A notícia
A notícia
A campainha da porta da frente ressoou, e ouviu-se o farfalhar da saia estampada de Sadie nas escadas. Uma voz de homem murmurou; Sadie respondeu, descuidada:
— Tenho certeza de que não sei. Espere. Vou perguntar à sra. Sheridan.
— O que é, Sadie? — Laura entrou no vestíbulo.
— É o florista, senhorita Laura.
Era, de fato. Ali, logo do lado de dentro da porta, estava uma bandeja larga e rasa cheia de vasos de lírios cor-de-rosa. Nenhum outro tipo. Nada além de lírios — lírios-de-cana, grandes flores rosadas, muito abertas, radiantes, quase assustadoramente vivas sobre hastes de um carmesim vivo.
— O-oh, Sadie! — disse Laura, e o som foi como um pequeno gemido. Agachou-se como se fosse aquecer-se naquela labareda de lírios; sentia que eles estavam em seus dedos, em seus lábios, crescendo-lhe no peito.
— Deve haver algum engano — disse, debilmente. — Ninguém encomendaria tantos. Sadie, vá procurar mamãe.
Mas, naquele momento, a sra. Sheridan se juntou a elas.
— Está certíssimo — disse, com calma. — Sim, fui eu que encomendei. Não são lindos? — Apertou o braço de Laura. — Eu estava passando pela loja ontem e os vi na vitrine. E de repente pensei que, por uma vez na vida, eu teria lírios-de-cana em quantidade suficiente. A festa no jardim será uma boa desculpa.
— Mas eu pensei que a senhora tivesse dito que não pretendia interferir — disse Laura. Sadie se fora. O homem do florista ainda estava lá fora, junto à sua carroça. Ela passou o braço em torno do pescoço da mãe e, de leve, muito de leve, mordeu-lhe a orelha.
— Minha filhinha querida, você não iria gostar de uma mãe lógica, iria? Não faça isso. Lá vem o homem.
Ele trazia ainda mais lírios, outra bandeja inteira.
— Arrume-os em montes, logo aqui dentro da porta, dos dois lados do alpendre, por favor — disse a sra. Sheridan. — Não concorda, Laura?
— Oh, concordo, mamãe.
Na sala de visitas, Meg, Jose e o bom pequeno Hans tinham enfim conseguido mover o piano.
— Agora, se pusermos este chesterfield contra a parede e tirarmos tudo da sala, exceto as cadeiras, você não acha?
— Perfeitamente.
— Hans, leve estas mesinhas para a sala de fumar e traga uma vassoura para tirar estas marcas do tapete e... um momento, Hans... — Jose adorava dar ordens aos criados, e eles adoravam obedecê-la. Ela sempre os fazia sentir que estavam participando de algum drama. — Diga a mamãe e à senhorita Laura que venham aqui imediatamente.
— Pois não, senhorita Jose.
Ela se voltou para Meg.
— Quero ouvir como o piano soa, caso me peçam para cantar esta tarde. Vamos ensaiar “Esta vida é triste”.
Pom! Tá-tá-tá Ti-tá! O piano irrompeu com tanta paixão que o rosto de Jose se transformou. Ela juntou as mãos. Olhou, pesarosa e enigmática, para a mãe e Laura quando elas entraram.
Esta vida é tris-te, Uma lágrima — um suspiro. Um amor que mu-da, Esta vida é tris-te, Uma lágrima — um suspiro. Um amor que mu-da, E então... Adeus!
Mas, à palavra “Adeus”, e embora o piano soasse mais desesperado do que nunca, seu rosto se abriu num sorriso brilhante, terrivelmente antipático.
— Não estou com boa voz, mamãezinha? — disse ela, radiante.
Esta vida é tris-te, A esperança vem morrer. Um sonho — um des_per_-tar.
Mas então Sadie as interrompeu.
— O que foi, Sadie?
— Com licença, senhora, a cozinheira pergunta se a senhora tem as bandeirinhas para os sanduíches.
— As bandeirinhas para os sanduíches, Sadie? — ecoou a sra. Sheridan, sonhadora. E as filhas souberam, por seu rosto, que ela não as tinha. — Deixe-me ver. — E disse a Sadie, com firmeza: — Diga à cozinheira que eu as mandarei em dez minutos.
Sadie saiu.
— Agora, Laura — disse a mãe, depressa —, venha comigo à sala de fumar. Tenho os nomes em algum lugar, no verso de um envelope. Você terá de escrevê-los para mim. Meg, suba neste minuto e tire essa coisa molhada da cabeça. Jose, corra e acabe de se vestir já. Estão me ouvindo, crianças, ou terei de contar a seu pai quando ele chegar hoje à noite? E... e, Jose, acalme a cozinheira se for à cozinha, sim? Estou apavorada com ela esta manhã.
