III. As transformações da puberdade Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade - Literunico · Capítulo 6 de 6
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III. As transformações da puberdade

Com o início da puberdade ocorrem mudanças que transformam a vida sexual infantil em sua forma definitivamente normal. Até agora a pulsão sexual tem sido preponderantemente autoerótica; agora encontra o objeto sexual. Até agora, manifestou-se em impulsos únicos e em zonas erógenas que buscam um certo prazer como alvo sexual único. Surge agora um novo alvo sexual, para cuja produção cooperam todos os impulsos parciais, enquanto as zonas erógenas se subordinam ao primado da zona genital.[1] Como o novo alvo sexual atribui funções muito diferentes aos dois sexos, o seu desenvolvimento sexual agora se separa. O desenvolvimento sexual do homem é mais consistente e mais fácil de compreender, enquanto na mulher aparece até uma forma de regressão. A normalidade da vida sexual é garantida apenas pela concorrência exata das duas correntes dirigidas ao objeto sexual e ao alvo sexual. É como perfurar um túnel por lados opostos.

O novo alvo sexual do homem consiste na descarga dos produtos sexuais; não é contraditório com o antigo alvo sexual, o de obter prazer; pelo contrário, a maior quantidade de prazer está ligada a este ato final do processo sexual. A pulsão sexual entra agora a serviço da função de propagação; torna-se, por assim dizer, altruísta. Para que esta transformação tenha sucesso, o seu processo deve ser ajustado às disposições originais e a todas as peculiaridades dos impulsos.

Tal como em todas as outras ocasiões em que novas conexões e composições devem ser formadas em mecanismos complicados, também aqui existe a possibilidade de perturbação mórbida se a nova ordem das coisas não se estabelecer. Todos os distúrbios mórbidos da vida sexual podem ser justamente considerados como inibições do desenvolvimento.

A PRIMAZIA DAS ZONAS GENITAIS E O PRAZER PRÉVIO

A partir do curso de desenvolvimento descrito, podemos ver claramente a questão e o objetivo final. As transições intermediárias ainda são bastante obscuras e nelas muitos enigmas terão de ser resolvidos.

O processo mais marcante da puberdade foi selecionado como o mais característico; é o crescimento manifesto dos órgãos genitais externos que mostrou uma relativa inibição do crescimento durante o período de latência da infância. Simultaneamente, os órgãos genitais internos desenvolvem-se a tal ponto que são capazes de fornecer produtos sexuais ou de recebê-los com o propósito de formar um novo ser vivo. Forma-se assim um aparelho muito complicado que espera ser reivindicado.

Este aparelho pode ser acionado por estímulos, e a observação ensina que os estímulos podem afetá-lo de três maneiras: do mundo exterior através das zonas erógenas familiares; do mundo orgânico interior por caminhos ainda a serem investigados; e da vida psíquica, que representa apenas um depósito de impressões externas e um receptáculo de excitações internas. O mesmo resultado se segue nos três casos, a saber, um estado que pode ser designado como “excitação sexual” e que se manifesta em sinais psíquicos e somáticos. O sinal psíquico consiste num sentimento peculiar de tensão de caráter muito urgente, e entre os múltiplos sinais somáticos destacam-se as muitas mudanças nos órgãos genitais. Eles têm um significado definido, o de prontidão; constituem uma preparação para o ato sexual (a ereção do pênis e a atividade glandular da vagina).

*A Tensão Sexual* - O caráter da tensão da excitação sexual está ligado a um problema cuja solução é tão difícil quanto importante para a concepção do processo sexual. Apesar de todas as divergências de opinião a respeito na psicologia, devo afirmar firmemente que um sentimento de tensão deve trazer consigo o caráter de desprazer. Para mim é conclusivo que tal sentimento carrega consigo o impulso de alterar a situação psíquica e atua de forma incitante, o que é bastante contrário à natureza do prazer percebido. Mas se atribuirmos a tensão da excitação sexual aos sentimentos de desprazer, encontraremos o fato de que ela é indubitavelmente percebida de forma prazerosa. A tensão produzida pela excitação sexual é acompanhada em toda parte pelo prazer; mesmo nas mudanças preparatórias dos órgãos genitais há uma nítida sensação de satisfação. Que relação existe entre esta tensão desagradável e esta sensação de prazer?

Tudo o que se relaciona com o problema do prazer e da dor toca um dos pontos mais fracos da psicologia atual. Tentaremos, se possível, aprender alguma coisa com as determinações do caso em questão e evitar invadir o problema como um todo. Vejamos primeiro a maneira como as zonas erógenas se ajustam à nova ordem das coisas. Um papel importante recai sobre eles na preparação da excitação sexual. O olho que está muito distante do objeto sexual está mais frequentemente em posição, durante as relações de cortejo objetal, de ser atraído por aquela qualidade particular de excitação, cujo motivo designamos como beleza no objeto sexual. As excelências do objeto sexual são, portanto, também chamadas de “atrações”. Esta atração, por um lado, já está ligada ao prazer e, por outro lado, ou resulta num aumento da excitação sexual ou numa evocação da mesma onde ainda falta. O efeito é o mesmo se a excitação de outra zona erógena, por exemplo, a mão que toca, for adicionada a ela. Há, por um lado, a sensação de prazer que logo se torna intensificada pelo prazer das mudanças preparatórias e, por outro lado, há um aumento adicional da tensão sexual que logo se transforma num sentimento de desprazer muito distinto, se não puder prosseguir para mais prazer. Outro caso talvez seja mais claro; tomemos, por exemplo, o caso em que uma zona erógena, como o seio de uma mulher, é excitada pelo toque numa pessoa que não está sexualmente excitada naquele momento. Este toque em si evoca uma sensação de prazer, mas também é mais bem adaptado para despertar a excitação sexual que exige ainda mais prazer. Como acontece que o prazer percebido evoca o desejo de um prazer maior, esse é o verdadeiro problema.

*Mecanismo de prazer prévio.* - Mas o papel que cabe às zonas erógenas é claro. O que se aplica a um se aplica a todos. Todos são utilizados para proporcionar uma certa quantidade de prazer através de sua própria excitação, que aumenta a tensão e que, por sua vez, é destinada a produzir a energia motora necessária para levar a termo o ato sexual. A penúltima parte deste ato é novamente uma excitação adequada de uma zona erógena; isto é, a zona genital própria da glande do pênis é excitada pelo objeto mais adequado para ela, a membrana mucosa da vagina, e através do prazer proporcionado por essa excitação produz agora reflexamente a energia motora que transporta à superfície a substância sexual. Este último prazer é mais elevado em sua intensidade e difere dos primeiros em seu mecanismo. É totalmente produzido através da descarga, é totalmente prazer de gratificação e a tensão da libido desaparece temporariamente com ele.

Não me parece injustificado fixar pelo nome a distinção na natureza desses prazeres, um através da excitação das zonas erógenas e outro através da descarga da substância sexual. Em contraposição ao prazer final, ou prazer de gratificação da atividade sexual, podemos designar adequadamente o primeiro como prazer preliminar. O prazer preliminar é então o mesmo proporcionado pela pulsão sexual infantil, embora em escala reduzida; enquanto o prazer final é novo e provavelmente está ligado a determinações que aparecem pela primeira vez na puberdade. A fórmula para a nova função das zonas erógenas é a seguinte: elas são utilizadas com o propósito de tornar possível a produção do maior prazer de gratificação por meio do prazer preliminar que delas é obtido, como na vida infantil.

