Capítulo 20
Capítulo 20
A 17 de Março de 1807, saiu dos cárceres da Relação Simão Antônio Botelho, e embarcou no cais da Ribeira, com setenta e cinco companheiros. O filho do ex-corregedor de Viseu, a pedido do desembargador Mourão Mosqueira, e por ordem do regedor das justiças, não ia amarrado com cordas ao braço de algum companheiro. Desceu da cadeia ao embarque, ao lado de um meirinho, e seguido de Mariana, que vigiava as caixas da bagagem. O magistrado, fiel amigo de D. Rita Preciosa, foi a bordo da nau, e recomendou ao comandante que distinguisse o condenado Simão, consentindo-o na tolda, e sentando-o à sua mesa. Chamou Simão de parte, e deu-lhe um cartucho de dinheiro em ouro, que a sua mãe lhe enviava. Simão Botelho aceitou o dinheiro, e, na presença de Mourão Mosqueira, pediu ao comandante que fizesse distribuir pelos seus companheiros de degredo o dinheiro que lhe dava.
— O senhor Simão está demente? — disse o desembargador.
— Tenho a demência da dignidade: por amor da minha dignidade me perdi; quero agora ver a que extremo de infortúnio ela pode levar os seus amantes. A caridade só não me humilha quando parte do coração e não do dever. Não conheço a pessoa que me remeteu este dinheiro.
— É a sua mãe — disse Mosqueira.
— Não tenho mãe. Quer a vossa excelência remeter-lhe esta esmola rejeitada?
— Não, senhor.
— Então, senhor comandante, cumpra o que lhe peço, ou eu atiro com isto ao rio.
O comandante aceitou o dinheiro, e o desembargador saiu de bordo como espantado da sinistra condição do rapaz.
— Onde é Monchique? — perguntou Simão a Mariana.
— É para além, senhor Simão — respondeu, indicando-lhe o mosteiro, que se debruça sobre a margem do Douro, em Miragaia.
Cruzou os braços Simão, e viu, através do gradeamento do miradouro (), um vulto.
[()NOTA DO AUTOR: Quando escrevi este livro, ainda existia o miradouro. Agora, lá, ou aí por perto, está um salão de baile em que dançam, nos dias santificados, marujos e as damas correspondentes.]
Era Teresa.
Na véspera recebera ela o adeus de Simão, e respondera enviando-lhe a trança dos seus cabelos.
Ao anoitecer daquele dia, pediu Teresa os sacramentos, e comungou à grade do coro, onde se foi amparando à sua criada. Parte das horas da noite passou-as sentada ao pé do santuário da sua tia, que toda a noite orou. Algumas vezes pediu que a levassem à janela que se abria para o mar, e não sentia ali a brisa fria. Conversava serenamente com as freiras, despedira-se de todas, uma a uma, indo pelo seu pé às celas das senhoras entrevadas para lhes dar o beijo da despedida.
Todas tentaram reanimá-la, e Teresa sorria, sem responder aos piedosos artifícios com que as boas almas a si mesmas queriam simular esperanças. Ao abrir da manhã, Teresa leu uma a uma as cartas de Simão Botelho. As que tinham sido escritas nas margens do Mondego enterneciam-na a copiosas lágrimas. Eram hinos à felicidade prevista: eram tudo que mais formoso pode dar o coração humano, quando a poesia da paixão dá cor ao pensamento, e uma formosa e inspirativa natureza lhe empresta os seus esmaltes. Então lhe acudiam vivas reminiscências daqueles dias: a sua alegria doida, as suas doces tristezas, esperanças a desvanecerem saudades, os mudos colóquios com a irmã querida de Simão, o céu aromático que se lhe alargava à aspiração sôfrega de vagos desejos, tudo, enfim, que lembra a desgraçados.
Emaçou depois as cartas, e cintou-as com fitas de seda desenlaçadas de raminhos de flores murchas, que Simão, dois anos antes, lhe atirara da sua janela ao quarto dela.
As pétalas das flores soltas quase todas se desfizeram, e Teresa, contemplando-as, disse: — «Como a minha vida.» — e chorou, beijando os cálices desfolhados das primeiras que recebera.
Deu as cartas a Constança, e encarregou-a de uma ordem, a respeito delas, que logo veremos cumprida.
