Capítulo 4 Amor de Perdição · Capítulo 5 de 22
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Capítulo 4

Capítulo 4

O coração de Teresa mentia. Vão lá pedir sinceridade ao coração! Para finos entendedores, o diálogo do anterior capítulo definiu a filha de Tadeu de

Albuquerque. É uma mulher corajosa, tem força de carácter, orgulho fortalecido pelo amor, despego das vulgares apreensões, se são apreensões a renúncia que uma filha fez do seu arbítrio às imprevidentes e caprichosas vontades do pai. Diz boa gente que não, e eu abundo sempre no voto da gente boa. Não será calúnia atribuir-lhe um pouco de astúcia, ou hipocrisia, se quiserem; perspicácia seria mais correto dizer. Teresa adivinha que a lealdade tropeça a cada passo na estrada real da vida, e que os melhores fins se atingem por atalhos onde não cabem a franqueza e a sinceridade. Estes ardis são raros na idade inexperiente de Teresa; mas a mulher do romance quase nunca é trivial, e esta, de que rezam os meus apontamentos, era distintíssima. A mim me basta, para crer na sua distinção, a celebridade que ela veio a ganhar à conta da desgraça.

Da carta que ela escreveu a Simão Botelho, contando as cenas descritas, a crítica deduz que a menina de Viseu contemporizava com o pai, pondo a mira no futuro, sem passar pelo dissabor do convento, nem romper com o velho em manifesta desobediência. Na narrativa que fez ao estudante omitiu ela as

ameaças do primo Baltasar, cláusula que, a ser transmitida, arrebataria o rapaz de Coimbra, em quem não faltava coragem e bravura para o enfrentar.

Mas não é esta ainda a carta que surpreendeu Simão Botelho.

Parecia calmo o céu de Teresa. O seu pai não falava em claustro nem em casamento. Baltasar Coutinho voltara ao seu solar em Castro de aire.

A tranquila menina dava semanalmente estas boas novas a Simão, que, aliando

às venturas do coração as riquezas do espírito, estudava incessantemente, e passava as noites arquitetando o seu edifício de futura glória.

Ao romper da alvorada de um domingo de Junho de 1803, foi Teresa chamada para ir com o seu pai à primeira missa da igreja paroquial. Vestiu-se a menina, assustada, e encontrou o velho na antecâmara a recebê-la com muito agrado, perguntando-lhe se ela se tinha acordado de bons humores para dar ao autor dos seus dias um resto de velhice feliz. O silêncio de Teresa era interrogador.

— Vais hoje dar a mão de esposa ao teu primo Baltasar, minha filha. É preciso que te deixes levar cegamente pela mão do teu pai. Logo que deres este passo difícil, aprenderás que a tua felicidade é daquelas que precisam ser impostas pela violência. Mas repara, minha querida filha, que a violência de um pai é sempre amor. O amor tem sido a minha condescendência e brandura para contigo. Outro teria subjugado a tua desobediência com maus tratos, com os rigores do convento, e talvez com o desfalque do teu grande

patrimônio. Eu, não. Esperei que o tempo te aclarasse o juízo, e felicito-me por te julgar desassombrada do diabólico prestígio do maldito que acordou o teu inocente coração. Não te consultei outra vez sobre este casamento por temer que a reflexão fizesse mal ao zelo de boa filha com que tu vais abraçar o teu pai, e agradecer-lhe a prudência com que ele respeitou o teu gênio, velando sempre a hora de te encontrar digna do seu amor.

Teresa não tirou os olhos do pai; mas tão abstraída estava, que escassamente lhe ouviu as primeiras palavras, e nada das últimas.

— Não me respondes, Teresa? — disse Tadeu, tomando-lhe cariciosamente as mãos.

— Que hei de eu responder-lhe, meu pai? — balbuciou ela.

— Dás-me o que te peço? Enches de contentamento os poucos dias que me restam?

— E será o pai feliz com o meu sacrifício?