Recentemente, consegui elucidar outro exemplo, retirado de um domínio bastante diferente da vida psíquica, no qual, da mesma forma, uma maior sensação de prazer é alcançada por meio de uma menor sensação de prazer, que atua assim como um prêmio sedutor. Tivemos ali também a oportunidade de entrar mais profundamente na natureza do prazer.[2]

*Perigos do prazer preliminar.* - No entanto, a conexão do prazer preliminar com a vida infantil é fortalecida pelo papel patogênico que pode recair sobre ele. No mecanismo através do qual o prazer preliminar é expresso existe um perigo óbvio para a realização do alvo sexual normal. Isso ocorre se houver muito prazer preliminar e pouca tensão em qualquer parte do processo sexual preparatório. A força motriz para a continuação do processo sexual escapa então, todo o caminho fica encurtado e a ação preparatória em questão toma o lugar do alvo sexual normal. A experiência mostra que tal condição prejudicial é determinada pelo fato de a zona erógena em questão ou o impulso parcial correspondente já ter contribuído com uma quantidade incomum de prazer na vida infantil. Se forem acrescentados outros fatores que favorecem a fixação, resulta prontamente uma compulsão para a vida posterior, que impede o prazer preliminar de se organizar numa nova combinação. Na verdade, o mecanismo de muitas perversões é desta natureza; eles apenas representam um ato demorado de preparação do processo sexual.

O fracasso da função do mecanismo sexual por culpa do prazer preliminar é geralmente evitado se a primazia das zonas genitais também já tiver sido delineada na vida infantil. Os preparativos da segunda metade da infância (do oitavo ano à puberdade) parecem realmente favorecer isso. Durante estes anos as zonas genitais comportam-se quase como na idade adulta; são sede de sensações excitantes e de mudanças preparatórias caso algum tipo de prazer seja experimentado através da gratificação de outras zonas erógenas; embora este efeito permaneça sem objetivo, isto é, não contribui em nada para a continuação do processo sexual. Além do prazer da gratificação, uma certa tensão sexual aparece ainda na infância, embora seja menos constante e menos abundante. Podemos agora compreender também por que razão, na discussão das fontes da sexualidade, tivemos uma razão perfeitamente boa para dizer que o processo em questão funciona tanto como gratificação sexual como como excitação sexual. Notamos que, no nosso caminho para a verdade, a princípio exageramos enormemente as distinções entre a vida sexual infantil e a vida sexual madura e, portanto, complementamos o que foi dito com uma correção. As manifestações infantis da sexualidade determinam não só os desvios da vida sexual normal, mas também as formações normais da mesma.

O PROBLEMA DA EXCITAÇÃO SEXUAL

Permanece totalmente inexplicável de onde vem a tensão sexual que se origina simultaneamente com a gratificação das zonas erógenas e qual é a sua natureza. A suposição óbvia de que esta tensão se origina de alguma forma no próprio prazer não é apenas improvável em si mesma, mas também insustentável, na medida em que durante o maior prazer que está ligado ao esvaziamento da substância sexual não há produção de tensão, mas antes uma remoção de toda tensão. Conseqüentemente, o prazer e a tensão sexual só podem estar indiretamente conectados.

*O papel da substância sexual.* - Além do fato de que somente a descarga da substância sexual pode normalmente pôr fim à excitação sexual, existem outros fatos essenciais que colocam a tensão sexual em relação com os produtos sexuais. Numa vida de continência, a atividade sexual costuma descarregar a substância sexual à noite, durante alucinações oníricas prazerosas de um ato sexual, descarga essa que ocorre em intervalos variáveis, mas não inteiramente caprichosos; e a seguinte interpretação deste processo – a poluição noturna – dificilmente pode ser rejeitada, a saber, que a tensão sexual que provoca um substituto do ato sexual pela curta estrada alucinatória é uma função do sêmen acumulado nos reservatórios dos produtos sexuais. As experiências com a exaustão do mecanismo sexual falam pela mesma coisa. Onde não há estoque de sêmen, não só é impossível realizar o ato sexual, mas também há falta de excitabilidade nas zonas erógenas, cuja excitação adequada não pode provocar prazer. Descobrimos assim, incidentalmente, que uma certa quantidade de tensão sexual é necessária para a excitabilidade das zonas erógenas.

Seríamos, portanto, forçados a assumir a suposição, que, se não me engano, é geralmente adotada, de que o acúmulo de substância sexual produz e mantém a tensão sexual. A pressão desses produtos nas paredes de seus receptáculos atua como um excitante no centro espinhal, cujo estado é então percebido pelos centros superiores que produzem então na consciência a sensação familiar de tensão. Se a excitação das zonas erógenas aumenta a tensão sexual, isso só pode ser devido ao fato de as zonas erógenas estarem ligadas a esses centros por conexões anatômicas previamente formadas. Ali aumentam o tom da excitação e, com tensão sexual suficiente, põem em movimento o ato sexual e, com tensão insuficiente, apenas estimulam a produção da substância sexual.

A fraqueza da teoria que se encontra adotada, por exemplo, na descrição do processo sexual feita por Krafft-Ebing, reside no fato de que ela foi formada para a atividade sexual do homem maduro e presta muito pouca atenção a três tipos de relações que também deveriam ter sido elucidadas. Referimo-nos às relações encontradas na criança, na mulher e no homem castrado. Em nenhum dos três casos podemos falar de uma acumulação de produtos sexuais no mesmo sentido que no homem, o que naturalmente torna difícil a aplicação geral deste esquema; ainda assim, pode-se admitir sem mais delongas que podem ser encontradas maneiras de justificar a subordinação até mesmo desses casos. No entanto, deve-se ter cautela ao não sobrecarregar o fator de acumulação de produtos sexuais com ações que ele parece incapaz de apoiar.

*Superestimação dos genitais internos.* - Que a excitação sexual pode ser independente, em grande medida, da produção de substância sexual parece ser demonstrada por observações em homens castrados, nos quais a libido às vezes escapa ao dano causado pela operação, embora o comportamento oposto, que é realmente o motivo da operação, seja geralmente a regra. Portanto, não é de todo surpreendente, como afirma C. Rieger, que a perda das glândulas germinativas masculinas na idade madura não exerça nenhuma nova influência na vida psíquica do indivíduo. As glândulas germinativas não são realmente a sexualidade, e a experiência com machos castrados apenas confirma o que já havíamos aprendido muito antes com a remoção dos ovários, ou seja, que é impossível eliminar o caráter sexual removendo as glândulas germinativas. Na verdade, a castração realizada em tenra idade, antes da puberdade, aproxima-se mais deste objetivo, mas parece que neste caso, além da perda das glândulas sexuais, devemos também considerar a inibição do desenvolvimento e outros fatores que estão ligados a essa perda.

*Teorias Químicas.* - A verdade permanece, porém, que somos incapazes de fornecer qualquer informação sobre a natureza da excitação sexual porque não sabemos a que órgão ou órgãos a sexualidade está ligada, uma vez que vimos que as glândulas sexuais foram superestimadas neste significado. Dado que descobertas surpreendentes nos ensinaram o importante papel da glândula tiróide na sexualidade, podemos presumir que o conhecimento dos fatores essenciais da sexualidade ainda nos é negado. Aquele que sente a necessidade de preencher a grande lacuna do nosso conhecimento com uma suposição preliminar pode formular para si mesmo a seguinte teoria baseada nas substâncias ativas encontradas na tiróide. Através da excitação apropriada das zonas erógenas, bem como através de outras condições sob as quais a excitação sexual se origina, desintegra-se um material que está universalmente distribuído no organismo, cujos produtos em decomposição fornecem um estímulo específico aos órgãos de reprodução ou ao centro espinhal a eles ligado. Já estamos familiarizados com essa transformação de um estímulo tóxico em um estímulo orgânico específico, proveniente de outros produtos tóxicos introduzidos externamente no corpo. Tratar, mesmo que apenas hipoteticamente, as complexidades do puro tóxico e dos estímulos fisiológicos que resultam nos processos sexuais não é agora a nossa tarefa apropriada. Na verdade, não atribuo qualquer valor a esta suposição especial e estarei pronto a abandoná-la em favor de outra, desde que o seu caráter original, a ênfase na química sexual, seja preservado. Pois esta declaração aparentemente arbitrária é apoiada por um fato que, embora pouco levado em conta, é muito digno de nota. As neuroses que só podem ser atribuídas a distúrbios da vida sexual mostram a maior semelhança clínica com os fenômenos de intoxicação e abstinência que resultam da introdução habitual de substâncias venenosas produtoras de prazer (alcalóides).