Depois foi orar, e esteve ajoelhada meia hora, com meio corpo inclinado sobre uma cadeira. Erguendo-se, quase tirada pela violência, aceitou uma xícara de caldo, e murmurou com um sorriso. — «Para a viagem.»
Às nove horas da manhã pediu a Constança que a acompanhasse ao miradouro, e, sentando-se em ânsias mortais, nunca mais desfitou os olhos da nau, que já estava de verga alta, esperando a leva dos degredados.
Quando viu, dois a dois, entrarem amarrados, no tombadilho, os condenados,
Teresa teve um breve acidente, em que a já frouxa claridade dos olhos se lhe apagou, e as mãos convulsas pareciam querer aferrar a luz fugitiva.
Foi então que Simão Botelho a viu.
E ao mesmo tempo atracou à nau um bote em que vinha a pobre de Viseu, chamando Simão. Foi ele ao portaló, e, estendendo o braço à mendiga, recebeu o pacotinho das suas cartas. Reconheceu ele que a primeira não era a sua, pela lisura do papel, mas não a abriu.
Ouviu-se a voz de levar âncora e largar amarras. Simão encostou-se à amurada da nau, com os olhos fitos no miradouro.
Viu agitar-se um lenço, e ele respondeu com o seu àquele aceno. Desceu a nau ao mar, e passou fronteira ao convento. Distintamente Simão viu um rosto e uns braços suspensos nas barras de ferro; mas não era Teresa aquele rosto: seria antes um cadáver que subiu da clausura ao miradouro, com os ossos da cara inchados ainda das herpes da sepultura.
— É Teresa? — perguntou Simão a Mariana.
— É senhor, é ela — disse num afogado gemido a generosa criatura, ouvindo o seu coração dizer-lhe que a alma do condenado iria breve no seguimento daquela por quem se perdera.
De repente aquietou o lenço que se agitava no miradouro, e viu Simão um movimento impetuoso de alguns braços, e o desaparecimento de Teresa e do vulto de Constança, que ele depois reparara.
A nau parou defronte de Sobreiras. Uma nuvem no horizonte da barra e o súbito encapelamento das ondas causaram a suspensão da viagem anunciada pelo comandante. Em seguida, velejou da Foz uma catraia com o piloto-mor, que mandava lançar ferro até novas ordens. Mais tarde, adiou-se a viagem para o dia seguinte.
E, no entanto, Simão Botelho, como um cadáver embalsamado, cujos olhos artificiais rebrilham cravados e imotos num ponto, lá tinha os seus imersos na anterior escuridade do miradouro. Nenhum sinal de vida. E as horas passaram até que o derradeiro raio de sol se apagou nas grades do mosteiro.
Ao escurecer, voltou de terra o comandante, e contemplou, com os olhos embaciados de lágrimas, o desterrado, que contemplava as primeiras estrelas iminentes ao miradouro.
— Procura-a no Céu? — disse o marinheiro.
— Se a procuro no Céu! — repetiu maquinalmente Simão.
— Sim. No Céu deve ela estar.
— Quem, senhor?
— Teresa.
— Teresa! Morreu?
— Morreu, além, no miradouro, de onde ela estava a acenar.
Simão curvou-se sobre a amurada, e fitou os olhos na corrente de água.
O comandante lançou-lhe os braços e disse:
— Coragem, grande desgraçado, coragem! Os homens do mar também creem em Deus! Espere que o Céu se abra para si pelas súplicas daquele anjo!
Mariana estava um passo atrás de Simão, e tinha as mãos erguidas.
— Acabou-se tudo!.. — murmurou Simão — Eis-me livre, para a morte.
Senhor comandante — continuou ele energicamente -, eu não me suicido.
Pode deixar-me.
— Peço-lhe que se recolha à câmara. O seu beliche está ao pé do meu.
— É obrigatório recolher-me?
— Para vossa senhoria não há obrigações; há rogos: peço-lho, não mando.
— Vou, e agradeço a compaixão.
Mariana seguiu-o com aquele olhar quebrado e mavioso do Jau, quando o poeta desembarcava, segundo a ideia apaixonada do cantor de Camões.
Encarou nela Simão, e disse ao comandante:
— E esta infeliz?
— Que o siga. — respondeu o compassivo homem do mar.
Simão recolheu-se ao beliche, e o comandante sentou-se em frente dele, e
Mariana ficou no escuro da câmara a chorar.
— Fale, senhor Simão! — disse o comandante — desafogue e chore.
