Capítulo 13 Amor de Perdição · Capítulo 14 de 22
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Capítulo 13

Capítulo 13

— E Teresa? Perguntaram os meus leitores, e não me hei de queixar se me acusarem de a ter esquecido e sacrificado a incidentes de menos porte.

Esquecido, não. Muito há que me reluz e voeja, alada como ideal querubim dos santos, nesta minha quase escuridade (), aquela ave do céu, como a pedir-me que lhe cubra de flores o rastilho de sangue que ela deixou na terra.

Mais lágrimas que sangue deixaste, ó filha da amargura! Flores são tuas lágrimas, e do Céu me diz se os perfumes delas não valem mais aos pés do teu

Deus que as preces de muita devota, que morre santificada pelo mundo, e cujo cheiro de santidade não passa do olfato hipócrita ou estúpido dos mortais.

[()NOTA DO AUTOR: Este romance foi escrito num dos cubículos-cárceres da Relação do Porto, para uma luz coada por entre ferros, e abafada pela sombra das abóbadas. Ano da Graça de 1861.]

Teresa Clementina bem a viram transportada da escadaria do templo, onde caíra na liteira que a conduziu ao Porto. Recobrando o alento, viu defronte de si uma criada, que lhe dizia banais e frias expressões de alívio. Se alguma criada do seu pai lhe era amiga, decerto não aquela, acintosamente escolhida

pelo velho. Nem ao menos a confiança para tal expansão em gritos restava à afligida menina! Mas um raio de piedade ferira de súbito o peito da mulher até

àquela hora desafeta a sua ama.

Perguntava-se a si mesma Teresa se aquela horrorosa situação seria um sonho!

Sentia-se de novo fortalecer de forças, e voltava à vida, acudida pela consciência da sua desgraça. Condoeu-se a criada, e incitou-a a respirar, chorando com ela, e dizendo-lhe:

— Pode falar, menina, que ninguém nos segue.

— Ninguém?

— As suas primas ficaram em Viseu: vêm apenas os dois lacaios.

— E o meu pai não?

— Não, menina. Pode chorar e falar à sua vontade.

— Vou para o Porto?

— Vamos, sim, minha senhora.

— E tu viste tudo como tudo se passou, Constança?

— Desgraçadamente vi.

— Como foi? Conta-me tudo.

— A menina bem sabe que o seu primo morreu.

— Morreu? Vi-o cair quase aos meus pés; mas...

— Morreu logo, e depois quiseram os criados, à voz do seu pai, prender o senhor Simão; mas ele com outra pistola…

— E fugiu? — atalhou Teresa, com veemente alegria.

— Ele deu-se à sozinho prisão.

— Está preso?

E, sufocada pelos soluços, com o rosto no lenço, não ouvia as palavras confortadoras de Constança.

Serenado algum tempo o violento acesso de gemidos e choro, Teresa sugeriu

à criada o louco plano de a deixar fugir na primeira estalagem onde pousassem, para ela ir a Viseu dar o último adeus a Simão.

A criada a custo despersuadiu-a do intento, pintando-lhe os novos perigos que ia acumular à desgraça do seu amante, e animando-a com a esperança de livrar-se Simão do crime, com a influência do pai, apesar da perseguição do fidalgo.

Calaram lentamente estas razões no espírito de Teresa.

Chorosa, ansiada e por vezes desfalecida, foi Teresa vencendo a distância que a separava de Monchique, onde chegou ao quinto dia de jornada.

A prelada já estava sabia dos acontecimentos por emissários que se adiantaram ao moroso caminhar da liteira.

Foi Teresa recebida com brandura pela sua tia, posto que as recomendações de Tadeu de Albuquerque eram clausura rigorosa e absoluta privação de meios de escrever a quem quer que fosse.

Ouviu a prelada da boca da sua sobrinha a fiel história dos acontecimentos, e viu uma a uma as cartas de Simão Botelho. Choraram abraçadas; mas a prelada, enxugadas as lágrimas de mulher ao fogo da austeridade religiosa, falou e aconselhou como freira, e freira que ciliciava o corpo com as rosetas e o coração com as privações tormentosas de quarenta anos.

Teresa carecia de forças para a rebelião. Deixou a sua tia a santa vaidade de exorcizar o demônio das paixões, e deu um sorriso ao anjo da morte, que, de permeio ao seu amor e à esperança, lhe interpunha a asa negra, que tão de luz refulgente rebrilha às vezes em corações infelizes.

Quis Teresa escrever.

— A quem, minha filha? — perguntou a prelada.

Teresa não respondeu.

— Escrever-lhe para quê? — disse a religiosa. — Pensas tu, menina, que as tuas cartas lhe chegarão às mãos? Que vais tu fazer senão redobrar a ira do teu pai contra ti e contra o infeliz preso? Se o amas, como creio, apesar de tudo,

pensa em salvá-lo. Se não ouves a minha razão, finge-te esquecida. Se podes violentar a tua dor, dissimula, faz muito para que ao teu pai chegue a notícia de que lhe serás dócil em tudo, se ele tiver piedade do teu pobre amigo.

