomatologia de sua neurose.[16] Neste último caso verifica-se que este período sexual é esquecido e as reminiscências conscientes que apontam para ele são deslocadas; Já mencionei que gostaria de relacionar a amnésia infantil normal com esta atividade sexual infantil. Pela investigação psicanalítica é possível trazer à consciência o material esquecido e, assim, remover uma compulsão que emana do material psíquico inconsciente.
*O retorno da masturbação infantil.* - A excitação sexual do período de amamentação retorna durante os anos designados da infância como uma sensação de cócegas centralmente determinada que exige gratificação onanística, ou como um processo semelhante à poluição que, análogo à poluição da maturidade, pode atingir a gratificação sem a ajuda de qualquer ação. Este último caso é mais frequente nas meninas e na segunda metade da infância; seus determinantes não são bem compreendidos, mas muitas vezes, embora não regularmente, parece ter como base um período de onanismo ativo inicial. A sintomatologia desta manifestação sexual é pobre; o aparelho genital ainda está subdesenvolvido e todos os sinais são, portanto, apresentados pelo aparelho urinário que é, por assim dizer, o guardião do aparelho genital. A maioria dos chamados distúrbios da bexiga neste período são de natureza sexual; sempre que a enurese noturna não representa um ataque epiléptico corresponde a uma poluição.
O retorno da atividade sexual é determinado por causas internas e externas que podem ser conjecturadas a partir da formação dos sintomas das doenças neuróticas e definitivamente reveladas pelas investigações psicanalíticas. As causas internas serão discutidas mais tarde; as causas externas acidentais alcançam neste momento um significado grande e permanente. Como primeira causa externa temos a influência da sedução que trata prematuramente a criança como um objeto sexual; sob condições que favorecem as impressões, isso ensina à criança a gratificação das zonas genitais e, portanto, geralmente a força a repetir essa gratificação no onanismo. Tais influências podem vir de adultos ou de outras crianças. Não posso admitir que tenha superestimado a sua frequência ou o seu significado nas minhas contribuições para a etiologia da histeria,[17] embora não soubesse então que indivíduos normais podem ter as mesmas experiências na sua infância e, portanto, atribuísse um valor mais elevado às seduções do que aos fatores encontrados na constituição e desenvolvimento sexual.[18] É bastante óbvio que nenhuma sedução é necessária para despertar a vida sexual da criança, e que tal despertar pode surgir espontaneamente a partir de fontes internas.
*Disposição polimorfa-perversa.* - É instrutivo saber que sob a influência da sedução a criança pode se tornar polimorfa-perversa e pode ser enganada em todos os tipos de transgressões. Isso mostra que traz consigo a adaptação para eles à sua disposição. A formação de tais perversões encontra apenas uma ligeira resistência porque as barreiras psíquicas contra as transgressões sexuais, como a vergonha, o ódio e a moralidade - que dependem da idade da criança - ainda não foram erguidas ou estão apenas em processo de formação. Neste aspecto, a criança talvez não se comporte de maneira diferente da mulher comum e inculta, na qual existe a mesma disposição polimorfa-perversa. Tal mulher pode permanecer sexualmente normal em condições normais, mas sob a orientação de um sedutor inteligente ela encontrará prazer em cada perversão e manterá a mesma atividade sexual. A mesma disposição polimorfa ou infantil cabe à prostituta para a sua atividade profissional, e no enorme número de prostitutas e de mulheres a quem devemos atribuir uma adaptação para a prostituição, mesmo que não sigam esta vocação, é absolutamente impossível não reconhecer na sua disposição uniforme para todas as perversões o humano universal e primitivo.
*Impulsos Parciais.* - De resto, a influência da sedução não nos ajuda a desvendar as relações originais da pulsão sexual, mas antes confunde a nossa compreensão dessas relações, na medida em que fornece prematuramente à criança o objeto sexual num momento em que a pulsão sexual infantil ainda não evidencia qualquer desejo por ele. Devemos admitir, contudo, que a vida sexual infantil, embora principalmente sob o controle de zonas erógenas, também apresenta componentes nos quais, desde o início, outras pessoas são consideradas objetos sexuais. Entre estes temos os impulsos de olhar e de se exibir, e de crueldade, que se manifestam um tanto independentemente das zonas erógenas e que só mais tarde entram em relação íntima com a vida sexual; mas, juntamente com a atividade sexual erógena, são perceptíveis, mesmo nos anos infantis, como esforços separados e independentes. A criança é acima de tudo desavergonhada e, durante os primeiros anos, demonstra um prazer definido em exibir o seu corpo e especialmente os seus órgãos sexuais. Uma contrapartida deste desejo que deve ser considerado perverso, a curiosidade de ver os órgãos genitais de outras pessoas, aparece provavelmente primeiro nos últimos anos da infância, quando o impedimento do sentimento de vergonha já atingiu um certo desenvolvimento. Sob a influência da sedução a perversão do olhar pode adquirir grande importância para a vida sexual da criança. Ainda assim, a partir de minhas investigações sobre a infância de pacientes normais e neuróticos, devo concluir que o impulso de olhar pode aparecer na criança como uma manifestação sexual espontânea. As crianças pequenas, cuja atenção já foi dirigida para os seus próprios órgãos genitais - geralmente através da masturbação - tendem a progredir nessa direção sem interferência externa e a desenvolver um interesse vívido pelos órgãos genitais dos seus companheiros. Como a ocasião para a satisfação de tal curiosidade é geralmente proporcionada durante a satisfação de ambas as necessidades excrementícias, tais crianças tornam-se voyeurs e são espectadores zelosos da micção de urina e fezes dos outros. Após esta tendência ter sido reprimida, a curiosidade de ver os órgãos genitais dos outros (os seus próprios ou os do outro sexo) permanece como um desejo atormentador que, em alguns casos neuróticos, fornece a força motriz mais forte para a formação de sintomas.