— Chorei, senhor!
— Eu não tinha imaginado uma angústia igual à sua. A invenção humana não criou ainda um quadro tão atroz. Arrepiam-se-me os cabelos, e tenho visto espetáculos horríveis na terra e no mar.
Pacientemente, o comandante levava Simão ao desabafo. Não respondia o condenado. Ouvia os soluços de Mariana, e tinha os olhos postos no maço das cartas, que pusera sobre um banco.
O capitão prosseguiu:
— Quando em Miragaia me contaram a morte daquela senhora, pedi a uma pessoa relacionada no convento que me levasse a ouvir de alguma freira a triste história. Uma religiosa ma contou; mas eram mais os gemidos que as palavras. Soube que ela, quando descíamos na altura do Douro, proferia em alta voz: — «Simão, adeus até à eternidade!» E caiu nos braços de uma criada.
A criada gritou, outras foram ao miradouro, e trouxeram-na meio morta para baixo, ou morta, melhor direi, que nenhuma palavra mais lhe ouviram. Depois contaram-me o que ela penara em dois anos e nove meses naquele mosteiro; o amor que ela lhe tinha, e as mil mortes que ali padeceu, de cada vez que a esperança lhe morria. Que desgraçada menina, e que desgraçado rapaz o senhor é!
— Por pouco tempo. — disse Simão, como se o dissesse a si próprio, ou a própria imaginação estivesse a dialogar consigo mesmo.
— Creio, creio, por pouco tempo — prosseguiu o capitão —, mas se os amigos pudessem salvá-lo, senhor, eu dar-lhos-ia na Índia mais fiéis que em
Portugal. Prometo-lhe, sob a minha palavra de honra, alcançar do vizo-rei a sua residência em Goa. Prometo segurar-lhe um decente princípio de vida, e as comodidades que fazem a existência tão saudável como ela é na Ásia. Não o intimide a ideia do degredo, senhor Simão. Viva, faça por vencer-se, e será feliz!
— O seu silêncio, por piedade, senhor. — atalhou o degredado.
— Bem sei que é cedo ainda para planear futuros. Desculpe a simpatia que me inspira a indiscrição, mas aceite um amigo nesta hora atribulada.
— Aceito, e preciso dele. Mariana! — chamou Simão — Vem aqui, se este cavalheiro o permite.
Mariana entrou no quarto.
— Esta mulher tem sido a minha providência — disse Simão. — Porque foi ela me que valeu, não senti a fome em dois anos e nove meses de cárcere.
Tudo o que tinha vendeu para me sustentar e vestir. Aqui vai comigo esta criatura. Seja respeitável aos seus olhos, senhor, porque ela é tão pura como a verdade o deve ser nos lábios de um moribundo. Se eu morrer, senhor comandante, aceite o legado de a amparar com a sua caridade como se ela fosse minha irmã. Se ela quiser voltar à sua pátria, seja o seu protetor na
passagem. — E, estendendo-lhe a mão, disse com transporte: — Promete-me isto, senhor?
— Juro-lho.
O comandante, obrigado a subir ao tombadilho, deixou Simão com Mariana.
— Estou tranquilo pelo teu futuro, minha amiga.
— Eu já o estava, senhor Simão — respondeu ela.
Não se trocaram palavras por muito tempo. Simão apoiou a face sobre a mesa, e apertou com as mãos as fontes lacrimantes. Mariana, de pé, ao lado dele, fitava os olhos na luz mortiça da lâmpada oscilante, e pensava, como ele, na morte.
E o nordeste sibilava, como um gemido, nas gáveas da nau.
CAPÍTULO XX
Às onze horas da noite o comandante recolhera-se num beliche de passageiro, e Mariana, sentada no pavimento, com o rosto sobre os joelhos, parecia sucumbir ao passar das trabalhosas e aflitivas horas daquele dia.
Simão Botelho velava prostrado no camarote, com os braços cruzados sobre o peito, e os olhos fitos na luz que balançava, pendente de um arame. O ouvido tê-lo-ia, talvez, atento para um assobio da ventania: devia de soar-lhe como um ai plangente aquele silvo agudo, voz única no silêncio da terra e céu.
À meia-noite estendeu Simão o braço trêmulo ao maço das cartas que Teresa lhe enviara, e contemplou um pouco a que estava ao de cima, que era dela.