Teresa não refletiu muito nessas palavras. Deu outro sorriso ao anjo da morte, e pediu-lhe que a envolvesse a ela, e ao seu amor, e à sua esperança, de todo, na negrura das suas asas.

De mês a mês recebia a abadessa de Monchique uma carta do seu primo.

Eram estas cartas um alívio de vingança. Em todas dizia o velho que o assassino iria ao patíbulo irremediavelmente. A sobrinha não via as cartas; mas reparava nas lágrimas da compassiva freira.

A débil compleição de Teresa deperecia aceleradamente. A medicina condenou-a à morte breve. Disto foi informado Tadeu de Albuquerque, e respondeu: «Não desejava morta; mas, se Deus a levar, morrerei mais tranquilo, e com a honra sem manchas.» Era assim imaculada a honra do fidalgo de Viseu! A HONRA, que dizem proceder em linha reta da virtude de

Sócrates, da virtude de Jesus Cristo, e da virtude de milhões de mártires, que se deram às garras das feras, quando predicavam a caridade e o perdão aos homens!

Quantas carícias inventou a simpatia e a piedade, todas, por ministério das religiosas exemplares de Monchique, aporfiaram em refrigerar o ardor que consumia rapidamente a reclusa. Tudo inútil. Teresa reconhecia com lágrimas

a compaixão, e, ao mesmo tempo, alegrava-se tirando das carícias a certeza de que os médicos a julgavam incurável.

Alguma freira inadvertida disse-lhe um dia que uma sua amiga do convento dos Remédios de Lamego lhe dissera que Simão tinha sido condenado à morte.

Teresa estremeceu e murmurou, sem forças já para a exclamação:

— E eu ainda vivo!

Depois orou, e chorou; mas os costumes da sua vida em paroxismos continuaram inalteráveis.

Perguntou à senhora, que lhe dera a notícia, se a sua amiga do convento dos

Remédios lhe faria o favor de fazer chegar às mãos de Simão uma carta.

Prontificou-se a freira, depois que ouviu o parecer da prelada. Entendeu esta religiosa que o derradeiro colóquio entre dois moribundos não podia danificá-los na vida temporal, nem na vida eterna.

Esta é a carta que leu Simão, quinze dias depois do seu julgamento:

«Simão, meu esposo. Sei tudo. Está conosco a morte. Escrevo-te sem lágrimas. A minha agonia começou há sete meses. Deus é bom, que me poupou ao crime. Ouvi a notícia da tua morte próxima, e então compreendi porque estou a morrer de hora a hora. Aqui está o nosso fim, Simão! E as nossas esperanças! Quando tu me dizias os teus sonhos de felicidade, e eu te dizia os meus! Que mal fariam a Deus os nossos inocentes desejos? Porque não merecemos

nós o que tanta gente tem? Assim acabará tudo, Simão? Não posso crê-lo. A eternidade apresenta-se-me tenebrosa, porque a esperança era a luz que me guiava de ti para a fé. Mas não pode acabar assim o nosso destino. Vê se consegues segurar o último fio da tua vida para uma esperança qualquer. Ver-nos-emos num outro mundo, Simão? Terei eu merecido a Deus contemplar-te? Eu rezo, suplico, mas desfaleço na fé, quando me lembram as últimas agonias do teu martírio. As minhas são suaves, quase que as não sinto. Não deve custar a morte a quem tiver o coração tranquilo. O pior é a saudade, saudade daquelas esperanças que tu achavas no meu coração, adivinhando as tuas. Não importa, se nada há além desta vida. Ao menos, morrer é esquecer. Se tu pudesses viver agora, de que te serviria?

Eu também estou condenada, e sem remédio. Segue-me, Simão! Não tenhas saudades da vida, não tenhas, ainda que a razão te diga que podias ser feliz, se não me tivesses encontrado no caminho por onde te levei à morte. E que morte, meu Deus! Aceita-a! Não te arrependas. Se houve crime, a justiça de Deus te perdoará pelas angústias que tens de sofrer no cárcere e nos últimos dias, e na presença da...»

Teresa ia escrever uma palavra, quando a pena lhe caiu da mão, e uma convulsão lhe vibrou o corpo por muito tempo. Não escreveu a palavra! A ideia de forca parou-lhe a vida. A freira entrou na cela a pedir-lhe a carta, porque o correio ia partir. Teresa, indicando-lha, disse:

— Leia, se quiser, e feche-a, por caridade, que eu não posso.

Nos três dias seguintes Teresa não saiu do leito. A cada hora que passava as religiosas assistentes esperavam que ela fechasse os olhos.

— Custa muito morrer! — dizia algumas vezes a enferma.

Não faltavam piedosos discursos a divertirem-lhe o espírito do mundo.

Teresa ouvia-os, e dizia com ânsia:

— Mas a esperança do Céu, sem ele! Que é o Céu, meu Deus?