— Não digas sacrifício, Teresa. Amanhã a estas horas verás que transfiguração se fez na tua alma. O teu primo é um homem composto de todas as virtudes; nem a qualidade de ser um gentil rapaz lhe falta, como se a riqueza, a ciência e as virtudes não bastassem para formar um marido excelente.

— E ele quer-me, depois de eu me ter negado? — disse ela com amargura irônica.

— Ele está apaixonado, filha!.. E tem bastante confiança em si para crer que tu hás de amá-lo muito!..

— E não será mais certo eu odiá-lo sempre!? Agora mesmo o odeio como nunca pensei que se pudesse odiar ninguém, meu pai! — continuou ela, chorando, com as mãos erguidas — mate-me; mas não me force a casar com o meu primo! É escusada a violência, porque eu não caso!

Tadeu mudou de aspecto, e disse irado:

— Hás de casar! Quero que cases! Quero! Se não, serás amaldiçoada para sempre, Teresa! Morrerás num convento! Esta casa irá para o teu primo!

Nenhum infame há de aqui pôr um pé nas alcatifas dos meus avós. Se és uma alma vil, não me pertences, não és minha filha, não podes herdar apelidos honrosos, que foram pela primeira vez insultados pelo pai desse miserável que tu amas! Maldita sejas! Entra nesse quarto, e espera que daí te arranquem para outro, onde não verás um raio de sol.

Teresa ergueu-se sem lágrimas, e entrou serenamente no seu quarto. Tadeu de

Albuquerque foi ter com o sobrinho, e disse-lhe:

— Não te posso dar a minha filha, porque já não tenho filha. A miserável, a quem dei este nome, perdeu-se para nós e para ela.

Baltasar, que a juízo do seu tio era composto de excelências, tinha apenas uma quebra: um excesso de orgulho. Malograda a tentativa do seu amor de emboscada, voltou para a sua terra, dizendo ao velho que ele o livraria do assédio que Simão Botelho tinha posto no coração da filha. Não aprovou a reclusão no convento, discorrendo sobre as hipóteses infames que a opinião pública inventaria. Aconselhou que a deixasse estar em casa, e esperasse que o filho do corregedor viesse de Coimbra.

Ponderaram no ânimo do velho as razões de Baltasar. Teresa maravilhou-se da quietação inesperada do seu pai, e desconfiou da incoerência. Escreveu a

Simão. Nada lhe escondeu do sucedido; nem as ameaças de Baltasar por delicadeza suprimiu. Rematava comunicando-lhe as suas suspeitas de algum novo plano de violência.

O acadêmico, chegando ao período das ameaças, já não tinha clara luz nos olhos para decifrar o restante da carta. Tremia sem razão, e as artérias frontais arfavam-lhe entumecidas. Não era sobressalto do coração apaixonado: era a índole arrogante que lhe escaldava o sangue. Ir dali a Castro de aire, e apunhalar o primo de Teresa na sua própria casa, foi o primeiro conselho que lhe segredou a fúria do ódio. Neste propósito saiu, alugou um cavalo, e pôs-se a vestir para a jornada. Já preparado, cada minuto de espera assomava-se em frenesis. O cavalo demorou-se meia hora, e o seu bom anjo, neste espaço, vestido com as galas com que ele vestia na imaginação Teresa, deu-lhe rebates de saudade daqueles tempos e ainda das horas daquele mesmo dia em que

cismava na felicidade que o amor lhe prometia, se ele a procurasse no caminho do trabalho e da honra. Contemplou os seus livros com tanto afeto, como se em cada um estivesse uma página da história do seu coração.

Nenhuma daquelas páginas tinha ele lido, sem que a imagem de Teresa lhe aparecesse a fortalecê-lo para vencer os tédios da continuada aplicação e os ímpetos de um natural inquieto e ansioso de emoções desusadas. «E há de tudo acabar assim? — pensava ele, com a face entre as mãos, encostado à sua banca de estudo. — Ainda há pouco eu era tão feliz! Feliz! — repetiu ele, erguendo-se de repente — Quem pode ser feliz com a desonra de uma ameaça impune? Mas eu perco-a! Nunca mais eu hei de vê-la. Fugirei como um assassino, e o meu pai será o meu primeiro inimigo, e ela mesma há de horrorizar-se da minha vingança. A ameaça só ela a ouviu; e, se eu tivesse sido rebaixado no conceito de Teresa pelos insultos do miserável, talvez que ela os não repetisse.»