A TEORIA DA LIBIDO

Estas suposições relativas à base química da excitação sexual estão em plena consonância com a concepção auxiliar que formamos com o propósito de dominar as manifestações psíquicas da vida sexual. Definimos o conceito de libido como o de uma força de quantidade variável que tem a capacidade de medir processos e transformações nas esferas da excitação sexual. Distinguimos esta libido da energia que deve ser geralmente atribuída aos processos psíquicos com referência à sua origem especial e, portanto, atribuímos-lhe também um caráter qualitativo. Ao separar a energia libidinosa de outras energias psíquicas, expressamos a suposição de que os processos sexuais do organismo são diferenciados dos processos nutricionais através de uma química especial. As análises das perversões e das psiconeuroses nos ensinaram que essa excitação sexual é fornecida não apenas pelas chamadas partes sexuais, mas por todos os órgãos do corpo. Formulamos assim para nós mesmos o conceito de uma libido-quântica cujo representante psíquico designamos como libido do ego; a produção, aumento, distribuição e deslocamento desta libido do ego oferecerão a explicação possível para os fenômenos psicossexuais observados.

Mas essa libido do ego só se torna convenientemente acessível ao estudo psicanalítico quando a energia psíquica é empregada em objetos sexuais, ou seja, quando se torna libido objetal. Vemos então que ele se concentra e se fixa nos objetos, ou quando abandona esses objetos e passa para outros, de cujas posições dirige a atividade sexual do indivíduo, ou seja, leva à extinção parcial e temporária da libido. A psicanálise das chamadas neuroses de transferência (histeria e neurose compulsiva) nos oferece aqui uma visão confiável.

No que diz respeito ao destino da libido objetal, afirmamos também que ela é retirada do objeto, que é preservada flutuando em estados especiais de tensão e é finalmente levada de volta ao ego, de modo que novamente se torna ego-libido. Em contraste com a libido objetal, também chamamos a libido do ego de libido narcisista. A partir da psicanálise, olhamos para além da fronteira que não nos é permitido ultrapassar na atividade da libido narcísica e assim formamos uma ideia das relações entre as duas. A libido narcísica ou ego-libido aparece-nos como o grande reservatório do qual a energia para o investimento do objeto é enviada e para a qual é novamente atraída, enquanto o investimento narcísico da libido do ego aparece-nos como o estado primitivo realizado na primeira infância, que só se torna oculto pelas emissões posteriores da libido, e é retido no fundo, por trás delas.

A tarefa de uma teoria da libido dos distúrbios neuróticos e psicóticos teria por objeto expressar, em termos da economia da libido, todos os fenômenos observados e processos revelados. É fácil adivinhar que o maior significado seria atribuído aos destinos da libido do ego, especialmente quando se trataria da questão de explicar os distúrbios psicóticos mais profundos. A dificuldade reside então no fato de que o meio de nossa investigação, a psicanálise, atualmente nos dá informações definidas apenas sobre a transformação da libido objetal, mas não pode distinguir sem um estudo mais aprofundado a libido do ego das outras energias efetivas no ego.[3]

DIFERENCIAÇÃO ENTRE HOMEM E MULHER

Sabe-se que a acentuada diferenciação do caráter masculino e feminino tem origem na puberdade, e é a diferença resultante que, mais do que qualquer outro fator, influencia decisivamente o desenvolvimento posterior da personalidade. Na verdade, as disposições masculina e feminina são facilmente reconhecíveis mesmo na vida infantil; assim, o desenvolvimento de inibições sexuais (vergonha, aversão, simpatia, etc.) ocorre mais cedo e com menos resistência na menina do que no menino. A tendência à repressão sexual certamente parece muito maior, e onde são notados impulsos parciais de sexualidade, eles mostram uma preferência pela forma passiva. Mas, a atividade autoerótica das zonas erógenas é a mesma em ambos os sexos, e é esta concordância que elimina a possibilidade de uma diferenciação sexual na infância tal como aparece após a puberdade. No que diz respeito às manifestações sexuais auto-eróticas e masturbatórias, pode-se afirmar que a sexualidade da menina tem um caráter inteiramente masculino. Na verdade, se pudéssemos dar um conteúdo mais definido aos termos “masculino e feminino”, poderíamos avançar a opinião de que a libido é regular e legalmente de natureza masculina, seja no homem ou na mulher; e se considerarmos o seu objeto, este pode ser o homem ou a mulher.[4]

Desde que tomei conhecimento do aspecto da bissexualidade considero este fator aqui decisivo, e acredito que sem levar em conta o fator da bissexualidade dificilmente será possível compreender as manifestações sexuais efectivamente observadas no homem e na mulher.

*As zonas principais no homem e na mulher.* - Além disso, só posso acrescentar o seguinte. A principal zona erógena na criança do sexo feminino é o clitóris, que é homólogo ao pênis masculino. Tudo o que pude descobrir a respeito da masturbação nas meninas dizia respeito ao clitóris e não aos outros órgãos genitais externos que são tão importantes para as funções sexuais posteriores. Com poucas exceções, eu mesmo duvido que a criança do sexo feminino possa ser seduzida a qualquer coisa que não seja a masturbação do clitóris. As frequentes descargas espontâneas de excitação sexual nas meninas manifestam-se numa contração do clitóris, e suas freqüentes ereções permitem à menina compreender corretamente, mesmo sem qualquer instrução, as manifestações sexuais do outro sexo; simplesmente transferem para os meninos as sensações de seus próprios processos sexuais.

Se alguém quiser compreender como a menina se torna mulher, deverá acompanhar os destinos posteriores dessa excitação do clitóris. A puberdade, que traz ao menino um grande avanço da libido, caracteriza-se na menina por uma nova onda de repressão que diz respeito especialmente à sexualidade do clitóris. É uma parte da vida sexual masculina que afunda na repressão. O reforço das inibições sexuais produzidas na mulher pela repressão da puberdade provoca um estímulo na libido do homem e obriga-o a aumentar a sua capacidade; com o auge da libido aumenta a superestimação do sexual, que só pode estar presente com toda a força quando a mulher recusa e nega sua sexualidade. Se o ato sexual é finalmente submetido e o clitóris fica excitado, seu papel é então conduzir a excitação às partes femininas adjacentes, e nisso ele age como uma lasca de madeira de pinheiro que é utilizada para atear fogo à madeira mais dura. Muitas vezes leva algum tempo para que esta transferência seja realizada; durante o qual a jovem esposa permanece anestesiada. Esta anestesia pode tornar-se permanente se a zona do clitóris se recusar a abandonar a sua excitabilidade; uma condição provocada por atividades abundantes na vida infantil. Sabe-se que a anestesia na mulher muitas vezes é apenas aparente e local. Eles são anestésicos na entrada vaginal, mas não são de todo inexcitáveis ​​através do clitóris ou mesmo através de outras zonas. Além dessas causas erógenas da anestesia, existem também causas psíquicas igualmente determinadas pela repressão.

Se a transferência da excitabilidade erógena do clitóris para a vagina tiver sido bem sucedida, a mulher terá mudado a sua zona principal para a futura atividade sexual; o homem, por outro lado, mantém o seu desde a infância. Os principais determinantes da preferência da mulher pelas neuroses, especialmente pela histeria, residem nesta mudança da zona condutora, bem como na repressão da puberdade. Esses determinantes estão, portanto, mais intimamente ligados à natureza da feminilidade.