O componente cruel da pulsão sexual desenvolve-se na criança com ainda maior independência das atividades sexuais que estão ligadas às zonas erógenas. A crueldade está especialmente próxima do caráter infantil, uma vez que a inibição que restringe o impulso ao domínio antes que cause dor aos outros – isto é, a capacidade de simpatia – desenvolve-se comparativamente tarde. Como sabemos, uma análise psicológica completa deste impulso ainda não foi realizada com sucesso; podemos presumir que os sentimentos cruéis emanam do impulso ao domínio e aparecem num período da vida sexual antes de os órgãos genitais terem assumido o seu papel posterior. Domina então uma fase da vida sexual, que mais tarde descreveremos como a organização pré-genital. As crianças que se distinguem por demonstrarem uma crueldade especial para com os animais e os companheiros de brincadeira podem ser justamente suspeitas de atividade sexual intensa e prematura nas zonas erógenas; e numa prematuridade simultânea de todos os pulsões sexuais, a atividade sexual erógena certamente parece ser primária. A ausência da barreira da simpatia traz consigo o perigo de que as ligações entre a crueldade e os impulsos erógenos formados na infância não possam ser quebradas mais tarde na vida.
Uma fonte erógena do impulso passivo para a crueldade (masoquismo) é encontrada na dolorosa irritação da região glútea, familiar a todos os educadores desde as confissões de J.J. Rousseau. Isto levou-os, com justiça, a exigir que o castigo físico, que geralmente diz respeito a esta parte do corpo, fosse negado a todas as crianças em quem a libido pudesse ser forçada a seguir caminhos colaterais pelas exigências posteriores da educação cultural.[19]
A INVESTIGAÇÃO SEXUAL INFANTIL
*Inquisitividade.* - Ao mesmo tempo em que a vida sexual da criança atinge seu primeiro florescimento, dos três aos cinco anos, também evidencia o início daquela atividade que é atribuída ao impulso de conhecimento e investigação. O desejo de conhecimento não pode ser adicionado aos componentes elementares dos impulsos nem pode ser totalmente subordinado à sexualidade. A sua atividade corresponde por um lado a um modo de aquisição sublimador e por outro lado trabalha com a energia do desejo de olhar. As suas relações com a vida sexual, contudo, são de particular importância, pois aprendemos com a psicanálise que a curiosidade das crianças é atraída para os problemas sexuais invulgarmente cedo e de uma forma inesperadamente intensa; na verdade, talvez possa primeiro ser despertada pelos problemas sexuais.
*O Enigma da Esfinge.* - Não são os interesses teóricos, mas os práticos que iniciam o trabalho da atividade de investigação na criança. A ameaça às condições de sua existência através da chegada real ou esperada de um novo filho, o medo da perda de cuidado e amor que está relacionado com este evento, fazem com que a criança se torne pensativa e sagaz. Correspondendo à história deste despertar, o primeiro problema com que se ocupa não é a questão da diferença entre os sexos, mas o enigma: de onde vêm as crianças? Numa forma distorcida, que pode ser facilmente desvendada, este é o mesmo enigma que foi dado pela Esfinge de Tebas. O fato dos dois sexos geralmente é primeiro aceito pela criança sem luta e hesitação. É bastante natural que a criança do sexo masculino pressuponha que todas as pessoas conhecem um órgão genital como o seu e ache impossível harmonizar a falta dele com a sua concepção dos outros.
*O Complexo de Castração.* - Esta convicção é energicamente aderida pelo menino e tenazmente defendida contra as contradições que logo surgem, e só são abandonadas após severas lutas internas (complexo de castração). As formações substitutivas desse pênis perdido da mulher desempenham um grande papel na formação de muitas perversões.