Simão Botelho releu a carta duas vezes, e à terceira leitura achou menos afrontosas as bravatas do fidalgo cioso. As linhas finais desmentiam formalmente a suspeita do insulto, com que o seu orgulho o atormentava: eram expressões ternas, súplicas ao seu amor como recompensa dos passados e futuros desgostos, visões encantadoras do futuro, novos juramentos de constância, e sentidas frases de saudade.

Quando o arrieiro bateu à porta, Simão Botelho já não pensava em matar o homem de Castro de aire; mas resolvera ir a Viseu, entrar de noite, esconder-se

e ver Teresa. Faltava-lhe, porém, casa de confiança onde se ocultasse. Nas estalagens seria logo descoberto. Perguntou ao arrieiro se conhecia alguma casa em Viseu onde ele pudesse estar escondido uma noite ou duas, sem receio de ser denunciado. O arrieiro respondeu que tinha, a um quarto de légua de Viseu, um primo ferrador; e não conhecia em Viseu senão os estalajadeiros. Simão achou aproveitável o parentesco do homem, e logo aí o presenteou com uma jaqueta de peles e uma faixa de seda escarlate, à conta de maiores valores prometidos, se ele o servisse bem numa empresa amorosa.

No dia seguinte, chegou o acadêmico a casa do ferrador. O arrieiro deu conta ao seu parente do que tinha falado com o estudante.

Foi Simão Botelho cautelosamente hospedado, e o arrieiro abalou no mesmo ponto para Viseu, com uma carta destinada a uma mendiga, que morava no mais impraticável beco da terra. A mendiga informou-se miudamente da pessoa que enviava a carta e saiu, mandando esperar o caminheiro. Pouco depois voltou ela com a resposta, e o arrieiro partiu a galope.

A resposta era um grito de alegria. Teresa não refletiu, respondendo a Simão, que naquela noite se festejavam os seus anos, e se reuniam em casa os parentes. Disse-lhe que às onze horas em ponto ela iria ao quintal e lhe abriria a porta.

Não esperava tanto o acadêmico. O que ele pedia era falar-lhe da rua para a janela do seu quarto, e já receava ser impossível esse prazer. Apertar-lhe a

mão, sentir-lhe o hálito, abraçá-la, talvez cometer a ousadia de um beijo, estas esperanças, tão além das suas modestas e honestas ambições, igualmente o entusiasmaram e assustaram. Entusiamos e susto em corações que se estreiam na comédia humana são sentimentos congeniais.

À hora da partida, Simão tremia, e a si mesmo tentava vencer a timidez, sem saber que os encantos da vida, os mais angélicos momentos da alma, são esses lances de misterioso alvoroço que aos mais fracos de coração sucedem em todas as estações da vida, e a todos os homens, uma vez pelo menos.

Às onze horas em ponto estava Simão encostado à porta do quintal, e a distância convencionada o arrieiro com o cavalo à rédea. O som da música, que vinha das salas remotas, alvoroçava-o, porque a festa em casa de Tadeu de

Albuquerque surpreendera-o. No longo termo de três anos nunca ele ouvira música naquela casa. Mesmo sabendo que era o dia de anos de Teresa, espantou-se da estranha alegria daquelas salas, sempre fechadas como em dias de velório. Simão imaginou desvairadamente as quimeras que voejam, ora negras, ora translúcidas, em redor da fantasia apaixonada. Não há lógica racional para as belas, nem para as honrosas ilusões, quando o amor as inventa. Simão Botelho, com o ouvido colado à fechadura, ouvia apenas o som das flautas e as pancadas do coração sobressaltado.

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