THE OBJECT-FINDING

Enquanto a primazia das zonas genitais está sendo estabelecida através dos processos da puberdade, e o pênis ereto no homem aponta imperiosamente para o novo alvo sexual, isto é, para a penetração de uma cavidade que excita a zona genital, a descoberta do objeto, para a qual também foram feitos preparativos desde a primeira infância, consuma-se no lado psíquico. Embora as gratificações sexuais muito incipientes ainda estejam ligadas à ingestão de alimentos, a pulsão sexual tem um objeto sexual fora do seu próprio corpo, no seio da mãe. Ela perde esse objeto mais tarde, talvez no exato momento em que se torna possível à criança formar uma imagem geral da pessoa a quem pertence o órgão que lhe concede a gratificação. Mais tarde, a pulsão sexual torna-se regularmente auto-erótico, e somente depois de superado o período de latência é que há uma retomada da relação original. Não é sem razão que a amamentação da criança no seio da mãe se tornou um modelo para todo amor. A descoberta do objeto é realmente uma reencontração.[5]

*O objeto sexual do Período de Amamentação.*--No entanto, mesmo após a separação da atividade sexual da alimentação, ainda resta desta primeira e mais importante de todas as relações sexuais uma parte importante, que prepara a seleção do objeto e auxilia no restabelecimento da felicidade perdida. Durante todo o período de latência a criança aprende a amar outras pessoas que a ajudam no seu desamparo e satisfazem as suas necessidades; tudo isso segue o modelo e é uma continuação das relações infantis da criança com sua ama de leite. Talvez se possa hesitar em identificar os sentimentos ternos e a estima da criança pelos seus pais adoptivos com o amor sexual; Acredito, contudo, que uma investigação psicológica mais aprofundada estabelecerá esta identidade sem qualquer dúvida. A relação sexual entre a criança e os seus pais adoptivos é para a primeira uma fonte inesgotável de excitação sexual e de gratificação das zonas erógenas, especialmente porque os pais - ou em regra a mãe - fornecem à criança sentimentos que se originam da sua própria vida sexual; ela dá um tapinha nele, beija-o e balança-o, claramente tomando-o como um substituto para um objeto sexual de valor total.[6] A mãe provavelmente ficaria aterrorizada se lhe explicassem que toda a sua ternura desperta a pulsão sexual do filho e prepara a sua intensidade futura. Ela considera suas ações como amor assexuadamente "puro", pois evita cuidadosamente causar mais irritação aos órgãos genitais da criança do que o indispensável para cuidar do corpo. Mas, como sabemos, a pulsão sexual não é despertado apenas pela excitação das zonas genitais. O que chamamos de ternura certamente manifestará algum dia sua influência também nas zonas genitais. Se a mãe compreendesse melhor o elevado significado da pulsão sexual para toda a vida psíquica e para todas as atividades éticas e psíquicas, a iluminação a pouparia de todas as censuras. Ao ensinar a criança a amar ela apenas cumpre a sua função; pois a criança deve tornar-se um homem apto, com necessidades sexuais energéticas, e realizar na vida tudo o que o impulso impele o homem a fazer. É claro que muita ternura parental torna-se prejudicial porque acelera a maturidade sexual e também porque “estraga” a criança e a torna incapaz de renunciar temporariamente ao amor ou de se satisfazer com uma quantidade menor de amor mais tarde na vida. Uma das premonições mais seguras do nervosismo posterior é o fato de a criança se mostrar insaciável nas suas exigências de ternura parental; por outro lado, os pais neuropatas, que costumam demonstrar uma ternura sem limites, muitas vezes com suas carícias despertam na criança uma disposição para doenças neuróticas. Este exemplo mostra pelo menos que os pais neuropatas têm meios mais próximos do que a herança, através dos quais podem transferir os seus distúrbios para os filhos.

*Medo Infantil.* - As próprias crianças se comportam desde a primeira infância como se seu apego aos pais adotivos fosse da natureza do amor sexual. O medo dos filhos originalmente nada mais é do que uma expressão do fato de sentirem falta da pessoa amada. Eles, portanto, enfrentam todo estranho com medo, têm medo do escuro porque não conseguem ver a pessoa amada e ficam acalmados se puderem segurar a mão dessa pessoa. O efeito dos medos infantis e das histórias aterrorizantes contadas pelas enfermeiras é superestimado se culparmos estas últimas por produzirem o medo nas crianças. As crianças predispostas ao medo absorvem essas histórias, que não causam qualquer impressão nos outros; e apenas essas crianças estão predispostas ao medo, cuja pulsão sexual é excessivo ou desenvolvido prematuramente, ou se tornou exigente através de mimos. A criança comporta-se aqui como o adulto, isto é, transforma a sua libido em medo quando não consegue levá-la à gratificação, e o adulto que se torna neurótico devido à libido insatisfeita comporta-se na sua ansiedade como uma criança; ele teme quando está sozinho, isto é, sem uma pessoa de cujo amor ele se acredita seguro e que possa acalmar seus medos por meio das medidas mais infantis.

*Barreiras do Incesto.* - Se a ternura dos pais pela criança felizmente não conseguiu despertar a pulsão sexual da criança prematuramente, isto é, antes que as determinações físicas para a puberdade apareçam, e se esse despertar não foi tão longe a ponto de causar uma irrupção inequívoca da excitação psíquica no sistema genital, ele pode então cumprir sua tarefa e direcionar a criança na idade de maturidade na seleção do objeto sexual. Seria, naturalmente, mais natural que a criança selecionasse como objeto sexual aquela pessoa que ela amou desde a infância com, por assim dizer, uma libido suprimida.[8] Mas, devido ao atraso da maturidade sexual, foi ganho tempo para a ereção, ao lado das inibições sexuais da barreira do incesto, aquela prescrição moral que exclui explicitamente da seleção do objeto a pessoa amada na infância ou a relação sanguínea. A observância desta barreira é sobretudo uma exigência da sociedade cultural, que deve precaver-se contra a absorção pela família dos interesses de que necessita para a produção de unidades sociais superiores. A sociedade, portanto, utiliza todos os meios para afrouxar os laços familiares em cada indivíduo, especialmente no menino, que têm autoridade apenas na infância.[9]

A seleção do objeto, contudo, é primeiramente realizada na imaginação, e a vida sexual do jovem em fase de amadurecimento dificilmente tem qualquer escapatória, exceto a indulgência em fantasias ou ideias que não estão destinadas a serem executadas. Nas fantasias de todas as pessoas reaparecem as inclinações infantis, agora reforçadas pela ênfase somática, e entre elas encontra-se com frequência regular e em primeiro lugar o sentimento sexual da criança pelos pais. Isso geralmente já foi diferenciado pela atração sexual, a atração do filho pela mãe e da filha pelo pai.[10] Simultaneamente à superação e à rejeição dessas fantasias claramente incestuosas, ocorre uma das mais importantes e também uma das mais dolorosas conquistas psíquicas da puberdade; é o rompimento com a autoridade parental, o único através do qual se forma aquela oposição entre as novas e as velhas gerações que é tão importante para o progresso cultural. Muitas pessoas são detidas em cada uma das estações durante o desenvolvimento pelas quais o indivíduo deve passar; e, portanto, há pessoas que nunca superam a autoridade parental e nunca, ou de forma muito imperfeita, retiram a afeição dos pais. São na sua maioria raparigas que, para alegria dos seus pais, mantêm o seu amor infantil pleno muito para além da puberdade, e é instrutivo descobrir que na sua vida de casadas estas raparigas são incapazes de cumprir os seus deveres para com os seus maridos. Eles são esposas frias e permanecem sexualmente anestésicos. Isto mostra que o amor aparentemente não sexual pelos pais e o amor sexual se alimentam da mesma fonte, isto é, que o primeiro corresponde apenas a uma fixação infantil da libido.