A suposição do mesmo órgão genital (masculino) em todas as pessoas é a primeira das notáveis e consequentes teorias sexuais infantis. De pouca ajuda para a criança quando a ciência biológica concorda com os seus preconceitos e reconhece o clitóris feminino como o verdadeiro substituto do pénis. A menina não reage com recusas semelhantes ao ver o órgão genital do menino de formato diferente. Ela está imediatamente preparada para reconhecê-lo e logo fica com inveja do pênis; essa inveja atinge seu ápice no desejo, consequentemente importante, de que ela também seja um menino.
*Teorias do Nascimento.* - Muitas pessoas podem se lembrar claramente de quão intensamente se interessaram, no período pré-púbere, pela questão de onde vieram os filhos. As soluções anatômicas da época eram muito diferentes; os filhos saem do peito ou são cortados do corpo, ou o umbigo se abre para deixá-los sair. Fora da análise raramente nos lembramos da investigação correspondente aos primeiros anos da infância; há muito que se fundiu com a repressão, mas os seus resultados foram completamente uniformes. Criam-se filhos comendo algo especial (como no conto de fadas) e eles nascem pelo intestino como se fosse uma passagem. Essas teorias infantis lembram as estruturas do reino animal, lembram especialmente a cloaca dos tipos que estão abaixo dos mamíferos.
*Concepção Sádica do Ato Sexual.* - Se crianças de uma idade tão delicada se tornam espectadoras do ato sexual entre adultos, para o qual a ocasião é fornecida pela convicção dos adultos de que as crianças pequenas não conseguem entender nada de sexual, elas não podem deixar de conceber o ato sexual como uma espécie de maltrato ou opressão, isto é, ele as impressiona em um sentido sádico. A psicanálise também nos ensina que essa impressão da primeira infância contribui muito para a disposição para um posterior deslocamento sádico do alvo sexual. Além disso, as crianças também se ocupam com o problema de saber em que consiste o ato sexual ou, como o compreendem, em que consiste o casamento, e procuram a solução do mistério principalmente numa associação à qual as funções de urinar e defecar dão ocasião.
*O fracasso típico da investigação sexual infantil.* - Pode-se afirmar em geral sobre as teorias sexuais infantis que são reproduções da própria constituição sexual da criança e que, apesar de seus erros grotescos, evidenciam mais compreensão dos processos sexuais do que é creditado aos seus criadores. As crianças também percebem a gravidez da mãe e sabem interpretá-la corretamente; a fábula da cegonha é muitas vezes contada diante de auditores que a confrontam com uma suspeita profunda, mas na maior parte das vezes muda. Mas como dois elementos permanecem desconhecidos para a investigação sexual infantil, a saber, o papel da propagação do sémen e da abertura genital feminina – precisamente os mesmos pontos em que a organização infantil ainda está atrasada – o esforço do investigador infantil permanece regularmente infrutífero e termina numa renúncia que não raramente deixa um dano duradouro ao desejo de conhecimento. A investigação sexual destes primeiros anos da infância é sempre conduzida sozinha, significa o primeiro passo para uma orientação independente no mundo e provoca um distanciamento acentuado entre a criança e as pessoas do seu ambiente que anteriormente gozavam da sua plena confiança.
*As Fases de Desenvolvimento da Organização Sexual.* - Como características da sexualidade infantil enfatizamos até agora o fato de que ela é essencialmente autoerótica (encontra seu objeto em seu próprio corpo), e que seus impulsos parciais individuais, que em seu conjunto são desconectados e independentes uns dos outros, lutam pela aquisição de prazer. O fim deste desenvolvimento constitui a chamada vida sexual normal do adulto, na qual a aquisição do prazer foi colocada a serviço da função de propagação, e os impulsos parciais, sob a primazia de uma única zona erógena, formaram uma organização firme para a realização do alvo sexual num objeto sexual estranho.
*Organizações pré-genitais.* - O estudo, com a ajuda da psicanálise, das inibições e perturbações neste curso de desenvolvimento permite-nos agora reconhecer acréscimos e estágios primários de tal organização dos impulsos parciais que também fornecem uma espécie de regime sexual. Estas fases da organização sexual normalmente passarão suavemente e só serão reconhecidas por leves indícios. Somente em casos patológicos eles se tornam ativos e discerníveis à observação grosseira.
Organizações da vida sexual nas quais as zonas genitais ainda não assumiram o papel dominante que chamaríamos de fase pré-genital. Até agora, conhecemos dois deles que lembram reversões aos primeiros estados animais.
Uma das primeiras organizações sexuais pré-genitais é a oral ou, se quisermos, a canibal. Aqui a atividade sexual ainda não está separada da alimentação, e os contrastes dentro da mesma ainda não estão diferenciados. O objeto de uma atividade é também o da outra, a finalidade sexual consiste na incorporação do objeto ao próprio corpo, é o protótipo daquilo que mais tarde desempenha um papel psíquico tão importante como a identificação. Como resquício dessa fase fictícia de organização que nos foi imposta pela patologia, podemos considerar a sucção do dedo. Aqui a atividade sexual foi separada da atividade alimentar e o objeto estranho foi abandonado em favor de outro de seu próprio corpo.