E o apostólico capelão do mosteiro não sabia dizer se os bens do Céu tinham de comum com os do mundo as delícias que falsamente na Terra se chamam assim. Aquelas subtilezas espirituais que vêm com algumas espécies de tísica, assim à maneira dos últimos lampejos da vital flama, tinha-as a enferma, quando acontecia falarem-lhe as religiosas na bem-aventurança. Às vezes, se o capelão, convidado pela lucidez de Teresa, entrava nos domínios da filosofia, tratando como tema a imortalidade da alma, a inculta senhora argumentava em breves termos, com razões tão claras a favor da união eterna das almas, já deste mundo esposas, que o padre ficava em dúvidas se seria herético contestar uma cláusula não inscrita em algum dos quatro evangelhos.

Maravilhava-se já a medicina da pertinácia daquela vida. Tinha a abadessa escrito ao primo Tadeu, apressando-o a vir ver o anjo ao despedir-se da Terra.

O velho, tocado de piedade, e porventura de amor paternal, pensou tirar do convento a filha, na esperança de ainda a poder salvar. E uma forte razão acrescia àquela: era a mudança do condenado para os cárceres do Porto. Deu-se pressa, pois, o fidalgo, e chegou ao Porto a tempo que a religiosa, amiga da outra de Lamego, entregar à doente esta carta de Simão:

«Não me fujas ainda, Teresa. Já não vejo a forca, nem a morte. O meu pai protege-me, e a salvação é possível. Prende ao coração os últimos fios da tua vida. Prolonga a tua agonia, enquanto te eu disser que espero. Amanhã vou para as cadeias do Porto, e hei de ali esperar a absolvição ou comutação da sentença. A vida é tudo. Posso amar-te no degredo. Em toda a parte há céu, e flores, e Deus. Se viveres, um dia serás livre; a pedra do sepulcro é que nunca se levanta. Vive, Teresa, vive! Há dias, lembrava-me que as tuas lágrimas lavariam da minha face as nódoas do sangue do enforcado. Esse pesadelo atroz passou. Agora respira-se neste inferno; o esparto do carrasco já me não aperta em sonhos a garganta. Já contemplo os teus olhos no céu, e reconheço a providência dos infelizes. Ontem, vi as nossas estrelas, aquelas dos nossos segredos nas noites de ausência. Voltei à vida, e tenho o coração cheio de esperanças. Não morras, amor da minha alma!»

Ia alta a noite, quando Teresa, sentada no seu leito, leu esta carta. Chamou a criada para ajudá-la a vestir. Mandou abrir a janela do seu quarto e encostou as faces às reixas de ferro. Esta janela dava para o mar, e o mar era nessa noite uma imensa flama de prata; e a Lua esplendidíssima eclipsava o fulgor dumas estrelas, que Teresa procurava no céu.

— São aquelas! — exclamou ela.

— Aquelas quê, minha senhora? — disse Constança.

— As minhas estrelas! Pálidas como eu. A vida! A vida! — exclamou ela, erguendo-se, e passando pela fronte as mãos cadavéricas — Quero viver!

Deixai-me viver, ó Senhor!

— Há de viver, menina! Há de viver, que Deus é piedoso! — disse a criada. — Mas não tome o ar da noite. Este nevoeiro do rio faz-lhe grande mal.

— Deixa-me, deixa-me, que tudo isto é viver. Não vejo o céu há tanto tempo! Sinto-me ressuscitar aqui, Constança! Porque não tenho eu respirado todas as noites este ar? Poderei viver mais alguns anos? Poderei, minha

Constança? Pede tu, pede muito à Virgem Santíssima! Vamos orar ambas!

Vamos, pois o Simão não irá morrer. O meu Simão vive e quer que eu viva.

Está no Porto amanhã; e talvez já cá esteja.

— Quem, minha senhora?

— Simão; o Simão vem para o Porto.

A criada julgava que a sua ama delirava; mas não a contrariou.

— Teve carta dele a fidalga? — disse ela, pensando que assim lhe alimentava aquele instante de febril contentamento.

— Tive. Queres ouvir? Eu leio.

E leu a carta, com grande pasmo de Constança, que se convenceu.

— Agora vamos rezar, sim? Tu não és inimiga dele, não? Olha, Constança, se eu casar com ele, tu vais para nossa companhia. Verás como és feliz.

Queres ir, não queres?

— Sim, minha senhora, vou; mas conseguirá ele livrar-se da morte?

— Livra; tu verás que se livra; o pai dele há de livrá-lo. E a Virgem

Santíssima é que nos há de unir. Mas se eu morro. Se eu morro, meu Deus..

E com as mãos convulsivamente enlaçadas sobre o seio, Teresa arquejou a chorar.

— Eu já não tenho forças! Todos dizem que estou para morrer, e o médico já nem me receita nada! Se isso é verdade, melhor me fora ter morrido antes desta hora! Morrer com esperanças, ó Mãe de Deus!

E ajoelhou perante o retábulo devoto que trouxera do seu quarto de Viseu, ao qual a sua mãe e avó já tinham orado, e em cujo rosto compassivo os olhos das duas senhoras moribundas tinham apagado os seus últimos raios de luz.

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