Quanto mais nos aproximamos das perturbações mais profundas do desenvolvimento psicossexual, mais facilmente poderemos reconhecer o significado evidente da seleção incestuosa do objeto. Como resultado da rejeição sexual permanece no inconsciente do psiconeurótico uma grande parte ou a totalidade da atividade psicossexual para encontrar o objeto. As meninas com uma necessidade excessiva de afeto e um igual horror às exigências reais da vida sexual experimentam uma tentação incontrolável, por um lado, de realizar na vida o ideal do amor assexuado e, por outro lado, de esconder a sua libido sob um afeto que podem manifestar sem auto-censura; fazem isso apegando-se durante toda a vida à atração infantil pelos pais, irmãos ou irmãs, que foi reprimida na puberdade. Com a ajuda dos sintomas e de outras manifestações mórbidas, a psicanálise pode rastrear seus pensamentos inconscientes e traduzi-los para o consciente, e assim mostrar facilmente a essas pessoas que estão apaixonadas por suas relações consanguíneas no sentido popular do termo. Da mesma forma, quando uma pessoa outrora saudável adoece após um caso amoroso infeliz, o mecanismo da doença pode ser claramente explicado como um retorno da sua libido às pessoas preferidas na sua infância.

*Os efeitos posteriores da seleção de objetos infantis.* - Mesmo aqueles que escaparam alegremente da fixação incestuosa de sua libido não escaparam completamente de sua influência. É um eco distinto desta fase de desenvolvimento que o primeiro amor sério do jovem seja muitas vezes por uma mulher madura e o da menina por um homem mais velho equipado com autoridade – isto é, por pessoas que possam reviver neles a imagem da mãe e do pai. De modo geral, a seleção de objetos ocorre inquestionavelmente seguindo mais livremente esses protótipos. O homem busca acima de tudo a imagem da memória de sua mãe tal como ela o dominou desde o início da infância; isso é bastante consistente com o fato de que a mãe, se ainda viva, luta contra isso, sua renovação, e a enfrenta com hostilidade. Em vista desta importância da relação infantil com os pais para a seleção posterior do objeto sexual, é fácil compreender que cada perturbação desta relação infantil traz à tona os resultados mais sérios para a vida sexual após a puberdade. Também ao ciúme do amante nunca faltam as fontes infantis ou pelo menos o reforço infantil. As brigas entre os pais e as relações conjugais infelizes entre eles determinam as mais severas predisposições para o desenvolvimento sexual perturbado ou doenças neuróticas nos filhos.

O desejo infantil pelos pais é, sem dúvida, o mais importante, mas não o único traço reavivado na puberdade que aponta o caminho para a seleção objetal. Outras disposições da mesma origem permitem ao homem, ainda amparado na infância, desenvolver mais de uma única série sexual e formar diferentes determinações para a seleção objetal.[11]

*Prevenção da Inversão.*--Uma das tarefas impostas na seleção do objeto consiste em não perder o sexo oposto. Isto, como sabemos, não se resolve sem alguma dificuldade. Os primeiros sentimentos após a puberdade muitas vezes se perdem, embora não com qualquer lesão permanente. Dessoir chamou a atenção para a normalidade das amizades entusiásticas formadas por meninos e meninas com o mesmo sexo. A maior força que protege contra uma inversão permanente do objeto sexual é certamente a atração exercida entre si pelos personagens do sexo oposto. Para isso não podemos dar nenhuma explicação em conexão com esta discussão. Este fator, contudo, não é suficiente por si só para excluir a inversão; além disso, há certamente muitos outros fatores de apoio. Acima de tudo, existe a inibição autoritária da sociedade; a experiência mostra que quando a inversão não é considerada crime, corresponde plenamente às inclinações sexuais de muitas pessoas. Além disso, pode-se supor que, no homem, as lembranças infantis da ternura da mãe, bem como as de outras mulheres que cuidaram dele quando criança, ajudam energicamente a direcionar sua seleção para a mulher, enquanto a intimidação sexual precoce experimentada através do pai e a atitude de rivalidade existente entre eles desviam o menino do mesmo sexo. Ambos os fatores também são válidos no caso da rapariga cuja atividade sexual está sob os cuidados especiais da mãe. Isto resulta numa relação hostil com o mesmo sexo que influencia decisivamente a seleção do objeto no sentido normal. A educação dos meninos por homens (escravos na antiguidade) parece favorecer a homossexualidade; a frequência da inversão na nobreza atual é provavelmente explicada pelo emprego de servos do sexo masculino e pelos escassos cuidados que as mães dessa classe dão aos seus filhos. Acontece em algumas histéricas que um dos progenitores desapareceu (por morte, divórcio ou afastamento), permitindo assim que o progenitor restante absorvesse todo o amor do filho, e desta forma estabelecendo as determinações para o sexo da pessoa a ser posteriormente escolhida como objeto sexual; assim, uma inversão permanente é possível.

SUMMARY

Agora é hora de tentar um resumo. Partimos das aberrações da pulsão sexual em relação ao seu objeto e objetivo e nos deparamos com a questão de saber se estas se originam de uma predisposição congênita ou se são adquiridas em consequência de influências da vida. A resposta a esta questão foi alcançada através do exame das relações da vida sexual dos psiconeuróticos, um grupo numeroso e não muito distante do normal. Esse exame foi feito por meio de investigações psicanalíticas. Descobrimos assim que uma tendência a todas as perversões pode ser demonstrada nessas pessoas na forma de forças inconscientes que se revelam como criadoras de sintomas e poderíamos dizer que a neurose é, por assim dizer, o negativo da perversão. Em vista da agora reconhecida grande difusão de tendências à perversão, impôs-se-nos a ideia de que a disposição para as perversões é a disposição primitiva e universal da pulsão sexual humano, a partir da qual o comportamento sexual normal se desenvolve em consequência de mudanças orgânicas e inibições psíquicas no curso da maturidade. Esperávamos poder demonstrar a disposição original da vida infantil; entre as forças que restringem a direção da pulsão sexual mencionamos a vergonha, a aversão e a simpatia, e as construções sociais da moralidade e da autoridade. Fomos, portanto, forçados a perceber em cada aberração fixa da vida sexual normal um fragmento de desenvolvimento inibido e de infantilismo. O significado das variações das disposições originais teve que ser colocado em primeiro plano, mas entre elas e as influências da vida tivemos que assumir uma relação de cooperação e não de oposição. Por outro lado, como a disposição original deve ter sido complexa, a própria pulsão sexual nos apareceu como algo composto de muitos fatores, que nas perversões se separa, por assim dizer, em seus componentes. As perversões revelam-se assim, por um lado, inibições e, por outro, dissociações do desenvolvimento normal. Ambas as concepções uniram-se na suposição de que a pulsão sexual do adulto, devido à composição dos diversos sentimentos da vida infantil, tornou-se formado em uma unidade, um esforço, com um único objetivo.