Uma segunda fase pré-genital é a organização sádico-anal. Aqui os contrastes que permeiam toda a vida sexual já estão desenvolvidos, mas ainda não podem ser designados como masculino e feminino, mas devem ser chamados de ativos e passivos. A atividade é fornecida pela musculatura do corpo através do impulso de domínio; a mucosa erógena do intestino manifesta-se sobretudo como um órgão com finalidade sexual passiva, para ambos os esforços estão presentes objetos, que no entanto não se fundem. Além deles, existem outros impulsos parciais que atuam de maneira autoerótica. A polaridade sexual e o objeto estranho já podem, portanto, ser demonstrados nesta fase. Falta ainda a organização e a subordinação sob a função de propagação.
*Ambivalência.* - Esta forma de organização sexual pode ser mantida ao longo da vida e continuar a atrair para si grande parte da atividade sexual. A prevalência do sadismo e o papel da cloaca da zona anal conferem-lhe uma impressão primorosamente arcaica. Como outra característica que lhe pertence podemos citar o fato de o par contrastante de impulsos se desenvolver quase da mesma maneira, comportamento que foi designado por Bleuler com o feliz nome de ambivalência.
A suposição das organizações pré-genitais da vida sexual baseia-se na análise das neuroses e dificilmente merece qualquer consideração sem o conhecimento das mesmas. Podemos esperar que os esforços analíticos contínuos nos forneçam ainda mais revelações relativas à estrutura e ao desenvolvimento da função sexual normal.
Para completar o quadro da vida sexual infantil, deve-se acrescentar que, com frequência ou regularidade, ocorre, mesmo na infância, uma seleção de objetos que é tão característica quanto aquela que representamos para a fase de desenvolvimento da puberdade. Esta seleção objetal ocorre de tal maneira que todos os esforços sexuais prosseguem na direção de uma pessoa na qual desejam atingir o seu objetivo. Esta é então a abordagem mais próxima da formação definitiva da vida sexual após a puberdade, que é possível na infância. Difere deste último apenas no fato de que a coleta dos impulsos parciais e sua subordinação à primazia dos órgãos genitais é muito imperfeita ou nem sequer realizada na infância. O estabelecimento desta primazia ao serviço da propagação é, portanto, a última fase pela qual passa a organização sexual.
*Os dois períodos de seleção de objetos.* - O fato de a seleção de objetos ocorrer em dois períodos, ou em dois turnos, pode ser considerado uma ocorrência típica. A primeira mudança tem origem entre os três e os cinco anos de idade e é interrompida ou regredida pelo período de latência; caracteriza-se pela natureza infantil de seus alvos sexuais. O segundo turno inicia-se com a puberdade e determina a formação definitiva da vida sexual.
O fato da selecção dupla do objeto, que se deve essencialmente ao efeito do período de latência, torna-se mais significativo para a perturbação deste estado terminal. Os resultados da seleção objetal infantil alcançam o período posterior; eles são preservados como tal ou até mesmo atualizados na época da puberdade. Mas devido ao desenvolvimento da repressão que ocorre entre as duas fases, elas tornam-se inutilizáveis. Os alvos sexuais suavizaram-se e representam agora o que podemos designar como as ternas correntes da vida sexual. Somente a investigação psicanalítica pode demonstrar que por trás dessa ternura, como a honra e a estima, estão ocultos os antigos esforços sexuais dos impulsos parciais infantis que agora se tornaram inúteis. A seleção objetal do período pubescente deve renunciar aos objetos infantis e começar de novo como um fluxo sensual. O fato de as duas correntes não se encontrarem com frequência suficiente tem como resultado que um dos ideais da vida sexual, nomeadamente, a união de todos os desejos num único objeto, não pode ser alcançado.
AS FONTES DA SEXUALIDADE INFANTIL
No nosso esforço para acompanhar as origens da pulsão sexual, descobrimos até agora que a excitação sexual se origina (a) como uma imitação de uma gratificação que foi experimentada em conjunto com outros processos orgânicos; (b) através da estimulação periférica adequada de zonas erógenas; (c) e como expressão de algum “impulso”, como os impulsos de olhar e de crueldade, cuja origem ainda não compreendemos completamente. A investigação psicanalítica da vida posterior, que remonta à infância, e a observação contemporânea da própria criança cooperam para nos revelar ainda outras fontes de excitação sexual que fluem regularmente. A observação da infância tem a desvantagem de tratar de materiais facilmente incompreensíveis, enquanto a psicanálise é dificultada pelo fato de só poder alcançar seus objetos e conclusões por meio de grandes desvios; ainda assim, os esforços unidos de ambos os métodos alcançam um grau suficiente de compreensão positiva.
