Brasão
Brasão
Apenas sou um pálido félibre,
e canto em versos claros o que sinto.
Nem condor, nem leão: estou contente
de saber que sou homem e que sou livre.
Até minha torre de marfim, sagrada,
nem chega o lodo, nem respinga a lama:
abaixo do degrau da minha torre, tudo!
acima do degrau da minha torre, nada!
Como o Jesus dos sagrados contos
vou cumprir sereno meu destino,
e, como a ele, os que eriçam meu caminho,
amanhã lamberão meus pés sangrentos.
Que alcancem outros a gloriosa palma,
buscando sombras e seguindo rastros,
pois eu, quando quero ver estrelas,
espreito o infinito de minha alma.
Nunca o ódio me deixou rancores,
nem o amor, com seu afago, me domina,
pois sei que atrás da flor está o espinho,
como atrás do espinho estão as flores.
Aberta a alma a toda Primavera,
meu coração, por gloriosa dualidade,
diante do Amor, é uma rosa,
e, voltado ao combate, uma bandeira.
Como nada martiriza minha estirpe,
nem nada turva meu real decoro,
tenho, para o canalha, uma fusta de ouro,
para o caluniador, um sorriso.
Em marcha imperturbável rumo a um fixo Oriente,
desdenho o homem da multidão,
pois aprendi há muito que o cume
vai comigo, à altura de minha fronte.
Assim sei que, ao nascer para outros alvores
e ao me desagregar em átomos dispersos,
assim como hoje de minha alma saem versos,
sairão amanhã, de minha carne, flores.