Também acrescentamos uma explicação para a preponderância de tendências perversivas nos psiconeuróticos, reconhecendo nessas tendências preenchimentos colaterais de ramos laterais causados ​​pelo deslocamento do leito principal do rio através da repressão, e então voltamos nosso exame para a vida sexual do período infantil.[12] Achamos lamentável que a existência de uma vida sexual na infância tenha sido contestada e que as manifestações sexuais frequentemente observadas em crianças tenham sido descritas como ocorrências anormais. Pareceu-nos antes que a criança traz consigo para o mundo os germes da atividade sexual e que, mesmo enquanto se alimenta, ela também desfruta de uma gratificação sexual que procura novamente obter para si mesma através da atividade familiar de “chupar o dedo”. A atividade sexual da criança, contudo, não se desenvolve na mesma medida que as suas outras funções, mas funde-se primeiro no chamado período de latência, dos três aos cinco anos de idade. A produção de excitação sexual não cessa de forma alguma neste período, mas continua e fornece um estoque de energia, a maior parte da qual é utilizada para outros fins que não os sexuais; nomeadamente, por um lado, para a entrega de componentes sexuais aos sentimentos sociais, e por outro lado (através da repressão e da formação de reação) para a construção das futuras barreiras sexuais. Conseqüentemente, as forças destinadas a manter a pulsão sexual em determinados aspectos são construídas na infância, às custas da maior parte dos sentimentos sexuais perversos e com a ajuda da educação. Outra parte das manifestações sexuais infantis escapa a esta utilização e pode manifestar-se como atividade sexual. Pode-se então descobrir que a excitação sexual da criança flui de diversas fontes. Acima de tudo, as gratificações originam-se através da excitação sensível adaptada das chamadas zonas erógenas. Para estes provavelmente qualquer região da pele ou órgão sensorial pode servir; mas existem certas zonas erógenas distintas, cuja excitação por certos mecanismos orgânicos é assegurada desde o início. Além disso, a excitação sexual origina-se no organismo, por assim dizer, como subproduto de um grande número de processos, assim que atingem uma certa intensidade; isso ocorre especialmente em todas as excitações emocionais fortes, mesmo que sejam de natureza dolorosa. As excitações de todas essas fontes ainda não se unem, mas perseguem seu objetivo individualmente – esse objetivo consiste apenas na obtenção de um certo prazer. A pulsão sexual da infância é, portanto, sem objeto ou auto-erótico.

Ainda durante a infância, a zona erógena dos genitais começa a tornar-se perceptível, seja pelo fato de, como qualquer outra zona erógena, fornecer gratificação através de um estímulo sensível adequado, seja porque, de alguma forma incompreensível, a gratificação de outras fontes causa ao mesmo tempo a excitação sexual que tem uma ligação especial com a zona genital. Encontramos motivos para lamentar que não tenha sido alcançada uma explicação suficiente das relações entre a gratificação sexual e a excitação sexual, bem como entre a atividade da zona genital e as restantes fontes de sexualidade.

Não fomos capazes de afirmar que quantidade de atividade sexual na infância poderia ser considerada normal a ponto de ser incapaz de um maior desenvolvimento. O caráter da manifestação sexual mostrou-se preponderantemente masturbatório. Verificamos, aliás, pela experiência, a crença de que as influências externas da sedução podem produzir rupturas prematuras do período de latência que conduzem à supressão do mesmo, e que a pulsão sexual da criança se mostra realmente polimorfo-perverso; além disso, que cada atividade sexual prematura prejudica a educabilidade da criança.

Apesar da incompletude dos nossos exames da vida sexual infantil, fomos posteriormente forçados a tentar estudar as graves mudanças produzidas pelo aparecimento da puberdade. Selecionamos dois critérios iguais, a saber, a subordinação de todas as outras fontes da sensação sexual à primazia das zonas genitais e o processo de descoberta do objeto. Ambos já são desenvolvidos na infância. A primeira é realizada através do mecanismo de utilização do prazer preliminar, por meio do qual todos os outros atos sexuais independentes, ligados ao prazer e à excitação, tornam-se atos preparatórios para o novo alvo sexual, a anulação dos produtos sexuais, cuja realização, sob enorme prazer, põe fim à sensação sexual. Ao mesmo tempo, tivemos de considerar a diferenciação da natureza sexual do homem e da mulher, e descobrimos que, para se tornar mulher, é necessária uma nova repressão que abole uma parte da masculinidade infantil e prepare a mulher para a mudança das principais zonas genitais. Por último, encontramos a seleção de objetos, acompanhando-a desde a infância até o seu renascimento na puberdade; também encontramos indícios de inclinações sexuais por parte da criança para os pais e pais adotivos, que, no entanto, foram afastados dessas pessoas para outras semelhantes a elas pelas barreiras de incesto entretanto erguidas. Acrescentemos finalmente que durante o período de transição da puberdade os processos de desenvolvimento somático e psíquico prosseguem lado a lado, mas separadamente, até que, com a irrupção de um intenso estímulo psíquico de amor para a inervação dos genitais, se estabeleça a unificação normalmente exigida da função erótica.

*Os fatores que perturbam o desenvolvimento.* - Como já demonstrámos através de diferentes exemplos, cada passo neste longo caminho de desenvolvimento pode tornar-se um ponto de fixação e cada articulação nesta estrutura complicada pode proporcionar oportunidade para uma dissociação da pulsão sexual. Resta-nos ainda rever os vários fatores internos e externos que perturbam o desenvolvimento, e mencionar a parte do mecanismo afectada pela perturbação que deles emana. Os fatores que aqui mencionamos numa série não podem, é claro, ser todos em si mesmos de igual validade e devemos esperar encontrar dificuldades na atribuição aos fatores individuais da sua devida importância.

*Constituição e Hereditariedade.* - Em primeiro lugar, devemos mencionar aqui a variação congênita da constituição sexual, sobre a qual provavelmente recai o maior peso, mas cuja existência, como pode ser facilmente compreendido, só pode ser estabelecida através de suas manifestações posteriores e mesmo assim nem sempre com grande certeza. Entendemos por isso a preponderância de uma ou outra das múltiplas fontes da excitação sexual, e acreditamos que tal diferença de disposição deve sempre expressar-se no resultado final, mesmo que permaneça dentro dos limites normais. É claro que também podemos imaginar certas variações da disposição original que, mesmo sem ajuda adicional, devem necessariamente levar à formação de uma vida sexual anormal. Pode-se chamá-los de “degenerativos” e considerá-los como uma expressão de deterioração hereditária. Neste contexto, devo relatar um fato notável. Em mais de metade dos casos graves de histeria, neuroses compulsivas, etc., que tratei através de psicoterapia, consegui demonstrar positivamente que os seus pais sofreram um ataque de sífilis antes do casamento; eles sofreram de tabes ou paresia geral, ou houve uma história definida de lues. Acrescento expressamente que as crianças que mais tarde se tornaram neuróticas não mostraram absolutamente nenhum sinal de sintomas hereditários, de modo que a constituição sexual anormal deveria ser considerada como o último rebento da hereditariedade luética. Na medida em que agora me passa pela cabeça considerar a descendência de pais sifilíticos como uma determinação etiológica regular e indispensável da constituição neuropática, afirmo, no entanto, que a coincidência por mim observada não é acidental e não é desprovida de significado.

As relações hereditárias dos pervertidos positivos não são tão conhecidas porque sabem evitar a investigação. Ainda há razões para acreditar que o mesmo se aplica às perversões e às neuroses. Muitas vezes encontramos perversões e psiconeuroses nos diferentes sexos de uma mesma família, distribuídas de tal forma que o membro masculino, ou um deles, é um pervertido positivo, enquanto as mulheres, seguindo as tendências repressivas do seu sexo, são pervertidas negativas ou histéricas. Este é um bom exemplo das relações substanciais entre as duas perturbações que descobri.