Ao investigarmos as zonas erógenas, já descobrimos que estas regiões da pele mostram apenas o exagero especial de uma forma de sensibilidade que é, até certo ponto, encontrada em toda a superfície da pele. Portanto, não nos surpreenderá saber que certas formas de sensibilidade geral da pele podem ser atribuídas a ações erógenas muito distintas. Entre estes mencionaremos sobretudo a sensibilidade à temperatura; isto talvez nos prepare para a compreensão dos efeitos terapêuticos dos banhos quentes.
*Excitação Mecânica.* - Devemos, além disso, descrever aqui a produção de excitação sexual por meio de agitação mecânica rítmica do corpo. Existem três tipos de influências excitantes: as que atuam no aparelho sensorial dos nervos vestibulares, as que atuam na pele e as que atuam nas partes profundas, como os músculos e as articulações. A excitação sexual produzida por essas influências parece ser de natureza prazerosa - vale ressaltar que por algum tempo continuaremos a usar indiscriminadamente os termos "excitação sexual" e "gratificação", deixando a busca pela explicação dos termos para um momento posterior - e que o prazer é produzido pela estimulação mecânica é comprovado pelo fato de que as crianças gostam tanto de brincadeiras que envolvam movimentos passivos, como balançar ou voar no ar, e repetidamente exigem sua repetição. Como sabemos, o balanço é regularmente usado para adormecer crianças inquietas. A sensação de tremor experimentada em vagões e trens exerce uma influência tão fascinante nas crianças mais velhas, que todos os meninos, pelo menos em algum momento de suas vidas, desejam se tornar condutores e motoristas. Eles costumam atribuir às atividades ferroviárias um interesse extraordinário e misterioso e, durante a era da atividade fantástica (pouco antes da puberdade), utilizam-nas como núcleo para requintados simbolismos sexuais. O desejo de conectar as viagens ferroviárias com a sexualidade aparentemente origina-se do caráter prazeroso da sensação de movimento. Quando a repressão mais tarde se instala e transforma tantos gostos infantis em seus opostos, essas mesmas pessoas, como adolescentes e adultos, reagem então ao balanço e ao rolamento com náuseas e ficam terrivelmente exaustas por uma viagem de trem, ou mostram uma tendência a ataques de ansiedade durante a viagem, e ao ficarem obcecados com a fobia de trem, protegem-se contra uma repetição das experiências dolorosas.
Isto também se enquadra no fato ainda não compreendido de que a simultaneidade do medo com o tremor mecânico produz as mais graves formas histéricas de neurose traumática. Pode-se pelo menos presumir que, na medida em que mesmo uma leve intensidade dessas influências se torna uma fonte de excitação sexual, a ação de uma quantidade excessiva das mesmas produzirá uma desordem profunda no mecanismo sexual.
*Atividade Muscular.* - É bem sabido que a criança tem necessidade de forte atividade muscular, de cuja gratificação obtém um prazer extraordinário. Se este prazer tem alguma coisa a ver com a sexualidade, se inclui em si a satisfação sexual? ou pode ser ocasião de excitação sexual; tudo isto pode ser refutado por uma consideração crítica, que provavelmente será dirigida também à posição assumida acima, de que o prazer nas sensações do movimento passivo é de caráter sexual ou de que são sexualmente excitantes. Permanece o fato, porém, de que várias pessoas relatam que experimentaram os primeiros sinais de excitação em seus órgãos genitais durante brigas ou lutas com companheiros, situação em que, além do esforço muscular geral, há um contato intensivo com a pele do oponente que também se torna eficaz. O desejo de competição muscular com uma pessoa definida, como o desejo de competição de palavras em anos posteriores, é um bom sinal de que a seleção do objeto foi direcionada a essa pessoa. "Was sich liebt, das neckt sich."[21] Na promoção da excitação sexual através da atividade muscular, podemos reconhecer uma das fontes do impulso sádico. A ligação infantil entre brigas e excitação sexual atua em muitas pessoas como um determinante para o futuro curso preferido de seu pulsão sexual.[22]
*Processos Afetivos.* - As outras fontes de excitação sexual na criança estão sujeitas a menos dúvidas. Através de observações contemporâneas, bem como de investigações posteriores, é fácil verificar que todos os processos afetivos mais intensos, mesmo excitações de natureza aterrorizante, invadem a sexualidade; isso pode, de qualquer forma, fornecer-nos uma contribuição para a compreensão da ação patogênica de tais emoções. Na criança em idade escolar, o medo de um próximo exame ou o esforço despendido na solução de uma tarefa difícil pode tornar-se significativo para o surgimento de manifestações sexuais, bem como para suas relações com a escola, na medida em que, sob tais excitações, muitas vezes ocorre uma sensação que a incita a tocar os órgãos genitais, ou conduz a um processo semelhante à poluição, com todas as suas consequências desagradáveis. O comportamento das crianças na escola, que é tantas vezes misterioso para o professor, deveria certamente ser considerado em relação à sua sexualidade emergente. A influência sexualmente excitante de alguns afetos dolorosos, como o medo, o tremor e o horror, é sentida por muitas pessoas ao longo da vida e explica prontamente por que tantos procuram oportunidades para experimentar tais sensações, desde que certas circunstâncias acessórias (como sob circunstâncias imaginárias na leitura ou no teatro) suprimam a intensidade do sentimento doloroso.