Rompeu a fita, e dispôs-se no camarote para alcançar o baço clarão da lâmpada.
Dizia assim a carta:
«É já o meu espírito que te fala, Simão. A tua amada morreu. A tua pobre Teresa, à hora em que leres esta carta, se me Deus não engana, está em descanso.
Eu devia poupar-te a esta última tortura; não devia escrever-te; mas perdoa à tua esposa do
Céu a culpa, pela consolação que sinto em conversar contigo a esta hora, hora final da noite da minha vida.
Quem te diria que eu morri, se não fosse eu mesma, Simão? Daqui a pouco, perderás da vista este mosteiro; correrás milhares de léguas, e não acharás, em parte alguma do mundo, voz humana que te diga: — A infeliz espera-te noutro mundo, e pede ao Senhor que te resgate.
Se te pudesses iludir, meu amor, quererias antes pensar que eu ficava com vida e com esperança de ver-te no regresso do teu degredo? Assim pode ser, mas, ainda agora, neste solene momento, domina-me a vontade de fazer-te sentir que eu não podia viver. Parece que a mesma infelicidade tem às vezes vaidade de mostrar que o é, até não podê-lo ser mais!
Quero que digas: — Está morta, e morreu quando eu lhe tirei a última esperança.
Isto não é queixar-me, Simão; não é. Talvez eu pudesse resistir alguns dias à morte, se tu ficasses; mas, de um modo ou outro, era inevitável fechar os olhos quando se rompesse o último fio, este último que se está a partir, e eu mesma o oiço partir.
Não vão estas palavras acrescentar a tua pena. Deus me livre de ajuntar um remorso injusto à tua saudade.
Se eu pudesse ainda ver-te feliz neste mundo; se Deus permitisse à minha alma esta visão!
Feliz, tu, meu pobre condenado! Sem o querer, meu amor agora te fazia injúria, julgando-te capaz de felicidade! Tu morrerás de saudade, se o clima do desterro não te matar ainda antes de sucumbires à dor do espírito.
A vida era bela, era, Simão, se a tivéssemos como tu ma pintavas nas tuas cartas, que li há pouco! Estou a ver a casa que tu a descrevias, perto de Coimbra, cercada de árvores, flores e aves. A tua imaginação passeava comigo nas margens do Mondego, à hora pensativa do
escurecer. Estrelava-se o céu, e a lua abrilhantava a água. Eu respondia com a mudez do coração ao teu silêncio, e, animada pelo teu sorriso, inclinava a face ao teu peito, como se fosse ao da minha mãe. Tudo isto li nas tuas cartas; e parece que cessa o despedaçar da agonia enquanto a alma se está a recordar. Noutra carta, falavas-me em triunfos e glórias e na imortalidade do teu nome. Também eu ia atrás da tua aspiração, ou à frente dela, porque o maior quinhão dos teus prazeres de espírito queria eu que fosse o meu. Era criança há três anos, Simão, e já entendia os teus anelos de glória, e imaginava-os realizados como obra minha, se me tu dizias, como disseste muitas vezes, que não serias nada sem o estímulo do meu amor.
Oh! Simão, de que céu tão lindo caímos! À hora que te escrevo, estás tu para entrar na nau dos degredados, e eu na sepultura.
Que importa morrer, se não podemos jamais ter nesta vida a nossa esperança de há três anos? Poderias tu com a desesperança e com a vida, Simão? Eu não podia. Os instantes do dormir eram os escassos benefícios que Deus me concedia; a morte é mais que uma necessidade, é uma misericórdia divina, uma bem-aventurança para mim.
E que farás tu da vida sem a tua companheira de martírio? Onde irás tu aviventar o coração que a desgraça te esmagou, sem o esquecimento da imagem desta dócil mulher, que seguiu cegamente a estrela da tua malfadada sorte?
Tu nunca hás de amar, pois não, meu esposo? Terias vergonha de ti mesmo, se alguma vez visses passar rapidamente a minha sombra à frente dos teus olhos enxutos? Sofre, sofre ao
coração da tua amada estas derradeiras perguntas, a que tu responderás, no alto mar, quando esta carta leres.
Rompe a manhã. Vou ver a minha última aurora. A última dos meus dezoito anos!
Abençoado sejas, Simão! Deus te proteja, e te livre de uma agonia longa. Todas as minhas angústias Lhe ofereço em desconto das tuas culpas. Se algumas impaciências a justiça divina me condena, oferece tu a Deus, meu amigo, os teus padecimentos, para que eu seja perdoada.