*Elaboração Adicional.* - Não se pode, contudo, sustentar que a estrutura da vida sexual seja finalmente completada pela adição dos diversos componentes da constituição sexual. Pelo contrário, as qualificações continuam a aparecer e surgem novas possibilidades, dependendo do destino vivido pelas correntes sexuais originadas nas fontes individuais. Esta elaboração adicional é evidentemente a final e decisiva, enquanto a constituição descrita como uniforme pode levar a três questões finais. Se todas as disposições consideradas anormais mantiverem a sua proporção relativa e forem fortalecidas com a maturidade, o resultado final só poderá ser uma vida sexual perversa. A análise de tais disposições constituídas anormalmente ainda não foi completamente realizada, mas já conhecemos casos que podem ser facilmente explicados à luz destas teorias. Os autores acreditam, por exemplo, que toda uma série de perversões de fixação deve necessariamente ter tido como base uma fraqueza congênita da pulsão sexual. A afirmação parece-me insustentável nesta forma, mas torna-se engenhosa se se referir a uma fraqueza constitucional de um fator da pulsão sexual, nomeadamente, a zona genital, que mais tarde, no interesse da propagação, aceita como função a soma das atividades sexuais individuais. Neste caso, a soma exigida na puberdade deve falhar e o mais forte dos outros componentes sexuais continua a sua atividade como uma perversão.[13]

*Repressão.* - Outra questão surge se, no decorrer do desenvolvimento, certos componentes poderosos sofrerem uma repressão - o que devemos observar cuidadosamente que não é uma suspensão. As excitações em questão são produzidas normalmente, mas são impedidas de atingir seu objetivo por obstáculos psíquicos e são levadas a muitos outros caminhos até se expressarem num sintoma. O resultado pode ser uma vida sexual quase normal – geralmente limitada – mas complementada por doenças psiconeuróticas. São esses casos que nos são tão familiares através da investigação psicanalítica dos neuróticos. A vida sexual de tais pessoas começa como a dos pervertidos: uma parte considerável de sua infância é preenchida com atividade sexual perversa que ocasionalmente se estende muito além do período de maturidade, mas devido a razões internas resulta então uma mudança repressiva - geralmente antes da puberdade, mas de vez em quando até muito mais tarde - e deste ponto em diante, sem qualquer extinção dos antigos sentimentos, aparece uma neurose em vez de uma perversão. Pode-se lembrar aqui o ditado: “Junge Hure, alte Betschwester” – só que aqui a juventude se revelou muito baixa. O alívio da perversão pela neurose na vida da mesma pessoa, bem como a distribuição acima mencionada da perversão e da histeria em diferentes pessoas da mesma família, devem ser colocados lado a lado com o fato de que a neurose é o negativo da perversão.

*Sublimação.* - A terceira questão nas disposições constitucionais anormais é possibilitada pelo processo de "sublimação", através do qual as excitações poderosas de fontes individuais de sexualidade são descarregadas e utilizadas em outras esferas, de modo que um aumento considerável da capacidade psíquica resulta de uma predisposição, em si perigosa. Isto constitui uma das fontes da atividade artística e, conforme tal sublimação seja completa ou incompleta, a análise do caráter de pessoas altamente dotadas, especialmente de pessoas com disposição artística, mostrará qualquer mistura proporcional entre capacidade produtiva, perversão e neurose. Uma subespécie de sublimação é a supressão através da formação reativa, que, como descobrimos, começa ainda no período de latência da infância, apenas para continuar ao longo da vida em casos favoráveis. O que chamamos de caráter de uma pessoa é construído em grande parte a partir do material das excitações sexuais; é composto de impulsos fixados desde a infância e conquistados por meio da sublimação, e de construções destinadas a suprimir eficazmente aqueles sentimentos perversos que são reconhecidos como inúteis. A disposição sexual perversa geral da infância pode, portanto, ser considerada como fonte de uma série de nossas virtudes, na medida em que incita a sua criação através da formação de reações.[14]

*Experiências Acidentais.* - Todas as outras influências perdem importância quando comparadas com as descargas sexuais, mudanças de repressões e sublimações; as determinações internas dos dois últimos processos são-nos totalmente desconhecidas. Aquele que inclui repressões e sublimações entre as predisposições constitucionais, e as considera como manifestações vivas das mesmas, tem certamente o direito de sustentar que a estrutura final da vida sexual é acima de tudo o resultado da constituição congênita. Nenhuma pessoa inteligente, contudo, contestará que numa tal cooperação de fatores há também espaço para as influências modificadoras de fatores ocasionais derivados da experiência na infância e mais tarde.

Não é fácil estimar a eficácia dos fatores constitucionais e dos fatores ocasionais na sua relação entre si. A teoria tende sempre a superestimar a primeira, enquanto a prática terapêutica dá destaque ao significado da última. Não se deve de forma alguma esquecer que entre os dois existe uma relação de cooperação e não de exclusão. O fator constitucional deve aguardar experiências que o tragam à tona, enquanto o ocasional necessita do apoio do fator constitucional para se efetivar. Na maioria dos casos, pode-se imaginar um chamado “grupo etiológico”, no qual as intensidades decrescentes de um fator são equilibradas pelo aumento dos outros, mas não há razão para negar a existência de extremos nas extremidades do grupo.

Estaria ainda mais em harmonia com a investigação psicanalítica se as experiências da primeira infância ocupassem um lugar de preferência entre os fatores ocasionais. O único grupo etiológico é então dividido em dois, que podem ser designados como grupos disposicional e definitivo. A constituição e as experiências infantis ocasionais são tão cooperativas no primeiro quanto a disposição e as experiências traumáticas posteriores no segundo grupo. Todos os fatores que prejudicam o desenvolvimento sexual mostram o seu efeito na medida em que produzem uma regressão ou um retorno a uma fase anterior de desenvolvimento.

Podemos agora continuar com a nossa tarefa de enumerar os fatores que se tornaram conhecidos por nós como influentes para o desenvolvimento sexual, sejam eles forças ativas ou meras manifestações dos mesmos.

*Prematuridade.* - Tal fator é a prematuridade sexual espontânea, que pode ser definitivamente demonstrada pelo menos na etiologia das neuroses, embora em si seja tão pouco adequada para a causalidade quanto os outros fatores. Manifesta-se numa ruptura, encurtamento ou suspensão do período de latência infantil e torna-se causa de perturbações, na medida em que provoca manifestações sexuais que, quer devido ao estado despreparado das inibições sexuais, quer devido ao estado subdesenvolvido do sistema genital, só podem carregar consigo o caráter de perversões. Essas tendências à perversão podem permanecer como tais ou, depois que a repressão se instala, podem tornar-se forças motrizes para sintomas neuróticos; em todo caso, a prematuridade sexual torna difícil o desejável controle posterior da pulsão sexual pelas influências psíquicas superiores e aumenta o caráter compulsivo que, mesmo sem essa prematuridade, seria reivindicado pelos representantes psíquicos do impulso. A prematuridade sexual muitas vezes ocorre paralelamente ao desenvolvimento intelectual prematuro; encontra-se como tal na história infantil dos indivíduos mais distintos e mais produtivos e, em tal conexão, não parece agir tão patogenicamente como quando aparece isolado.

*Fatores Temporais.*--Assim como a prematuridade, outros fatores, que sob a designação de temporais podem ser somados à prematuridade, também exigem consideração. Parece estar filogeneticamente estabelecido em que sequência os sentimentos impulsivos individuais se tornam ativos e por quanto tempo eles podem se manifestar antes de sucumbirem à influência de um impulso ativo que surge recentemente ou a uma repressão típica. Mas tanto nesta sucessão temporal como na duração da mesma parecem ocorrer variações que devem exercer uma influência definida na experiência. Não pode ser indiferente se uma determinada corrente aparece antes ou depois da sua contracorrente, pois o efeito de uma repressão não pode ser regressivo; um desvio temporal na composição dos componentes produz regularmente uma alteração no resultado. Por outro lado, os sentimentos impulsivos que aparecem com especial intensidade muitas vezes chegam a um fim surpreendentemente rápido, como no caso da ligação heterossexual dos homossexuais manifestados posteriormente. Os esforços da infância que se manifestam de forma mais impetuosa não justificam o medo de que dominem de forma duradoura o caráter do adulto; temos o mesmo direito de esperar que eles desapareçam para dar lugar aos seus homólogos. (Mestres severos não governam por muito tempo.) Dificilmente somos capazes de sugerir a que se pode atribuir tais confusões temporais dos processos de desenvolvimento. Abre-se aqui uma visão para uma falange mais profunda de problemas biológicos, e talvez também históricos, que ainda não abordamos a uma distância de combate.