Se pudéssemos assumir que a mesma ação erógena também atinge os sentimentos dolorosos intensivos, especialmente se a dor for atenuada ou mantida à distância por uma determinação subsidiária, esta relação conteria então as raízes principais do impulso masoquista-sádico, em cuja composição múltipla estamos a adquirir uma visão gradual.
*Trabalho Intelectual.* - Finalmente, é evidente que a aplicação mental ou a concentração da atenção numa realização intelectual resultará, especialmente frequentemente em pessoas jovens, mas também em pessoas mais velhas, numa excitação sexual simultânea, que pode ser encarada como a única base justificada para a etiologia de outra forma tão duvidosa dos distúrbios nervosos resultantes do "excesso de trabalho" mental.
Se agora, para concluir, revisarmos as evidências e indicações das fontes da excitação sexual infantil, que não foram relatadas nem completa nem exaustivamente, poderemos estabelecer as seguintes leis gerais, conforme sugeridas ou estabelecidas. Parece ser providenciado da maneira mais generosa que o processo de excitação sexual - cuja natureza certamente permanece bastante misteriosa para nós - seja posto em movimento. O fator que faz esta disposição de forma mais ou menos direta é a excitação das superfícies sensíveis da pele e dos órgãos sensoriais, enquanto as influências excitantes mais imediatas são exercidas sobre certas partes que são designadas como zonas erógenas. O critério em todas essas fontes de excitação sexual é, na verdade, a qualidade dos estímulos, embora o fator de intensidade (na dor) não seja totalmente sem importância. Mas, além disso, existem arranjos no organismo que induzem a excitação sexual como uma ação subsidiária num grande número de processos internos, assim que a intensidade desses processos ultrapassa certos limites quantitativos. O que designamos como impulsos parciais da sexualidade ou deriva diretamente dessas fontes internas de excitação sexual ou é composto de contribuições dessas fontes e de zonas erógenas. É possível que nada de considerável importância ocorra no organismo que não contribua com seus componentes para a excitação da pulsão sexual.
Parece-me atualmente impossível lançar mais luz e certeza sobre estas proposições gerais, e por isso responsabilizo dois fatores; em primeiro lugar, a novidade desta forma de investigação e, em segundo lugar, o fato de a natureza da excitação sexual nos ser totalmente desconhecida. No entanto, não deixarei de falar de dois pontos que prometem abrir amplas perspectivas no futuro.
*Constituições Sexuais Diversas.*--(a) Consideramos acima a possibilidade de estabelecer o caráter múltiplo das constituições sexuais congênitas através da formação diversificada das zonas erógenas; podemos agora tentar fazer o mesmo ao lidar com as fontes indiretas da excitação sexual. Podemos supor que, embora estas diferentes fontes forneçam contribuições para todos os indivíduos, elas não são todas igualmente fortes em todas as pessoas; e que uma contribuição adicional para a diferenciação da constituição sexual diversa será encontrada nos desenvolvimentos preferidos das fontes individuais de excitação sexual.
*Os Caminhos das Influências Opostas.*--(b) Como agora estamos abandonando o modo figurativo de expressão até então empregado, pelo qual falávamos de fontes de excitação sexual, podemos agora assumir que todos os caminhos de conexão que conduzem de outras funções à sexualidade também devem ser transitáveis na direção inversa. Por exemplo, se a zona labial, a posse comum de ambas as funções, é responsável pelo fato de a gratificação sexual ter origem durante a ingestão de alimentos, o mesmo fator oferece também uma explicação para as perturbações na ingestão de alimentos se as funções erógenas da zona comum forem perturbadas. Assim que sabemos que a concentração da atenção pode produzir excitação sexual, é bastante natural supor que agindo no mesmo caminho, mas em sentido contrário, o estado de excitação sexual poderá influenciar a disponibilidade da atenção voluntária. Boa parte da sintomatologia das neuroses, que atribuo à perturbação dos processos sexuais, manifesta-se em perturbações de outras funções corporais não sexuais, e esta ação até então incompreensível torna-se menos misteriosa se representar apenas a contrapartida das influências que controlam a produção da excitação sexual.