Adeus! À luz da eternidade parece-me que já te vejo, Simão!»
Ergueu-se o degredado, olhou em redor de si e olhou com espasmo Mariana, que levantava a cabeça ao menor movimento dele.
— Que tem, senhor Simão? — disse ela, erguendo-se.
— Estavas aqui, Mariana? Não te vais deitar?
— Não vou; o comandante deu-me licença para ficar aqui.
— Mas há de assim passar a noite? Rogo-te que vás, porque não é necessário o teu sacrifício.
— Se o não incomodo, deixe-me aqui estar, senhor Simão.
— Fica então, minha amiga, fica. Poderei subir ao convés?
— Quer ir ao convés, senhor Botelho? — disse o comandante, lançando-se do beliche.
— Queria, senhor comandante.
— Iremos juntos.
Simão juntou a carta de Teresa ao maço das suas, e saiu a cambalear. No convés sentou-se num monte de cordas, e contemplou o miradouro de
Monchique, que parecia negro no sopé da serra penhascosa em que atualmente fica a Rua da Restauração.
O capitão passeava da proa à ré, mas com o ouvido atento aos movimentos do degredado. Receara ele o propósito do suicídio, porque Mariana lhe incutira semelhante suspeita. Queria o marítimo dizer-lhe palavras consoladoras, mas pensava para si mesmo:
— «O que se há de dizer-se a um homem que sofre assim?» — E parava junto dele algumas vezes, como para desviar-lhe o espírito daquele miradouro.
— Eu não me suicido! — exclamou abruptamente Simão Botelho. — Se a sua generosidade, senhor capitão, se interessa em que eu viva, pode dormir descansado a sua noite, que eu não me suicido.
— Mas mereço-lhe eu a condescendência de descer comigo à câmara?
— Irei; mas eu lá sofro mais, senhor.
Não respondeu o comandante, e continuou a passear no convés, apesar das rajadas de vento.
Mariana estava agachada entre os pacotes da carga, a pouca distância de
Simão. O comandante viu-a, falou-lhe, e retirou-se.
Às três horas da manhã, Simão Botelho segurou a testa entre as mãos, que se lhe abria abrasada pela febre. Não se conseguiu sentar, e deixou-se cair a meio corpo. A cabeça, ao declinar, pousou no seio de Mariana.
— O Anjo da compaixão sempre comigo! — murmurou ele. — Teresa foi muito mais desgraçada.
— Quer descer ao camarote? — disse ela.
— Não consigo. Ampara-me, minha irmã.
Deu alguns passos para a escadinha, e olhou ainda sobre o miradouro. Desceu a íngreme escada, apegando-se às cordas. Lançou-se sobre o colchão, e pediu água, que bebeu insaciavelmente. Seguiu-se a febre, o estorcimento, e as ânsias, com intervalos de delírio.
De manhã veio a bordo um médico, por convite do capitão. Examinando o condenado, disse que era febre maligna a doença, e bem podia ser que ele achasse a sepultura no caminho da Índia.
Mariana ouviu o prognóstico, e não chorou.
Às onze horas saiu a nau da marinha. Às ânsias da doença acresceram as do enjoo. A pedido do comandante, Simão bebia remédios, que vomitava logo, revoltos pelas contrações.
Ao segundo dia de viagem, Mariana disse a Simão:
— Se o meu irmão morrer, que hei de eu fazer àquelas cartas que vão na caixa?
Pasmosa serenidade a desta pergunta!
— Se eu morrer no mar — disse ele —, Mariana, atira ao mar todos os meus papéis, todos; e estas cartas que estão debaixo do meu travesseiro também.
Passada uma ânsia, que lhe embargava a voz, Simão continuou:
— Se eu morrer, que tencionas fazer, Mariana?
— Morrerei, senhor Simão.
— Morrerás? Tanta gente desgraçada que eu fiz.
A febre aumentava. Os sintomas da morte eram visíveis aos olhos do capitão, que tinha sobeja experiência de ver morrerem centenas de condenados, feridos da febre do mar, e desprovidos de medicamentos.