*Adesão.* - A importância de todas as manifestações sexuais prematuras é reforçada por um fator psíquico de origem desconhecida que, no momento, pode ser apresentado apenas como uma preliminar psicológica. Acredito que é a elevada adesão ou fixidez dessas impressões da vida sexual que nos neuróticos posteriores, bem como nos pervertidos, deve ser acrescentada para completar os outros fatos; pois as mesmas manifestações sexuais prematuras em outras pessoas não podem impressionar-se suficientemente profundamente para se repetirem compulsivamente e conseguirem prescrever o caminho para a pulsão sexual ao longo da vida. Talvez parte da explicação para essa adesão resida em outro fator psíquico que não podemos deixar de perceber na causação das neuroses, a saber, na preponderância que, na vida psíquica, recai sobre os traços de memória em comparação com as impressões recentes. Este fator aparentemente depende do desenvolvimento intelectual e cresce com o crescimento da cultura pessoal. Em contraste com isto, o selvagem tem sido caracterizado como “a infeliz criança do momento”. [15] Devido à relação de oposição existente entre a cultura e o livre desenvolvimento da sexualidade, cujos resultados podem ser rastreados até à formação da nossa vida, o problema de como a vida sexual da criança evolui é de muito pouca importância para a vida posterior nos estágios inferiores da cultura e da civilização, e de grande importância nos superiores.

*Fixação.*--A influência dos fatores psíquicos mencionados favoreceu o desenvolvimento dos impulsos acidentalmente experimentados da sexualidade infantil. Estas últimas (especialmente na forma de seduções através de outras crianças ou através de adultos) produzem o material que, com a ajuda das primeiras, pode fixar-se como uma perturbação permanente. Um número considerável de desvios da vida sexual normal observados mais tarde foi assim estabelecido em neuróticos e pervertidos desde o início, através das impressões recebidas durante o alegado período sexualmente livre da infância. A causalidade é produzida pela capacidade de resposta da constituição, pela prematuridade, pela qualidade da adesão intensificada e pela excitação acidental da pulsão sexual através de influência externa.

As conclusões insatisfatórias que resultaram desta investigação dos distúrbios da vida sexual devem-se ao fato de que ainda sabemos muito pouco sobre os processos biológicos em que consiste a natureza da sexualidade para formar, a partir de nossos exames isolados, uma teoria satisfatória para a explicação do normal ou do patológico.

[1] As diferenças serão enfatizadas na representação esquemática apresentada no texto. Até que ponto a sexualidade infantil se aproxima da organização sexual definitiva através da sua seleção objetal já foi discutida anteriormente (p. 60).

[2] Veja meu trabalho, O Chiste e sua Relação com o Inconsciente, traduzido por A.A. Brill, Moffat Yard Pub. Co., Nova York: "O prazer preliminar obtido pela técnica da inteligência é utilizado com o propósito de liberar um prazer maior pela remoção de inibições internas."

[3] Cf. Zur Einführung des Narzismus, Jahrbuch der Psychoanalyse, VI, 1913.

[4] É necessário deixar claro que as concepções “masculino” e “feminino”, cujo conteúdo parece tão inequívoco ao sentido comum, pertencem aos termos mais confusos da ciência e podem ser divididas em pelo menos três caminhos. Às vezes usamos o masculino e o feminino no sentido de atividade e passividade, novamente no sentido biológico, e depois também no sentido sociológico. O primeiro desses três significados é o essencial e o único utilizável na psicanálise. Concorda com a designação masculina da libido no texto acima, pois a libido está sempre ativa mesmo quando é dirigida para um objetivo passivo. O segundo, o significado biológico do masculino e do feminino, é aquele que permite a determinação mais clara. O masculino e o feminino são aqui caracterizados pela presença do sêmen ou óvulo e pelas funções que deles emanam. A atividade e suas manifestações secundárias, como músculos mais fortes e desenvolvidos, agressividade, maior intensidade de libido, estão, via de regra, soldadas à masculinidade biológica, mas não necessariamente ligadas a ela, pois há espécies de animais nos quais essas qualidades são atribuídas à fêmea. O terceiro, o significado sociológico, recebe o seu conteúdo através da observação dos indivíduos masculinos e femininos reais existentes. O resultado disso no homem é que não existe masculinidade ou feminilidade pura, seja no sentido biológico ou psicológico. Pelo contrário, cada pessoa individual apresenta uma mistura das suas próprias características sexuais biológicas com as características biológicas do outro sexo e uma união de atividade e passividade; este é o caso quer esses traços característicos psicológicos dependam do biológico ou sejam independentes dele.

[5] A psicanálise ensina que existem dois caminhos para encontrar o objeto; a primeira é a discutida no texto que se orienta pelos primeiros protótipos infantis. O segundo é o narcisista que busca o seu próprio ego e o encontra no outro. Este último é de particular importância para os resultados patológicos, mas não se enquadra na conexão aqui tratada.

[6] Aqueles para quem esta concepção parece "perversa" podem ler o tratado de Havelock Ellis sobre as relações entre mãe e filho, que expressa quase as mesmas ideias (O Impulso Sexual, p. 16).

[7] Pela explicação da origem do medo infantil, devo muito a um menino de três anos que certa vez ouvi chamar de um quarto escuro: "Tia, fale comigo, estou com medo porque está escuro." “Como isso vai te ajudar?”, respondeu a tia; "você não pode ver de qualquer maneira." “Isso não é nada”, respondeu a criança; "se alguém fala, então se torna luz." - Ele não tinha, como vemos, medo da escuridão, mas tinha medo porque sentia falta da pessoa que amava, e poderia prometer se acalmar assim que tivesse certeza de sua presença.

[8] Cf. aqui o que foi dito na página 83 sobre a seleção do objeto da criança; o "fluxo terno".

[9] A barreira do incesto provavelmente pertence às aquisições históricas da humanidade e, como outros tabus morais, deve ser fixada em muitos indivíduos através da hereditariedade orgânica. (Cf. meu trabalho, Totem e Tabu, 1913.) Os estudos psicanalíticos mostram, contudo, quão intensamente o indivíduo luta contra as tentações do incesto durante seu desenvolvimento e com que frequência ele as coloca em fantasias e até mesmo em realidade.

[10] Compare a descrição relativa à relação inevitável na lenda de Édipo (A Interpretação dos Sonhos, p. 222, traduzido por A.A. Brill, The Macmillan Co., Nova York, e Allen & Unwin, Londres).

[11] Inúmeras peculiaridades da vida amorosa humana, bem como a própria compulsividade de estar apaixonado, certamente só podem ser compreendidas através de uma referência à infância ou como um remanescente efetivo da mesma.

[12] Isso era verdade não apenas para as tendências "negativas" à perversão que aparecem na neurose, mas também para as chamadas perversões positivas. Estas últimas não devem ser atribuídas apenas à fixação das tendências infantis, mas também à regressão a essas tendências devido ao deslocamento de outros caminhos da corrente sexual. Conseqüentemente, as perversões positivas também são acessíveis à terapia psicanalítica. (Cf. os trabalhos de Sadger, Ferenczi e Brill.)

[13] Aqui muitas vezes vemos que a princípio um fluxo sexual normal começa na idade da puberdade, mas devido à sua fraqueza interior ele se desfaz no primeiro obstáculo externo e depois muda da regressão para a fixação perversa.

[14] Esse observador atento da natureza humana, E. Zola, descreve uma menina em seu livro, La Joie de vivre, que em alegre auto-renúncia oferece tudo o que possui ou espera, sua fortuna e esperanças de vida para aqueles que ela ama sem pensar em retorno. A infância desta menina foi dominada por um desejo insaciável de amor que sempre que era depreciada a fazia mergulhar num ataque de crueldade.

[15] É possível que a adesão intensificada seja apenas o resultado de uma manifestação sexual somática intensa e especial de anos anteriores.

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