Contudo, os mesmos caminhos pelos quais os distúrbios sexuais invadem as outras funções do corpo devem, na saúde, servir outra função importante. Deve ser através destes caminhos que se realiza a atração das forças motrizes sexuais para outros objetivos que não os sexuais, a sublimação da sexualidade. Devemos concluir admitindo que muito pouco se sabe definitivamente sobre os caminhos, além do fato de que eles existem, e que são provavelmente transitáveis em ambas as direções.
[1] Pois é realmente impossível ter um conhecimento correto da parte pertencente à hereditariedade sem primeiro compreender a parte pertencente ao infantil.
[2] Esta afirmação sobre a revisão pareceu-me tão ousada que decidi testar a sua exatidão revisando novamente a literatura. O resultado desta segunda revisão não justificou qualquer alteração na minha declaração original. A elaboração científica dos fenômenos físicos e psíquicos da sexualidade infantil ainda está em seus estágios iniciais. Um autor (S. Bell, “A Preliminary Study of the Emotions of Love Between the Sexes”, American Journal of Psychology, XIII, 1902) diz: “Não conheço nenhum cientista que tenha feito uma análise cuidadosa da emoção tal como ela é vista no adolescente.” A única atenção dada às manifestações sexuais somáticas que ocorriam antes da idade da puberdade estava relacionada com as manifestações degenerativas, e estas eram referidas como um sinal de degeneração. Não se encontra um capítulo sobre a vida sexual das crianças em todas as psicologias representativas desta época que li. Dentre essas obras posso citar as seguintes: Preyer; Baldwin (O Desenvolvimento da Mente na Criança e na Raça, 1898); Pérez (L'enfant de 3-7 anos, 1894); Strümpel (Die pädagogische Pathologie, 1899); Karl Groos (Das Seelenleben des Kindes, 1904); Th. Heller (Grundriss der Heilpädagogic, 1904); Sully (Observações sobre a infância, 1897). A melhor impressão da situação atual desta esfera pode ser obtida na revista Die Kinderfehler (publicada desde 1896). Por outro lado, tem-se a impressão de que a existência do amor na infância não necessita de demonstração. Pérez (l.c.) fala por isso; K. Groos (Die Spiele der Menschen, 1899) afirma que algumas crianças são desde muito cedo sujeitas a emoções sexuais e mostram desejo de tocar o outro sexo (p. 336); S. Bell observou o primeiro aparecimento do amor sexual em uma criança durante a metade de seu terceiro ano. Veja também Havelock Ellis, O Impulso Sexual, Apêndice II.
O julgamento acima mencionado sobre a literatura da sexualidade infantil não é mais válido desde o aparecimento da grande e importante obra de G. Stanley Hall (Adolescência, sua psicologia e sua relação com a fisiologia, a antropologia, a sociologia, o sexo, o crime, a religião e a educação, 2 vols., Nova York, 1908). O recente livro de A. Moll, Das Sexualleben des Kindes, Berlim, 1909, não oferece ocasião para tal modificação. Ver, por outro lado, Bleuler, Sexuelle abnormitäten der Kinder (Jahrbuch der Schweizerischen Gesellschaft für Schulgesundheitspflege, IX, 1908). Um livro da Sra. Hug-Hellmuth, Aus dem Seelenleben des Kindes (1913), levou plenamente em conta os fatores sexuais negligenciados. [Traduzido em série de monografias.]
[3] Tentei resolver os problemas apresentados pelas primeiras lembranças infantis em um artigo, "Über Deckerinnerungen" (Monatsschrift für Psychiatrie und Neurologie, VI, 1899). Cf. também A Psicopatologia da Vida Cotidiana, The Macmillan Co., Nova York, e Unwin, Londres.
[4] Não se pode compreender o mecanismo da repressão quando se leva em consideração apenas um dos dois processos cooperantes. Como comparação, podemos pensar na forma como o turista é despachado para o topo da grande pirâmide de Gizé; ele é empurrado de um lado e puxado do outro.
[5] O uso deste último material é justificado pelo fato de que os anos de infância daqueles que se tornam neuróticos posteriores não precisam necessariamente diferir daqueles que se tornam normais posteriormente, exceto em intensidade e clareza.
[6] Uma analogia anatômica ao comportamento da função sexual infantil formulada por mim é talvez dada por Bayer (Deutsches Archiv für klinische Medizin, Bd. 73), que afirma que os órgãos genitais internos (útero) são regularmente maiores nos recém-nascidos do que nas crianças mais velhas. Contudo, a concepção de Halban, de que após o nascimento há também uma involução das outras partes do aparelho sexual, não foi verificada. Segundo Halban (Zeitschrift für Geburtshilfe u. Gynäkologie, LIII, 1904) esse processo de involução termina após algumas semanas de vida extrauterina.
[7] A expressão "período de latência sexual" (sexuelle latenz-periode) peguei emprestada de W. Fliess.