O envelope foi afinal encontrado atrás do relógio da sala de jantar, embora a sra. Sheridan não pudesse imaginar como fora parar ali.
— Algum de vocês, filhos, deve tê-lo roubado da minha bolsa, porque me lembro vividamente... queijo cremoso e coalhada de limão. Já escreveu?
— Sim.
— Ovo e... — A sra. Sheridan afastou o envelope de si. — Parece ratos. Não pode ser ratos, pode?
— Azeitona, querida — disse Laura, olhando por cima de seu ombro.
— Sim, claro, azeitona. Que combinação horrível parece. Ovo e azeitona.
Enfim terminaram, e Laura levou as bandeirinhas para a cozinha. Encontrou Jose lá, acalmando a cozinheira, que não parecia nem um pouco aterradora.
— Nunca vi sanduíches tão requintados — dizia a voz arrebatada de Jose. — Quantos tipos a senhora disse que havia, cozinheira? Quinze?
— Quinze, senhorita Jose.
— Bem, cozinheira, eu a felicito.
A cozinheira juntou as cascas com a longa faca de sanduíche e sorriu amplamente.
— A encomenda do Godber chegou — anunciou Sadie, saindo da despensa. Vira o homem passar pela janela.
Isso queria dizer que as bombas de creme haviam chegado. A Godber era famosa por suas bombas de creme. Ninguém jamais pensava em fazê-las em casa.
— Traga-as para dentro e ponha-as sobre a mesa, minha menina — ordenou a cozinheira.
Sadie trouxe-as e voltou para a porta. É claro que Laura e Jose eram adultas demais para se importarem de verdade com essas coisas. Ainda assim, não puderam deixar de concordar que as bombas pareciam muito atraentes. Muito. A cozinheira começou a arrumá-las, sacudindo o açúcar de confeiteiro em excesso.
— Não nos fazem voltar a todas as nossas festas? — disse Laura.
— Suponho que sim — disse a prática Jose, que nunca gostava de ser levada de volta. — Parecem maravilhosamente leves e fofas, devo dizer.
— Comam uma cada uma, minhas queridas — disse a cozinheira, com sua voz confortável. — Sua mãe não vai saber.
Oh, impossível. Imaginem bombas de creme tão pouco depois do café da manhã. Só a ideia dava arrepios. Ainda assim, dois minutos depois, Jose e Laura lambiam os dedos com aquele ar absorto e voltado para dentro que só o creme batido produz.
— Vamos ao jardim, saindo pela porta dos fundos — sugeriu Laura. — Quero ver como os homens estão se saindo com a tenda. São homens terrivelmente simpáticos.
Mas a porta dos fundos estava bloqueada pela cozinheira, Sadie, o homem da Godber e Hans.
Alguma coisa acontecera.
— Có-có-có — cacarejou a cozinheira como uma galinha agitada. Sadie tinha a mão colada à face, como se estivesse com dor de dente. O rosto de Hans estava contraído no esforço de compreender. Só o homem da Godber parecia estar se divertindo; a história era dele.
— Qual é o problema? O que aconteceu?
— Houve um acidente horrível — disse a cozinheira. — Um homem morreu.
— Um homem morreu! Onde? Como? Quando?
Mas o homem da Godber não ia deixar que lhe arrancassem a história debaixo do nariz.
— Conhece aquelas casinhas logo aqui embaixo, senhorita? — Conhecê-las? Claro que ela as conhecia. — Pois bem, mora lá um rapaz, de nome Scott, carroceiro. O cavalo dele se assustou com uma locomóvel, na esquina da Hawke Street, esta manhã, e ele foi lançado para fora, caiu de nuca. Morreu.
— Morto! — Laura fitou o homem da Godber.
— Morto quando o recolheram — disse o homem da Godber, com gosto. — Estavam levando o corpo para casa quando vim para cá. — E disse à cozinheira: — Deixou mulher e cinco pequenos.
— Jose, venha cá. — Laura agarrou a manga da irmã e a arrastou pela cozinha até o outro lado da porta de baeta verde. Ali parou e encostou-se nela. — Jose! — disse, horrorizada. — Como é que vamos parar tudo?
— Parar tudo, Laura! — exclamou Jose, espantada. — O que você quer dizer?
— Parar a festa no jardim, é claro. Por que Jose fingia?
Mas Jose estava ainda mais pasmada.
— Parar a festa no jardim? Minha querida Laura, não seja absurda. É claro que não podemos fazer nada disso. Ninguém espera isso de nós. Não seja extravagante.
— Mas não podemos de modo algum fazer uma festa no jardim com um homem morto logo do lado de fora do portão da frente.