Ao quarto dia, quando a nau se movia ronceira defronte de Cascais, sobreveio uma súbita tempestade. O navio fez-se ao largo muitas milhas, e, perdido o rumo de Lisboa, navegou desnorteado. Ao sexto dia de navegação incerta, por entre espessas brumas, partiu-se o leme em frente de Gibraltar. E, em seguida ao desastre, aplacaram as refegas, desencapelaram-se as ondas, e nasceu, com
a aurora do dia seguinte, um formoso dia de primavera. Era o dia 27 de
Março, o nono da enfermidade de Simão Botelho.
Mariana tinha envelhecido. O comandante, ao olhar para ela, exclamou:
— Parece que volta da Índia com os dez anos de trabalhos já passados!
— Já acabados. Decerto. — disse ela.
Ao anoitecer desse dia, o condenado delirou pela última vez, e dizia assim no seu delírio:
« A casa, perto de Coimbra, cercada de árvores, flores e aves. A tua imaginação passeava comigo nas margens do Mondego, à hora pensativa do escurecer.
Estrelava-se o céu, e a lua abrilhantava a água. Eu respondia com a mudez do coração ao teu silêncio, e, animada pelo teu sorriso, inclinava a face ao teu peito, como se fosse ao da minha mãe.
De que céu tão lindo caímos. A tua amiga morreu. A tua pobre Teresa.
E que farás tu da vida sem a tua companheira de martírio? Onde irás tu aviventar o coração que a desgraça te esmagou. Rompe a manhã. Vou ver a minha última aurora. A última dos meus dezoito anos. Oferece a Deus os teus padecimentos, para que eu seja perdoada. Mariana.»
Mariana colou os ouvidos aos lábios roxos do moribundo, quando pensou ouvir o seu nome.
«Tu virás ter conosco; ser-te-emos irmãos no Céu. O mais puro anjo serás tu. Se és mesmo deste mundo, irmã; se és mesmo deste mundo, Mariana.»
A transição do delírio para a letargia completa era o anúncio infalível do trespasse.
Ao romper da manhã apagou-se a lâmpada. Mariana saíra a pedir luz, e ouviu um gemido estertoroso. Voltando às escuras, com os braços estendidos para tatear a face do agonizante, encontrou a mão convulsa, que lhe apertou uma das suas, e relaxou de súbito a pressão dos dedos.
Entrou o comandante com uma lâmpada, e aproximou-lha da respiração, que não embaciou o vidro.
— Está morto! — disse ele.
Mariana curvou-se sobre o cadáver, e beijou-lhe a face. Era o seu primeiro beijo. Ajoelhou depois ao pé do beliche com as mãos erguidas e não orava nem chorava.
Algumas horas passadas, o comandante disse a Mariana:
— Agora é tempo de dar sepultura ao nosso venturoso amigo. É ventura morrer quando se vem a este mundo com tal estrela. Passe a senhora Mariana ali para a câmara, pois o defunto tem de ser levado daqui.
Mariana tirou o maço das cartas debaixo do travesseiro, e foi para uma caixa buscar os papéis de Simão. Atou o rolo ao avental, que ele tinha daquelas
lágrimas dela, choradas no dia da sua demência, e prendeu o embrulho à cintura.
Foi o cadáver envolto num lençol, e transportado para o convés.
Mariana seguiu-o.
Do porão da nau foi trazida uma pedra, que um marujo lhe atou às pernas com um pedaço de cabo. O comandante contemplava a cena triste com os olhos úmidos, e os soldados que guarneciam a nau, tão funeral respeito os impressionara, que insensivelmente se descobriram.
Mariana estava, no entanto, encostada ao flanco da nau, e parecia estupidamente encarar aqueles empuxões que o marujo dava ao cadáver, para segurar a pedra na cintura.
Dois homens ergueram o morto ao alto sobre a amurada. Deram-lhe o balanço para o arremessarem para longe. E, antes que o baque do cadáver se fizesse ouvir na água, todos viram, e ninguém já pôde segurar Mariana, que se atirara ao mar.
À voz do comandante desamarraram rapidamente o bote, e saltaram homens para salvar Mariana.
Salvá-la!
Viram-na, um momento, bracejar, não para resistir à morte, mas para abraçar-se ao cadáver de Simão, que uma onda lhe atirou aos braços. O comandante
olhou para o sítio de onde Mariana se atirara, e viu, enleado nas corda, o avental, e à flor da água, um rolo de papéis, que os marujos recolheram na lancha. Eram, como sabem, a correspondência de Teresa e Simão.