[8] No caso aqui discutido, a sublimação das forças motrizes sexuais procede no caminho das formações reacionárias. Mas, em geral, é necessário separar a sublimação e a formação reacional como dois processos diversos. A sublimação também pode resultar através de outros mecanismos mais simples.
[9] Jahrbuch für Kinderheilkunde, NF, XIV, 1879.
[10] Isto já mostra o que é verdade para toda a vida, a saber, que a gratificação sexual é o melhor hipnótico. A maioria das insônias nervosas é atribuída à falta de gratificação sexual. Também se sabe que enfermeiras inescrupulosas acalmam crianças que choram, acariciando seus órgãos genitais.
[11] Ellis estraga, no entanto, o sentido do termo que inventou ao incluir no fenômeno do autoerotismo toda a histeria e a masturbação em toda a sua extensão.
[12] Reflexões e observações adicionais me levam a atribuir a qualidade da erogenidade a todas as partes do corpo e órgãos internos. Veja mais tarde sobre narcismo.
[13] Compare aqui a literatura muito abrangente, mas confusa, sobre onanismo, por exemplo, Rohleder, Die Masturbation, 1899. Cf. também o panfleto "Die Onanie", que contém a discussão da Sociedade Psicanalítica de Viena, Wiesbaden, 1912.
[14] Compare aqui o ensaio sobre "Charakter und Analerotic" no Sammlung kleiner Schriften zur Neurosenlehre, Zweite Folge, 1909. Cf. também Brill, Psicanálise, cap. XIII, Erotismo Anal e Caráter, W.B. Saunders, Filadélfia.
[15] Técnicas incomuns na execução do onanismo parecem apontar para a influência de uma proibição contra o onanismo que foi superada.
[16] Por que os neuróticos, quando a consciência está abalada, regularmente a associam à sua atividade onanística, como só recentemente foi reconhecido por Bleuler, é um problema que ainda aguarda uma análise exaustiva.
[17] Freud, Artigos selecionados sobre histeria e outras psiconeuroses, edição 3D, traduzido por A.A. Brill, NY Nerv. e Ment. Dis. Pub. Monografia de Doenças Nervosas e Mentais, Série No.
[18] Havelock Ellis, em um apêndice ao seu estudo sobre a pulsão sexual, 1903, fornece uma série de relatos autobiográficos de pessoas normais tratando seus primeiros sentimentos sexuais na infância e as causas dos mesmos. Esses relatos mostram naturalmente a deficiência devida à amnésia infantil; não abrangem o período pré-histórico da vida sexual e, portanto, devem ser complementados pela psicanálise de indivíduos que se tornaram neuróticos. Não obstante, estes relatórios são valiosos em mais de um aspecto, e informações de natureza semelhante incitaram-me a modificar a minha suposição etiológica, conforme mencionado no texto.
[19] As afirmações acima mencionadas sobre a sexualidade infantil foram justificadas em 1905, principalmente pelos resultados de investigações psicanalíticas em adultos. A observação direta da criança não pôde, naquele momento, ser utilizada em toda a sua extensão e resultou apenas em indicações individuais e confirmações valiosas. Desde então, tornou-se possível, através da análise de alguns casos de doenças nervosas na delicada idade da infância, obter uma compreensão direta da psicossexualidade infantil (Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschungen, Bd. 1, 2, 1909). Posso apontar com satisfação o fato de que a observação direta confirmou plenamente a conclusão tirada da psicanálise e, portanto, fornece boas evidências da confiabilidade deste último método de investigação.
Além disso, a "Análise de uma Fobia num Menino de Cinco Anos" (Jahrbuch, Bd. 1) nos ensinou algo novo para o qual a psicanálise não nos preparou, a saber, que o simbolismo sexual, a representação do sexual por objetos e relações não sexuais - remonta aos anos em que a criança está aprendendo a dominar a linguagem. Minha atenção também foi dirigida para uma deficiência na afirmação acima citada que, por uma questão de clareza, descreveu qualquer separação concebível entre as duas fases do autoerotismo e do amor objetal como uma separação temporal. A partir da análise citada (bem como do trabalho de Bell acima mencionado) aprendemos que crianças de três a cinco anos são capazes de evidenciar uma seleção objetal muito forte que é acompanhada por fortes afetos.
[20] Algumas pessoas podem lembrar-se de que o contato do ar em movimento durante o balanço lhes causava prazer sexual direto nos órgãos genitais.
[21] "Aqueles que se amam provocam uns aos outros."
[22] As análises dos distúrbios neuróticos do andar e da agorafobia eliminam todas as dúvidas quanto à natureza sexual do prazer do movimento. Como todos sabem, a educação cultural moderna utiliza em grande medida o desporto para afastar os jovens da atividade sexual; seria mais apropriado dizer que substitui o prazer sexual pelo prazer do movimento e força a atividade sexual a recuar sobre um de seus componentes auto-eróticos.